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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Feliz Natal e um bom ano de 2017

Há uns meses ouvi esta frase ao Padre Josep Font, do movimento “Mambré”: Dios es loco: cuando todo el mundo quiere subir, El baja. Que a teria visto num antigo postal de Natal.

Enviou-me a frase em castelhano e em catalão: Déu és ben boix: quan tothom vol pujar Ell baixa.

Eu traduzi, talvez suavizando um pouco o original: Deus deve estar louco, quando todos querem subir, Ele desce.

Pedi à Isabel Chumbo, professor do IPB, que traduzisse em inglês e o resultado foi: The foolishness of God: when all want to go up, He wants to go down.

A Ana Sousa e Silva, uma grande amiga, fez o desenho que integra estas quatro traduções e o resultado foi a imagem que ilustra este texto.

Um Feliz Natal e um ano de 2017 em que, como Jesus, nos esforcemos por corresponder ao amor de Deus, procuremos mais servir do que ser servidos, cuidar dos mais desfavorecidos em vez de trepar, nem que para isso tenhamos de ser um pouco loucos, aos olhos do mundo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A santa de Francisco

Foto de Andreas Solaro/AFP retirada daqui
Cada um dos últimos papas tem os seus santos. E estes podem ser considerados o “ponto de referência e uma síntese eficaz da mensagem do Pontífice que os elevou aos altares”.

Esta é a leitura de Andrea Tornelli, vaticanista, para quem “não há dúvida que Madre Teresa de Calcutá é emblemática para o pontificado de Francisco, como o foram, por exemplo, os mártires do Uganda proclamados santos por Paulo VI, ou as canonizações de José Maria Escrivá e da Santa Faustina Kowalska para o pontificado de João Paulo II”. Mas de quem falamos, quando falamos da agora Santa Teresa?

Foi longo o caminho que ela percorreu desde a sua terra natal, então Üsküp, hoje Skopje, capital da Macedônia, até chegar às ruas de Calcutá. Nascida numa família de origem albanesa, desde cedo sentiu o desejo de ser missionária na Índia. Passou pela Irlanda, onde entrou numa congregação religiosa e aprendeu inglês. Quando já era diretora e professora num colégio de meninas ricas em Calcutá, abandonou o conforto do convento para recolher moribundos abandonados nas sarjetas, o que lhe valeu o epíteto de “santa das sarjetas”.

Foi então que fundou a congregação das Missionárias da Caridade, que se dedicaram, nas suas palavras, “aos famintos, aos nus, aos que não têm lar, aos aleijados, aos cegos, aos leprosos, toda essa gente que se sente inútil, não amada ou desprotegida pela sociedade, gente que se converteu num fardo para a sociedade e que é rejeitada por todos”.

O Papa Francisco destacou, na missa da canonização, a “sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece, nos nossos dias, como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres”. Nesta santa confluem duas das principais preocupações do Papa: os mais pobres; e “a Igreja em saída” para as periferias. Por isso, Madre Teresa é a santa à imagem de Francisco.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/09/2016)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Vaticano e os pobres

Foto retirada daqui
O Papa Francisco dedica aos mais pobres uma atenção privilegiada. Na Evangelii Gaudium escreveu: “O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los” (nº58).

No mesmo texto adverte que “o crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha – requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo”.

Em sintonia com o Papa, o Pontifício Conselho Justiça e Paz promoveu, em 2014, um congresso para refletir sobre o investimento ao serviço do bem comum, na linha da Evangelii Gaudium. “A solidariedade com os pobres e com os excluídos estimulou-vos a refletir sobre uma forma emergente de investimento responsável, conhecida como Impact Investing”, disse então o Papa aos congressistas. E desafiou-os a “estudar formas inovadoras de investimento, que possam proporcionar benefícios às comunidades locais e ao ambiente circunstante”.

Durante esta semana reuniram-se no Vaticano académicos, políticos e clérigos para estudar o impacto dos investimentos no combate à pobreza. Este ano pretende-se aprofundar “como a Igreja Católica e outras instituições religiosas podem canalizar o resultado dos investimentos para sustentar a sua própria missão social”. E, também, como “ desenvolver estratégias para captar investimentos privados em ordem a servir os mais pobres e os mais vulneráveis”, disse o cardeal Peter Turkson, presidente da Justiça e Paz.

É importante que a Igreja, em relação à pobreza, vá vencendo a tentação do “mero assistencialismo”. E que saiba encontrar novas formas para financiar e gerir a luta contra as suas causas estruturais.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 01/07/2016)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Dia de enganos

Ícone da Misericórdia, Taizé
Foto retirada daqui
Há equívocos que não surgiram neste dia primeiro de Abril – e que subsistem a ele. Um desses enganos é o das instituições que mantêm o nome muito tempo depois de terem perdido a filiação à instituição que lhes deu origem. E afetam o bom nome dos que permanecem na organização que as gerou.

Há dias, Henrique Manuel Pereira escrevia no Facebook: “Rasgou-se uma almofada e o vendaval dos meios de difusão coletiva espalhou as penas! Quem poderá agora dizer que o dito nada tem a ver com a Casa do Gaiato/Obra da Rua, nem com nenhum dos seus padres? A Casa do Gaiato em apreço é a de Santo Antão do Tojal (Loures). E será bom saber-se que, desde 2006, é propriedade do Patriarcado de Lisboa. Irra, pobres Padres da Rua!”

Acontece algo semelhante com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que desde 2 de Dezembro de 1851 (há 165 anos) é administrada pelo Estado. Apesar disso, muitas pessoas pensem que continua vinculada à Igreja. No entanto, o seu provedor é nomeado pelo Governo, enquanto nas outras misericórdias este é eleito pelos irmãos da respetiva Santa Casa e homologado pelo bispo diocesano.

Nestas misericórdias o equívoco poderá ser outro. Não se devem comportar como meras Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS): têm de ter o mesmo rigor e profissionalismo das outras, claro!, mas têm também de estar imbuídas do verdadeiro espírito cristão. Ou seja, ver nos mais pobres, e nos que precisam de assistência, o próprio Cristo. “Tive fome e deste-me de comer… Estive doente ou na prisão e foste-me visitar…” (Cf. Mt. 25). Devem também as verdadeiras santas casas e outras IPSS’s católicas promover a formação espiritual e humana dos utentes e colaboradores, sem fazer aceção de pessoas. E, aos crentes, devem ajudar a desenvolver a sua convicção cristã.

Só corrigindo estes enganos deixaremos de viver num contínuo dia 1 de Abril em matéria social e institucional.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 01/04/2016)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Dinheiro sujo

Foto retirada daqui
O Papa Francisco não desconhece que o “dinheiro sujo” proveniente de atividades ilícitas, ou manchado pela exploração dos trabalhadores, é introduzido na Igreja e, por vezes, aceite em diversas organizações católicas. Porventura, também em Portugal. Muitas das vezes sem que os responsáveis pelas comunidades disso se apercebam. E (espera-se...) habitualmente sem o seu consentimento ou a sua colaboração.

Na sua primeira entrevista ele confidenciou que, quando era arcebispo de Buenos Aires, determinadas pessoas chegaram a propor-lhe doar uma avultada quantia para uma obra de beneficência a troco de um recibo de montante superior. Nessas circunstâncias, dada a importância do que pretendia levar por diante e do bem que isso significaria para as pessoas, podia ter sido grande a tentação de pactuar com esse esquema. Mas o cardeal Bergoglio soube resistir-lhe e recusou a proposta.

Isso dever-se-á ao facto de ele ser um “homem resolvido”, como alguém dizia há dias. Pode, por isso, ter palavras duras para quem alinha em esquemas ou tem comportamentos menos corretos na relação da Igreja com o dinheiro.

Na última audiência o Papa apontou o dedo aos que, para sossegarem a sua consciência pesada, fazem consideráveis doações à Igreja. Dinheiro manchado pelo “sangue de tanta gente explorada, maltratada, escravizada pelo trabalho mal pago”. A esses ele diz: “O Povo de Deus –quer dizer, a Igreja – não precisa do dinheiro sujo, precisa de corações abertos à misericórdia de Deus”. Ou seja, precisa de homens e de mulheres que aproveitem este Ano Jubilar da Misericórdia, se arrependam do seu proceder, acolham o perdão de Deus pelos seus atos e se aproximem do altar de “mãos purificadas, evitando o mal e praticando o bem e a justiça”.

Oxalá que a Igreja, também entre nós, não se deixe tentar pelo dinheiro conspurcado com o sangue e o suor dos explorados.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 04/03/2016)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os pobres em Davos

Foto retirada daqui
Os mais destacados líderes políticos e empresários do mundo refletem sobre a “quarta revolução industrial”. Em Davos, uma pequena localidade dos alpes suíços, decorre o 46º Fórum Económico Mundial, que se iniciou na quarta e termina amanhã. A primeira revolução industrial foi provocada pela máquina a vapor, a segunda pela eletricidade e a terceira pela eletrónica e robótica. A quarta desenvolve-se devido à combinação de diversos fatores e das tecnologias digitais.

Numa mensagem dirigida ao Fórum, o Papa Francisco defende “a necessidade de criar novos modelos empresariais que, enquanto promovem o desenvolvimento de tecnologias avançadas, sejam capazes também de utilizá-las para criar trabalho digno para todos, manter e consolidar os direitos sociais e proteger o meio ambiente”.

O Papa aproveitou ainda para apelar aos mais ricos e poderosos do mundo que não esqueçam os mais pobres. E mais uma vez ergueu a sua voz para denunciar a “cultura do descarte” e da indiferença perante a exclusão e o sofrimento de tantas pessoas, em todo o mundo. “Não devemos permitir jamais que a cultura do bem-estar nos anestesie” Desafiou os que têm nas mãos os destinos do mundo “a garantir que a vinda da ‘quarta revolução industrial’, os efeitos da robótica e das inovações científicas e tecnológicas não levem à destruição da pessoa humana – ao ser substituída por uma máquina sem alma – nem à transformação do nosso planeta num jardim vazio para deleite de poucos escolhidos”.

Na verdade, uma economia e uma tecnologia que não colocam a pessoa humana no centro das suas preocupações, rapidamente resvalam para uma “economia que mata” e uma tecnologia que gera ainda mais exclusão social. O Papa deseja que o Fórum contribua para corrigir essa tendência e promova “a defesa e salvaguarda da criação” e um “progresso que seja mais saudável, mais humano, mais social, mais integral”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/01/2016)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A Igreja e o ter

Imagem retirada daqui
Quando se critica o capitalismo corre-se o risco de se ser imediatamente apelidado de comunista ou esquerdista radical. Como tem acontecido com o Papa Francisco, aliás. Ele tem-se limitado, no entanto, a denunciar o endeusamento do lucro e a defender os mais desfavorecidos da sociedade, em coerência com o postulado evangélico da opção preferencial pelos mais pobres.

A Doutrina Social da Igreja nunca pôs em causa a propriedade privada nem a livre iniciativa. Contudo, sempre foi crítica em relação à crença na sua autorregulação sem intervenção do Estado, do mesmo modo que sempre rejeitou a estatização da economia e de todos os bens.

Nos Atos dos Apóstolos é referido que nas primeiras comunidades todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum: “Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um” (Act. 2, 44-45). Apesar disso, esse estilo de vida nunca foi imposto a todos os cristãos. Só alguns aderem a ele, de livre e espontânea vontade, em determinadas congregações religiosas, em que abdicam de possuir e tudo pertence à comunidade.

Fora desse contexto é permitido ter, mantendo todavia a preocupação das comunidades apostólicas para com os mais necessitados. Para os que nada possuem, o Papa tem reclamado o “direito sagrado” a ter trabalho, teto e terra. São direitos que na sua integralidade não são respeitados nem pelo liberalismo individualista, nem pelo comunismo coletivista. Logo, nem um nem outro são defensáveis à luz do pensamento social da Igreja.

O que o Papa tem criticado é o sistema económico em que “o capital se torna um ídolo” e em que “a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioecónomico”, como disse na Bolívia. Tem apelado a dizer não “a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir”. Mas daí não se pode concluir que defenda um sistema, que, como a história demonstrou, para além de não garantir o acesso à propriedade privada, acaba por aniquilar as liberdades individuais.

Apesar de tudo, parafraseando Churchil, a economia de mercado é o pior sistema, excetuando todos os outros que foram experimentados. Sobretudo se, como propõe o Papa, for colocada ao serviço dos povos e não funcionar só em função do lucro.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/07/2015)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A crise e a pobreza

Foto retirada daqui
A Europa está concentrada na resolução da crise grega e não estará a dar a devida atenção à visita do Papa Francisco ao Equador, à Bolívia e ao Paraguai.

As instituições europeias e o governo grego estão concentrados na discussão de um plano económico que concilie o pagamento das dívidas com a recuperação financeira do país e têm, porventura, esquecido as pessoas. Sobretudo as que mais sofrem com as consequências da falta de entendimento: os mais pobres.

Já no discurso e na atuação do Papa eles, os pobres, têm o maior destaque. Por isso, Francisco escolheu três dos países com mais pobreza na primeira visita por ele planeada à América Latina, uma vez que a ida ao Brasil estava já agendada pelo seu antecessor. Escolheu esses países para expor ao mundo as virtualidades, e os problemas, do continente que ele tão bem conhece.

Logo nas primeiras palavras em Quito, capital do Equador, referiu os contributos que o Evangelho pode oferecer “para que as realizações alcançadas no progresso e desenvolvimento se consolidem e possam garantir um futuro melhor para todos, prestando especial atenção aos nossos irmãos mais frágeis e às minorias mais vulneráveis, uma dívida que tem ainda toda a América Latina”.

Também aos universitários transmitiu a sua preocupação com os esquecidos da sociedade. E recordou um pensamento já expresso na Evangelii Gaudium: “Um pobre morre por causa do frio e da fome e isso não é notícia, mas se as bolsas das principais capitais do mundo caem dois ou três pontos arma-se um grande escândalo mundial”.

Antecipando as vozes que consideram o discurso do Papa demasiado à “esquerda”, disse no encontro com os representantes da sociedade equatoriana: “Vós podeis perguntar-me: Padre, porque fala tanto destes temas? Simplesmente porque esta realidade, e a resposta a esta realidade, estão no coração do Evangelho, está no protocolo de Mateus 25”. (Nesse texto do Evangelho, Jesus diz ao seu discípulos que sempre que dão de comer e de vestir aos mais pobres ou visitam os doentes e os detidos é a Ele que visitam).

Se os mais pobres dos europeus fossem a maior preocupação dos seus líderes, talvez já se tivesse encontrado uma solução para o problema da dívida grega e das dívidas soberanas de outros estados da União Europeia.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/07/2015)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Os pobres não votam

Foto Reuters retirada daqui
A erradicação da pobreza deveria ser o primeiro objetivo da atividade política e, por conseguinte, da governação.

Apesar de o número de pobres ter aumentado em Portugal nos últimos anos, os partidos políticos revelam “alguma insensibilidade e até desconhecimento desta realidade que já afeta cerca de três milhões de portugueses”. Foi o que constatou o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), padre Jardim Moreira, no final de um encontro na Assembleia da República com deputados de todos os partidos. Alguns deles terão mesmo dito que estas matérias serão aprofundadas “só depois das eleições”!

Infelizmente uma grande quantidade dos pobres, como acontece com a maioria dos portugueses, não votam – e os partidos sabem disso. Se todos votassem seria bem diferente a abordagem dos políticos à pobreza. Todos os programas eleitorais se encarregariam de piscar o olho a esses milhões de portugueses com as mais variadíssimas promessas.

Para atacar este flagelo social não bastam, porém, promessas eleitorais: exige-se um “compromisso para a definição de uma estratégia nacional de erradicação da pobreza”. É essa a convicção da EAPN, que há mais de vinte e cinco anos defende a necessidade de atuar ao nível das causas estruturais da pobreza e de envolver os pobres e os excluídos na procura de respostas para a sua situação.

A Rede não embarca numa prática assistencialista da solidariedade, que se limita a distribuir esmolas e gera subsidiodependência. Nem acredita, como professam as correntes em voga do neo-liberalismo, que o crescimento económico, a competitividade e a inovação, promovam a criação de riqueza e a pobreza desapareça. A história demonstra que os lucros têm tendência a concentrarem-se na mão de poucos, acabando a maioria por não beneficiar grandemente da prosperidade económica.

Nos tempos de crise, não são os ricos os mais afetados, são os pobres os que mais sofrem. E muitos dos que antes não o eram acabam por ser lançados para níveis próximos do limiar da pobreza. Nesta última crise, que o país atravessa, resvalaram para essa situação mais duzentos mil portugueses.

É por isso urgente um envolvimento de todos – a começar pelos partidos políticos – na implementação de uma estratégia nacional para a erradicação da pobreza.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/05/2015)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O silêncio da esquerda

Cardeal Óscar Rodriguez Maradiaga
(Foto: Manuel Meira, retirada do sítio Religionline)
Os cardeais mais próximos do Papa estão em sintonia na crítica ao sistema económico que rege o mundo. Na semana passada, em Roma, o cardeal Pietro Parolin, Secretario de Estado da Santa Sé, denunciava um sistema que está a dificultar o acesso ao crédito dos mais pobres. Esta semana, em Fafe, o cardeal Óscar Maradiaga, coordenador do grupo de nove purpurados que aconselham o Papa, afirmou que “temos um sistema que desenvolveu o liberalismo económico mas não traz igualdade, antes acrescenta desigualdade”. Criticou também a austeridade que, mesmo sendo uma “virtude cristã”, não ajudou os países intervencionados como se pretendia, mas gerou ainda mais pobreza.

Muitas dos políticos de esquerda reveem-se nestas e noutras críticas. Por diversas vezes já manifestaram o seu apoio às posições do Papa em matéria económica. Mas têm-no deixado a falar sozinho quando pede à “comunidade internacional que não fique muda” perante a matança de cristãos, como tem acontecido recentemente.

Lucia Annunziata, há dias, num blog italiano, censurava o silêncio da esquerda, que se tem mobilizado em tantas causas, mas não manifestou “a pena e o horror pela morte de tantos homens e mulheres por causa da sua fé”. (…) Fé que, aliás, é a da maioria do nosso país, e é também a matriz (querendo ou não) da história e da cultura do continente em que vivemos”.

Quem assim fala até pode suscitar a ideia de que é uma pessoa de direita e crente. Mas percebe-se, pelo teor do artigo, que não se situa nessa área política. Já quanto à crença, faz questão de dizer: “Não sou católica, nem sequer neo-convertida. Sou ateia e pretendo continuar a sê-lo (…) Sou, contudo, uma jornalista e creio que ainda consigo compreender o que é uma notícia. E a notícia destes dias é a solidão a que foi votado precisamente este popularíssimo Papa, que há meses é a única voz a denunciar os massacres de fiéis e atualmente é o único chefe de estado a apontar o dedo contra o imobilismo das Nações Ocidentais perante estas carnificinas. Na verdade, exatamente o contrário do que aconteceu em relação ao Charlie Hebdo”.

Também, entre nós, se nota algum pudor em condenar categoricamente o massacre dos cristãos. E dificilmente se vê um ateu a admitir e a valorizar a nossa matriz cultural cristã.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/04/2015)

sexta-feira, 27 de março de 2015

Os sem-abrigo no museu

Sem-abrigo na Capela Sistina
Foto retirada daqui
O Papa Francisco na Evangelii Gaudium criticou “a economia da exclusão e da desigualdade social” (nº 53) e pediu aos políticos o empenhamento numa melhor distribuição da riqueza, na criação de emprego e na “promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo” (nº204). Recordou aos peritos financeiros e aos governantes as palavras de S. João Crisóstomo: “Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos” (nº 57).

Desde que vive no Vaticano, tem sido sensível às necessidades dos sem-abrigo que dormem na colunata de Bernini e nas soleiras dos palácios à sua volta. De entre muitas das suas iniciativas algumas têm sido amplamente noticiadas, como a instalação de sanitários onde eles pudessem tomar banho e cortar o cabelo. Bem como a distribuição de quatrocentos sacos-camas pelas ruas de Roma.

Estes e outros gestos do Papa podem ser facilmente catalogados como mero assistencialismo, ainda que traduzam a sua preocupação com aqueles que lhe estão mais próximo e a ânsia de fazer o que está ao seu alcance para aliviar os seus sofrimentos.

Contudo, não se tem ficado por aí.

No domingo passado, os mais pobres foram escolhidos para entregar os Evangelhos aos milhares peregrinos presentes na Praça de São Pedro. “Hoje ofereço-vos a todos vós que estais na Praça um presente: um Evangelho de bolso. Será distribuído gratuitamente por algumas pessoas sem teto, que vivem em Roma (…). Os mais necessitados são os que nos dão a Palavra de Deus”, disse o Papa.

Ontem, cento e cinquenta sem-abrigo visitaram gratuitamente os museus do Vaticano e comeram nos seus restaurantes. A visita foi promovida pelo arcebispo polaco Konrad Krajewski, responsável da Esmolaria Apostólica – a instituição da Santa Sé que se encarrega dos mais pobres – que guiou a visita. Desta forma “os mais carenciados, que geralmente apenas têm acesso à escadaria exterior à colunata da Praça de São Pedro” tiveram a oportunidade de “apreciar o património artístico do Vaticano”, de acordo com uma nota divulgada pela Santa Sé.

Estes são dois exemplos do empenhamento do Papa em elevar os mais pobres. E em investir na sua promoção integral, seja ela física, espiritual ou cultural.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/03/2015)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O ano do Papa

Papa Francisco e o cardeal Oscar Maradiaga
foto retirada daqui
A “revolução da ternura” introduzida pelo cardeal Bergoglio consolidou-se ao longo do ano que agora terminou.

Na mensagem para o dia 1 de Janeiro, denunciou, mais uma vez, “a globalização da indiferença” para com as situações de exploração e de tráfico de seres humanos. Apelou ao empenhamento de todos na “globalização da solidariedade e da fraternidade” para vencer o “flagelo da escravidão contemporânea”. A avaliar pela primeira mensagem do ano, os mais pobres e os explorados continuarão a ser a principal preocupação do Papa.

O grande acontecimento eclesial de 2014 foi o Sínodo dos Bispos. No final o Papa impôs que fossem incluídas no texto final os parágrafos sobre os divorciados recasados e o acolhimento aos casais homossexuais, apesar de não terem obtido a aprovação de dois terços da assembleia. Desta forma, a temática da família, bem como, as situações irregulares marcarão a agenda da Igreja em 2015, cujo ponto alto será o Sínodo Ordinário dos Bispos, em Outubro.

Durante o próximo ano será também implementada a Reforma da Cúria Romana. No início de Fevereiro reúnem-se de novo os nove cardeais (C9) que estão a assessorar o Papa nessa tarefa. Apresentarão o ponto da situação e as propostas concretas para a reformulação do governo central da Santa Sé. Prevê-se que haja a fusão de diversos organismos em dois novos Dicastérios, um dedicado ao laicado e família e outro às questões sociais. Será uma espécie de ministério da solidariedade, para o qual será nomeado o cardeal Oscar Maradiaga. Este é o coordenador dos C9 e um dos cardeais em que Francisco deposita maior confiança. Deixará a diocese de Tegucigalpa, nas Honduras, para estar ao seu lado em Roma.

Espera-se que ao longo do ano de 2015, a dinâmica que o cardeal Bergoglio desencadeou na Igreja se traduza em legislação. Mantendo-se contudo o primado da misericórdia sobre o legalismo; uma atitude de acolhimento para com os que estão longe da Igreja e de exigência para os que têm maior responsabilidade no seu interior.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/01/2015)

domingo, 20 de abril de 2014

Pobres no Lava-Pés

Papa lava os pés num centro de deficientes
(Foto retirada daqui)
O Papa está a fazer uma revolução coperniciana ao fazer das periferias o centro do seu discurso. Aproveita todas as oportunidades, até as mais improváveis, para chamar a atenção para os pobres e os excluídos da sociedade. Nem mesmo as romanas cerimónias da Semana Santa, alérgicas à mudança, resistiram ao efeito renovador de Francisco, que introduziu práticas carregadas desde o “fim do mundo”.

Era normal para o cardeal Bergoglio, em Buenos Aires, fazer a celebração da missa da tarde de Quinta-feira Santa – em que se recorda a Última Ceia de Jesus, na qual este lavou os pés aos Apóstolos e instituiu a Eucaristia – numa prisão, num hospital ou num hospício. Assim, chamava a atenção para os que muitas vezes a sociedade quer esquecer logo no início dos três dias mais importantes para Igreja, aqueles em que se celebra a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

À semelhança do que fazia na sua diocese, no ano passado foi celebrar essa missa a uma prisão, chegando mesmo a lavar os pés a raparigas e, até, a uma muçulmana. Este ano, embora numa igreja, realizou essa cerimónia rodeado por pessoas portadoras de deficiência. Foram escolhidas doze de entre elas, que professam diferentes credos, de diversas etnias e de idades variadas, a quem o Papa lavou os pés.

São gestos simbólicos, que ajudam a despertar consciências, mas que nenhum efeito terão se não levarem os cristãos a empenharem-se na denúncia e no combate àquelas que são as causas da pobreza e marginalização. Essas “não são fruto do acaso nem uma inevitabilidade”, denunciou um manifesto divulgado recentemente, mas “decorrem do modo como a sociedade e a economia estão organizadas”. Esse texto é o resultado de uma reflexão promovida pela Rede Europeia Anti Pobreza, com a participação de várias personalidades e instituições nacionais ligadas a esta problemática. Para os seus signatários, a pobreza configura uma violação dos Direitos Humanos e é urgente a adoção de medidas políticas e económicas de acordo com uma “Estratégia de Erradicação da Pobreza e a Exclusão Social”.

Estas e outras iniciativas são uma oportunidade para os cristãos porem em prática o que, simbolicamente, o Papa faz no Lava-pés e noutros gestos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 18/04/2014)

domingo, 13 de abril de 2014

Bispos “vermelhos”

D. António Ferreira Gomes
Foto da Fundação Spes
Um bispo que no seu discurso inclua a defesa dos mais pobres e oprimidos, rapidamente é catalogado como de esquerda, comunista ou “vermelho”. Aconteceu assim entre nós, antes e depois do 25 de Abril. E já há quem considere assim o atual Bispo de Roma.

No próximo domingo completam-se 25 anos sobre a morte de D. António Ferreira Gomes, um exemplo emblemático da defesa da verdade e da oposição à ditadura no interior da Igreja Portuguesa. Foi também ele um dos primeiros a denunciar os erros e exageros pós-revolucionários.

Um outro bispo que viria a receber os mesmos epítetos foi D. Manuel Martins, uma voz incómoda ao denunciar situações de exploração e miséria humana como as que encontrou em 1975, o ano em que tomou posse da recém-criada diocese de Setúbal, de que foi o seu primeiro bispo.

Há dias, numa curiosa entrevista a cinco jovens belgas, o Papa referiu que devido ao seu discurso em defesa dos pobres e à preferência que lhes dedica, alguém o classificou como comunista. “Não. Essa é uma bandeira do Evangelho, não do comunismo: do Evangelho! Mas a pobreza sem ideologia, a pobreza... E por isso creio que os pobres estão no centro do anúncio de Jesus. Basta ler o Evangelho”, reagiu.

Por isso, não é de estranhar. Nem ninguém se deve escandalizar quando os bispos, de uma forma mais ou menos contundente, anunciam os valores do Evangelho e denunciam as injustiças. Espera-se que eles sejam a voz dos que não têm voz e os catalisadores do empenhamento de todos na luta contra a pobreza. D. António Francisco dos Santos aproveitou a tomada de posse da diocese do Porto para lançar o desafio: “Sejamos ousados, criativos e decididos sempre, mas sobretudo quando e onde estiverem em causa os frágeis, os pobres e os que sofrem. Esses devem ser os primeiros, porque os pobres não podem esperar!”.

De estranhar é quando eles são esquecidos nas palavras e nas atitudes dos líderes religiosos. Motivos de escândalo são todos os cristãos que suspendem os valores em que acreditam e que compactuam com situações de exploração e de opressão. Preocupante é quando nos tornamos insensíveis ao sofrimento humano e embarcamos na “globalização da indiferença” que o Papa denunciou na ilha de Lampedusa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 11/04/2014)