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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Concórdia hospitalar

Irmão Fiorenzo Priuli (à esquerda)
Foto de Bruno Zanzottera/Parallelozero
Os líderes do Daesh convencem os seus seguidores a imolarem-se e a semear o terror em nome de Deus. O Papa Francisco, na viagem à Polónia, denunciou as verdadeiras motivações do que se pretende fazer crer que é uma “guerra de religiões”. Na verdade, o que está a acontecer é uma “guerra de interesses”, uma “guerra pelo dinheiro”, uma “guerra pelos recursos da natureza”, uma “guerra pelo domínio dos povos”. E concluiu: “Todas as religiões, queremos a paz. A guerra querem-na os outros”.

Felizmente há pessoas autenticamente religiosas que dão o testemunho de uma sadia convivência entre credos diferentes. O sítio “Vatican Insider” relata, esta semana, o caso de um hospital na cidade de Tanguiéta, no Benim, em África, que “une cristãos e muçulmanos”.

Foi fundado em 1970 pela Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, um santo português. Começou a funcionar com apenas 82 camas. Hoje disponibiliza 415 para doentes de todos os credos e oriundos até dos países vizinhos. Tornou-se num centro universitário e impôs-se como um “polo de excelência da medicina africana”.

Apesar de se tratar de uma instituição católica, os trezentos profissionais de saúde professam convicções religiosas diversas. E, assim, “dão um importante testemunho ao mundo, comprovam que a fraternidade e a mútua compreensão são possíveis”, como disse ao “Vatican Insider” o Irmão Fiorenzo Priuli, cirurgião e diretor do hospital. Este irmão hospitaleiro desenvolveu um bom relacionamento pessoal com o anterior e o atual califa de Kiota (cidade do Níger, a 700 quilómetros de Tanguiéta). “Não se trata de uma simples amizade entre dois homens, mas de uma amizade que envolve a população, que é a primeira testemunha e a primeira beneficiária”, realça o califa Moussa Aboubacar.

São exemplos destes que ajudam a vencer, em relação aos muçulmanos, os receios e as desconfianças que os ataques terroristas fomentam.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 12/08/2016)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O crente não odeia

Encontro inter-religioso no SriLanka
(Foto: AP Photo/Ettore Ferrari)
A guerra, o terrorismo e a violência continuam a manchar a história da humanidade com o sangue derramado de inúmeras vítimas inocentes. Em muitos dos conflitos, aos interesses económicos, políticos, étnicos são associadas de forma ilegítima motivações pretensamente religiosas, como reconheceram os participantes do encontro inter-religioso que decorreu no Vaticano em Outubro de 1999. E denunciaram com clareza que “não existe finalidade religiosa que possa justificar a prática da violência do homem sobre o homem”.

O Papa Francisco disse, na visita ao Sri Lanka, que “não se deve permitir que as crenças religiosas sejam utilizadas para justificar a violência e a guerra”. Falava num encontro que reuniu budistas, hinduístas, muçulmanos e cristãos. Num país que até 2009 sofreu vinte e seis anos de uma guerra civil com crenças religiosas à mistura. A etnia tâmil, maioritariamente hindu pretendia a independência do norte do país, cuja população é maioritariamente budista.

O Papa disse ainda que “o verdadeiro culto a Deus não leva à discriminação, ao ódio ou à violência, mas ao respeito pela sacralidade da vida, ao respeito pela dignidade e a liberdade dos outros e a um solícito compromisso em prol do bem-estar de todos”. Estas palavras foram proferidas durante a canonização do Pe. José Vaz, missionário português no Sri Lanka durante 24 anos, onde morreu em Janeiro de 1711. Gastou-se ao serviço dos mais necessitados, sem fazer distinção de etnia ou credo, durante o período conturbado em que os holandeses calvinistas e os portugueses católicos se guerreavam pela posse daquele território.

Um crente só consegue conviver e dialogar com pessoas com opções diferentes das suas despindo-se de todo o fundamentalismo e de toda a intolerância. A Igreja Católica demorou séculos para o fazer e conseguir conviver com as outras religiões. Só a partir do Concílio Vaticano II passou a olhar com respeito para as outras crenças. Alguns sectores no seu interior e noutras confissões religiosas ainda precisam de completar esse caminho para que não mais se volte a fazer a guerra em nome de uma falsa imagem de Deus, ou de uma fé que se diz religiosa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 16/01/2015)