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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Papa confronta os potentados do capitalismo

Encontro do Papa com os dirigentes das principais
empresas do setor petrolífero, do gás natural
e de outras atividades ligadas à energia
Reuniram-se no Vaticano, este fim de semana, os dirigentes das principais empresas do setor petrolífero, do gás natural e de outras atividades ligadas à energia, como são os fundos de investimento. O Papa Francisco recebeu-os no sábado e desafiou-os "a ser o núcleo de um grupo de líderes que imaginem a transição energética global que tenha em conta todos os povos da Terra, bem como as futuras gerações, todas as espécies e os ecossistemas".

Já na encíclica "Laudato si"", dedicada às questões ambientais, o Papa tinha referido que a "tecnologia baseada nos combustíveis fósseis deve ser, progressivamente e sem demora, substituída" (n.o 165). Agora pede aos produtores e investidores nesse tipo de tecnologia "para evitar mudanças climáticas desastrosas que possam comprometer o bem-estar e o futuro da família humana e da casa comum", um compromisso sério numa "transição que faça crescer constantemente o uso de energia com alta eficiência e baixo nível de poluição".

Todo o artigo, publicado no JN de 11/06/2018, pode ser lido aqui

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Pedofilia e críticas ao Papa

O Papa pediu desculpa, a bordo do avião de regresso a Roma,
pela forma como se referiu à polémica
que envolve o bispo de Osorno, Juan Barros Madrid
Foto REUTERS/Alessandro Bianchi retirada daqui
Agora escrevo todas as segundas no JN. 

Esta semana escrevo sobre a questão que ensombrou a visita do Papa ao Chile e as críticas que vão surgindo contra a sua atuação  e a forma como se aceitavam ou não em relação aos seus antecessores.

"No passado, não se podia manifestar a mínima discordância com o que o Papa dizia ou fazia. Nem se podia pôr em causa a orientação que ele dava à Igreja. Curiosamente, os que antes eram os maiores defensores dessas teses, ao longo do pontificado de Francisco foram mudando de opinião. Primeiro, começaram por o criticar em surdina. Rapidamente, começaram a fazê-lo aberta e publicamente. E chegaram a enviar documentos ao Papa em que põem em causa a sua ortodoxia. Continuam hoje a fazê-lo de forma velada, com métodos e expressões pouco evangélicas"

Todo o artigo pode ser lido aqui.

domingo, 14 de maio de 2017

“Sentinelas da madrugada”

Foto retirada daqui
O Papa Francisco veio a Fátima recordar que “temos Mãe!”

Repetiu-o três vezes na homilia da missa de ontem, que celebrou os cem anos das aparições. Uma mãe misericordiosa e “bendita por ter acreditado”, não alguém que segura o “braço justiceiro de Deus pronto a castigar”, ou uma “Santinha a quem se recorre para obter favores a baixo preço”, como tinha esclarecido na noite anterior, depois da bênção das velas e antes da oração do Rosário. Mais uma vez, o Papa preferiu sublinhar a misericórdia e não o juízo ou a condenação.

Terminou a homilia a desafiar os fiéis a não serem “uma esperança abortada”, mas a converterem-se, “sob a proteção de Maria”, em “sentinelas da madrugada”. Exortou-os a saber “contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.

Com as suas palavras o Papa deu um contributo extraordinário para ajudar os crentes a melhor entenderem o papel da Virgem Maria nas suas vidas, bem como a forma como se devem relacionar com ela. Não o fez com uma linguagem hermética e complicada, como tantas vezes acontece em contextos eclesiais, mas com o recurso a uma linguagem que todos compreendem, mesmo arriscando-se a escandalizar alguns que preferem as conceções marianas que ele criticou.

Compete à Igreja, sobretudo a portuguesa, dar agora continuidade ao percurso que o Papa iniciou na Cova da Iria. Levar as pessoas a viverem uma espiritualidade mariana ajustada ao Evangelho e, por isso, mais sadia. A Igreja deve tornar-se mais luminosa, com uma pulsação mais jovem e um renovado ardor missionário. E – ponto muito importante – não deve ter receio de empobrecer, desde que seja para se tornar muito mais rica em caridade.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 13/05/2017)

sábado, 13 de maio de 2017

Papa Francisco: Peregrino da Paz

Foto retirada daqui
Passaram cem anos e muitas das questões que se colocaram quando as três crianças disseram que viram a Nossa Senhora continuam por responder. Ao longo de um século, o Santuário de Fátima — com diversas iniciativas, como os congressos marianos — tem procurado encontrar respostas para muitas das dúvidas e críticas que têm sido feitas às aparições.

Nos últimos meses reacenderam-se polémicas e trocaram-se argumentos. Começou-se logo pela designação mais correta dos acontecimentos, se aparições ou visões. Se as crianças tiveram uma experiência mística e digna de fé, como defende a Igreja, ou se tudo não passou de um aproveitamento para reforçar o papel da Igreja num período em que ela era muito contestada, e perseguida.

São debates interessantes, que devem continuar depois da celebração do centenário para um melhor conhecimento da mensagem de Fátima e seu aprofundamento. E até para a correção de algumas interpretações erróneas. Essa discussão, contudo, passa ao lado dos peregrinos que rumam à Cova da Iria com as mais diversas motivações, como não se têm cansado de mostrar todos os meios de comunicação presentes no acompanhamento e chegada dos peregrinos ao Santuário.

O Papa Francisco fez questão de sublinhar que vem como peregrino. Afirmou-o tanto na mensagem que dirigiu aos portugueses, como na primeira oração na Capelinha das Aparições. Extraordinário é que tenha assumido igualmente a condição de pecador, o qual caminha em sintonia com tantos outros que reconhecem em si essa mesma condição.

Vem como peregrino da paz preocupado com esta “terceira guerra mundial aos pedaços”. Ergue a sua voz para denunciar os muros que estão a ser construídos, num mundo que precisa, como nunca, de pontes que congreguem.

O Papa Francisco, embora não seja essa a sua principal preocupação, poderá ajudar a compreender melhor a Mensagem de Fátima — e também a actualizá-la, a usá-la como resposta ao contexto que o mundo vive neste início do terceiro milénio. Pode ser que não resolva questões com cem anos, mas contribuirá decerto para a forma como Fátima será interpretada nos próximos anos.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 12/05/2017)

sábado, 14 de janeiro de 2017

Homens e mulheres que também caíram mas nunca desistiram

Os santos são homens e mulheres como qualquer um de nós, com defeitos e virtudes. Falharam e caíram mas, contrariamente ao que acontece tantas vezes connosco, nunca desistiram. Insistiram em se levantar e continuaram a procurar fazer a vontade de Deus, a qual passa, necessariamente, por um certo esvaziamento de si próprios em virtude da dedicação aos outros, particularmente aos mais necessitados.
Os santos são aqueles que souberam, no passado, corresponder ao desafio que, atualmente, o Papa Francisco não se cansa de repetir e repropor: “sair de si” e ir ao encontro dos que habitam nas “periferias existenciais e geográficas do nosso mundo”.
Por vezes colocamos os santos fora do mundo, ou num mundo à parte. Na verdade, eles, embora acreditando num mundo outro, nunca desistiram do mundo em que viveram e empenharam-se em transformá-lo à luz das suas convicções, dos valores em que acreditaram, os quais se sentiam chamados a viver na quotidianidade das suas existências.
“O santo testemunha-nos que a vida é responder às provocações que, dia-a-dia, são vertidas no coração e na mente; é o desejo de ‘estar’ dentro deste mundo, num mundo original e ao mesmo tempo útil e construtivo; é também a superação do contingente e evocação – pressentimento do futuro, do eterno”, como se pode ler na introdução ao volume 16 da obra “Lectio divina: per ogni giorno dell’anno”, dirigida por Giorgio Zevini e Pier Giordano Cabra.
Este livro refere igualmente que, lendo nós a vida dos santos à luz da Palavra de Deus, aprendemos também a ler a nossa própria vida, descobrindo com eles o segredo de viver melhor o nosso quotidiano.

O Jornal de Notícias decidiu oferecer aos seus leitores um conjunto de livros sobre alguns santos. Esta coleção é uma oportunidade para conhecer melhor a sua vida e, a essa luz, fazermos uma releitura da nossa vida.
Nossa Senhora de Fátima abre esta coleção. Ela que é seguramente aquela, de entre todos os santos, a quem os portugueses dedicam uma maior veneração.
Seguem-se outros. Os três santos celebrados no mês de Junho, conhecidos pelos Santos Populares: Santo António, São João e São Pedro. Faz também parte desta coleção São Francisco de Assis, que não sendo um santo popular é um dos santos mais conhecidos em toda a cristandade e fora dela.
Para além destes são também contemplados Santa Bárbara e São Jorge, com uma grande tradição na piedade popular. A santa protetora das trovoadas entrou mesmo na linguagem proverbial portuguesa e São Jorge era já invocado pelo Santo Condestável, Nuno Álvares Pereira, que atribuiu à sua intercessão a vitória na Batalha de Aljubarrota.
Juntam-se a estes alguns que adquiriram uma relevância particular por serem invocados em situações particularmente difíceis, como é o caso de S. Rita de Cássia, S. Judas Tadeu e Santa Hedviges, a protetora dos pobres, dos aflitos e dos endividados.
Completa este conjunto de santos o esposo de Maria: São José, padroeiro da Igreja universal.

Foram muitos os homens e as mulheres que trilharam o caminho da santidade. Este é um bom conjunto para os representar.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 13/01/2017)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O “Papa Negro”

Papa Francisco com P. Arturo Sosa, Geral dos jesuítas
Foto retirada daqui
Os jesuítas elegeram o venezuelano Arturo Sosa para seu Superior Geral, no último fim de semana. Durante quase cinco séculos de história – completaram no mês de setembro 476 anos de existência – essa função foi sempre desempenhada por europeus e, salvo raras exceções, oriundos da Europa Ocidental.

Desde esta semana, tanto o Papa Francisco como o denominado “Papa Negro”, são oriundos do mesmo continente. Esta designação deve-se ao facto de o Superior Geral dos Jesuítas usar a batina negra própria dos clérigos e ambos receberem um encargo vitalício. Ainda que, como aconteceu com Bento XVI, bem como com os últimos Superiores Gerais, possam renunciar aos seus cargos.

No passado, falava-se destes dois Papas também pelo poder que o Superior Geral detinha dentro da Igreja e fora dela, uma vez que os jesuítas geriam as mais destacadas universidades do mundo e estavam presentes nas principais cortes, nomeadamente como confessores de reis e de rainhas.

Foi o seu poder de influência nas decisões políticas que terá despertado invejas e motivado a perseguição que culminou, em 1773, com a supressão da Companhia de Jesus. Acabaria por ser restaurada em 1814 e, desde então, tornou-se num dos institutos religiosos masculinos com maior número de membros: atualmente tem mais de quinze mil jesuítas, espalhados pelos cinco continentes, com uma particular dedicação ao ensino e à investigação. Apesar de, em muitos contextos, conviverem com as elites, também não esquecem os mais pobres e a atividade missionária nos países mais recônditos.

Arturo Sosa vai liderar esta relevante congregação da Igreja. Contará, certamente, com a cumplicidade do Papa. Para além de ambos serem latino-americanos, une-os uma amizade desenvolvida no interior da Companhia de Jesus, anterior aos cargos que agora desempenham. E partilham a mesma preocupação e empenhamento na luta contra a pobreza.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 21/10/2016)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Os cardeais de Francisco

Foto retirada daqui
O Papa Francisco anunciou este domingo a criação de 17 novos cardeais no consistório que se realizará a 19 de Novembro, na vigília do encerramento da Porta Santa do Ano da Misericórdia.

Quatro dos cardeais agora nomeados ultrapassaram os oitenta anos, pelo que já não poderão participar na eleição do Papa. Um deles é um sacerdote albanês, perseguido pelo regime comunista que proclamou a Albânia como “o primeiro estado ateu no mundo”. O P. Ernest Simoni, agora com 88 anos, foi sujeito a trabalhos forçados entre 1963 e 1990. O seu testemunho emocionou Francisco durante a visita à Albânia em Setembro de 2014, que agora decidiu conceder-lhe o título cardinalício.

Esta não é uma novidade de Francisco. Já no consistório de 26 de Novembro de 1994, João Paulo II fez cardeal Mikel Koliqi, ele um sacerdote albanês perseguido pelo comunismo.

Com mais esta nomeação de Francisco, continua a verificar-se a tendência de universalização do colégio cardinalício iniciada por Pio XII. Desde então, tem vindo a diminuir o número de cardeais italianos e europeus e a aumentar o dos oriundos de outras geografias. Dos 13 cardeais com menos de 80 anos, três são europeus, três da América Latina, três dos Estados Unidos, dois africanos, um da Ásia e outro da Oceânia. Isto traduz bem a preocupação de Francisco em nomear cardeais dos cinco continentes.

Para além dessa tendência, o Papa continua a não atribuir o barrete cardinalício em função das prerrogativas que determinadas dioceses adquiriram no passado, mas sim pelo perfil pastoral dos bispos escolhidos para receberem essa distinção. Os bispos de Turim e de Veneza, dioceses habituadas a ter um cardeal, voltaram a ser preteridos nas escolhas do Papa.

A lógica de Francisco não é a dos privilégios, por vezes adquiridos no passado a peso de ouro. A sua lógica é pastoral, determinada por uma especial atenção às “periferias”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/10/2016)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Igreja mostra contas

Foto retirada daqui
A Santa Sé está atenta à crise humanitária na Síria e no Iraque. Pela quinta vez reuniram-se, ontem, no Vaticano cerca de quarenta instituições católicas presentes no Médio Oriente. Pela primeira vez, o Papa Francisco abriu os trabalhos, sinal do seu empenhamento pessoal nesta questão. Estiveram também presentes representantes do episcopado da região, das congregações religiosas, os núncios apostólicos na Síria e no Iraque. Acompanharam os trabalhos o secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin e o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, e o secretário do Pontifício Concílio “Cor Unum” (organismo promotor do encontro), D. Giampietro Dal Toso.

Esta reunião tinha como objetivo fazer “o balanço do trabalho desenvolvido até agora pelos organismos caritativos católicos no contexto da crise (…), individualizar as prioridades para o futuro, analisar a situação das comunidades cristãs residentes em países afetados pela guerra, promovendo a sinergia entre as dioceses, congregações religiosas e órgãos da igreja”, segundo uma nota de imprensa do “Cor Unum”.

Os doze mil voluntários e profissionais da Igreja Católica presentes no Médio Oriente apoiam mais de quatro milhões de pessoas na região, segundo a mesma nota de imprensa, e no ano de 2015 gastaram mais de 200 milhões de euros. Este ano, só até Julho, já foi despendida quase a mesma verba.

É importante que as instituições da Igreja, também em Portugal e à semelhança do que aconteceu ontem no Vaticano, se reúnam para avaliar as suas iniciativas e projetar o futuro da sua ação social. Devem também divulgar os recursos humanos e financeiros que empregam e a origem destes últimos. Devem fazê-lo, não tanto para fazer propaganda da sua ação e justificar os apoios que recebem, mas, sobretudo, para demonstrar a sua fidelidade ao Evangelho, na opção preferencial pelos mais pobres.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/09/2016)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

As religiões e a paz

Foto retirada daqui
O mundo mudou muito desde que os representantes de várias religiões se reuniram pela primeira vez em Assis, há trinta anos, em torno do Papa João Paulo II. Então rezava-se pelo fim da Guerra Fria e da escalada nuclear que ameaçava destruir o planeta. Agora pede-se o fim da “Terceira Guerra Mundial em pedaços”, como a tem denominado o Papa Francisco.

Mais de 400 líderes religiosos reuniram-se de novo para reavivar o espírito de Assis. Juntaram as suas vozes para condenar os que matam em nome de Deus e testemunhar a sua convicção de que as “religiões são e podem ser fontes de paz”, como disse Andrea Riccardi, da Comunidade de S. Egídio, na abertura do encontro.

Na declaração final conjunta, “homens e mulheres de diferentes religiões” afirmam claramente: “A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso”.

Tamar Mikalli deu o seu testemunho de como a guerra pôs fim a um bom relacionamento entre pessoas de diferentes credos. “Venho de Alepo, a cidade mártir da Síria. Alepo, quando pronuncio este nome, apertasse-me o coração... Vêm-me à mente tantos amigos muçulmanos e cristãos. Agora há divisões entre cristãos e muçulmanos, mas antes da guerra não existiam… Depois rebentou a guerra, ainda não sei bem porquê. Começaram a chover mísseis que destruíam as casas. Ainda ouço os gritos de um pai, de uma mãe ou os gritos das crianças que procuram os seus pais”.

São testemunhos como este que desafiam a abandonar o “paganismo da indiferença”, que o Papa denunciou em Assis. E estimulam os crentes a serem construtores de paz, no interior das suas comunidades e com os que professam outra fé.

(Texto publicado no Correio da Manhã de236/09/2016)

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Redenção na prisão

Os três reclusos que fazem hóstias na cadeia de Milão, Itália.
Giuseppe (perpétua), Cristiano (condenado a 23 anos) e Ciro (perpétua)
Foto retirada daqui
Não falta quem pense que tudo o que se faz com os reclusos é tempo perdido. Todavia, continua a haver quem acredite que o tempo de reclusão pode transformar-se numa oportunidade de conversão.

Foi com esta convicção que a Fundação “Casa dello Spirito e delle Arti” pôs três reclusos, que cumprem penas pesadas por homicídio, na cadeia de alta segurança de Milão, em Itália, a produzir hóstias. Ciro, Giuseppe e Cristiano, em Abril, levaram pessoalmente ao Papa Francisco doze mil hóstias. “Entregámos ao Santo Padre o fruto do nosso trabalho e da nossa redenção. Jesus, presente com o seu corpo na Eucaristia, mudou o nosso coração e hoje podemos testemunhar a todos que a Misericórdia de Deus é possível para todos, até para quem – como nós – tenha cometido crimes horrendos”, disseram então ao sítio “Vatican Insider”.

Durante o mês de Agosto, as mesmas mãos que antes tiraram a vida, produziram agora dezasseis mil partículas que serão consagradas no Congresso Eucarístico que decorre, desde ontem até domingo, na cidade italiana de Génova.

Hoje, na cadeia de Bragança, conclui-se uma sessão da Novahumanitas, denominada “Descobre-te a ti mesmo…” Esta formação pretende ajudar cada participante “a iniciar um processo de autoconhecimento e de crescimento pessoal que o conduza a uma maior liberdade e plenitude de vida”. É a primeira vez que é ministrada em contexto prisional. Ao longo de quatro dias, guiados por Maria dos Anjos, com os seus “78 anos de juventude acumulada”, homens amargurados e angustiados fizeram a experiência de, talvez pela primeira vez, entrar em si mesmos. Descobriram que, para além dos seus defeitos e falhas, também são habitados por valores e potencialidades. Sentiram o desejo de mudar as suas vidas.

Oxalá o consigam, para que também eles se convertam em testemunhas de que, apesar de tudo o que se possa ter feito, é sempre possível mudar de vida.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 16/09/2016)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A santa de Francisco

Foto de Andreas Solaro/AFP retirada daqui
Cada um dos últimos papas tem os seus santos. E estes podem ser considerados o “ponto de referência e uma síntese eficaz da mensagem do Pontífice que os elevou aos altares”.

Esta é a leitura de Andrea Tornelli, vaticanista, para quem “não há dúvida que Madre Teresa de Calcutá é emblemática para o pontificado de Francisco, como o foram, por exemplo, os mártires do Uganda proclamados santos por Paulo VI, ou as canonizações de José Maria Escrivá e da Santa Faustina Kowalska para o pontificado de João Paulo II”. Mas de quem falamos, quando falamos da agora Santa Teresa?

Foi longo o caminho que ela percorreu desde a sua terra natal, então Üsküp, hoje Skopje, capital da Macedônia, até chegar às ruas de Calcutá. Nascida numa família de origem albanesa, desde cedo sentiu o desejo de ser missionária na Índia. Passou pela Irlanda, onde entrou numa congregação religiosa e aprendeu inglês. Quando já era diretora e professora num colégio de meninas ricas em Calcutá, abandonou o conforto do convento para recolher moribundos abandonados nas sarjetas, o que lhe valeu o epíteto de “santa das sarjetas”.

Foi então que fundou a congregação das Missionárias da Caridade, que se dedicaram, nas suas palavras, “aos famintos, aos nus, aos que não têm lar, aos aleijados, aos cegos, aos leprosos, toda essa gente que se sente inútil, não amada ou desprotegida pela sociedade, gente que se converteu num fardo para a sociedade e que é rejeitada por todos”.

O Papa Francisco destacou, na missa da canonização, a “sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece, nos nossos dias, como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres”. Nesta santa confluem duas das principais preocupações do Papa: os mais pobres; e “a Igreja em saída” para as periferias. Por isso, Madre Teresa é a santa à imagem de Francisco.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/09/2016)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Papa e o Facebook

Papa Francisco recebe Mark Zuckerberg
Foto retirada daqui
O papa Francisco recebeu Mark Zuckerberg, o fundador e CEO da rede social Facebook. Conversaram sobre “como usar as tecnologias de comunicação para aliviar a pobreza, promover uma cultura do encontro e fazer com que uma mensagem de esperança possa chegar especialmente às pessoas mais necessitadas”, refere um comunicado do porta-voz da Santa Sé.

O Papa já assumiu que não sabe utilizar o computador e que o seu aparelho preferido é a rádio, porque só tem dois botões, um para sintonizar e outro para o volume. Mesmo assim, avalia como positivas as redes sociais e a Internet para a vivência da fé. O que não o impede de as considerar envoltas em muitos perigos e riscos, em sintonia aliás com a reflexão que a Igreja tem produzido sobre esta temática desde 2002, o ano em que foram publicados os primeiros documentos dedicados especificamente à relação entre a Igreja e a Internet e à “ética na rede”.

Na mensagem para o dia mundial das comunicações de 2014 o Papa reconhecia que a “Internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus”. E já na mensagem deste ano lembrou que “as redes sociais são capazes de favorecer as relações e de promover o bem da sociedade, mas podem também levar a uma maior polarização e divisão entre as pessoas e os grupos”.

Todos os meios de comunicação social, e particularmente as novas tecnologias, provocam duas reações típicas no seio da Igreja: uns reagem liminarmente à sua utilização e realçam os seus perigos; outros aderem a eles de forma ingénua, inconsciente e acrítica. Ora, a melhor atitude em relação às novas tecnologias e à Internet deverá situar-se algures entre a condenação moralista e a excessiva confiança. Tal como tem feito o Papa, deve promover-se a serena consciência das suas oportunidades e uma atitude vigilante em relação aos seus riscos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/09/2016)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Papa do sorriso

João Paulo I
Foto retirada daqui
Comemoram-se, hoje, os 38 anos da eleição do cardeal Albino Luciani para Papa. Em homenagem aos antecessores João XXIII e Paulo VI, os Papas do Concílio, adotou o nome de João Paulo. Para comemorar esta data, é inaugurado um museu a ele dedicado, na sua terra natal, Canale d'Agordo, na região de Veneza, em Itália.

Nas vésperas da sua eleição o cardeal Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, no Brasil, definia numa entrevista o que deveria ser o perfil do futuro Papa: “Um homem de esperança… Deveria ser sensível aos problemas sociais, aberto ao diálogo… Deveria ser, acima de tudo, um bom pastor…” Albino Luciani correspondia a este perfil e os cardeias elegeram-no convictos que ele iria dar continuidade às reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II e renovar a Cúria Romana.

O museu hoje inaugurado, segundo o Vatican Insider, para além de reunir objetos que ajudam a conhecer melhor João Paulo I, procura também situá-lo no contexto em que nasceu e onde desenvolveu a sua personalidade, dar a conhecer as suas raízes. O catolicismo da região em que Luciani cresceu era, nos finais do século XIX e princípios do século XX, “tudo menos retrógrado”. E parece ter sido também determinante para a sua sensibilidade às questões sociais o convívio com o pai, que era operário e um socialista convicto.

O curto pontificado – apenas 33 dias – não lhe permitiram introduzir na Igreja as reformas que pretendia, mas bastou para demonstrar que era uma pessoa bem-humorada e que não se submetia ao protocolo vaticano. Gostava de contar anedotas e entabulava diálogo com os jovens e crianças nas audiências papais.

Ficou para a história como o “Papa do Sorriso”. Foi precursor de muitas das práticas que se tornaram habituais com o atual Papa. Infelizmente, não conseguiu implementar muitas das mudanças que – já então, há 38 anos... – se percebiam como urgentes.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/08/2016)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Concórdia hospitalar

Irmão Fiorenzo Priuli (à esquerda)
Foto de Bruno Zanzottera/Parallelozero
Os líderes do Daesh convencem os seus seguidores a imolarem-se e a semear o terror em nome de Deus. O Papa Francisco, na viagem à Polónia, denunciou as verdadeiras motivações do que se pretende fazer crer que é uma “guerra de religiões”. Na verdade, o que está a acontecer é uma “guerra de interesses”, uma “guerra pelo dinheiro”, uma “guerra pelos recursos da natureza”, uma “guerra pelo domínio dos povos”. E concluiu: “Todas as religiões, queremos a paz. A guerra querem-na os outros”.

Felizmente há pessoas autenticamente religiosas que dão o testemunho de uma sadia convivência entre credos diferentes. O sítio “Vatican Insider” relata, esta semana, o caso de um hospital na cidade de Tanguiéta, no Benim, em África, que “une cristãos e muçulmanos”.

Foi fundado em 1970 pela Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, um santo português. Começou a funcionar com apenas 82 camas. Hoje disponibiliza 415 para doentes de todos os credos e oriundos até dos países vizinhos. Tornou-se num centro universitário e impôs-se como um “polo de excelência da medicina africana”.

Apesar de se tratar de uma instituição católica, os trezentos profissionais de saúde professam convicções religiosas diversas. E, assim, “dão um importante testemunho ao mundo, comprovam que a fraternidade e a mútua compreensão são possíveis”, como disse ao “Vatican Insider” o Irmão Fiorenzo Priuli, cirurgião e diretor do hospital. Este irmão hospitaleiro desenvolveu um bom relacionamento pessoal com o anterior e o atual califa de Kiota (cidade do Níger, a 700 quilómetros de Tanguiéta). “Não se trata de uma simples amizade entre dois homens, mas de uma amizade que envolve a população, que é a primeira testemunha e a primeira beneficiária”, realça o califa Moussa Aboubacar.

São exemplos destes que ajudam a vencer, em relação aos muçulmanos, os receios e as desconfianças que os ataques terroristas fomentam.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 12/08/2016)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O Papa cumpre

Phyllis Zagano, defensora da ordenação de mulheres
Foto da Universidade de Hofstra 
O Papa Francisco não se comporta como alguns líderes políticos. As promessas que faz são para cumprir. As suas palavras não são de circunstância, têm consequências.

No passado dia 12 de Maio, perante as superiores das congregações religiosas reunidas em Roma, assumiu o compromisso de criar uma comissão para estudar se, no passado, as mulheres já terão sido ordenadas diaconisas. Outras igrejas cristãs já deram esse passo, com base na convicção de que na Igreja primitiva elas teriam sido ordenadas, nomeadamente na administração do batismo a senhoras. Esta terça-feira o Papa nomeou a comissão que fará esse estudo e poderá abrir a possibilidade da ordenação de mulheres na Igreja Católica.

Desde o início do seu pontificado Francisco tem-se empenhado em promover o papel da mulher e a sua participação nas instâncias de decisão da Igreja. Já disse que essa dignificação da mulher não passa necessariamente pelo acesso à ordenação. Contudo, apesar de não ser essa a sua opinião, não só não se opõe a que o assunto seja debatido, como ele próprio promove esse debate.

A comissão que irá fazer o estudo tem uma composição curiosa. Dos 12 elementos que a constituem, metade estão ligados a instituições romanas e os outros são provenientes de diversos organismos espalhados pelo mundo. Os peritos escolhidos pelo Papa, são também em igual número de homens e de mulheres.

Porém, mais extraordinário do que a sua constituição paritária, é o facto de o Papa ter escolhido para a integrar uma mulher que tem defendido argumentos sérios para a ordenação das mulheres. Trata-se de Phyllis Zagano, professora de espiritualidade na universidade americana de Hofstra, em Hempstead, Nova Iorque.

Com esta nomeação, o Papa Francisco dá um sinal claro de que prefere ouvir e dialogar, até com os que pensam de forma diferente da sua. Nem os ignora, nem tenta calar a sua voz no seio da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 05/08/2016)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A porta-voz do Papa

O Papa Francisco já reconheceu por diversas vezes que a mulher é marginalizada na Igreja e tem-se empenhado em corrigir esta situação. Por isso, tem introduzido algumas inovações, de carácter simbólico, em tradições multiseculares. Foi o caso de admitir mulheres no lava-pés ou a promoção a festa da celebração litúrgica de S. Maria Madalena, que acontece hoje pela primeira vez.

Na Igreja, as celebrações litúrgicas podem ter quatro categorias. As datas com menor relevância são celebradas como memória facultativa – o celebrante pode mencioná-las ou não; as que têm uma relevância maior são memória obrigatória para todo o mundo. Há ainda a classificação de “festa”, para as celebrações mais importantes, e de “solenidade”, para as datas mais significativas para os católicos, como celebrar S. Pedro e S. Paulo, o Corpo de Deus ou o Natal. S. Maria Madalena foi elevada de memória obrigatória à categoria de festa.

Recentemente, o Papa tomou outra decisão que promove a mulher no seio da Igreja. Para substituir o diretor da Sala da Imprensa da Santa Sé, o P. Federico Lombardi, escolheu dois jornalistas: o norte-americano Greg Burke, como diretor, e a espanhola Paloma García Ovejero, como vice-diretora. Pela primeira vez, uma mulher vai desempenhar as funções de porta-voz do Papa.

Esta nomeação, para além de trazer uma mulher para a primeira linha da comunicação institucional da Igreja, revela a preocupação da Santa Sé em se expressar, não só em italiano, mas também nas duas principais línguas do catolicismo: o inglês (a língua franca do mundo contemporâneo) e o espanhol (a língua mais falada pelos católicos no mundo).

Nesta geometria linguística ficou de fora o português. Uma pena, porque o país com mais católicos é o Brasil (125 milhões) e o país mais católico do mundo é Timor-Leste (97% da população) – e ambos falam português. Esperemos que o Papa corrija esta falta.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/07/2016)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Bento revolucionário

Papa Francisco e o Papa Emérito Bento XVI
Foto retirada daqui
O Papa Francisco deu uma entrevista ao jornal argentino “La Nación”. Nela aborda sobretudo questões que interessam aos leitores do seu país. Rejeita ter um relacionamento tenso com o presidente argentino. E fala da polémica receção no Vaticano de uma das mães da Praça de Maio, que no passado criticou duramente o então cardeal Bergoglio.

A entrevista coincidiu com a celebração dos 65 anos de ordenação sacerdotal de Bento XVI. Por isso, deste lado do Atlântico, o que mereceu maior destaque foi a forma carinhosa como o Papa se referiu ao seu antecessor e como o classificou a sua renúncia.

“Foi um revolucionário (…). É de louvar o seu desprendimento. A sua renúncia expôs todos os problemas da Igreja. A sua abdicação não teve nada que ver com nada pessoal. Foi um ato de governo, o seu último ato de governo”, disse o Papa acerca de Bento XVI.

Quando ainda perdura na opinião pública (e na publicada...) a imagem conservadora e até retrograda do cardeal Ratzinger, é o próprio Papa que o considera um pontífice avançado. Mas, mais relevante do que isso, foi ter destacado a principal virtualidade da sua resignação: o seu desprendimento obrigou a Igreja a confrontar-se com a podridão que campeava no seu interior. Esse tratamento de choque, não só permitiu o advento de Francisco, como facilitou a sua intervenção em ordem à reforma da Cúria Romana e da Igreja no seu todo.

Com estas palavras de Francisco, a histórica resignação de Bento XVI ganhou o um novo sentido. Mais do que uma desistência, ou o reconhecimento de uma incapacidade para promover a reforma, trata-se de um verdadeiro ato promotor da renovação da Igreja.

A forma como o Papa Francisco trata e considera o seu antecessor, bem como a forma como este tem exercido a sua condição de Papa emérito – dizem bem da enorme estatura destes dois homens. Em vez de se atrapalharem, apoiam-se e promovem-se reciprocamente.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/07/2016)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Vaticano e os pobres

Foto retirada daqui
O Papa Francisco dedica aos mais pobres uma atenção privilegiada. Na Evangelii Gaudium escreveu: “O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los” (nº58).

No mesmo texto adverte que “o crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha – requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo”.

Em sintonia com o Papa, o Pontifício Conselho Justiça e Paz promoveu, em 2014, um congresso para refletir sobre o investimento ao serviço do bem comum, na linha da Evangelii Gaudium. “A solidariedade com os pobres e com os excluídos estimulou-vos a refletir sobre uma forma emergente de investimento responsável, conhecida como Impact Investing”, disse então o Papa aos congressistas. E desafiou-os a “estudar formas inovadoras de investimento, que possam proporcionar benefícios às comunidades locais e ao ambiente circunstante”.

Durante esta semana reuniram-se no Vaticano académicos, políticos e clérigos para estudar o impacto dos investimentos no combate à pobreza. Este ano pretende-se aprofundar “como a Igreja Católica e outras instituições religiosas podem canalizar o resultado dos investimentos para sustentar a sua própria missão social”. E, também, como “ desenvolver estratégias para captar investimentos privados em ordem a servir os mais pobres e os mais vulneráveis”, disse o cardeal Peter Turkson, presidente da Justiça e Paz.

É importante que a Igreja, em relação à pobreza, vá vencendo a tentação do “mero assistencialismo”. E que saiba encontrar novas formas para financiar e gerir a luta contra as suas causas estruturais.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 01/07/2016)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O Papa e os presos

Papa Francisco na prisão de Ciudad Juarez, México
Foto retirada daqui
Há uma tendência para esconder as realidades que incomodam, como é o caso do envelhecimento ou da delinquência. Os idosos são “despejados” nos lares de terceira idade, os presos são amontoados em estabelecimentos prisionais – e por lá são esquecidos.

O Papa Francisco, contudo, não os esquece. E expressou o seu desejo de “incentivar todos a trabalhar, não somente pela abolição da pena de morte, mas também pelo melhoramento das condições de detenção, para que respeitem plenamente a dignidade humana das pessoas privadas de liberdade”. Disse-o numa vídeo-mensagem dirigida aos participantes num congresso mundial contra a pena de morte que terminou ontem em Oslo, na Noruega.

Em Portugal, por exemplo, as condições dos reclusos têm vindo a melhorar. No Estabelecimento Prisional de Bragança, onde sou assistente espiritual, o balde foi substituído por casas de banho nas celas e houve outras notórias melhorias. Mas muito há ainda a fazer.

Um dos principais problemas é a sobrelotação das cadeias. A 15 de Junho deste ano, segundo os dados da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, a taxa de ocupação situava-se nos 112,4%. Enquanto entre nós se verifica a necessidade de ampliar ou construir novas instalações prisionais, noutros países estas estão a ser encerradas, como acontece na Suécia e na Noruega. Aí encontraram-se outras formas de aplicar a justiça e apostou-se no acompanhamento dos que saem em liberdade.

Em Portugal, porém, há reclusos que rejeitam a saída em liberdade porque não têm para onde ir. Durante a sua reclusão nada os prepara para a vida cá fora e, muitas vezes, acabam por regressar ao mundo do crime e, mais tarde, à prisão.

É por isso imperativo apostar na prevenção. É crucial aplicar penas alternativas à prisão. E é obrigatório acompanhar, séria e empenhadamente, os que saem em liberdade. Só é justo quem tenta ajudar o seu semelhante a melhorar.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/06/2016)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Bispo dos sem-terra

D. Pedro Casaldáliga bispo emérito de São Félix do Araguaia, Brasil
Foto retirada daqui
Pedro Casaldáliga é um daqueles homens admirado por muitos e odiado por outros tantos. Este catalão, hoje com 88 anos, foi enviado para o Brasil, para a floresta amazónica, fundar uma missão claretiana em 1968. Acabou por ser nomeado por Paulo VI bispo de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso. Defensor de uma “democracia participativa”, submeteu a escolha do Papa a uma assembleia local constituída por religiosos e leigos. E só após a anuência desta aceitou a nomeação.

Na sua ordenação episcopal, a 23 de outubro de 1971, em vez da mitra própria dos bispos usou um chapéu de palha dos agricultores. Para báculo escolheu um bastão de madeira, típico dos indígenas tapirapé do Mato Grosso. Preferiu um anel usado pelos escravos, feito de uma semente de tucum, uma palmeira da Amazônia, a um de ouro ou prata. E, tal como o atual Papa, não habitou no palácio episcopal.

Defensor dos sem terra e dos mais pobres, depressa arranjou inimizades entre os latifundiários e junto da ditadura militar. Recebeu inúmeras ameaças de morte, mas nada o demoveu de continuar a defender os oprimidos e a lutar pela justiça. Fê-lo também através de inúmeros poemas que foi publicando ao longo dos anos. Pelas causas em que se empenhou, foi logo classificado como de esquerda e como revolucionário.

Esta semana foi apresentada em Madrid uma obra que reúne uma seleção dos seus textos, nas suas três línguas: português, castelhano e catalão. Nessa circunstância, disse-se que ele não era “nem de direita nem de esquerda”, mas “um homem intrépido”, para quem “se há algo irrenegociável é o Evangelho”. Há dias, em Lisboa, o P. António Spadaro, questionado sobre se o Papa Francisco era revolucionário, respondeu: “Revolucionário é o Evangelho”.

Homens como Casaldáliga ou o Papa Francisco não são revolucionários. São é fiéis aos valores do Evangelho de Jesus Cristo. E não se vergam a nada, nem a ninguém.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/06/2016)