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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O Papa cumpre

Phyllis Zagano, defensora da ordenação de mulheres
Foto da Universidade de Hofstra 
O Papa Francisco não se comporta como alguns líderes políticos. As promessas que faz são para cumprir. As suas palavras não são de circunstância, têm consequências.

No passado dia 12 de Maio, perante as superiores das congregações religiosas reunidas em Roma, assumiu o compromisso de criar uma comissão para estudar se, no passado, as mulheres já terão sido ordenadas diaconisas. Outras igrejas cristãs já deram esse passo, com base na convicção de que na Igreja primitiva elas teriam sido ordenadas, nomeadamente na administração do batismo a senhoras. Esta terça-feira o Papa nomeou a comissão que fará esse estudo e poderá abrir a possibilidade da ordenação de mulheres na Igreja Católica.

Desde o início do seu pontificado Francisco tem-se empenhado em promover o papel da mulher e a sua participação nas instâncias de decisão da Igreja. Já disse que essa dignificação da mulher não passa necessariamente pelo acesso à ordenação. Contudo, apesar de não ser essa a sua opinião, não só não se opõe a que o assunto seja debatido, como ele próprio promove esse debate.

A comissão que irá fazer o estudo tem uma composição curiosa. Dos 12 elementos que a constituem, metade estão ligados a instituições romanas e os outros são provenientes de diversos organismos espalhados pelo mundo. Os peritos escolhidos pelo Papa, são também em igual número de homens e de mulheres.

Porém, mais extraordinário do que a sua constituição paritária, é o facto de o Papa ter escolhido para a integrar uma mulher que tem defendido argumentos sérios para a ordenação das mulheres. Trata-se de Phyllis Zagano, professora de espiritualidade na universidade americana de Hofstra, em Hempstead, Nova Iorque.

Com esta nomeação, o Papa Francisco dá um sinal claro de que prefere ouvir e dialogar, até com os que pensam de forma diferente da sua. Nem os ignora, nem tenta calar a sua voz no seio da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 05/08/2016)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A porta-voz do Papa

O Papa Francisco já reconheceu por diversas vezes que a mulher é marginalizada na Igreja e tem-se empenhado em corrigir esta situação. Por isso, tem introduzido algumas inovações, de carácter simbólico, em tradições multiseculares. Foi o caso de admitir mulheres no lava-pés ou a promoção a festa da celebração litúrgica de S. Maria Madalena, que acontece hoje pela primeira vez.

Na Igreja, as celebrações litúrgicas podem ter quatro categorias. As datas com menor relevância são celebradas como memória facultativa – o celebrante pode mencioná-las ou não; as que têm uma relevância maior são memória obrigatória para todo o mundo. Há ainda a classificação de “festa”, para as celebrações mais importantes, e de “solenidade”, para as datas mais significativas para os católicos, como celebrar S. Pedro e S. Paulo, o Corpo de Deus ou o Natal. S. Maria Madalena foi elevada de memória obrigatória à categoria de festa.

Recentemente, o Papa tomou outra decisão que promove a mulher no seio da Igreja. Para substituir o diretor da Sala da Imprensa da Santa Sé, o P. Federico Lombardi, escolheu dois jornalistas: o norte-americano Greg Burke, como diretor, e a espanhola Paloma García Ovejero, como vice-diretora. Pela primeira vez, uma mulher vai desempenhar as funções de porta-voz do Papa.

Esta nomeação, para além de trazer uma mulher para a primeira linha da comunicação institucional da Igreja, revela a preocupação da Santa Sé em se expressar, não só em italiano, mas também nas duas principais línguas do catolicismo: o inglês (a língua franca do mundo contemporâneo) e o espanhol (a língua mais falada pelos católicos no mundo).

Nesta geometria linguística ficou de fora o português. Uma pena, porque o país com mais católicos é o Brasil (125 milhões) e o país mais católico do mundo é Timor-Leste (97% da população) – e ambos falam português. Esperemos que o Papa corrija esta falta.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/07/2016)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

As mulheres na Igreja

Papa Francisco na Assembleia
das Superioras das Congregações Religiosas
Foto da REUTERS retirada daqui
O papel da mulher na Igreja Católica continua a parecer secundário, apesar de nas suas assembleias serem a maioria e desempenharem nas comunidades tarefas relevantes. Isto deve-se ao facto de lhes ser vedado o acesso à ordenação e às instância em que muitas das decisões são tomadas, entre outras razões. O próprio Papa o reconheceu perante as superioras das congregações femininas reunidas em Roma.

Desafiado nesse contexto a criar uma comissão para esclarecer se, nos primeiros tempos do cristianismo, as mulheres já terão sido ordenadas diaconisas, o Papa aceitou o repto e até valorizou como “útil” esse esforço. De facto, há documentos da antiguidade cristã que referem as diaconisas, embora não seja claro se terão, ou não, recebido o sacramento da Ordem.

Até agora, tendo como base que entre as escolhas de Jesus para apóstolos não figura nenhuma mulher, assumiu-se que a Igreja não poderia ir além das decisões do seu fundador. Foi isso que levou João Paulo II a afirmar que “a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”.

Em relação a esta posição oficial do magistério, há quem não dê a questão por encerrada e contraponha que Jesus terá tomado essa opção numa concessão à cultura patriarcal em que viveu, embora o Evangelho registe vários gestos seus desafiantes e contracorrente. Por exemplo, quando permite a uma samaritana discutir com ele teologia, o que era impensável à época. Para estes, não são razões teológicas, mas sim razões culturais que impediram até hoje a Igreja de dar esse passo.

Veremos se a tal comissão irá comprovar a ordenação de diaconisas no passado. Se tal suceder, poder-se-á pensar em restaurar essa práxis e em dar mais um passo para garantir a paridade das mulheres no seio da Igreja Católica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/05/2016)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Reformar e ousar

Foto retirada daqui
É cada vez mais evidente que o Papa Francisco não se acomoda a soluções fáceis para os problemas difíceis que a Igreja tem de enfrentar. Nunca o fez quando esteve à frente dos jesuítas argentinos, nem enquanto foi arcebispo de Buenos Aires. Também não o faz agora como Bispo de Roma. É esta a convicção de Austen Ivereigh, jornalista e autor do livro “Francisco, o Grande Reformador: Os Caminhos de um Papa Radical”. Esteve em Lisboa, esta semana, para apresentar essa obra que procura dar a conhecer a vida de Jorge Mario Bergoglio para melhor compreender as reformas que está a introduzir na Igreja.

Contrariamente ao que acontece com o Papa, muitas vezes tem-se receio em inovar. Ou não se enfrentam as questões ou se escolhem as soluções mais cómodas, que normalmente não são as melhores. Um dos problemas que se sente em algumas latitudes do catolicismo é a falta de clero. Para resolver esse problema é mais fácil juntar paróquias que investir na promoção de líderes da comunidade que possa vir a desempenhar essa missão, sejam eles celibatários ou casados, homens ou mulheres.

“Isso é a coisa mais sem imaginação que alguém pode fazer. Até mesmo alguns em cargos de responsabilidade em Roma acham extraordinária esta solução” disse o Pe. Helmut Schüller, ex-vigário geral do cardeal de Viena, Christoph Schönborn, numa entrevista ao jornal austríaco Salzburger Nachrichten. “A Igreja Católica, ou consegue garantir sacerdotes às suas comunidades, ou deverá começar a desenvolver novas formas de liderança comunitária. Foi exatamente assim que as primeiras comunidades cristãs reagiram. A liderança comunitária desenvolvia-se simultaneamente em diferentes formas”, disse na mesma entrevista.

Em determinados contextos, como o da América Latina, esta situação está a levar ao abandono da prática religiosa e a levar os católicos a aderir a outras confissões religiosas. “Algumas comunidades são visitadas por um padre duas ou três vezes por ano apenas. As comunidades pentecostais, por outro lado, são muito pequenas e cada uma tem o seu pastor”, denunciou o Pe. Schüller.


É urgente que os bispos de todo o mundo saibam acompanhar o Papa e investir em soluções mais ousadas para os problemas candentes das suas dioceses, como é o da escassez de clero.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 12/06/2015)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Papa e a arcebispa

Foto retirada daqui
O Papa Francisco recebeu, no início de maio, a arcebispa luterana de Uppsala, na Suécia, Antje Jackelen. Falou-se sobretudo do diálogo entre os cristãos das diferentes igrejas. “Na realidade, eles não devem ser considerados adversários ou concorrentes, mas reconhecidos por aquilo que são: irmãos e irmãs na fé” disse o Papa. Em consonância, saudou a líder da igreja luterana na Suécia como “querida irmã”.

Nesse encontro o Papa fez questão de sublinhar “a questão da dignidade da vida humana, que deve ser sempre respeitada, assim como o são as temáticas relativas à família, ao matrimónio e à sexualidade, que não podem ser silenciadas ou ignoradas por receio de pôr em perigo o consenso ecuménico já alcançado. Seria lastimável se sobre estas questões se consolidassem novas diferenças confessionais”.

Estas palavras tiveram diferentes leituras. Uns destacam os consensos já conseguidos nas chamadas “questões fraturantes” entre as diferentes igrejas cristãs. Viram nas palavras do Papa um desejo de consolidação desse caminho já percorrido, o qual não exige a mudança da práxis católica nessas matérias para salvar o diálogo ecuménico.

Para outros, o Papa, ao acolher uma mulher ordenada, que apoia o casamento de pessoas do mesmo sexo na igreja, está a dar um sinal de abertura à admissão de mulheres ao sacramento da ordem e dos homossexuais ao sacramento do matrimónio, bem como à revisão da abordagem católica da família e da sexualidade. De facto, ele tem defendido a promoção da mulher na Igreja, que não passa necessariamente pela sua ordenação. E também tem apelado ao acolhimento das pessoas homossexuais, sem nunca pôr em causa o modelo heterossexual do matrimónio católico.

O Papa pediu que se refletisse sobre esta e outras questões relativas à família durante este ano, pelo que as conferências episcopais vão procurar recolher as diferentes sensibilidades no seio da Igreja. Depois, em outubro, o Sínodo dos Bispo procurará ler os contributos dos fiéis espalhados pelo mundo e proporá ao Papa as suas conclusões.

A partir dessa conclusões o Papa Francisco redigirá uma Exortação apostólica que clarificará qual o caminho que a igreja católica irá tomar. E saberemos então quais os procedimentos que serão alterados e quais permanecerão.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/05/2015)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Papa em contracorrente

Genocídio do povo arménio entre 1915 e 1917
Foto retirada daqui
O Papa não receia expressar as suas ideias mesmo quando elas não são “politicamente corretas” ou vão ao arrepio das tendências da cultura contemporânea.

Papa interroga-se sobre "teoria de género"
Foto retirada 
daqui
No final da semana passada agitou o mundo diplomático ao condenar o “genocídio” do povo arménio pelo império turco otomano. Nunca um Papa tinha verbalizado dessa forma a matança dos arménios no início do século passado, apesar de João Paulo II ter assinado com o Patriarca Arménio, em 2001, um documento conjunto em que o condenava e referia explicitamente.

As palavras de Francisco irritaram o presidente da Turquia que as comentou em termos pouco simpáticos. “Quando os políticos e os religiosos assumem o trabalho de historiadores, não dizem verdades, mas estupidezes”, disse Erdogan. Curiosamente, foi o mesmo Erdogan que, no final do ano passado, num encontro de líderes muçulmanos na Turquia, defendeu que a América foi descoberta por marinheiros islâmicos, baseando-se numa alegada referência de Cristóvão Colombo à existência de uma mesquita em Cuba. Na verdade, é Bartolomeu de las Casas que narra o que o navegador vê ao chegar a terras cubanas, descrevendo o cume de uma montanha como “uma elegante mesquita”, como recordou Diego Contreras no blog “LaIglesia en la prensa”.

O Papa atreveu-se também, na última audiência, a questionar se a “teoria de género” não será “um passo atrás”? E fê-lo em clara contradição com os que vêm nela uma solução para a redutora distinção entre masculino e feminino, bem como para a submissão da mulher ao homem. Estes defendem que as diferenças não provêm das característica biológicas, mas das construções culturais. E, por isso, não faz sentido falar-se de homem e de mulher, de masculino ou feminino.

Para Bergoglio, porém, a solução das desigualdades entre homem e mulher não passa pela negação das diferenças, mas pela defesa da sua complementaridade, da sua mesma dignidade, até porque ambos são “imagem e semelhança de Deus”. E propôs a promoção da mulher e o reconhecimento da sua importância na sociedade e na Igreja.

Nestas como noutras questões, é de louvar que Francisco não se submeta à lógica do “politicamente correto”. Precisamos dele como uma consciência crítica de um mundo que se submete com facilidade às modas intelectuais e culturais.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 17/04/2015)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Sacerdócio no feminino

Ordenação episcopal de Libby Lane
Foto retirada daqui
A ordenação episcopal de uma mulher na Igreja Anglicana serviu de pretexto para se questionar a recusa da Igreja Católica ao sacerdócio no feminino. A forma como a questão é posta pode traduzir uma forma errada de entender o ministério ordenado e, até, contrária às perspetivas rasgadas pelo Concílio Vaticano II.

Os padres conciliares, há 50 anos, abandonaram uma conceção piramidal da Igreja e definiram-na como Povo de Deus em que todos os fiéis têm a mesma dignidade (Cf. Lumen Gentium, 32). A ordenação de alguns não os promove, antes os coloca ao serviço dos demais. “O sacerdócio ministerial é um dos meios que Jesus utiliza ao serviço do seu povo, mas a grande dignidade vem do Batismo, que é acessível a todos”, recordou o Papa Francisco (Evangelii Gaudium, 104).

Reclamar o acesso das mulheres ao sacerdócio, como um direito que lhes assiste, ou considerar que não enveredar por esse caminho é um menosprezo pelo papel da mulher na Igreja, pode, mesmo sem o pretender, contribuir para acentuar a ideia de que os clérigos são uma casta superior vedada ao género feminino.

O Vaticano II recordou que ser cristão não se reduz a uma relação pessoal e íntima com Deus, mas exige a vivência da fé e a sua celebração com os outros (Cf. Lumen Gentium, 9). A vitalidade de uma comunidade cristã traduz-se, assim, pela atenção aos mais desfavorecidos, pelo dinamismo missionário que brotam de uma fé esclarecida e por uma intensa vida de oração.

Uma comunidade viva deveria também gerar os seus líderes, homens ou mulheres, casados ou solteiros. E, se estes reunissem as condições consideradas adequadas, poderiam presidir à celebração da Eucaristia, perdoar os pecados e ungir os doentes. Ao fazê-lo, não seriam superiores, mas somente desempenhariam uma tarefa diferente entre iguais. Para garantir a unidade e a comunhão com a Igreja na sua catolicidade teriam no bispo a sua referência, como o maior servidor da comunidade diocesana, e no Papa o garante da unidade na diversidade das diferentes igrejas.


É neste enquadramento que deve ser refletido o ministério ordenado, bem como a sua atribuição a homens ou mulheres, casados ou solteiros. Fazê-lo numa perspetiva individualista de reivindicação de um direito pessoal, ou de género, é um erro.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/01/2015)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As mulheres na Igreja


Foto do sítio reparatoris.com
O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, afirma categoricamente que “o sacerdócio reservado aos homens (…) é uma questão que não se põe em discussão”. Mas acrescenta que “é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja” e deixa esse desafio aos pastores e aos teólogos. Em poucas linhas, encerra a discussão em volta da ordenação de mulheres e abre o debate sobre o seu papel na vida da Igreja.

No enquadramento da questão do acesso feminino à ordenação, o Papa esclarece que o sacerdócio tem de ser entendido como uma função, um serviço, que não dá uma maior dignidade ou superioridade a quem a desempenha. Na Igreja a maior dignidade é conferida pelo Batismo, “que é acessível a todos”, sublinha o Papa.

A reflexão em torno desta questão inicia-se com o reconhecimento da “indispensável contribuição da mulher na sociedade, com uma sensibilidade, uma intuição e certas capacidades peculiares, que habitualmente são mais próprias das mulheres que dos homens”.

A Igreja não pode dar-se ao luxo de prescindir dessas características e deve garantir a presença feminina “nos vários lugares onde se tomam as decisões importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais”. É evidente que Papa está mais preocupado em garantir a participação da mulher nos espaços de decisão do que em discutir o acesso ao sacerdócio. É um “grande desafio” que ele confia aos pastores e teólogos, que podem “ajudar a reconhecer melhor o que isto implica no que se refere ao possível lugar das mulheres onde se tomam decisões importantes, nos diferentes âmbitos da Igreja”.

Hoje, alguns desses espaços são exclusivos dos clérigos. Os leigos não lhe têm acesso. Pensemos por exemplo no Colégio de Consultores, que todas as dioceses são obrigadas a ter e que o bispo é obrigado a consultar em determinadas decisões e, nas mais importantes, a obter o seu consentimento. Teremos no futuro nessa e noutras estruturas, agora clericais, a inclusão de leigos e o contributo da perspetiva feminina?

Corresponder ao desafio do Papa implicará necessariamente uma conversão profunda das mentalidades. E, sobretudo, uma mudança na forma atual de governar a Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/12/2013)