quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Os primeiros santos de Leão são jovens

Carlo Acutis (1991-2006) e Pier Giorgio Frassati (1901-1925)
Leão XIV canonizou os seus primeiros santos este domingo: Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis. Canonizar um santo não significa que ele passe a ser santo, pois já o era: é a Igreja a reconhecer que a sua vida é um exemplo de santidade.

Estes novos santos têm em comum terem morrido muito jovens. Frassati morreu de poliomielite com 23 anos; Acutis de leucemia, com apenas 15. Apesar das suas curtas vidas, podem ser apresentados a todos os cristãos como exemplos de santidade, particularmente aos mais jovens.

Tanto Frassati como Acutis foram rapazes em tudo semelhantes aos jovens do seu tempo, com os mesmos passatempos e ocupações, alegrias e anseios. O primeiro destacou-se pela atenção às famílias mais pobres. O segundo pela utilização da Internet para divulgar a sua fé, especialmente os milagres eucarísticos que foi conhecendo pelo mundo fora. Foi com esse objetivo que Acutis passou por Portugal: visitou Santarém, local onde se verificou um milagre eucarístico, e aproveitou para passar por Fátima.

Ao propor estes novos santos ao catolicismo global, a Igreja está a sublinhar que o caminho da santidade não é algo inacessível. Está ao alcance de todos os que na sua vida se descobrem amados por Deus e procuram ser consequentes com essa vivência, aproveitando todas as oportunidades para o testemunhar.

Todos os cristãos são chamados à santidade. Ou melhor: no fundo, esse é o objetivo de vida de todos os homens e mulheres, embora o denominem de outra forma. Todos procuram a realização pessoal e a felicidade. A grande diferença é que um cristão acredita num Deus que nos amou primeiro e que quer que todos sejamos felizes para sempre.

O cristão realiza-se a dar testemunho desse amor no serviço aos outros. Foi o que fizeram Frassati e Acutis, como tantas mulheres e homens santos ao longo da história.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 10/09/2025)

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A Igreja na prevenção dos incêndios

Quando a floresta está a arder devem concentrar-se todas as forças no combate aos incêndios. Depois é que se devem retirar as consequências, refletir e planear para prevenir que situações particularmente graves, como as que aconteceram este ano e em anos anteriores, não se voltem a repetir.

Todos sabem que a prevenção é mais eficaz e menos dispendiosa do que o combate às chamas. Contudo, continua-se a negligenciar a floresta e a esquecê-la sempre que ela não arde. Só quando ela é fustigada pelos incêndios e desaparece é que se acorda.

Na encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco foi sensível ao clamor da irmã Terra “contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou” (nº2). Apelou ao envolvimento de todos e deixou-nos sugestões e desafios para nos envolvermos no cuidado da casa comum, o que incluí o património florestal.

Nesta encíclica o antigo Papa insistiu que a natureza não é apenas um recurso para explorar, mas parte de um bem comum que exige proteção e gestão sustentável. Propôs uma educação e consciência ecológicas. A Igreja, segundo Francisco, tem a missão de formar consciências: ensinar comunidades, fiéis e famílias a respeitar o meio ambiente, a usar os recursos com prudência e a prevenir comportamentos de risco.

Sozinha, contudo, a Igreja pouco pode fazer. É chamada a envolver-se num trabalho em rede com a sociedade civil e as autoridades. O seu papel primordial, como já adiantou o Papa Leão XIV, será promover o voluntariado e a solidariedade no interior das comunidades locais.

Perante a tragédia dos incêndios que assolou Portugal, a Igreja nacional é convocada à fidelidade à Laudato Si’. Deve, por isso, delinear e colaborar em iniciativas que corrijam a ausência de gestão das florestas e promovam a prevenção dos incêndios.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Líbano será a primeira viagem de Leão XIV

Leão XIV convocou os católicos para uma jornada de oração e de jejum pela paz na sexta-feira passada. É evidente que os católicos acreditam na força das suas preces dirigidas a Deus pela paz. Contudo, não basta.

A paz é uma das prioridades deste Papa. Logo no início do seu Pontificado, nas primeiras palavras que dirigiu à multidão da varanda de S. Pedro, desejou “uma paz desarmada e uma paz que desarma”. Nesta terça-feira o Vaticano anunciou que o tema da primeira mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial da Paz, que a Igreja Católica celebra no primeiro dia de cada ano, será o mesmo: “A paz esteja com todos vós: rumo a uma paz ‘desarmada e desarmante’”.

Entretanto, a BBC noticiou que a Santa Sé está a preparar uma visita de Leão XIV ao Líbano, que será a sua primeira viagem internacional. Tanto João Paulo II como Bento XVI visitaram o Líbano. Curiosamente, esse país não foi visitado por Francisco.

“O Líbano é um país multicultural e multirreligioso e é um lugar de diálogo”, recordou o arcebispo maronita libanês Paul Nabil El-Sayah, em declarações à BBC. “É um dos raros ambientes onde muçulmanos e cristãos vivem juntos e se respeitam”, pelo que, ao escolher este país para a sua primeira viagem apostólica, o Papa “envia uma mensagem para a região”, conclui o arcebispo Sayah.

Dada a proximidade do Líbano com a Faixa de Gaza, é evidente que as palavras do Papa procurarão ter efeito no conflito que envolve Israel e a Palestina. Para tal se verificar, é importante que Leão XIV formule, nas palavras ou nos gestos, algo impactante.

A primeira viagem de um Papa é uma oportunidade única para comunicar o que considera relevante no mundo em que atua, como aconteceu com a ida de Francisco a Lampedusa. Leão XIV saberá aproveitar a visita ao Líbano para defender a paz e promover a reconciliação entre os povos.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Leão XIV e a paz no Mundo e na Igreja

É habitual fazer-se a avaliação dos primeiros cem dias de um Governo, de um presidente e até de um Papa. Os cem dias da eleição de Leão XIV ocorreram no passado dia 16.

No dia anterior, um dia muito significativo para a Igreja Católica, no final da oração do angelus, o Papa confiou "à intercessão da Virgem Maria, Assunta ao Céu, a nossa oração pela paz", um tema presente desde o início do seu pontificado. No dia 17, domingo, celebrou a eucaristia e almoçou com cem pessoas em situação de vulnerabilidade social, no Borgo Laudato Si", em Castel Gandolfo. Nesta iniciativa, Leão XIV faz alusão a duas das principais preocupações de Francisco: os pobres e o cuidado da criação.

Os primeiros cem dias de Francisco, com os gestos que teve, as palavras que proferiu e as decisões que tomou, foram um verdadeiro ciclone na Igreja. A escolha do nome que traduz a atenção aos mais pobres; a viagem a Lampedusa para chamar a atenção para o problema da imigração; a nomeação do colégio dos cardeais para o ajudarem no governo da Igreja, entre outras, clarificaram as suas principais preocupações e traduziram o seu ímpeto reformador da instituição que começou a liderar.

Já os primeiros dias do pontificado leonino foram bem mais serenos, em comparação com o seu antecessor. Contudo, deu para perceber que a paz é uma das suas preocupações, bem como dar continuidade a reformas introduzidas por Francisco.

Em tempos em que até a União Europeia tem de se esforçar para ter peso em negociações de paz, não será fácil para o Papa, para além de rezar pela paz, dar relevância diplomática à Santa Sé. Será também uma tarefa árdua pacificar a Igreja, conciliando os que se opõem às reformas projetadas por Francisco com os que são seus acérrimos defensores.

Para o bem da Igreja e do Mundo, deseja-se a Leão sucesso em ambos os esforços.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Na Igreja somos todos estrangeiros

Na Igreja, ou não há estrangeiros, ou somos todos estrangeiros. Não há estrangeiros, porque todos temos a mesma dignidade de filhos de Deus. Pelo batismo "todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus", escreve S. Paulo aos Gálatas (3, 26). "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus", conclui o Apóstolo dos gentios (3, 28).

Por outro lado, todos somos estrangeiros na terra, porque acreditamos num reino outro, aonde somos chamados a viver para sempre. "A nossa pátria está nos céus", diz S. Paulo aos Filipenses (3, 20).

O JN do domingo passado destacava na manchete que os "Padres estrangeiros ganham terreno na Igreja portuguesa". Ainda que não faça sentido do ponto de vista cristão, aceita-se o título do JN no contexto jornalístico que tem marcado a atualidade: a nova lei de estrangeiros.

Seria interessante perceber as motivações que levaram estes padres a escolher o nosso país para desenvolverem a sua atividade pastoral. É louvável quando o fazem motivados por uma vocação missionária, devidamente discernida e orientada para servir a Igreja onde os seus superiores assim o entenderem.

Já quando saem dos seus países por interesses meramente pessoais, à procura de uma situação mais lucrativa, então, em vez de serem uma solução para a escassez de clero, acabam por se tornar, eles próprios, em mais um problema para as dioceses que os acolhem, a somar a tantos outros. Para a falta de clero há outras soluções, como "a ordenação de membros das comunidades com provas dadas", e outras que o pe. Jorge Cunha, professor de Teologia, elencou ao JN.

Acolher padres estrangeiros não deverá ser, por isso, um expediente para resolver a escassez de clero. Mas é uma excelente forma de promover o dinamismo missionário característico da Igreja.