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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Pedofilia e críticas ao Papa

O Papa pediu desculpa, a bordo do avião de regresso a Roma,
pela forma como se referiu à polémica
que envolve o bispo de Osorno, Juan Barros Madrid
Foto REUTERS/Alessandro Bianchi retirada daqui
Agora escrevo todas as segundas no JN. 

Esta semana escrevo sobre a questão que ensombrou a visita do Papa ao Chile e as críticas que vão surgindo contra a sua atuação  e a forma como se aceitavam ou não em relação aos seus antecessores.

"No passado, não se podia manifestar a mínima discordância com o que o Papa dizia ou fazia. Nem se podia pôr em causa a orientação que ele dava à Igreja. Curiosamente, os que antes eram os maiores defensores dessas teses, ao longo do pontificado de Francisco foram mudando de opinião. Primeiro, começaram por o criticar em surdina. Rapidamente, começaram a fazê-lo aberta e publicamente. E chegaram a enviar documentos ao Papa em que põem em causa a sua ortodoxia. Continuam hoje a fazê-lo de forma velada, com métodos e expressões pouco evangélicas"

Todo o artigo pode ser lido aqui.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Bento revolucionário

Papa Francisco e o Papa Emérito Bento XVI
Foto retirada daqui
O Papa Francisco deu uma entrevista ao jornal argentino “La Nación”. Nela aborda sobretudo questões que interessam aos leitores do seu país. Rejeita ter um relacionamento tenso com o presidente argentino. E fala da polémica receção no Vaticano de uma das mães da Praça de Maio, que no passado criticou duramente o então cardeal Bergoglio.

A entrevista coincidiu com a celebração dos 65 anos de ordenação sacerdotal de Bento XVI. Por isso, deste lado do Atlântico, o que mereceu maior destaque foi a forma carinhosa como o Papa se referiu ao seu antecessor e como o classificou a sua renúncia.

“Foi um revolucionário (…). É de louvar o seu desprendimento. A sua renúncia expôs todos os problemas da Igreja. A sua abdicação não teve nada que ver com nada pessoal. Foi um ato de governo, o seu último ato de governo”, disse o Papa acerca de Bento XVI.

Quando ainda perdura na opinião pública (e na publicada...) a imagem conservadora e até retrograda do cardeal Ratzinger, é o próprio Papa que o considera um pontífice avançado. Mas, mais relevante do que isso, foi ter destacado a principal virtualidade da sua resignação: o seu desprendimento obrigou a Igreja a confrontar-se com a podridão que campeava no seu interior. Esse tratamento de choque, não só permitiu o advento de Francisco, como facilitou a sua intervenção em ordem à reforma da Cúria Romana e da Igreja no seu todo.

Com estas palavras de Francisco, a histórica resignação de Bento XVI ganhou o um novo sentido. Mais do que uma desistência, ou o reconhecimento de uma incapacidade para promover a reforma, trata-se de um verdadeiro ato promotor da renovação da Igreja.

A forma como o Papa Francisco trata e considera o seu antecessor, bem como a forma como este tem exercido a sua condição de Papa emérito – dizem bem da enorme estatura destes dois homens. Em vez de se atrapalharem, apoiam-se e promovem-se reciprocamente.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/07/2016)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os Papas e o sexo

Foto retirada daqui
O discurso da Igreja é, em diversas circunstâncias, demasiado crítico em relação ao mundo em que se insere. “Muitas vezes agimos na defensiva e gastámos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” escreve o Papa Francisco no nº 38 da última exortação apostólica, Amoris Lætitia (A Alegria do Amor).

A alegria aparece logo no título, o que indicia uma valorização positiva do amor humano e da sua vivência em contexto familiar. Ao longo do texto percebemos melhor essa preocupação do Papa. Este não exclui a sexualidade nem o prazer, como tantas vezes acontece no discurso eclesiástico em que a sexualidade só é admitida em ordem à geração da vida. A virtude, por seu lado, costuma ser associada à renúncia e ao sofrimento, nunca ao prazer.

O Concílio Vaticano II, todavia, afirmou perentoriamente que “o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação”, como lembra o Papa no nº 178 da exortação. Na verdade, a Igreja (por exemplo Paulo VI na Humanae Vitae) sempre “destacou o vínculo intrínseco entre amor conjugal e procriação”. Mas isso não significa que seja esse o fim único e primordial. O Papa Francisco refere que “São João Paulo II rejeitou a ideia de que a doutrina da Igreja leve a ‘uma negação do valor do sexo humano’ ou que o tolere simplesmente ‘pela necessidade da procriação’” (nº 150).

Nesta exortação reconhece-se ainda que, aos olhos do mundo, a Igreja aparece muitas vezes como “inimiga da felicidade humana” (nº147). E recuperam-se os ensinamentos de Bento XVI que reconciliou o magistério com o prazer na encíclica Deus caritas est.

Os últimos Papas já tinham referido a sexualidade e o prazer nos seus ensinamentos. Francisco, contudo, tem conseguido ser mais ouvido por utilizar um discurso mais claro e menos embrulhado em considerações filosófica ou teológicas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/04/2016)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Pecados clericais

Foto retirada daqui
O filme “Spotlight” veio chamar de novo a atenção para o escândalo da pedofilia no seio da Igreja Católica. Desde 2002 – quando o jornal “The Boston Globe” denunciou diversos padres abusadores, que o filme relata – até hoje, mudou muito a práxis da Igreja em relação a esses deploráveis comportamentos. Na altura tentava-se abafar o escândalo e os bispos limitavam-se a mudar de paróquia os padres prevaricadores. Hoje, são obrigados a denunciar os casos às autoridades civis e eclesiásticas. Vindo-se a provar a veracidade das denúncias, sujeitam-se às penas civis e canónicas. E estas últimas podem implicar a perda do estatuto clerical.

A bordo do avião, no regresso do México, o Papa falou da questão aos jornalistas. Recordou a pessoa a quem muito se deve a mudança de atitude por parte da hierarquia. “Aqui gostaria de prestar homenagem a um homem que lutou, num momento em que não tinha força para se impor, até conseguir impor-se: o Cardeal Ratzinger – uma salva de palmas para ele” disse o Papa. Depois, já como Bento XVI, continuou a sua luta contra esta chaga na Igreja. E obrigou todas as conferências episcopais a definirem diretrizes claras para intervir nestes casos.

O Papa Francisco continuou a obra do seu antecessor. No diálogo com os jornalistas, elencou as várias medidas que tem tomado e deixou uma séria advertência aos seus irmãos no episcopado: “Um bispo que muda de paróquia um sacerdote quando se verifica um caso de pedofilia, é um inconsciente. E a melhor coisa que pode fazer é apresentar a renúncia”.

Apesar de globalmente a atitude dos bispos se ter modificado muito na abordagem da pedofilia, ainda se nota alguma condescendência com outros comportamentos que também corrompem os clérigos. Estes, ainda que pareçam menos graves – como o carreirismo, o apego ao dinheiro, o plágio, a sobranceria ou a vaidade –têm merecido a condenação veemente do Papa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/02/2016)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A Igreja e o preservativo

Papa Francisco conversa com os jornalista no regresso a Roma
Foto retirada daqui
Quando Bento XVI visitou os Camarões e Angola, em Março de 2009, a questão do preservativo acabou por captar a atenção mediática e relegar para segundo plano questões tão importantes como, por exemplo, a condenação veemente da corrupção.

A bordo do avião o Papa defendeu que “não se pode superar este problema da SIDA só com a distribuição de preservativos”, mas que tal exigia “a conjugação de dois factores: o primeiro, uma humanização da sexualidade” e “o segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem”. Assim, Bento XVI tentou alargar o âmbito da discussão em torno do uso do preservativo, mas o que ficou foi que a Igreja continuava a ser contra o seu uso. Este Papa viria depois a corrigir a sua posição afirmando claramente que o seu uso é justificado em determinados casos.

Já o Papa Francisco, no regresso da visita ao Uganda, Quénia e República Centro Africana, quando confrontado com a questão, também a bordo do avião, furtou-se a dar uma resposta se “sim” ou “não” se deve usar. Insistiu nas grandes questões que abordou em África e voltou a chamar a atenção para “a desnutrição, a exploração das pessoas, o trabalho escravo, a falta de água potável: estes são os problemas”, disse. E considerou que a “grande ferida” do continente africano “é a injustiça social, a injustiça ao meio ambiente”. Desta forma o Papa voltou aos principais assuntos da viagem por África, apelando ao diálogo e à reconciliação entre as pessoas de diferentes religiões, etnias e condições sociais.

É desta forma que a Igreja pode dar o seu maior contributo ao mundo. Não “descer a reflexões de casuística”, nas palavras do Papa Francisco, mas elevar a reflexão ao nível dos princípios e dos valores.

Mais importante do que ditar o uso ou não uso do preservativo, a Igreja deve preocupar-se em propor valores, como sejam o altruísmo e a abertura à vida, ou a humanização da sexualidade, como defendeu Bento XVI. No fundo, é fazer o mesmo caminho que percorreu em relação à organização política das sociedades: em vez de propor um modelo a partir da sua Doutrina Social, fornecer os valores a respeitar no exercício do poder. E denunciar todos os comportamentos que não os respeitam, sem canonizar um qualquer sistema político.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 04/12/2015)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O pároco de Rio de Onor

Mons. Lucio Angel Vallejo Balda
Foto retirada daqui
Um monsenhor está detido no Vaticano, acusado de ter divulgado documentos confidenciais da Santa Sé. É Dom Angel, como era conhecido na pequena aldeia fronteiriça de Rihonor de Castilla onde foi pároco nos seus três primeiros anos de sacerdócio.

Aquela aldeia espanhola é contígua à portuguesa Rio de Onor, no distrito de Bragança. Nos finais dos anos oitenta os cristãos daquelas duas aldeias, que a fronteira nunca separou, iam um domingo à missa ao lado espanhol e, no domingo seguinte, à igreja portuguesa. Por isso, Dom Angel também foi, embora só quinzenalmente, pároco de Rio de Onor. Nessa época em que foi pároco naquela zona raiana chegou mesmo a ser diretor espiritual do seminário de Bragança. Por pouco tempo, é certo, porque o bispo de Astorga logo o colocou na administração dos bens da diocese. Tornou-se então o mais jovem sacerdote a desempenhar tais funções em Espanha.

Devido ao bom trabalho desenvolvido na sua diocese e à colaboração na organização da Jornada Mundial da Juventude de 2011, presidida em Madrid por Bento XVI, acabou por nesse mesmo ano ir para Roma para ser Secretário da Prefeitura para Assuntos Económicos. O Papa Francisco escolheu-o para integrar a Cosea, a comissão que orienta a organização das estruturas económico-administrativas da Santa Sé. Foi aí que teve acesso a documentos confidenciais e que terá gravado conversas que agora são reportadas em dois livros apresentados ontem em Roma, o que levou o Papa a ordenar a sua prisão.

É possível que Angel Balda esteja convencido de ter feito o melhor para a Igreja, se de facto passou informações confidenciais aos jornalistas. Há, por vezes, a tentação de divulgar os vícios e a podridão que grassa no interior das instituições para, com a ajuda da exposição mediática, obrigar os seus responsáveis a corrigi-los.

Só que esse não é, por regra, o procedimento correto. Neste caso nem se pode alegar uma eventual passividade de quem dirige, uma vez que o Papa criou a Cosea precisamente para atacar a corrupção e os desperdícios no interior do Vaticano que o monsenhor Angel terá passado à imprensa. Estas fugas de informação, afirmou a Santa Sé, “não ajudam de modo algum a estabelecer clareza e verdade, mas apenas geram confusão e interpretações parciais e tendenciosas”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/11/2015)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Igreja e as eleições

D. António Marto
Foto: Fatima.pt retirada daqui
O futuro político do país está dependente das decisões dos líderes políticos, particularmente de António Costa, que determinarão se teremos um governo de esquerda ou de direita. Os bispos portugueses acompanham estes tempos “de uma certa incerteza e ansiedade em todo o país”, como os classificou D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima e vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. E pediu aos políticos “para que, neste processo, manifestem uma profunda responsabilidade que os leve a colocar o interesse nacional acima de todos os interesses partidários”.

Já em relação à opção concreta por um governo de esquerda ou de direita, embora não seja uma questão “indiferente” e em que “cada um terá a sua opinião” – segundo o P. Manuel Barbosa, porta-voz da Conferência Episcopal – os bispos não se comprometem com nenhuma das soluções. Limitam-se a apelar à estabilidade governativa “porque o país está em primeiro lugar, tal como o interesse comum”.

Nesta posição estão em perfeita sintonia com os ensinamentos dos últimos Papas. “A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política”, escrevia Bento XVI na Encíclica “Deus caritas est” (nº 28). “No diálogo com o Estado e com a sociedade, a Igreja não tem soluções para todas as questões específicas. Mas, juntamente com as várias forças sociais, acompanha as propostas que melhor correspondam à dignidade da pessoa humana e ao bem comum. Ao fazê-lo, propõe sempre com clareza os valores fundamentais da existência humana, para transmitir convicções que possam depois traduzir-se em ações políticas”, pode ler-se no nº 224 da “Evangelii Gaudium” do Papa Francisco.

No mesmo texto, o Papa diz: “Às vezes interrogo-me sobre quais são as pessoas que, no mundo atual, se preocupam realmente mais com gerar processos que construam um povo do que com obter resultados imediatos que produzam ganhos políticos fáceis, rápidos e efémeros, mas que não constroem a plenitude humana. A história julgá-los-á” (nº 224).

Para o bem do povo português, deseja-se que a intensa atividade política a que se tem assistido, e as decisões que venham a ser tomadas, não sejam corrompidas por um qualquer estéril e fútil tacticismo político-partidário. A história encarregar-se-á de julgar.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 16/10/2015)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O plágio do cardeal

Foto retirada daqui
O cardeal Juan Luis Cipriani, arcebispo de Lima, no Perú, utilizou em artigos de opinião, publicados no principal diário daquele país latino-americano, o “El Comercio”, textos do Papa Paulo VI e do então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa-emérito Bento XVI, sem os citar.

Logo que foi detetado o plágio, o jornal decidiu não publicar mais textos assinados pelo arcebispo. Cipriani, numa carta ao diretor da publicação, pediu desculpa aos leitores pelo sucedido e tentou justificar o injustificável, socorrendo-se de dois argumentos. Referiu a falta de espaço para citar as fontes e, o mais extraordinário, que se escusou a citá-las porque os “ensinamentos de Cristo, dos Papas e da Doutrina Social da Igreja”, que ele segue fielmente, são um “património comum da fé, não têm uma propriedade intelectual”.

Como acontece muitas vezes em determinados meios eclesiásticos, bem como no seio de outras instituições, quando não se consegue abafar o escândalo tenta-se tapar o sol com a peneira. Só que isso revela-se sempre uma péssima estratégia. Neste caso, o purpurado peruano acicatou ainda mais os jornalistas, que foram investigar se ele teria feito o mesmo com ideias provenientes de outras fontes. E descobriram que, em 2009, utilizou numa homilia textos do filósofo espanhol Alejandro Llano Cifuentes, publicados no livro “La Nueva Sensibilidad”, sem referir o autor.

Plagiar alguém é sempre um comportamento abjeto e condenável. Não há forma de o justificar nem de o escamotear. Mas fazê-lo em textos publicados on-line, para além de ser desonesto, é imbecil. Se por um lado a internet e os motores de pesquisa permitem o acesso fácil a muita informação, também permitem detetar facilmente a apropriação indevida das ideias de outra pessoa. Pelo que quem se habituou a copiar as ideias dos outros o melhor é não disponibilizar os “seus” textos on-line, porque rapidamente poderá ser apanhado. Quando tal acontece, é preferível reconhecer que errou, sem tentar justificar-se.

Quem o faz num órgão de informação, tal como aconteceu com Cipriani, deve ser imediatamente impedido de publicar porque pode voltar a ceder à tentação. E, para além disso, ficará sempre nos leitores a dúvida se os textos por ele assinados são, ou não, da sua autoria.


(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/08/2015)

sábado, 20 de junho de 2015

A encíclica verde

Foto retirada daqui
Na Encíclica “Laudato si” o Papa Francisco junta a sua voz à da terra que “clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou” (nº2).

O texto ontem apresentado no Vaticano dá continuidade ao discurso ecológico introduzido por Paulo VI no magistério social da Igreja. Em 1971, na carta apostólica “Octogesima adveniens” para comemorar a publicação da “Rerum novarum” de Leão XIII, “referiu-se à problemática ecológica, apresentando-a como uma crise que é ‘consequência dramática’ da atividade descontrolada do ser humano”, recorda o Papa Francisco noº4 da sua última Encíclica. João Paulo II propôs a fundamentação bíblica e teológica destas questões. Bento XVI assumiu e aprofundou o pensamento do seu antecessor, chegando mesmo a ser apelidado como “o primeiro papa verde” pela revista National Geographic, de 28 de fevereiro de 2013.

Francisco é o primeiro Papa a dedicar um texto com a relevância de uma Encíclica à problemática do ambiente.

A preocupação que ele procura suscitar é traduzida pela questão: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” Com uma linguagem frontal, que não se submete à lógica do politicamente correto, critica os governos e as grandes empresas que contribuem para a degradação ambiental e o acentuar da pobreza. Denuncia o consumismo e a divinização do mercado.

“Convém evitar uma conceção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos” (nº 190). Mas também censura aqueles que se preocupam mais com o desaparecimento de algumas espécies do que com os atentados contra a vida humana, como o aborto, ou o desaparecimento de uma cultura. Por isso, propõe uma ecologia integral que não seja só ambiental, mas que inclua também as dimensões humanas e sociais.

Para salvar, não só o planeta, mas também a humanidade e a sociedade, convoca todos e acredita que “nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto” (nº 205).

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/06/2015)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os Papas e a cadeia

João XXIII visita a cadeia de“Regina Coeli”
 Foto retirada daqui
Os cristãos não esquecem que o primeiro Papa esteve preso várias vezes em Jerusalém. E que S. Pedro, no final da vida, passou pela cadeia de Roma e foi condenado à morte, acabando por ser sepultado onde agora se ergue a Basílica com o seu nome.

Com a criação do Estado italiano e a perda dos territórios pontifícios, o Papa Pio IX declarou-se prisioneiro no Vaticano do estado italiano. João XXIII poria fim a essa “autorreclusão papal” e, poucos meses após a sua eleição, no dia 25 de Dezembro de 1958, dirigiu-se a um hospital pediátrico fora dos muros vaticanos. A cadeia “Regina Coeli” foi, no dia seguinte, a sua segunda visita. Dessa passagem ficou a frase do Papa Bom: “Sou José [seu nome próprio], um vosso irmão”!

Paulo VI visitará depois a mesma cadeia e dirá “que se pode ser bom no coração, mesmo quando pesa sobre os ombros uma condenação dos tribunais dos homens”. Na linha do seu antecessor, a 18 de Dezembro de 2011, Bento XVI, disse aos presos da prisão romana de Rebibbia: “É preciso pensar que todos podem cair, mas Deus quer que todos se aproximem dele. Reconheçam a própria fragilidade, avancem com dignidade e encontrem a alegria na vida”.

Para a Igreja um recluso nunca é um caso perdido – e a detenção é uma oportunidade para arrepender-se dos seus crimes, converter-se e recomeçar uma vida nova. Os ordenamentos jurídicos que rejeitam a pena de morte ou a prisão perpétua, por se acreditar na possibilidade da recuperação do criminoso, estão em sintonia com a maneira cristã de encarar a reclusão. Já os que se afastam dela sublinham o carácter punitivo da pena de prisão e negligenciam a reinserção social dos detidos.

O Ano da Misericórdia – que se iniciará a 8 de Dezembro e se concluirá no dia 20 de Novembro de 2016 – irá promover várias iniciativas que traduzam a “proximidade e atenção aos pobres, aos que sofrem, aos marginalizados e a todos aqueles que precisam de um sinal de ternura”. Estas foram as palavras do arcebispo Rino Fisichella na apresentação do calendário do Ano Santo, o qual prevê o “Jubileu dos Presos” a 6 de novembro de 2016.

O Papa Francisco quer que, se for possível, alguns reclusos venham à Praça de São Pedro. Não fará sentido celebrar a Misericórdia e esquecer um dos ambientes em que ela pode ser mais benéfica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/05/2015)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Passos decididos

Foto Lusa retirada daqui
Há dois anos Bento XVI tornava pública a sua resignação. Um gesto inesperado que abriu caminho ao advento de Francisco. Desde então sentiram-se na Igreja ventos de renovação.

Precisamente um mês após a sua eleição, a 13 de Abril de 2013, o Papa Francisco criou o conselho composto por nove cardeais (C9), oriundos dos cinco continentes, para o coadjuvar no governo da Igreja. Começou a funcionar em Setembro desse ano e apresentou ontem as suas primeiras propostas para a reforma da Cúria aos cardeais de todo o mundo. Estes estão reunidos no Vaticano, num Consistório que já inclui aqueles que irão receber o barrete cardinalício amanhã.

O C9 não está a criar uma nova Igreja, mas, em sintonia com o Papa, estão a contribuir para que se respire “um ar fresco” e se dê “um passo em frente” em muitas matérias, como disse um dos seus membros, o cardeal Reinhard Marx, numa entrevista ao sítio “Religión Digital”.

Alguns dos passos que a Igreja tem dado recuperam ideias que o Concílio Vaticano II propôs, outros aprofundam preocupações dos últimos Sumo Pontífices. E outros aventuram-se por caminhos nunca antes trilhados.

A “desclericalização” da Cúria e a atribuição de papéis relevantes aos leigos na sua orgânica retoma a perspetiva conciliar da dignificação do laicado, deixando de o subalternizar em relação ao clero. Um exemplo disso é a Pontifícia Comissão para Tutela dos Menores, constituída por leigos e clérigos, onde os primeiros têm um papel relevante.

Esta semana decorreu em Roma uma reunião plenária dessa comissão, a qual propôs a responsabilização dos bispos, e dos responsáveis de congregações religiosas, nos casos de negligência ou de tentativa de encobrimento de comportamentos pedófilos no interior das suas comunidades. Intensifica-se, assim, a luta contra a pedofilia iniciada por João Paulo II e aprofundada por Bento XVI.

O acolhimento pastoral às famílias em situações irregulares é um dos caminhos em que a Igreja se está a aventurar e que tem motivado algumas das críticas mais contundentes ao Papa, vindas dos que se opõem a qualquer flexibilização da doutrina católica sobre o matrimónio.

Deseja-se que, apesar dessa oposição interna, os ventos de mudança continuem a soprar e a renovar a multissecular Igreja Católica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/02/2015)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os “coelhos” do Papa

Foto retirada daqui
A bordo do avião, no regresso das Filipinas, o Papa não falou só de coelhos. Falou também de “um país que sabe sofrer”. E não se esqueceu dos pobres, “as vítimas desta cultura do descarte”. Denunciou o terrorismo de Estado que lança os cidadãos na pobreza e dos que dela se aproveitam para fazer uma “colonização ideológica”. Ergueu a voz contra a corrupção e os corruptos, que roubam o povo.

Como é normal e natural, o que mereceu um maior destaque e gerou uma maior discussão foi a alusão à paternidade responsável, por causa da formulação utilizada pelo Papa: “Creem alguns – desculpem a frase – que, para ser bons católicos, devem ser como coelhos”.

Esta expressão foi logo aproveitada para sublinhar a aparente contradição entre o apelo à paternidade responsável e a rejeição dos métodos anticoncetivos artificiais. Como se estes fossem o única forma de exercer a responsabilidade na procriação e assumindo que a Igreja é contra eles liminarmente. Porém, Bento XVI, há cinco anos, admitiu o uso do preservativo em determinadas circunstâncias. E Paulo VI, como recordou o Papa Francisco, defendeu a anticoncepção natural mas recomendou “aos confessores para serem misericordiosos, compreensivos” para com os problemas pessoais nestas matérias.

Nestes como noutros assuntos, a Igreja tem vindo a abandonar um discurso fundamentalista e a concentrar-se naquela que deve ser a sua preocupação: anunciar valores e denunciar o seu atropelo. Mais importante do que dizer se se pode ou não usar o preservativo, a Igreja deve, antes, apelar à responsabilidade dos pais para colocarem no mundo os filhos que devem. E isto poderá implicar, para alguns, não procriarem mais e, para outros, serem mais generosos e não cederem à tentação de se ficarem pelo filho único.

É isso que predominantemente acontece na Europa e em particular em Portugal, o qual, segundo o Eurostat, registava em 2012 a mais baixa taxa de fecundidade da União Europeia. A média europeia é de 1,58 filhos por cada mulher fértil. Em Portugal chega apenas aos 1,28, enquanto na Irlanda e na França, os países com o valor mais elevado, se fica pelos 2,01. Muito longe dos três filhos por casal que, “de acordo com o que dizem os peritos – mantêm a população”, como lembrou o Papa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 23/01/2015)

sábado, 20 de setembro de 2014

Papa “casa” divorciado

Foto de Alberto Pizzoli/AFP          
O Papa presidiu à celebração do casamento de vinte casais. De facto, não foi ele que os casou, foram eles que se casaram. É o único sacramento da Igreja em que os próprios que o recebem são eles os ministros do sacramento.

Quando se é batizado, é o diácono ou o sacerdote que batiza o catecúmeno. Quando se é crismado, é o bispo que crisma o crismando. Quando alguém é ordenado, é o bispo que ordena. Ninguém se ordena a si próprio. No caso dos bispos, é mesmo exigida a presença de três bispos, em comunhão plena com a Igreja.

Contudo, na linguagem corrente continua a dizer-se que “foi o padre tal que nos casou”. E até os próprios padres, por vezes, dizem impropriamente: “Fui eu que os casei”. Da mesma forma saíram diversos títulos referindo que o Papa casou…

Este tipo de cerimónias não é muito comum. João Paulo II só o fez por duas vezes. Bento XVI, enquanto Papa, que se saiba, nunca presidiu a um matrimónio. O Papa Francisco fê-lo pela primeira vez este domingo. Para esta celebração escolheu esposos nas mais variadas circunstâncias, entre os quais desempregados, alguns a viverem em união de facto e até um divorciado que casou com uma mãe solteira.

Foi este caso que mereceu maior destaque nos meios de comunicação social e gerou a ideia de que o Papa tinha feito algo de extraordinário. Só que o noivo, apesar de ser divorciado, conseguiu que o seu casamento religioso fosse declarado nulo. Pelo que, canonicamente, ele era solteiro e qualquer clérigo poderia ter abençoado o novo matrimónio.

O problema teria sido repetir o casamento católico sem que o anterior tivesse sido declarado nulo. Para esses é que a Igreja ainda não tem resposta. A maior parte dos divorciados não só não podem casar, novamente perante a Igreja, como também não podem aceder a outros sacramentos se estiverem a viver numa nova união, civil ou de facto.

Espera-se que o Sínodo dos Bispos reflita sobre essa e outras situações irregulares e que encontre uma solução para que as pessoas possam ser admitidas à confissão e comungar. Para já o Papa limitou-se a acolher diferentes percursos para o matrimónio e a cumprir integralmente a práxis da Igreja, sem deixar de sublinhar o carácter heterossexual do matrimónio.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/09/2014)

domingo, 17 de agosto de 2014

Os nossos "Franciscos"

Conferência de imprensa de apresentação da peregrinação anual
do migrante e refugiado ao Santuário de Fátima
Foto: Fatima.pt, retirada daqui
Os nossos bispos alinham o seu discurso com o do Papa Francisco e não se coíbem de criticar o capitalismo, os políticos e a falta de ética nos mercados.

D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, para além de ter o mesmo nome que escolheu o Papa, tem manifestado as mesmas preocupações pelos mais pobres nas palavras e em gestos, muito semelhantes. Ainda neste S. João do Porto escolheu as famílias mais desfavorecidas da Ribeira para com elas passar essas festividades.

Na homilia da missa da peregrinação anual do migrante e refugiado ao Santuário de Fátima, anteontem, não disse, como o Papa, que “a economia mata”. Mas deu o passo que se impõe, que é o de promover “uma economia de rosto humano e solidário e um sistema financeiro assente na verdade”.

Um outro Francisco – o frei Francisco Sales, diretor da Obra Católica Portuguesa para as Migrações – na conferência de imprensa de apresentação da peregrinação foi ainda mais contundente do que o seu homónimo na crítica às políticas que têm provocado um “grande fluxo migratório português, quase uma sangria da população portuguesa, pela Europa e pelo mundo”. Disse: “A emigração e as migrações são uma denúncia contra as políticas e contra os governos, ou seja, contra a incompetência dos políticos criarem condições para fixarem as suas populações”. E clarificou que essa incompetência é “fruto de uma crise de valores, de uma corrupção política e financeira que levou a que o país não tivesse condições para criar trabalhos e condições para fixar particularmente os jovens”.

D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima e anfitrião da peregrinação, classificou a turbulência financeira e bancária que se vive em Portugal como mais uma manifestação da “ditadura do capitalismo financeiro e especulativo”, como a apelidou Bento XVI. Lembrou também o Papa Francisco e considerou o momento em que nos encontramos como o resultado da “tirania económico-financeira, especulativa, virtual, desligada da economia real”.

São palavras corajosas em que transparece uma sintonia com os pensamentos do anterior e do atual Papa. E – o que é fundamental – evidenciam o mesmo compromisso com os problemas dos mais desfavorecidos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/08/2014)

domingo, 10 de agosto de 2014

A queda de um banco

Ricardo Salgado
Foto retirada daqui
A crise do BES é mais um exemplo de como o lucro a qualquer preço e uma gestão à margem da lei e da ética podem perverter uma atividade que deveria estar ao serviço do desenvolvimento humano, social e económico dos seus clientes e do contexto em que se insere.

“A vocação dum empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos”, recordava o Papa Francisco no nº 203 da “Evangelii Gaudium”.

Já Bento XVI, na “Caritas in Veritate”, avisava que “a economia e as finanças, enquanto instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas referimentos egoístas. Deste modo é possível conseguir transformar instrumentos de per si bons em instrumentos danosos; mas é a razão obscurecida do homem que produz estas consequências, não o instrumento por si mesmo” (nº 36).

De facto a Igreja não demoniza os mercados financeiros, mas valoriza o seu papel fundamental no crescimento económico, “que permitiu, entre outras coisas, apreciar as funções positivas da poupança para o desenvolvimento integral do sistema económico e social”, como se pode ler no nº 368 do Compêndio de Doutrina Social da Igreja, publicado em 2004, com o objetivo de apresentar de forma sistemática o pensamento católico sobre as questões sociais.

O mesmo Compêndio cita João Paulo II para denunciar “as ações e as atitudes opostas à vontade de Deus e ao bem do próximo” que corrompem a atividade económica: “por um lado, há a avidez exclusiva do lucro; e, por outro lado, a sede do poder, com o objetivo de impor aos outros a própria vontade. A cada um destes comportamentos pode juntar-se, para os caracterizar melhor, a expressão: ‘a qualquer preço’. Por outras palavras, estamos diante da absolutização dos comportamentos humanos, com todas as consequências possíveis” (Sollicitudo Rei Socialis, nº 37).

Ambas as tendências parecem ter estado na génese do terramoto que ditou a derrocada do BES, bem como a queda do seu líder, “o banqueiro do regime”, como era considerado. Este que, se conhecia, não seguia a Doutrina Social da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/08/2014)

domingo, 4 de maio de 2014

Papas ausentes

Papas desde João XXIII até ao atual
Arranjo gráfico de Lorenzo Rumori retirado daqui
Cerca de um milhão de pessoas acorreram à Praça de S. Pedro para participar na canonização de dois novos santos: João XXIII e João Paulo II. Dado que a memória do papa polaco está mais viva na mente e no coração dos fiéis, não é de estranhar que a maioria dos presentes sejam seus devotos. João XXIII foi um papa muito popular, no seu tempo, e querido pelos fiéis, que rapidamente o começaram a apelidar de "Papa Bom", apesar de então não haver os meios de difusão das notícias, que, hoje, possibilitam o acompanhamento próximo do dia-a-dia do Papa.

João XXIII iniciou o caminho de humanização do papado que se intensificou com os seus sucessores – em particular com João Paulo II que, após anos de exposição mediática nas inúmeras viagens que realizou, não quis esconder a doença e a decrepitude do Papa. Também Bento XVI deu um assinalável contributo ao reclamar para o bispo e de Roma o direito a "reformar-se".

Numa mesma celebração reuniram-se quatro dos Papas que resgataram a Igreja do encerramento nos muros vaticanos para o diálogo com o mundo e a contemporaneidade. Faltaram somente o Papa Paulo VI e João Paulo I, a quem ainda não foi reconhecida oficialmente a santidade mas que, também, contribuíram para essa caminhada.

Paulo VI foi o timoneiro que assumiu o leme do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu antecessor, e o soube levar a bom porto. Ficou, assim, ligado à maior reforma da Igreja desde o concílio de Trento, quinhentos anos antes.

João Paulo I, para além de ter homenageado os seus dois antecessores no nome escolhido, no seu curtíssimo pontificado deixou antever uma personalidade muito semelhante à do atual Papa. Era um bom comunicador. Criou uma relação empática com as pessoas, que o cognominaram de "Papa do Sorriso". Tal como Francisco, nas audiências gerais interagia com os assistentes, "entrevistava" crianças e jovens.

São dois papas a que a história ainda não fez justiça. Muitos acreditam que também eles trilharam o caminho da Santidade e desejam que rapidamente sejam reconhecidos como pertencentes a essa galeria de homens e de mulheres que, nas mais diversas circunstâncias, viveram a sua fidelidade a Jesus Cristo e aos valores do  Evangelho.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/05/2014)

domingo, 30 de março de 2014

A Igreja e a pedofilia

Foto retirada de Portal Um
O Papa Francisco deu mais um passo significativo na forma como a Igreja lida com o problema da pedofilia no seu seio. No passado sábado nomeou oito elementos para a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores que tinha anunciado no dia 5 de Dezembro de 2013.

O escândalo da pedofilia abriu feridas profundas e insanáveis nas vítimas. Manchou o rosto da Igreja na passagem do II para o III milénio. Pôs a nu comportamentos inadequados das autoridades eclesiásticas, como reconheceu Bento XVI em 2010, numa Carta Pastoral aos bispos irlandeses. Até ao final do século XX o procedimento habitual da hierarquia católica era tudo fazer para abafar o escândalo e, quando muito, transferia o sacerdote acusado de paróquia ou de encargo pastoral.

Em 2001 começou a mudar a sua atuação. Por determinação de João Paulo II, o abuso sexual de um menor perpetrado por um clérigo passou a fazer parte da lista dos delitos graves reservado à Congregação para a Doutrina da Fé, obrigando os bispos a comunicar os casos detetados nas suas dioceses desde que existissem provas desses delitos.

Bento XVI pediu às Conferências Episcopais, em 2010, que definissem diretrizes claras a aplicar logo que surgissem suspeitas de comportamentos pedófilos. Estas deveriam ter em conta o apoio às vítimas, a proteção dos menores, a formação dos futuros sacerdotes e religiosos, o acompanhamento dos clérigos e, ainda (o aspeto mais surpreendente), a colaboração com as autoridades civis.

A Conferência Episcopal Portuguesa aprovou essas diretrizes em Abril de 2012. Nelas são tidas em consideração todas as recomendações papais. Agora, ao nomear os primeiros elementos para a Pontifícia Comissão, o Papa Francisco, para além de dar continuidade ao caminho percorrido pelos seus antecessores no combate à pedofilia, centra a atenção da Igreja nas vítimas.

Com estas nomeações, de quatro homens e quatro mulheres, o Papa revela argúcia política – escreve John Allen, num texto no jornal “The Boston Globe” – e responde às duas principais críticas que tem recebido. A primeira é a de nada ter feito no combate à pedofilia. A segunda é a de, embora defendendo a importância da mulher na Igreja, continuar a rejeitar a sua ordenação.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/03/2014)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Graças a Bento XVI

Foto: Filippo Monteforte/AFP
Na noite de 11 de Fevereiro de 2013 uma câmara fotográfica registou a queda de um raio na cúpula de S. Pedro. É um fenómeno que acontecerá dezenas de vezes ao longo do ano, mas essa imagem apareceu em inúmeras publicações por coincidir com a renúncia de Bento XVI. Algo que não acontecia na Igreja há quase seiscentos anos. E, pela primeira vez, foi “uma decisão tomada de forma livre e espontânea, sem estar envolta em polémica nem resultar de pressões, como aconteceu nas anteriores”, escrevi na altura. Não faltaram, contudo, leituras com as mais elaboradas teorias, atribuindo a decisão de Ratzinger a forças vaticanas obscuras.

À distância de um ano, o P. Antonio Spadaro, diretor da revista “La civiltà cattolica”, pensa que é errado atribuir a renúncia do Papa somente “à debilidade física, provocada pela idade, pelo cansaço ou a motivações símiles”. Devem-se procurar as causas de tão inusitado gesto no discurso que dirigiu aos cardeais reunidos, naquele dia, para aprovar novos santos.

“No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”. Spadaro considera estas palavras “o coração da comunicação” de Bento XVI e conclui, a partir delas, que “o Papa renuncia ao ministério petrino não somente porque se sente débil mas porque percebe que estão em jogo desafios cruciais que pedem uma energia nova”.

Os cardeais souberam ler as palavras de Bento XVI e escolheram Jorge Mario Bergoglio. Este introduziu na Igreja o dinamismo a que o seu antecessor aludia. Está a conseguir dialogar com a pós-modernidade e a afrontar com vigor as questões que ela coloca à fé. “O motor primário na cadeia de eventos que levou ao Papa Francisco foi Bento XVI, o revolucionário improvável, que colocou as rodas em movimento um ano atrás”, conclui John Allen, num artigo no jornal “The Boston Globe”, sobre a resignação de Joseph Ratzinger.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/02/2014)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A humanidade do Papa

Foto "L’Osservatore Romano" retirada daqui
As palavras e os gestos do Papa Francisco têm contribuído para a humanização do papado. Na visita a uma paróquia periférica de Roma, a do Sagrado Coração, apresentou-se há dias como um “homem comum” e abriu o seu coração a um grupo de refugiados confessando que na sua vida, como na deles, houve “muitas coisas boas e muitas más”.

Desde Pedro, o primeiro Papa, até aos nossos dias, fez-se um longo caminho na forma de compreender e exercer o ministério petrino. Uma história que chegou a fazer do sucessor de um humilde e arrependido pescador um Papa–Rei, esvaziando-o da sua humanidade e transformando-o num ser quase inacessível e infalível.

Felizmente, nos últimos dois séculos o caminho tem sido o inverso.

Em 1870 o Concílio Vaticano I definiu a infalibilidade papal. Fê-lo, curiosamente, nas vésperas de o papado perder os Estados Pontifícios para a Itália unificada. O Papa infalível viu-se portanto confinado ao minúsculo território da Cidade do Vaticano, no qual, para vincar o seu protesto, se enclausurou.

Pio XII rasgou os muros do Vaticano com a “Via della Conciliazione”, símbolo da reconciliação entre a Santa Sé e a Itália, mas não os transpôs. Será João XXIII, o primeiro Papa a ultrapassá-los – para visitar um hospital pediátrico e uma cadeia – e a sair de Roma – para visitar Assis e o Santuário do Loreto. Mas, mais importante do que a transposição dos muros do Vaticano, foi ter despoletado o dinamismo de uma Igreja que se voltou para o mundo com a convocação de um concílio, o Vaticano II.

Paulo VI deu continuidade à atividade conciliar do “Papa Bom”, concluindo-a. E saiu de Itália para visitar a Terra Santa, a que se seguiram outros pontos do globo, como Fátima.

João Paulo II, para além de intensificar as visitas apostólicas, no final do pontificado expôs ao mundo a sua decrepitude e doença. E Bento XVI deu uma machadada na concepção tradicional do papado, despojando-o do seu carácter vitalício.

Já Francisco, mais do que o Sumo Pontífice, preferiu desde a primeira hora ser o Bispo de Roma, um homem comum, que sofre como todos. Um pecador, como qualquer dos bispos, tal como ainda há dias fez questão de recordar: “Todos os bispos somos pecadores. Todos!”

(Texto publicado no Correio da Manhã de 31/01/2014)

domingo, 29 de dezembro de 2013

O acontecimento do ano

Foto: REUTERS/Stefano Rellandini (retirada daqui)
Ao chegar ao final do ano é normal eleger-se a figura e o acontecimento do ano. No âmbito eclesial e até mundial impôs-se a figura do Papa Francisco. Várias publicações o escolheram como personalidade que marcou o ano que agora termina.

Para além da Time, muitas outras publicações, como a The New Yorker, a Vanity Fair, ou a Foreign Policy o incluíram nas listas das individualidades que se destacaram em todo o mundo no último ano. Em Portugal, várias, como aconteceu com o Correio da Manhã e a revista Sábado, também o elegeram como figura do ano e não haverá nenhuma que não o tenha mencionado nas suas listas de personalidades e acontecimentos de 2013.

Todavia, este “efeito Francisco”, como já foi apelidado nos meios de comunicação social, só foi possível graças à resignação de Bento XVI. Esse acontecimento não tem sido devidamente realçado, mas terá sido o mais significativo para a Igreja e para o seu futuro. Não só por ter aberto caminho ao cardeal vindo do “fim do mundo”, mas, sobretudo, por ter contribuído para uma nova conceção do papado.

Paulo VI terá colocado a hipótese de resignar, quando se sentiu mais debilitado fisicamente, por fidelidade à doutrina conciliar. O Concílio impôs aos bispos que “vendo-se menos aptos para exercer o seu ministério por motivo de idade avançada ou por outra causa grave apresentem a renúncia do seu cargo” (Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos, nº 21). Paulo VI acabou por não resignar porque, entretanto, deu-se o rapto do primeiro-ministro italiano Aldo Moro e decidiu permanecer para ajudar a superar essa crise com a sua intervenção.

Caberá ao cardeal Ratzinger dar esse testemunho, ele que foi um dos teólogos mais influentes na reflexão conciliar. Ao renunciar, assume a sua fragilidade e, em sintonia com a perspetiva conciliar, como qualquer outro bispo, renuncia ao seu ministério, para que outro possa tomar o leme da Barca de Pedro e conduzi-la neste conturbado contexto da pós-modernidade. O Papa Francisco, que gosta de se apresentar como bispo de Roma, está a fazê-lo de forma admirável. A resignação de Bento XVI está na sua génese e, não só por isso, pode ser considerada o acontecimento eclesial mais relevante de 2013.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/12/2013)