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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Os cardeais de Francisco

Foto retirada daqui
O Papa Francisco anunciou este domingo a criação de 17 novos cardeais no consistório que se realizará a 19 de Novembro, na vigília do encerramento da Porta Santa do Ano da Misericórdia.

Quatro dos cardeais agora nomeados ultrapassaram os oitenta anos, pelo que já não poderão participar na eleição do Papa. Um deles é um sacerdote albanês, perseguido pelo regime comunista que proclamou a Albânia como “o primeiro estado ateu no mundo”. O P. Ernest Simoni, agora com 88 anos, foi sujeito a trabalhos forçados entre 1963 e 1990. O seu testemunho emocionou Francisco durante a visita à Albânia em Setembro de 2014, que agora decidiu conceder-lhe o título cardinalício.

Esta não é uma novidade de Francisco. Já no consistório de 26 de Novembro de 1994, João Paulo II fez cardeal Mikel Koliqi, ele um sacerdote albanês perseguido pelo comunismo.

Com mais esta nomeação de Francisco, continua a verificar-se a tendência de universalização do colégio cardinalício iniciada por Pio XII. Desde então, tem vindo a diminuir o número de cardeais italianos e europeus e a aumentar o dos oriundos de outras geografias. Dos 13 cardeais com menos de 80 anos, três são europeus, três da América Latina, três dos Estados Unidos, dois africanos, um da Ásia e outro da Oceânia. Isto traduz bem a preocupação de Francisco em nomear cardeais dos cinco continentes.

Para além dessa tendência, o Papa continua a não atribuir o barrete cardinalício em função das prerrogativas que determinadas dioceses adquiriram no passado, mas sim pelo perfil pastoral dos bispos escolhidos para receberem essa distinção. Os bispos de Turim e de Veneza, dioceses habituadas a ter um cardeal, voltaram a ser preteridos nas escolhas do Papa.

A lógica de Francisco não é a dos privilégios, por vezes adquiridos no passado a peso de ouro. A sua lógica é pastoral, determinada por uma especial atenção às “periferias”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/10/2016)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

As religiões e a paz

Foto retirada daqui
O mundo mudou muito desde que os representantes de várias religiões se reuniram pela primeira vez em Assis, há trinta anos, em torno do Papa João Paulo II. Então rezava-se pelo fim da Guerra Fria e da escalada nuclear que ameaçava destruir o planeta. Agora pede-se o fim da “Terceira Guerra Mundial em pedaços”, como a tem denominado o Papa Francisco.

Mais de 400 líderes religiosos reuniram-se de novo para reavivar o espírito de Assis. Juntaram as suas vozes para condenar os que matam em nome de Deus e testemunhar a sua convicção de que as “religiões são e podem ser fontes de paz”, como disse Andrea Riccardi, da Comunidade de S. Egídio, na abertura do encontro.

Na declaração final conjunta, “homens e mulheres de diferentes religiões” afirmam claramente: “A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso”.

Tamar Mikalli deu o seu testemunho de como a guerra pôs fim a um bom relacionamento entre pessoas de diferentes credos. “Venho de Alepo, a cidade mártir da Síria. Alepo, quando pronuncio este nome, apertasse-me o coração... Vêm-me à mente tantos amigos muçulmanos e cristãos. Agora há divisões entre cristãos e muçulmanos, mas antes da guerra não existiam… Depois rebentou a guerra, ainda não sei bem porquê. Começaram a chover mísseis que destruíam as casas. Ainda ouço os gritos de um pai, de uma mãe ou os gritos das crianças que procuram os seus pais”.

São testemunhos como este que desafiam a abandonar o “paganismo da indiferença”, que o Papa denunciou em Assis. E estimulam os crentes a serem construtores de paz, no interior das suas comunidades e com os que professam outra fé.

(Texto publicado no Correio da Manhã de236/09/2016)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A santa de Francisco

Foto de Andreas Solaro/AFP retirada daqui
Cada um dos últimos papas tem os seus santos. E estes podem ser considerados o “ponto de referência e uma síntese eficaz da mensagem do Pontífice que os elevou aos altares”.

Esta é a leitura de Andrea Tornelli, vaticanista, para quem “não há dúvida que Madre Teresa de Calcutá é emblemática para o pontificado de Francisco, como o foram, por exemplo, os mártires do Uganda proclamados santos por Paulo VI, ou as canonizações de José Maria Escrivá e da Santa Faustina Kowalska para o pontificado de João Paulo II”. Mas de quem falamos, quando falamos da agora Santa Teresa?

Foi longo o caminho que ela percorreu desde a sua terra natal, então Üsküp, hoje Skopje, capital da Macedônia, até chegar às ruas de Calcutá. Nascida numa família de origem albanesa, desde cedo sentiu o desejo de ser missionária na Índia. Passou pela Irlanda, onde entrou numa congregação religiosa e aprendeu inglês. Quando já era diretora e professora num colégio de meninas ricas em Calcutá, abandonou o conforto do convento para recolher moribundos abandonados nas sarjetas, o que lhe valeu o epíteto de “santa das sarjetas”.

Foi então que fundou a congregação das Missionárias da Caridade, que se dedicaram, nas suas palavras, “aos famintos, aos nus, aos que não têm lar, aos aleijados, aos cegos, aos leprosos, toda essa gente que se sente inútil, não amada ou desprotegida pela sociedade, gente que se converteu num fardo para a sociedade e que é rejeitada por todos”.

O Papa Francisco destacou, na missa da canonização, a “sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece, nos nossos dias, como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres”. Nesta santa confluem duas das principais preocupações do Papa: os mais pobres; e “a Igreja em saída” para as periferias. Por isso, Madre Teresa é a santa à imagem de Francisco.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/09/2016)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

As mulheres na Igreja

Papa Francisco na Assembleia
das Superioras das Congregações Religiosas
Foto da REUTERS retirada daqui
O papel da mulher na Igreja Católica continua a parecer secundário, apesar de nas suas assembleias serem a maioria e desempenharem nas comunidades tarefas relevantes. Isto deve-se ao facto de lhes ser vedado o acesso à ordenação e às instância em que muitas das decisões são tomadas, entre outras razões. O próprio Papa o reconheceu perante as superioras das congregações femininas reunidas em Roma.

Desafiado nesse contexto a criar uma comissão para esclarecer se, nos primeiros tempos do cristianismo, as mulheres já terão sido ordenadas diaconisas, o Papa aceitou o repto e até valorizou como “útil” esse esforço. De facto, há documentos da antiguidade cristã que referem as diaconisas, embora não seja claro se terão, ou não, recebido o sacramento da Ordem.

Até agora, tendo como base que entre as escolhas de Jesus para apóstolos não figura nenhuma mulher, assumiu-se que a Igreja não poderia ir além das decisões do seu fundador. Foi isso que levou João Paulo II a afirmar que “a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”.

Em relação a esta posição oficial do magistério, há quem não dê a questão por encerrada e contraponha que Jesus terá tomado essa opção numa concessão à cultura patriarcal em que viveu, embora o Evangelho registe vários gestos seus desafiantes e contracorrente. Por exemplo, quando permite a uma samaritana discutir com ele teologia, o que era impensável à época. Para estes, não são razões teológicas, mas sim razões culturais que impediram até hoje a Igreja de dar esse passo.

Veremos se a tal comissão irá comprovar a ordenação de diaconisas no passado. Se tal suceder, poder-se-á pensar em restaurar essa práxis e em dar mais um passo para garantir a paridade das mulheres no seio da Igreja Católica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/05/2016)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os Papas e o sexo

Foto retirada daqui
O discurso da Igreja é, em diversas circunstâncias, demasiado crítico em relação ao mundo em que se insere. “Muitas vezes agimos na defensiva e gastámos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” escreve o Papa Francisco no nº 38 da última exortação apostólica, Amoris Lætitia (A Alegria do Amor).

A alegria aparece logo no título, o que indicia uma valorização positiva do amor humano e da sua vivência em contexto familiar. Ao longo do texto percebemos melhor essa preocupação do Papa. Este não exclui a sexualidade nem o prazer, como tantas vezes acontece no discurso eclesiástico em que a sexualidade só é admitida em ordem à geração da vida. A virtude, por seu lado, costuma ser associada à renúncia e ao sofrimento, nunca ao prazer.

O Concílio Vaticano II, todavia, afirmou perentoriamente que “o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação”, como lembra o Papa no nº 178 da exortação. Na verdade, a Igreja (por exemplo Paulo VI na Humanae Vitae) sempre “destacou o vínculo intrínseco entre amor conjugal e procriação”. Mas isso não significa que seja esse o fim único e primordial. O Papa Francisco refere que “São João Paulo II rejeitou a ideia de que a doutrina da Igreja leve a ‘uma negação do valor do sexo humano’ ou que o tolere simplesmente ‘pela necessidade da procriação’” (nº 150).

Nesta exortação reconhece-se ainda que, aos olhos do mundo, a Igreja aparece muitas vezes como “inimiga da felicidade humana” (nº147). E recuperam-se os ensinamentos de Bento XVI que reconciliou o magistério com o prazer na encíclica Deus caritas est.

Os últimos Papas já tinham referido a sexualidade e o prazer nos seus ensinamentos. Francisco, contudo, tem conseguido ser mais ouvido por utilizar um discurso mais claro e menos embrulhado em considerações filosófica ou teológicas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/04/2016)

sábado, 20 de junho de 2015

A encíclica verde

Foto retirada daqui
Na Encíclica “Laudato si” o Papa Francisco junta a sua voz à da terra que “clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou” (nº2).

O texto ontem apresentado no Vaticano dá continuidade ao discurso ecológico introduzido por Paulo VI no magistério social da Igreja. Em 1971, na carta apostólica “Octogesima adveniens” para comemorar a publicação da “Rerum novarum” de Leão XIII, “referiu-se à problemática ecológica, apresentando-a como uma crise que é ‘consequência dramática’ da atividade descontrolada do ser humano”, recorda o Papa Francisco noº4 da sua última Encíclica. João Paulo II propôs a fundamentação bíblica e teológica destas questões. Bento XVI assumiu e aprofundou o pensamento do seu antecessor, chegando mesmo a ser apelidado como “o primeiro papa verde” pela revista National Geographic, de 28 de fevereiro de 2013.

Francisco é o primeiro Papa a dedicar um texto com a relevância de uma Encíclica à problemática do ambiente.

A preocupação que ele procura suscitar é traduzida pela questão: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” Com uma linguagem frontal, que não se submete à lógica do politicamente correto, critica os governos e as grandes empresas que contribuem para a degradação ambiental e o acentuar da pobreza. Denuncia o consumismo e a divinização do mercado.

“Convém evitar uma conceção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos” (nº 190). Mas também censura aqueles que se preocupam mais com o desaparecimento de algumas espécies do que com os atentados contra a vida humana, como o aborto, ou o desaparecimento de uma cultura. Por isso, propõe uma ecologia integral que não seja só ambiental, mas que inclua também as dimensões humanas e sociais.

Para salvar, não só o planeta, mas também a humanidade e a sociedade, convoca todos e acredita que “nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto” (nº 205).

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/06/2015)

sábado, 20 de setembro de 2014

Papa “casa” divorciado

Foto de Alberto Pizzoli/AFP          
O Papa presidiu à celebração do casamento de vinte casais. De facto, não foi ele que os casou, foram eles que se casaram. É o único sacramento da Igreja em que os próprios que o recebem são eles os ministros do sacramento.

Quando se é batizado, é o diácono ou o sacerdote que batiza o catecúmeno. Quando se é crismado, é o bispo que crisma o crismando. Quando alguém é ordenado, é o bispo que ordena. Ninguém se ordena a si próprio. No caso dos bispos, é mesmo exigida a presença de três bispos, em comunhão plena com a Igreja.

Contudo, na linguagem corrente continua a dizer-se que “foi o padre tal que nos casou”. E até os próprios padres, por vezes, dizem impropriamente: “Fui eu que os casei”. Da mesma forma saíram diversos títulos referindo que o Papa casou…

Este tipo de cerimónias não é muito comum. João Paulo II só o fez por duas vezes. Bento XVI, enquanto Papa, que se saiba, nunca presidiu a um matrimónio. O Papa Francisco fê-lo pela primeira vez este domingo. Para esta celebração escolheu esposos nas mais variadas circunstâncias, entre os quais desempregados, alguns a viverem em união de facto e até um divorciado que casou com uma mãe solteira.

Foi este caso que mereceu maior destaque nos meios de comunicação social e gerou a ideia de que o Papa tinha feito algo de extraordinário. Só que o noivo, apesar de ser divorciado, conseguiu que o seu casamento religioso fosse declarado nulo. Pelo que, canonicamente, ele era solteiro e qualquer clérigo poderia ter abençoado o novo matrimónio.

O problema teria sido repetir o casamento católico sem que o anterior tivesse sido declarado nulo. Para esses é que a Igreja ainda não tem resposta. A maior parte dos divorciados não só não podem casar, novamente perante a Igreja, como também não podem aceder a outros sacramentos se estiverem a viver numa nova união, civil ou de facto.

Espera-se que o Sínodo dos Bispos reflita sobre essa e outras situações irregulares e que encontre uma solução para que as pessoas possam ser admitidas à confissão e comungar. Para já o Papa limitou-se a acolher diferentes percursos para o matrimónio e a cumprir integralmente a práxis da Igreja, sem deixar de sublinhar o carácter heterossexual do matrimónio.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/09/2014)

domingo, 10 de agosto de 2014

A queda de um banco

Ricardo Salgado
Foto retirada daqui
A crise do BES é mais um exemplo de como o lucro a qualquer preço e uma gestão à margem da lei e da ética podem perverter uma atividade que deveria estar ao serviço do desenvolvimento humano, social e económico dos seus clientes e do contexto em que se insere.

“A vocação dum empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos”, recordava o Papa Francisco no nº 203 da “Evangelii Gaudium”.

Já Bento XVI, na “Caritas in Veritate”, avisava que “a economia e as finanças, enquanto instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas referimentos egoístas. Deste modo é possível conseguir transformar instrumentos de per si bons em instrumentos danosos; mas é a razão obscurecida do homem que produz estas consequências, não o instrumento por si mesmo” (nº 36).

De facto a Igreja não demoniza os mercados financeiros, mas valoriza o seu papel fundamental no crescimento económico, “que permitiu, entre outras coisas, apreciar as funções positivas da poupança para o desenvolvimento integral do sistema económico e social”, como se pode ler no nº 368 do Compêndio de Doutrina Social da Igreja, publicado em 2004, com o objetivo de apresentar de forma sistemática o pensamento católico sobre as questões sociais.

O mesmo Compêndio cita João Paulo II para denunciar “as ações e as atitudes opostas à vontade de Deus e ao bem do próximo” que corrompem a atividade económica: “por um lado, há a avidez exclusiva do lucro; e, por outro lado, a sede do poder, com o objetivo de impor aos outros a própria vontade. A cada um destes comportamentos pode juntar-se, para os caracterizar melhor, a expressão: ‘a qualquer preço’. Por outras palavras, estamos diante da absolutização dos comportamentos humanos, com todas as consequências possíveis” (Sollicitudo Rei Socialis, nº 37).

Ambas as tendências parecem ter estado na génese do terramoto que ditou a derrocada do BES, bem como a queda do seu líder, “o banqueiro do regime”, como era considerado. Este que, se conhecia, não seguia a Doutrina Social da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/08/2014)

domingo, 29 de junho de 2014

Máfia excomungada

Papa na Calábria
Foto retirada daqui
O Papa Francisco foi corajoso ao proferir palavras duras contra a máfia e os mafiosos na visita à diocese calabresa de Cassano all’Jonio, no sul de Itália, no passado sábado. Afirmou: “A 'Ndrangheta’ [máfia calabresa] é isto: adoração do mal e desprezo pelo bem comum”. E concluiu: “Aqueles que na sua vida seguem o caminho do mal, como são os mafiosos, não estão em comunhão com Deus: estão excomungados”. São palavras fortes e constituem a crítica mais contundente de um Papa a esta organização criminosa.

João Paulo II, a 9 de maio de 1993, em Agrigento, na Sicília, atreveu-se a dizer aos mafiosos: “Arrependei-vos, virá o juízo de Deus”. Meses depois foi assassinado em Palermo o padre Pino Puglisi, um sacerdote que se dedicava à prevenção da toxicodependência e da delinquência juvenil. Para Alessandra Dino, professora da Universidade de Palermo, tratou-se de “uma vingança, uma resposta direta a João Paulo II” da máfia siciliana. A Igreja considera Pino Puglisi o primeiro mártir da “Cosa Nostra” e foi beatificado a 25 de maio do ano passado.

Desde a sua morte, “o compromisso antimáfia da cúpula eclesiástica pareceu enfraquecer-se, delegando tudo aos padres definidos como ‘de fronteira’ ou ‘de rua’, de acordo com a moda jornalística” escreveu há dias Roberto Saviano, jornalista perseguido pela 'Ndrangheta, no jornal “La Repubblica”. Alessandra Dino, que tem estudado a relação entre a Igreja e a máfia, identificou mesmo alguma condescendência dos párocos sicilianos para com os mafiosos, os quais, de acordo com a sua pesquisa em Palermo, chegam a considerar alguns como “homens de honra”.

O bispo de Cassano all’Jonio, nomeado pelo Papa Francisco secretário da Conferência Episcopal Italiana, quer corrigir essa atitude no clero da sua diocese e garante que “a Igreja calabresa sente-se parte do despertar das consciências contra o crime organizado”, porque “o crime organizado alimenta-se de consciências adormecidas”.

Apesar de o crime organizado não ter em Portugal a dimensão italiana, não faltam “mafiazinhas” que pervertem regras e prejudicam quem não lhes pertence. Seria bom que a Igreja portuguesa não se acobardasse perante elas e contribuísse para acordar as consciências.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/06/2014)

domingo, 4 de maio de 2014

Papas ausentes

Papas desde João XXIII até ao atual
Arranjo gráfico de Lorenzo Rumori retirado daqui
Cerca de um milhão de pessoas acorreram à Praça de S. Pedro para participar na canonização de dois novos santos: João XXIII e João Paulo II. Dado que a memória do papa polaco está mais viva na mente e no coração dos fiéis, não é de estranhar que a maioria dos presentes sejam seus devotos. João XXIII foi um papa muito popular, no seu tempo, e querido pelos fiéis, que rapidamente o começaram a apelidar de "Papa Bom", apesar de então não haver os meios de difusão das notícias, que, hoje, possibilitam o acompanhamento próximo do dia-a-dia do Papa.

João XXIII iniciou o caminho de humanização do papado que se intensificou com os seus sucessores – em particular com João Paulo II que, após anos de exposição mediática nas inúmeras viagens que realizou, não quis esconder a doença e a decrepitude do Papa. Também Bento XVI deu um assinalável contributo ao reclamar para o bispo e de Roma o direito a "reformar-se".

Numa mesma celebração reuniram-se quatro dos Papas que resgataram a Igreja do encerramento nos muros vaticanos para o diálogo com o mundo e a contemporaneidade. Faltaram somente o Papa Paulo VI e João Paulo I, a quem ainda não foi reconhecida oficialmente a santidade mas que, também, contribuíram para essa caminhada.

Paulo VI foi o timoneiro que assumiu o leme do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu antecessor, e o soube levar a bom porto. Ficou, assim, ligado à maior reforma da Igreja desde o concílio de Trento, quinhentos anos antes.

João Paulo I, para além de ter homenageado os seus dois antecessores no nome escolhido, no seu curtíssimo pontificado deixou antever uma personalidade muito semelhante à do atual Papa. Era um bom comunicador. Criou uma relação empática com as pessoas, que o cognominaram de "Papa do Sorriso". Tal como Francisco, nas audiências gerais interagia com os assistentes, "entrevistava" crianças e jovens.

São dois papas a que a história ainda não fez justiça. Muitos acreditam que também eles trilharam o caminho da Santidade e desejam que rapidamente sejam reconhecidos como pertencentes a essa galeria de homens e de mulheres que, nas mais diversas circunstâncias, viveram a sua fidelidade a Jesus Cristo e aos valores do  Evangelho.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/05/2014)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Abril Católico

A Igreja Católica em Portugal, sobretudo a hierarquia, deixou-se conotar com o “Estado Novo”, apesar de alguns bispos, padres e muitos leigos terem tomado posições contundentes contra o regime. De entre os primeiros destacaram-se D. Sebastião Resende, bispo da Beira, D. Manuel Vieira Pinto, bispo de Nampula, ambos em Moçambique, ou D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto.

O Padre Abel Varzim é um exemplo entre muitos outros sacerdotes que a ditadura não conseguiu vergar. Também entre os leigos há “histórias do catolicismo militante” que violaram “o silêncio cúmplice com o regime do Estado Novo”. Foram presos devido à sua ousadia, mas contribuíram para o despertar da consciência crítica antes da revolução – e fizeram com que a “libertação de Abril” também tivesse “o ‘dedo’ católico”.

São estas histórias que o jornalista António Marujo tem publicado no blog “Religionline”, há um mês. Num dos textos aborda o papel da teologia como “fator de dissensão e despertador de consciências” em que fala de diversas iniciativas, muitas delas com a sua génese no dinamismo suscitado pelo Concílio Vaticano II. Na verdade, o 25 de Abril aconteceu no interior da Igreja, uma década antes da revolução. Resgatou o laicado da passividade e apelou a uma maior participação na vida eclesial, que João Paulo II designará como a corresponsabilidade laical.

Uma dessas iniciativas eram os cursos de Verão dos dominicanos em que as discussões teológicas adormeciam o agente da PIDE, sempre presente, mas despertavam os cristãos que “descobriram, através de livros, cursos, encontros ou publicações clandestinas uma forma de agir militante na oposição ao regime”. No período que antecedeu o 25 de Abril, e já desde os anos 50, para António Marujo “muitos cristãos começaram a ler e aprender teologia, passando da simples leitura ao debate sobre a relação entre fé e política e à ação militante contra a guerra de África”.

Quarenta anos depois, o país e a Igreja continuam a precisar que os leigos aprofundem os seus conhecimentos teológicos. Que debatam os problemas que afetam a humanidade à luz dos valores do Evangelho. E que se empenhem na “ação militante” contra a “ditadura dos mercados” e a “economia que mata”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 25/04/2014)

domingo, 30 de março de 2014

A Igreja e a pedofilia

Foto retirada de Portal Um
O Papa Francisco deu mais um passo significativo na forma como a Igreja lida com o problema da pedofilia no seu seio. No passado sábado nomeou oito elementos para a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores que tinha anunciado no dia 5 de Dezembro de 2013.

O escândalo da pedofilia abriu feridas profundas e insanáveis nas vítimas. Manchou o rosto da Igreja na passagem do II para o III milénio. Pôs a nu comportamentos inadequados das autoridades eclesiásticas, como reconheceu Bento XVI em 2010, numa Carta Pastoral aos bispos irlandeses. Até ao final do século XX o procedimento habitual da hierarquia católica era tudo fazer para abafar o escândalo e, quando muito, transferia o sacerdote acusado de paróquia ou de encargo pastoral.

Em 2001 começou a mudar a sua atuação. Por determinação de João Paulo II, o abuso sexual de um menor perpetrado por um clérigo passou a fazer parte da lista dos delitos graves reservado à Congregação para a Doutrina da Fé, obrigando os bispos a comunicar os casos detetados nas suas dioceses desde que existissem provas desses delitos.

Bento XVI pediu às Conferências Episcopais, em 2010, que definissem diretrizes claras a aplicar logo que surgissem suspeitas de comportamentos pedófilos. Estas deveriam ter em conta o apoio às vítimas, a proteção dos menores, a formação dos futuros sacerdotes e religiosos, o acompanhamento dos clérigos e, ainda (o aspeto mais surpreendente), a colaboração com as autoridades civis.

A Conferência Episcopal Portuguesa aprovou essas diretrizes em Abril de 2012. Nelas são tidas em consideração todas as recomendações papais. Agora, ao nomear os primeiros elementos para a Pontifícia Comissão, o Papa Francisco, para além de dar continuidade ao caminho percorrido pelos seus antecessores no combate à pedofilia, centra a atenção da Igreja nas vítimas.

Com estas nomeações, de quatro homens e quatro mulheres, o Papa revela argúcia política – escreve John Allen, num texto no jornal “The Boston Globe” – e responde às duas principais críticas que tem recebido. A primeira é a de nada ter feito no combate à pedofilia. A segunda é a de, embora defendendo a importância da mulher na Igreja, continuar a rejeitar a sua ordenação.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/03/2014)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A humanidade do Papa

Foto "L’Osservatore Romano" retirada daqui
As palavras e os gestos do Papa Francisco têm contribuído para a humanização do papado. Na visita a uma paróquia periférica de Roma, a do Sagrado Coração, apresentou-se há dias como um “homem comum” e abriu o seu coração a um grupo de refugiados confessando que na sua vida, como na deles, houve “muitas coisas boas e muitas más”.

Desde Pedro, o primeiro Papa, até aos nossos dias, fez-se um longo caminho na forma de compreender e exercer o ministério petrino. Uma história que chegou a fazer do sucessor de um humilde e arrependido pescador um Papa–Rei, esvaziando-o da sua humanidade e transformando-o num ser quase inacessível e infalível.

Felizmente, nos últimos dois séculos o caminho tem sido o inverso.

Em 1870 o Concílio Vaticano I definiu a infalibilidade papal. Fê-lo, curiosamente, nas vésperas de o papado perder os Estados Pontifícios para a Itália unificada. O Papa infalível viu-se portanto confinado ao minúsculo território da Cidade do Vaticano, no qual, para vincar o seu protesto, se enclausurou.

Pio XII rasgou os muros do Vaticano com a “Via della Conciliazione”, símbolo da reconciliação entre a Santa Sé e a Itália, mas não os transpôs. Será João XXIII, o primeiro Papa a ultrapassá-los – para visitar um hospital pediátrico e uma cadeia – e a sair de Roma – para visitar Assis e o Santuário do Loreto. Mas, mais importante do que a transposição dos muros do Vaticano, foi ter despoletado o dinamismo de uma Igreja que se voltou para o mundo com a convocação de um concílio, o Vaticano II.

Paulo VI deu continuidade à atividade conciliar do “Papa Bom”, concluindo-a. E saiu de Itália para visitar a Terra Santa, a que se seguiram outros pontos do globo, como Fátima.

João Paulo II, para além de intensificar as visitas apostólicas, no final do pontificado expôs ao mundo a sua decrepitude e doença. E Bento XVI deu uma machadada na concepção tradicional do papado, despojando-o do seu carácter vitalício.

Já Francisco, mais do que o Sumo Pontífice, preferiu desde a primeira hora ser o Bispo de Roma, um homem comum, que sofre como todos. Um pecador, como qualquer dos bispos, tal como ainda há dias fez questão de recordar: “Todos os bispos somos pecadores. Todos!”

(Texto publicado no Correio da Manhã de 31/01/2014)