sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Inseminação vocacional

Encontro do Papa com os consagrados no dia 01/02/2016
Foto retirada daqui
Na Europa, Estados Unidos e Canadá os sacerdotes, os religiosos e as religiosas são cada vez menos e mais idosos. Na América Latina aumentam ligeiramente. Já no continente africano e asiático a Igreja rejuvenesce-se e aumentam os que optam por uma vida de consagração. Graças ao contributo destes continentes o número dos consagrados tem aumentado nos últimos anos. Contudo, ainda se está longe de atingir o pico que se registou no final dos anos 60, em que haveria mais de 1,5 milhões de consagrados. De acordo com as estatísticas da Santa Sé, em 2013 havia no mundo 1,2 milhões de consagrados.

A diminuição das vocações, sobretudo no mundo ocidental, tem feito com que os critérios de admissão aos seminários e às casas de formação religiosa sejam menos rigorosos do que num passado recente, quando ainda havia candidatos em abundância. O Papa Francisco tem consciência que assim acontece. Num encontro com cinco mil consagrados, em Roma, no passado dia 1, denunciou que algumas congregações, devido à sua esterilidade vocacional, recorrem ao que chamou a “inseminação artificial”.

Como têm falta de vocações, deixam entrar todos os que aproximam sem o devido discernimento. Ou, então, recrutam na Ásia e em África para viabilizar as comunidades religiosas no Ocidente. “Não!”, exclamou o Papa. “Deve-se recrutar com seriedade! Deve-se discernir bem se existe uma verdadeira vocação e ajudá-la a crescer”, disse.

Quando se procede levianamente na consagração de pessoas que não reúnem as condições para abraçar este estilo de vida, para além de não se resolver o problema da falta de consagrados, geram-se outros. São disso um bom exemplo os párocos que, por não serem líderes, têm dificuldade em orientar as suas comunidades e em gerir os conflitos. Esses, em vez de serem parte da solução, são parte dos problemas. E, por vezes, são até os instigadores das controvérsias.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 05/02/2016)

sábado, 30 de janeiro de 2016

As religiões e a Paz

O encontro do Papa Francisco com Hassan Rohani
Foto REUTERS/Andrew Medichini/Pool, retirada daqui
O Jubileu da Misericórdia desafia a Igreja a sair de si e a construir pontes de entendimento com as outras religiões monoteístas. “A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus”, escreveu o Papa Francisco na Bula de convocação do ano jubilar.

Já nos vamos habituando a que tudo o que o Papa diz e escreve é acompanhado por gestos concretos para traduzir o seu pensamento. Ainda antes da convocação do Jubileu protagonizou diversas iniciativas de encontro e diálogo com as outras religiões. De entre todos, talvez o mais marcante tenha sido o abraço aos seus dois amigos – o judeu Abraham Skorka e o muçulmano Ombar Abboud – na visita à Terra Santa.

No contexto do Ano da Misericórdia, na semana passada, visitou a Sinagoga de Roma. É a terceira vez que um Papa visita esse templo. Entretanto, foi convidado formalmente a visitar a maior Mesquita sunita da Europa, situada em Roma. Embora, os últimos Papas já tenham estado em vários templos muçulmanos será a primeira vez que o Romano Pontífice visitará a Mesquita da sua cidade.

Pode-se também incluir no âmbito do diálogo inter-religioso a audiência concedida ao presidente iraniano, o xiita Hassan Rohani. Mesmo sendo um encontro entre os chefes de estado do Vaticano e do Irão foi-o também um encontro entre dois clérigos, um cristão e católico e outro muçulmano e xiita. Por isso, não é de estranhar que tenha sido sublinhada “a importância do diálogo inter-religioso e a responsabilidade das comunidades religiosas na promoção da reconciliação, da tolerância e da paz”, como refere o comunicado da Santa Sé.

Quando o nome de Deus é invocado, indevidamente, para fazer a guerra, é importante que os líderes religiosos se encontrem e se comprometam na promoção da paz entre diferentes religiões.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/01/2016)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os pobres em Davos

Foto retirada daqui
Os mais destacados líderes políticos e empresários do mundo refletem sobre a “quarta revolução industrial”. Em Davos, uma pequena localidade dos alpes suíços, decorre o 46º Fórum Económico Mundial, que se iniciou na quarta e termina amanhã. A primeira revolução industrial foi provocada pela máquina a vapor, a segunda pela eletricidade e a terceira pela eletrónica e robótica. A quarta desenvolve-se devido à combinação de diversos fatores e das tecnologias digitais.

Numa mensagem dirigida ao Fórum, o Papa Francisco defende “a necessidade de criar novos modelos empresariais que, enquanto promovem o desenvolvimento de tecnologias avançadas, sejam capazes também de utilizá-las para criar trabalho digno para todos, manter e consolidar os direitos sociais e proteger o meio ambiente”.

O Papa aproveitou ainda para apelar aos mais ricos e poderosos do mundo que não esqueçam os mais pobres. E mais uma vez ergueu a sua voz para denunciar a “cultura do descarte” e da indiferença perante a exclusão e o sofrimento de tantas pessoas, em todo o mundo. “Não devemos permitir jamais que a cultura do bem-estar nos anestesie” Desafiou os que têm nas mãos os destinos do mundo “a garantir que a vinda da ‘quarta revolução industrial’, os efeitos da robótica e das inovações científicas e tecnológicas não levem à destruição da pessoa humana – ao ser substituída por uma máquina sem alma – nem à transformação do nosso planeta num jardim vazio para deleite de poucos escolhidos”.

Na verdade, uma economia e uma tecnologia que não colocam a pessoa humana no centro das suas preocupações, rapidamente resvalam para uma “economia que mata” e uma tecnologia que gera ainda mais exclusão social. O Papa deseja que o Fórum contribua para corrigir essa tendência e promova “a defesa e salvaguarda da criação” e um “progresso que seja mais saudável, mais humano, mais social, mais integral”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/01/2016)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Papa e refugiados

Foto Lusa retirada daqui
A Santa Sé mantém relações diplomáticas com cento e oitenta estados soberanos, dos cerca de duzentos que existem no mundo, de acordo com a página oficial do Vaticano. Mas, mais importante do que o número, é a qualidade do serviço diplomático que a Igreja desenvolve pelo mundo. Ainda recentemente se viu o resultado desse trabalho no reatar das relações entre os Estados Unidos e Cuba.

No início desta semana o Papa Francisco, no seu discurso anual aos embaixadores, garantiu que “a Santa Sé não deixará jamais de trabalhar para que a voz da paz possa ser ouvida até aos últimos confins da terra”. Aproveitou a oportunidade para denunciar, uma vez mais, o problema dos que se vêem obrigados a abandonar a sua terra pelos mais diversos motivos, entre os quais destacou a perseguição religiosa.

Recordou que “toda a Bíblia nos conta a história duma humanidade a caminho” e que até Jesus, segundo o Evangelho, foi um refugiado no Egito. Para o Papa, na génese da crise humanitária que se vive na Europa, está o individualismo e “a arrogância dos poderosos que instrumentalizam os fracos, reduzindo-os a objetos para fins egoístas ou por cálculos estratégicos e políticos”. 

Para resolver esta crise é necessário pôr em causa “hábitos e práticas consolidadas, a começar pelas problemáticas relacionadas com o comércio dos armamentos, até ao problema da conservação de matérias-primas e energia, aos investimentos, às políticas de financiamento e apoio ao desenvolvimento, até à grave chaga da corrupção”. E, para ele, é necessário também implementar “projetos de médio e longo prazo que ultrapassem a resposta de emergência”, que promovam a integração dos refugiados e, ainda mais importante, “o desenvolvimento dos países de origem com políticas solidárias” para estancar os fluxos migratórios.

Nada disto será fácil de conseguir. Mesmo com o auxílio da diplomacia da Santa Sé...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/01/2016)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A reforma continua…

Foto retirada daqui
O Papa Francisco, na apresentação das saudações natalícias aos membros da Cúria Romana, no final do ano passado, apareceu cansado e engripado. Por isso, em vez de falar de pé, como habitualmente, pediu desculpas e falou sentado. Fez, mesmo assim, um discurso vigoroso e determinado. E afirmou que “a reforma prosseguirá com determinação, lucidez e ardor, porque Ecclesia semper reformanda”.

Desta vez, porém, não foi tão contundente como em 2014, quando elencou as quinze tentações da Cúria que desta vez recordou como o “catálogo das doenças curiais”. Reconheceu, agora, que “nem as doenças, nem mesmo os escândalos, poderão esconder a eficiência dos serviços que a Cúria Romana presta ao Papa e à Igreja inteira, com desvelo, responsabilidade, empenho e dedicação, sendo isso motivo de verdadeira consolação”. E frisou que “seria uma grande injustiça não expressar sentida gratidão e o devido encorajamento a todas as pessoas sãs e honestas que trabalham com dedicação, lealdade, fidelidade e profissionalismo”.

Aos que trabalham na Cúria, bem como a “todos aqueles que querem tornar fecunda a sua consagração ou o seu serviço à Igreja”, o Papa propõe doze “antibióticos curiais”. A lista, em italiano, é um acróstico, em que a primeira letra de cada um dos antibióticos formam a palavra Misericórdia.

A lista completa é: Missionariedade e pastoreação, Idoneidade e sagacidade, Espiritualidade (Spiritualità em italiano) e humanidade, Exemplaridade e fidelidade, Racionalidade e amabilidade, Inocuidade e determinação, Caridade e verdade, Honestidade (Onestà) e maturidade, Respeito e humildade, “Dadivosidade” e atenção, Impavidez e prontidão, Fiabilidade (Affidabilità) e sobriedade.
Para a letra D o Papa propõe mais um neologismo: com a “Dadivosidade” ele quer traduzir a capacidade, não só de dar, mas também e sobretudo de se dar e estar atento aos que precisam.

O Papa adverte que este não é um “catálogo das virtudes” exaustivo. E apela a todos os que trabalham na Cúria “a aprofundá-lo, enriquecê-lo e completá-lo”. É seguramente um bom instrumento para todos os que têm responsabilidades na Igreja fazerem o exame de consciência à sua atuação e forma de estar.

A todos, votos de um feliz 2016, que se anuncia reformista para a vida da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/01/2016)