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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Pelos jornais, contra a desinformação

Imagem criada com apoio da inteligência artificial Microsoft Copilot
Foi um privilégio escrever neste jornal. Tive a oportunidade de partilhar reflexões sobre a atualidade ao longo de oito anos, com maior incidência nos temas da religião católica.

Cada novo ano impõe o discernimento do caminho feito, a necessidade de introduzir reestruturações e o acolhimento de novos projetos. A imprensa não é imune a estas decisões. Sobretudo em tempos em que diminuem os leitores com a migração para as redes sociais: estas parecem corresponder melhor ao que as pessoas procuram, porque lhes dão o que querem ver e ouvir, sem controlo editorial ou deontológico.

Dissemina-se a ideia que agora se está mais informado. Tem-se acesso gratuito a mais informação, ainda que, como se vai verificando, muita dela seja completamente falsa. Mas são falsidades em que muitos querem acreditar. E autoconvencem-se até que são verdades sonegadas pelos média tradicionais. Estes, sim, sujeitos a critérios de relevância, objetividade e controlo deontológico, abstêm-se de publicar tudo, ao contrário do que acontece na generalidade da Internet.

Impõe-se, por isso, resistir à tentação de deixar-se informar apenas pelas redes sociais, pois corre-se o risco de acabar formatado e deformado pelos que as controlam e pela programação dos algoritmos que as regem. Hoje, é um ato de resistência comprar, assinar e ler jornais e revistas, para que eles possam subsistir e continuar a transmitir uma informação isenta, verdadeira, rigorosa, equilibrada, clara e socialmente responsável. Isenta de condicionamentos políticos, económicos ou religiosos, ou seja: livre.

Respeitando os critérios do JN, deixarei de escrever semanalmente, mas continuarei a partilhar esporadicamente com os leitores as minhas reflexões sobre acontecimentos relevantes, sobretudo relacionados com a vida da Igreja Católica.

Até breve!


quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Na Igreja somos todos estrangeiros

Na Igreja, ou não há estrangeiros, ou somos todos estrangeiros. Não há estrangeiros, porque todos temos a mesma dignidade de filhos de Deus. Pelo batismo "todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus", escreve S. Paulo aos Gálatas (3, 26). "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus", conclui o Apóstolo dos gentios (3, 28).

Por outro lado, todos somos estrangeiros na terra, porque acreditamos num reino outro, aonde somos chamados a viver para sempre. "A nossa pátria está nos céus", diz S. Paulo aos Filipenses (3, 20).

O JN do domingo passado destacava na manchete que os "Padres estrangeiros ganham terreno na Igreja portuguesa". Ainda que não faça sentido do ponto de vista cristão, aceita-se o título do JN no contexto jornalístico que tem marcado a atualidade: a nova lei de estrangeiros.

Seria interessante perceber as motivações que levaram estes padres a escolher o nosso país para desenvolverem a sua atividade pastoral. É louvável quando o fazem motivados por uma vocação missionária, devidamente discernida e orientada para servir a Igreja onde os seus superiores assim o entenderem.

Já quando saem dos seus países por interesses meramente pessoais, à procura de uma situação mais lucrativa, então, em vez de serem uma solução para a escassez de clero, acabam por se tornar, eles próprios, em mais um problema para as dioceses que os acolhem, a somar a tantos outros. Para a falta de clero há outras soluções, como "a ordenação de membros das comunidades com provas dadas", e outras que o pe. Jorge Cunha, professor de Teologia, elencou ao JN.

Acolher padres estrangeiros não deverá ser, por isso, um expediente para resolver a escassez de clero. Mas é uma excelente forma de promover o dinamismo missionário característico da Igreja.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

O Sínodo é decisivo para o futuro da Igreja

O caminho sinodal iniciado por Francisco é para continuar. Agora sob a batuta de Leão XIV, recebeu esta segunda-feira um novo impulso com o documento da Secretaria Geral do Sínodo, o qual reúne propostas concretas para a sua implementação.

Como era de esperar, o texto retoma muitas das ideias fundamentais do Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, de 26 de Outubro de 2024. Ao citar este documento, clarifica que o Sínodo “constitui um ato de ulterior receção do Concílio, prolongando a sua inspiração e relançando a sua força profética para o mundo de hoje”.

Francisco empenhou-se em “descongelar” o Concílio Vaticano II, nomeadamente ao lançar esta dinâmica sinodal. Ela veio dar continuidade a uma visão conciliar de uma Igreja em diálogo com o mundo, que o escuta e faz suas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” (Gaudium et spes, 1).

Cabe agora a Leão XIV dar continuidade ao caminho iniciado pelo antecessor. Sobre ele recai a responsabilidade de implementar tudo o que até agora foi refletido e proposto nos trabalhos sinodais.

O documento da Secretaria Geral recorda várias das linhas estratégicas do Documento Final. Pede o empenhamento de todos para que elas sejam implementadas, porque “sem mudanças concretas a curto prazo, a visão de uma Igreja sinodal não será credível e isso afastará os membros do Povo de Deus que retiraram força e esperança do caminho sinodal” (DF, 94).

A partir daqui, compete aos bispos liderar a implementação do Sínodo, garantir a comunhão entre perspetivas diversas e não abafar nenhuma. Compete-lhes também promover a participação de todos, para que a alegria e a esperança do Evangelho iluminem o mundo. Se não o conseguirem implementar, o Sínodo não será mais do que um “sonho lindo que acabou”.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Os pobres “não são um passatempo”


Leão XIV escolheu o dia de S. António, patrono dos pobres, para a sua primeira mensagem dedicada à celebração do Dia Mundial dos Pobres, que a Igreja assinalará a 16 de novembro. Esta também foi a primeira mensagem do novo Papa alusiva a uma jornada da Igreja Católica.

O Papa Francisco já tinha deixado a sua mensagem para alguns dos dias que a Igreja celebra, como é o caso do Dia Mundial das Comunicações Sociais (que se comemorou na Ascensão, quarenta dias depois da Páscoa) ou o Dia Mundial das Missões que ocorrerá no terceiro domingo de outubro. O Dia Mundial dos Pobres é uma criação de Francisco, que se assinala pela nona vez.

Este dia “pretende recordar às nossas comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral”, lembrou Leão XIV na mensagem para este ano. Os pobres “não são um passatempo para a Igreja” e “ajudar os pobres é uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão de caridade”, escreveu o Papa.

Enquanto os países se preocupam em investir em armamento para se protegerem, Leão XIV alertou que o “trabalho, educação, habitação e saúde são condições para uma segurança que jamais se alcançará com armas”. Apela, por isso, a que se privilegie “o desenvolvimento de políticas de combate às antigas e novas formas de pobreza, além de novas iniciativas de apoio e ajuda aos mais pobres entre os pobres”.

Num mundo insano em que se gastam milhões para atacar os inimigos, gerando mais pobreza, em que se prefere invadir e lançar mísseis do que negociar e procurar entendimentos entre as nações, são mais escassos os recursos para combater a pobreza e as suas causas. Esperemos que este Papa, que tem pela primeira vez a vantagem de poder dialogar diretamente com a opinião pública norte-americana, consiga afirmar uma agenda mundial de substituição das armas pela ação humanitária.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Um relato da Ressurreição pouco eficaz

Aparição de Jesus Cristo a Maria Madalena, de Alexander Andreyevich Ivanov (1835)
Os discípulos de Jesus acreditaram que ele os libertaria do domínio romano. Porém, ele acabou por ser sentenciado à morte na cruz por esse mesmo poder. Na manhã de Páscoa, os apóstolos estão desiludidos e até regressam às suas anteriores ocupações: só quando se dá a Ressurreição eles fazem uma releitura dos acontecimentos que viveram e a sua vida transforma-se completamente. Agora, acreditam que nem o sofrimento nem a morte são a última palavra sobre a vida humana. E assumem a missão de o anunciar a todos.

É surpreendente a forma como os evangelistas relatam esse acontecimento que está na génese do cristianismo. São as mulheres as primeiras testemunhas da ressurreição! Não era a escolha útil para dar maior credibilidade aos seus relatos, dado que naquele tempo o seu testemunho nem era aceite pelos tribunais.

Deus, por seu lado, também não se esforçou em dar uma maior eficácia à Ressurreição. Em vez de aparecer a algumas mulheres e a um grupo de seguidores que se dispersaram às primeiras dificuldades, poderia ter aparecido a outras personagens que conferissem uma maior credibilidade ao ressuscitado. A Pilatos que o tinha interrogado, por exemplo, para lhe provar que afinal tinha mais poder do que ele pensava. Ou a Herodes, que para gozar com ele o cobriu com um manto. Ou então ao sumo sacerdote e aos fariseus, para verem quão viciado tinha sido o julgamento a que o submeteram.

Não foi essa, todavia, a forma de proceder do Deus de Jesus Cristo. Ele não se impõe, propõe-se. Respeita a liberdade humana de o acolher ou de o rejeitar. De aderir a um projeto de vida com sentido ou acomodar-se à ausência dele.

À Igreja compete hoje dar continuidade ao anúncio que fizeram as primeiras testemunhas da Ressurreição. Dar sentido à vida humana. Quando não o faz está a ser infiel à sua génese.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Ouvir todos para o bem da Igreja

Completam-se hoje 12 anos sobre o início solene do ministério petrino do Papa Francisco, que vive uma etapa difícil do seu Pontificado. Na quinta-feira passada celebrou pela primeira vez o aniversário da sua eleição no hospital. “Estou a passar por um período de provação e uno-me a tantos irmãos e irmãs doentes: frágeis, neste momento, como eu”, reconheceu o Papa na mensagem que enviou do hospital para ser lida na oração do “Angelus” do último domingo.

Ainda que afastado de muitas das suas atividades pastorais, o Papa é “um exemplo de fé, esperança e resiliência, com o seu olhar de pastor sempre voltado para o rebanho”, referiu há dias o vaticanista Salvatore Cernuzio. A partir do hospital, o Papa continua a garantir os atos essenciais de governo da Igreja e a acompanhar e a estimular a dinâmica sinodal por ele implementada na Igreja.

No sábado foi divulgada a sua última iniciativa para que o caminho sinodal continue. Convocou uma assembleia eclesial de toda a Igreja Católica para outubro de 2028 no Vaticano. Até lá, durante os próximos anos, a Secretaria do Sínodo deverá acompanhar e dinamizar as igrejas locais para que não esmoreça nem a reflexão, nem o debate, nem a procura de soluções para os problemas da Igreja.

Durante estes dias, fizeram-se muitas avaliações dos 12 anos de Francisco ao leme da barca de Pedro. Como é normal, vários consideram que o Papa avançou de mais em determinadas matérias, como o acolhimento dos divorciados. Outros, sentem que ainda se poderia ter ido mais longe em matérias como a ordenação das mulheres.

O Papa acredita numa Igreja que se deixa interpelar pelos desafios próprios de cada época. Que tem a preocupação de escutar a todos e acolher as opiniões de todos. Não para corresponder a todos os anseios, mas para discernir o melhor caminho para toda a Igreja.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Um fim-de-semana sem telemóveis


Assume-se que os jovens são muito dependentes dos telemóveis e da conexão às redes sociais, mas não se lhes oferecem oportunidades para que se desconectem e possam viver outras experiências.

No contexto do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), surgiu a ideia de promover um fim de semana de desintoxicação digital, com o objetivo de os alunos se desligarem das redes e se conectarem mais consigo próprios, fazendo uma experiência de interiorização. Demos-lhe o nome “Offline Weekend”.

Apesar de ser uma atividade promovida pela capelania do IPB, de que sou capelão, o desafio que me coloquei foi o de desenhar um fim de semana, para 15 estudantes. Aberto à participação de quem tivesse, ou não, qualquer filiação religiosa.

Não esperava uma elevada adesão, mas fui surpreendido com a inscrição de 58 estudantes. Foram selecionados 15 das seis escolas do IPB.

No passado fim de semana, acompanhei-os nesta atividade. Ia preparado para não levarem a sério os tempos de interiorização e que experimentassem alguma dificuldade em libertarem-se do telemóvel. No final, uma das participantes deixou este testemunho: “Posso afirmar que não senti necessidade de usar o telemóvel. Foi até mais fácil do que eu achei que seria”.

Vários expressaram que esta experiência os transformou e que gostariam de a repetir. “Carrego comigo a sensação de serenidade e um desejo ainda maior de cuidar de mim mesma”, concluía outra estudante. Um deles está mesmo convencido que saiu de lá “uma melhor pessoa”.

É louvável que a Igreja se esforce em estar presente nas redes sociais para dialogar com os jovens. Contudo deve, também, continuar a propor atividades que os ajudem a saborear as virtualidades de esporadicamente se desconectarem, para acederem a outras vivências. Como se viu, estas podem ser gratificantes e ajudá-los a viver melhor.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

A Igreja não deve temer os jornalistas

O primeiro grande evento do Ano Santo, aberto pelo Papa Francisco na noite de Natal, foi dedicado aos média. Foi o Jubileu do mundo da comunicação, que reuniu no Vaticano, no passado sábado, milhares comunicadores vindos de 138 países.

O Jubileu é celebrado sob o lema da esperança. O Papa pediu aos comunicadores que contassem “histórias imbuídas de esperança” na mensagem deste ano para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja celebra a 24 de janeiro, dia do padroeiro dos comunicadores, S. Francisco de Sales.

No discurso preparado para o encontro com o mundo da comunicação – que o Papa acabou por não ler, mas confiou aos participantes no Jubileu da Comunicação – refere que “nem todas as histórias são boas, mas também elas devem ser narradas”.

Por vezes os jornalistas são incómodos para a Igreja por causa dos escândalos e das sombras que estes têm o dever deontológico de revelar e publicar. São temidos por isso – e muitos consideram que o fazem movidos pelo desejo de denegrir esta multisecular instituição.

A Igreja, porém, não deve temer os escândalos. E, muito menos, culpar o mensageiro por tudo o que de menos bom acontece no seu interior. Deve é tudo fazer para os evitar! Contudo, quando aquilo que é menos digno e que mancha a sua honorabilidade vier à luz do dia, não deve ter receio de se confrontar com a verdade do pecado que também a habita.

A denúncia dos escândalos no interior da Igreja pode ser dolorosa, mas tem significado quando aqueles são devidamente assumidos e tratados – uma purificação. Muitas vezes têm ajudado a Igreja a recuperar a fidelidade ao Evangelho e a sua credibilidade. Por isso, não se deve temer as perguntas incómodas dos jornalistas, mas sim agradecer o seu trabalho. Ele contribui para corrigir a sua institucional opacidade e para a sua regeneração.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Racismo e xenofobia não são católicos

Um cristão – e, sobretudo, um católico – não pode ser nem racista nem xenófobo. E um português não o deveria ser, pois somos um país de emigrantes, espalhados por todo o mundo. Gostamos de ser bem acolhidos e de não sermos discriminados.

A tradição judaico-cristã tem na sua génese uma postura de respeito pelo estrangeiro. O povo israelita foi emigrante na terra do Egito. O momento mais significativo da sua história é a sua libertação dessa terra da escravidão. Foi experiência inesquecível, devido à qual o livro do Êxodo determina: “Não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egito” (Ex. 22, 20).

A práxis de Jesus é acolher a todos. No Evangelho alguns estrangeiros são, até, apresentados como exemplos de fé, como é o caso da mulher cananeia (Mt. 15, 21-29), que pediu a cura da filha a Jesus, ou do centurião romano a quem curou o escravo (Lc. 7, 1-10). Na génese do cristianismo está a convicção de que “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher” (Gál. 3,28), porque todos são filhos de Deus e, por isso, irmãos.

Aquele que professa a fé católica – ou seja: universal – também não poderá aceitar qualquer distinção, seja qual for a raça ou nacionalidade. Isso seria amputar a catolicidade da Igreja.

Um cristão, um católico e, sobretudo, um bispo, tendo em conta a tradição judaico-cristã, não tem outra alternativa a não ser colocar-se ao lado do migrante e o dever de condenar toda e qualquer atitude de racismo e de xenofobia. Não se entendem, por isso, as críticas e o desconforto que alguns manifestaram em relação às palavras de D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, de apoio e sintonia com aqueles que se manifestaram contra atitudes racistas e xenófobas que visaram imigrantes a viver em Portugal.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Igreja deve criticar a extrema-direita

Artigo de opinião do arcebispo da Cantuária, Justin Welby
e o seu tratamento noticioso, no "The Guardian"

Uma notícia falsa foi disseminada por grupos de extrema-direita com o intuito de promover o ódio contra os muçulmanos e os imigrantes. Três crianças, entre elas uma luso-descendente, foram mortalmente esfaqueadas em Southport, no noroeste da Inglaterra, a 29 de julho. Extremistas de direita puseram a circular nas redes sociais que o assassino seria um imigrante ilegal muçulmano, à procura de asilo no país, o que se verificou ser falso.

Essa notícia desencadeou uma onda de violência visando os locais que acolhem imigrantes ilegais e mesquitas. O arcebispo da Cantuária, Justin Welby, líder da Igreja Anglicana, denunciou estes tumultos “desencadeados por mentiras e instigados deliberadamente pela desinformação, espalhada rapidamente online por criminosos com motivações pérfidas”. Fê-lo num artigo publicado este domingo no “The Guardian”.

Justin Welby, para além de condenar a utilização da “iconografia cristã” nessas manifestações por ser “uma ofensa à nossa fé e a tudo o que Jesus foi e é”, acrescentou não ter dúvidas que os “grupos de extrema-direita não são cristãos e o uso que fazem das nossas imagens é um ultraje”. Por isso os cristãos não devem aderir a estes movimentos.

Habitualmente os líderes cristãos, nomeadamente os bispos católicos, costumam ser mais críticos com a extrema-esquerda por defenderem causas como a despenalização do aborto ou da eutanásia. E são em geral mais contidos em relação a atitudes da extrema-direita, também elas condenáveis à luz da moral cristã, como a xenofobia e outros tipos de discriminação.

É natural que a reação do arcebispo da Cantuária tenha sido contundente, dada a violência que varreu o Reino Unido. Contudo, não deviam ser necessários tão trágicos eventos para que a Igreja católica condene os extremismos de Direita que ofendem os seus valores.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Jesus, homem livre, e o 25 de Abril


Neste dia, há 50 anos, muitos sonhavam com o final da guerra colonial, a queda da ditadura e a construção de um Portugal melhor. Alguns arregaçaram as mangas e acreditaram que na madrugada seguinte seria possível derrubar um regime que já vigorava há demasiado tempo, 48 anos, e instaurar a liberdade.

Foi um regime que procurou amordaçar o povo com a conivência da hierarquia portuguesa da Igreja Católica. Não de toda: alguns, como D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, nunca o abençoaram e sempre o criticaram. Foram também muitos os católicos que sempre se opuseram à ditadura, por fidelidade a Jesus Cristo, aquele que foi verdadeiramente livre em relação a qualquer instituição, fosse ela religiosa ou política. Ele veio para libertar da discriminação, da doença, do pecado e, até, da morte.

Meio século depois, há quem neste país volte a aspirar por um líder forte, que não estivesse dependente de eleições ou do parlamento. Dizem as sondagens que são um terço dos portugueses. Acham mesmo que Portugal seria melhor com um novo Salazar!... Não há qualquer sondagem do género que o comprove, mas é natural que cerca de um terço dos católicos pense o mesmo e acredite que esse regime seria benéfico para a sua igreja.

Um regime autoritário em Portugal recolheria, como acontece noutros países, um maior apoio, também económico, de outras confissões religiosas. Desenganem-se por isso os católicos reacionários: hoje um novo Salazar não procurará a bênção da Igreja Católica, mas de outras religiões ou igrejas com maior poder económico e maiores propensões totalitárias do que a católica.

Seja qual for o regime autoritário que se queira implantar em Portugal, ele deverá contar com a oposição dos verdadeiros seguidores de Jesus Cristo. E estes não deverão ter pudor em proclamar: 25 de Abril, sempre!

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Rezar também pelas vocações cívicas

Há 60 anos Paulo VI convidou os fiéis a rezarem pelas vocações religiosas e ao sacerdócio, no domingo em que a liturgia apresenta Jesus como o Bom Pastor. É o quarto Domingo Pascal, a que se deu o nome de “Dia Mundial de Oração pelas Vocações”. Este ano celebra-se no próximo domingo e a Igreja vive uma semana dedicada ao tema. Os papas passaram a escrever uma mensagem para assinalar este dia.

Ao longo destes 60 anos, a oração pelas vocações foi ampliando o seu âmbito. João Paulo II incluiu o chamamento “à vida familiar”. Francisco, na mensagem de 2019, passou a considerar as “vocações ligadas ao mundo do trabalho e das profissões” que se comprometem “no campo da caridade e da solidariedade, nas responsabilidades sociais e políticas”.

Na mensagem deste ano, o Papa conjuga a felicidade com a realização pessoal que só se alcança quando se descobre a própria vocação. “A nossa vida realiza-se e torna-se plena quando descobrimos quem somos, as qualidades que temos e o campo onde é possível pô-las a render”, escreve o Papa. Depois recorda todos aqueles “que abraçaram uma vocação que envolve toda a sua vida”.

O Papa coloca – logo a seguir aos chamados à vida conjugal e antes das pessoas consagradas – “todos os homens e mulheres de boa vontade que se dedicam ao bem comum”. Refere-se aos que, pelo trabalho, pela dedicação à política ou à solidariedade “procuram construir um mundo melhor”. Todos são “chamados a semear a esperança e a construir a paz” – o título da mensagem.

A Igreja precisa muito de sacerdotes e de religiosos. Porém, o mundo precisa ainda mais de profissionais que assumam o seu trabalho por vocação. Políticos e atores sociais que ponham a render os seus talentos ao serviço do outro. Rezemos pelas vocações consagradas, mas também pelos que são chamados a dedicarem-se ao bem comum.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Desafio aos novos ministros

Amanhã vai ser apresentado ao Presidente da República o novo Governo, o qual será empossado em circunstâncias políticas e sociais muito particulares. Exige-se aos novos governantes capacidade de diálogo, e de gerar sinergias, para a promoção do bem comum.

Em algumas funções sociais do Estado, têm sido as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS’s), entre as quais se incluem muitas da Igreja Católica, a garantirem várias das respostas sociais que competem ao Estado. São os casos do apoio à infância e juventude, aos idosos e aos mais desfavorecidos.

Os novos governantes não deverão olhar para as IPSS’s como concorrentes do Estado, mas como suas coadjuvantes. Devem, nomeadamente os ministros da Segurança Social e da Saúde, aproveitar as suas virtualidades, promover boas práticas, estar atentos às suas carências e acorrer às suas necessidades. Só assim estas poderão continuar a prestar um bom serviço às populações, sobretudo àquelas que o Estado tem mais dificuldade em apoiar – e com as quais teria de gastar muito mais se não fossem as IPSS’s...

Há outras áreas e contextos que também exigem atenção dos novos ministros, nomeadamente os da Educação e da Justiça, áreas em que as IPSS’s poderiam desenvolver novas respostas sociais e fazer o que o Estado não consegue. Por exemplo, a criação de estruturas de acompanhamento de alunos com baixo rendimento provenientes de contextos sociais e familiares complexos, como acontece em escolas dos subúrbios do Porto e, sobretudo, de Lisboa, ou nas zonas do interior.

A Igreja também já demonstrou competência para a criação de novas respostas sociais para a prevenção da criminalidade, a reinserção social dos reclusos e o acompanhamento dos libertos para que não voltem a reincidir.

A resolução de problemas complexos requer a colaboração de todos!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Líderes que derrubam muros

O encontro de Paulo VI com o
Patriarca Ecumênico Atenágoras
Foto AP retirada daqui
Há 60 anos aconteceu, para muitos historiadores, um dos eventos religiosos mais importantes do século XX: a viagem de Paulo VI à Terra Santa, de 4 a 6 de janeiro de 1964. Na oração do Angelus no último sábado, o Papa Francisco recordou essa viagem e destacou o encontro de Paulo VI com o Patriarca Ecumênico Atenágoras – líder da Igreja Ortodoxa – “quebrando um muro de incomunicabilidade que manteve católicos e ortodoxos separados por séculos”.

Foi a primeira viagem internacional de Paulo VI e a primeira vez que um Papa viajou de avião. Deu início a uma das atividades mais relevantes de um Pontífice: as viagens. Paulo VI também ficou para a história como o primeiro Papa a visitar os cinco continentes.

Essa sua primeira viagem teve ainda o condão de reforçar na Igreja Católica o diálogo ecuménico e a promoção da unidade dos cristãos. O Concílio Vaticano II, que decorria quando Paulo VI visitou a Terra Santa, encarregou de refletir e de o definir como um dos dinamismos a indicar aos católicos.

Esta foi uma das quatro prioridades de Paulo VI para o Concílio. As outras eram uma melhor compreensão da Igreja Católica, a sua renovação e o diálogo com o mundo contemporâneo.

Estes dinamismos que Paulo VI procurou implementar no catolicismo são aqueles que o Papa Francisco agora procura recuperar com a insistência numa “Igreja em saída”.

Vivem-se tempos em que se promove o medo em relação aos que são de outra cultura, raça, igreja ou religião. Que são classificados como os “maus”, para arregimentar os “bons”, seja para ganhar eleições ou para estimular o terrorismo ou a guerra. Hoje, como nunca, são precisos líderes como Paulo VI, mais preocupados em lançar pontes do que em erguer muros. Capazes de promover o diálogo e a reconciliação entre aqueles que se habituaram a odiarem-se, porque a isso foram levados.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

A fisionomia feminina da Igreja


A Igreja celebra Maria, no primeiro dia do ano, como a Mãe de Deus. Esta invocação de Maria está implícita nos Evangelhos, por exemplo quando Maria visita a sua prima Isabel e esta exclama: “Donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?” (Lc. 1, 43). Contudo, foram precisos quatro séculos para ser explicitada e definida dogmaticamente como tal pelo Concílio de Éfeso, em 431.

Desde os inícios do século VI, que a Igreja celebra a 1 de janeiro a solenidade de Santa Maria, Mãe da Igreja. A partir de 1968, Paulo VI declarou-o também o Dia Mundial da Paz.

Este ano, na homilia da celebração de 1 de janeiro, o Papa Francisco recordou a definição dogmática de Éfeso e assumiu que a Igreja precisa de “descobrir o seu próprio rosto feminino” e de “abrir espaço às mulheres e ser geradora através duma pastoral feita de cuidado e solicitude, paciência e coragem materna”.

Desde que está ao leme da barca de Pedro, este Papa tem feito muito para promover a mulher na Igreja. Com ele, elas têm vindo a desempenhar cargos que nunca tinham sido confiados às mulheres. Pela primeira vez tiveram voz num Sínodo dos Bispos – e direito a votar.

É certo que ainda há muito caminho a fazer para que seja reconhecida a dignidade da mulher na Igreja e estas possam assumir encargos que continuam reservados aos homens. O caminho faz-se caminhando. É a convicção de Francisco. Maria é a sua inspiração e guia.

Entretanto, o Papa empenha-se em que a Igreja redescubra a sua fisionomia mariana. Maria não é só a Mãe de Deus: é também a Mãe da Igreja, como a definiu Paulo VI em 1964.

Da mesma forma que se identificam nos filhos parecenças com as mães, também na Igreja se devem identificar traços marianos, tais como o acolhimento da Palavra de Deus, a disponibilidade para fazer a sua vontade ou a atenção aos que mais precisam.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O contributo da Igreja para a democracia


A situação social do país já estava na agenda da reunião dos bispos que decorre em Fátima desde segunda até amanhã. Acresce agora a crise política desencadeada pela demissão do primeiro-ministro.

No discurso de abertura da reunião, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. José Ornelas, alertou para o clima de “revolta” e “conflitualidade” devido à crise económica que afeta o país, agora agravada com uma crise política. Para o presidente da CEP, “cresce a frustração e a revolta, especialmente entre os mais vulneráveis, como também a desilusão e a apatia desmobilizadora”.

Esta conjuntura é um “campo fértil para manipulações e messianismos populistas que minam os fundamentos de uma autêntica democracia”, alertou D. José Ornelas. É preciso que todos, particularmente os cristãos, não se deixem abater e vençam a apatia que se pode instalar. “Neste momento é quando é mesmo necessário participar, seja na atividade direta e ativa na vida política, seja no elementar direito e dever de votar”, disse o bispo de Leiria-Fátima.

Nos anos 60 e 70 a Igreja em Portugal contribuiu, sobretudo através da Ação Católica, para a formação de muitos e reconhecidos políticos nacionais. Foram tempos que precederam e prepararam o regime democrático em que vivemos há quase 50 anos. Este, no entanto, corre o risco de se degradar – e até de desaparecer – se não for devidamente cuidado. É necessário, por isso, que todos se empenhem para o defender e salvaguardar. Também a Igreja!

Oxalá os bispos reunidos em Fátima, para além de refletirem sobre a crise económica e política do país, encontrem formas de levar os católicos a envolverem-se mais nas questões sociais, económicas e políticas. Novos atores são bem-vindos para revitalizar a democracia portuguesa com os contributos da doutrina social da Igreja.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Impostos e Igreja

A Igreja Católica em Portugal não está isenta de impostos como, por vezes, se afirma em público: está isenta de alguns impostos, tal como acontece com os partidos e outras instituições, nomeadamente do IMI de prédios afetos a determinadas atividades. Os sacerdotes católicos também não estão isentos de impostos e, até no exercício do seu múnus sacerdotal, pagam IRS sobre os rendimentos recebidos.

A Doutrina Social da Igreja defende políticas fiscais justas como forma de harmonizar os direitos da propriedade privada com as exigências do bem comum. O documento do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes denuncia todos os subterfúgios de éticas de cariz individualista “que promovem a fuga aos impostos e outras obrigações sociais”. Na Evangelii Gaudium o Papa Francisco denuncia mesmo a “corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais”.

Ainda que alguns impostos – como infelizmente acontece tantas vezes... –  sejam desviados para alimentar clientelas e aumentar certos patrimónios, a Igreja nunca poderá pactuar com esquemas de fuga aos impostos e, muito menos, abençoá-los no seu discurso oficial. Só assim poderá manter a sua autoridade moral intacta para exigir uma justa redistribuição da riqueza, com prioridade às necessidades dos mais pobres.

Em relação ao IMI, se as outras instituições deixarem de estar abrangidas por essa isenção, a Igreja Católica não deverá exigir a sua manutenção para si. Deverá, isso sim, propor ao Estado que a verba daí resultante não se dilua no conjunto dos impostos arrecadados, mas que seja utilizada para ajudar as populações no restauro do seu património e para apoiar os mais desfavorecidos, nomeadamente, ampliando os apoios às IPSS’s que deles se ocupam.

E a Igreja deve – sempre! – pugnar para que sejam implementadas medidas mais eficazes na luta contra a corrupção e a formação de clientelas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/10/2016)

domingo, 9 de março de 2014

A Ucrânia e a religião

Homenagem aos heróis de Maidan (Foto retirada daqui)
A crise política na Ucrânia tem merecido destaque noticioso e provocado as mais diversas análises e comentários. Trata-se de uma realidade política, social e económica multifacetada e, também, religiosamente complexa.

Em termos religiosos, a maioria dos ucranianos (cerca de 80%), declaram-se ortodoxos. Mas estão filiados em três patriarcados distintos. Cerca de metade vive a sua fé em união como o Patriarca de Kiev; um quarto está unida ao Patriarca Russo de Moscovo; e a restante forma o Patriarcado Ucraniano Autocéfalo.

Logo a seguir aos ortodoxos aparecem os católicos, que representam dez por cento da população. Destes, a maioria (8%) são greco-católicos do rito oriental; e os outros seguem o rito latino. Pertencem todos à Igreja Católica e estão unidos ao Papa, mas os primeiros mantêm uma espiritualidade e uma forma de celebrar mais próxima da Igreja Ortodoxa. Disciplinarmente também existem pequenas diferenças: no rito oriental, por exemplo, existem padres casados.

Para além de católicos e ortodoxos, cerca de dois por cento da população é protestante e menos de um por cento professa a fé judaica.

Neste contexto, não é fácil o diálogo ecuménico entre os diferentes credos cristãos. Durante a crise ucraniana, contudo, este mosaico religioso uniu-se na defesa da paz. Procurou, por um lado, influenciar os líderes políticos para que encontrassem formas de evitar o deflagrar da violência. E, por outro lado, todas as igrejas e tradições religiosas, estiveram presentes e acompanharam os manifestantes na Praça da Liberdade de Kiev. Os greco-católicos, pela sua presença e apoio aos manifestantes, foram mesmo ameaçados pelo poder, entretanto destituído, de virem a ser ilegalizados. Para Sviatoslav Shevchuk, arcebispo greco-católico, a Igreja, embora não participando “no processo político, não se pode retirar quando os seus fiéis lhe pedem ajuda espiritual. Estar com os fiéis é um dever do sacerdote”.

Nesta como noutras crises e problemáticas políticas, as igrejas, não se devendo imiscuir na política partidária, têm de defender de forma intransigente os direitos humanos. Esse é, aliás, o seu primeiro contributo para a promoção da paz social e da liberdade. 

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/03/2014)