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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O “Papa Negro”

Papa Francisco com P. Arturo Sosa, Geral dos jesuítas
Foto retirada daqui
Os jesuítas elegeram o venezuelano Arturo Sosa para seu Superior Geral, no último fim de semana. Durante quase cinco séculos de história – completaram no mês de setembro 476 anos de existência – essa função foi sempre desempenhada por europeus e, salvo raras exceções, oriundos da Europa Ocidental.

Desde esta semana, tanto o Papa Francisco como o denominado “Papa Negro”, são oriundos do mesmo continente. Esta designação deve-se ao facto de o Superior Geral dos Jesuítas usar a batina negra própria dos clérigos e ambos receberem um encargo vitalício. Ainda que, como aconteceu com Bento XVI, bem como com os últimos Superiores Gerais, possam renunciar aos seus cargos.

No passado, falava-se destes dois Papas também pelo poder que o Superior Geral detinha dentro da Igreja e fora dela, uma vez que os jesuítas geriam as mais destacadas universidades do mundo e estavam presentes nas principais cortes, nomeadamente como confessores de reis e de rainhas.

Foi o seu poder de influência nas decisões políticas que terá despertado invejas e motivado a perseguição que culminou, em 1773, com a supressão da Companhia de Jesus. Acabaria por ser restaurada em 1814 e, desde então, tornou-se num dos institutos religiosos masculinos com maior número de membros: atualmente tem mais de quinze mil jesuítas, espalhados pelos cinco continentes, com uma particular dedicação ao ensino e à investigação. Apesar de, em muitos contextos, conviverem com as elites, também não esquecem os mais pobres e a atividade missionária nos países mais recônditos.

Arturo Sosa vai liderar esta relevante congregação da Igreja. Contará, certamente, com a cumplicidade do Papa. Para além de ambos serem latino-americanos, une-os uma amizade desenvolvida no interior da Companhia de Jesus, anterior aos cargos que agora desempenham. E partilham a mesma preocupação e empenhamento na luta contra a pobreza.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 21/10/2016)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Euro e a paz

Reflexões dos bispos europeus sobre a paz mundial
Foto retirada daqui
Como é normal, o Europeu de Futebol em França domina as atenções dos europeus. Mas muitas outras coisas acontecem para além dos jogos de futebol. Fora dos campos têm marcado a atualidade os desacatos entre claques, as ameaças terroristas, o assassinato de dois polícias e, a contrastar com tudo isto, a saudável confraternização entre adeptos de Portugal e da Islândia.

O Euro deveria ser uma festa das nações europeias em torno do futebol. Infelizmente, há quem aproveite estes acontecimentos para semear a violência e o terror. Será sempre de realçar, por isso, quando povos tão distantes e diferentes como o islandês e o português gostam de se misturar num estádio e confraternizam entre si.

A comunidade europeia foi sonhada precisamente para promover a paz e prevenir a guerra no Velho Continente. Contudo, enquanto decorre este Euro, ventos de desagregação varrem a Europa. Os partidos eurocéticos crescem em quase todos os países. Os europeístas convictos não conseguem reinventar o projeto europeu. A Grécia esteve à beira de sair da construção europeia e, agora, é o Reino Unido que a poderá abandonar.

Cientes disto, os bispos europeus, reunidos em Bruxelas no início desta semana, renovaram a sua profissão de fé numa Europa unida e solidária. Em ordem à promoção da paz mundial, os bispos defenderam um maior investimento na prevenção da escalada da violência; uma paz enraizada no respeito pela dignidade da pessoa e da diversidade; e um maior investimento na segurança das pessoas, de forma a que estas possam permanecer nos seus países.

As reflexões dos bispos estão vertidas num documento que termina com 21 “recomendações” concretas, nas quais não é esquecido o papel fundamental que as igrejas e as religiões podem desempenhar na construção da paz. É um documento que os líderes europeus deveriam ler e refletir. A construção europeia tem de ser relançada.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 17/06/2016)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O ateu e o bispo

Marco Panella e o arcebispo Vicenzo Paglia
Foto retirada daqui
A amizade pode surgir entre pessoas que militam em campos diametralmente opostos, com opções nada compatíveis. As quais, todavia, não os impedem de desenvolver uma admiração e uma estima recíprocas.

A morte do fundador do líder do Partido Radical italiano de extrema-esquerda, Marco Panella, veio tornar mais conhecida uma dessas amizades improváveis. Um homem que se definia a si mesmo como “radical, socialista, liberal, federalista europeu, anticlerical, anti proibicionista, antimilitarista, não violento e gandhiano” era amigo do arcebispo Vicenzo Paglia, o atual Presidente do Pontifício Conselho para a Família. A quem até admitia que rezasse por ele.

Uma estranha amizade entre um libertino que defendia o divórcio a eutanásia ou a despenalização do aborto e um clérigo que se opõe frontalmente a tudo isso. Entre um ateu declarado e um crente confesso, mas que convergiam na defesa dos direitos humanos. E, cada um a seu modo, declaravam ter um espírito religioso.

D. Vicenzo Paglia reconheceu, numa entrevista ao “Corriere della Sera”, que apesar das divergências em algumas opções políticas, até o admirava por “gastar a vida em função dos ideais em que acreditava”. Algo que até levou o Papa Francisco a “apreciá-lo”. Um sentimento que era recíproco.

“Escrevo-te do meu quarto no último andar, perto do céu, para te dizer que, na realidade, eu estive contigo em Lesbos, quando abraçavas a carne torturada daquelas mulheres, daquelas crianças, e daqueles homens que ninguém quer acolher na Europa”, dizia Marco Panella, numa carta escrita na cama do hospital e entregue pelo amigo arcebispo ao Papa. Terminava essa carta com a expressão carinhosa italiana: “Ti voglio bene davvero tuo Marco” (Quero-te, muito, de verdade, o teu Marco).

Estas palavras, para além do afeto pelo Papa, demonstram bem que, para lá de tudo o que os separava, os unia a predileção pelos mais desprezados.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/05/2016)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O sonho do Papa

Papa Francisco no Parlamento Europeu a 25/11/2014
Foto retirada daqui
A construção europeia atravessa tempos difíceis. O euroceticismo tem cada vez mais adeptos. A Grécia esteve com um pé de fora e o Reino Unido pondera o abandono do projeto europeu. É neste contexto que foi atribuído ao Papa Francisco o Prémio Carlos Magno, que distingue personalidades que contribuíram para a construção da União Europeia.

Habitualmente o Papa não aceita condecorações. Decidiu, porém, aceitar esta distinção “como um gesto para que a Europa trabalhe pela paz”.

Perante uma plateia em que se destacavam alguns conhecidos políticos europeus, o Papa recuperou preocupações suas que já havia mencionado na visita ao Parlamento Europeu. E questionou: “Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, filósofos, artistas, músicos, escritores? Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações, mãe de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irmãos?” 

Com o olhar no passado, e tendo em conta as exigências do presente, o Papa propôs “um novo humanismo baseado em três capacidades: a capacidade de integrar; a capacidade de dialogar; e a capacidade de gerar”. Terminou o discurso com o seu sonho de uma “Europa jovem”, que cuide das crianças, dos jovens e dos idosos, “onde ser migrante não seja delito”. Uma Europa das famílias “que promova e tutele os direitos de cada um, sem esquecer os deveres para com todos”.

Para que o sonho se torne realidade são necessários líderes políticos da estatura dos “pais fundadores” do projeto europeu. Estadistas que consigam vencer os mesquinhos egoísmos nacionalistas e que tenham uma visão de longo prazo. Políticos diferentes das atuais lideranças, da esquerda à direita, que se limitam a gerir uma crise que não conseguiram antecipar, nem conseguem vencer. Que governam ao sabor de uma corrente adversa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/05/2016)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Inseminação vocacional

Encontro do Papa com os consagrados no dia 01/02/2016
Foto retirada daqui
Na Europa, Estados Unidos e Canadá os sacerdotes, os religiosos e as religiosas são cada vez menos e mais idosos. Na América Latina aumentam ligeiramente. Já no continente africano e asiático a Igreja rejuvenesce-se e aumentam os que optam por uma vida de consagração. Graças ao contributo destes continentes o número dos consagrados tem aumentado nos últimos anos. Contudo, ainda se está longe de atingir o pico que se registou no final dos anos 60, em que haveria mais de 1,5 milhões de consagrados. De acordo com as estatísticas da Santa Sé, em 2013 havia no mundo 1,2 milhões de consagrados.

A diminuição das vocações, sobretudo no mundo ocidental, tem feito com que os critérios de admissão aos seminários e às casas de formação religiosa sejam menos rigorosos do que num passado recente, quando ainda havia candidatos em abundância. O Papa Francisco tem consciência que assim acontece. Num encontro com cinco mil consagrados, em Roma, no passado dia 1, denunciou que algumas congregações, devido à sua esterilidade vocacional, recorrem ao que chamou a “inseminação artificial”.

Como têm falta de vocações, deixam entrar todos os que aproximam sem o devido discernimento. Ou, então, recrutam na Ásia e em África para viabilizar as comunidades religiosas no Ocidente. “Não!”, exclamou o Papa. “Deve-se recrutar com seriedade! Deve-se discernir bem se existe uma verdadeira vocação e ajudá-la a crescer”, disse.

Quando se procede levianamente na consagração de pessoas que não reúnem as condições para abraçar este estilo de vida, para além de não se resolver o problema da falta de consagrados, geram-se outros. São disso um bom exemplo os párocos que, por não serem líderes, têm dificuldade em orientar as suas comunidades e em gerir os conflitos. Esses, em vez de serem parte da solução, são parte dos problemas. E, por vezes, são até os instigadores das controvérsias.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 05/02/2016)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Inépcia e insensibilidade

Foto: Reuters/Yannis Behrakis retirada daqui
A crise grega é mais um sintoma das fragilidades da construção europeia e da sua união monetária.

É certo que governos de diferentes cores políticas, com a adoção de políticas ruinosas conduziram a Grécia ao colapso financeiro e económico. A intervenção da Troika e a austeridade aplicada aos gregos, que deveria ser um programa de auxílio, em vez de resolver os seus problemas, agravou-os ainda mais. Os líderes europeus não tiveram a clarividência de avaliar os reais resultados das suas políticas – e, assim, não emendaram os seus próprios erros e persistiram na obsessão de obrigar os gregos a expiar os “pecados políticos” cometidos no passado.

Contudo, não foram os políticos ou os responsáveis pelas instituições financeiras que pagaram pelos seus erros. Foi o povo, e os mais pobres, os que mais sofreram e continuam a arcar com as consequências da irresponsabilidade dos seus líderes.

O arrastar da situação grega e a incapacidade de encontrar uma solução demonstra, não só a inépcia dos líderes europeus, mas também a sua insensibilidade para com a situação dramática das pessoas que perderam o seu emprego, que foram despejados na rua ou que não fazem ideia do que comerão amanhã.

Por isso o Papa Francisco, para além de manifestar a sua solidariedade e preocupação com o povo helénico, veio lembrar aos políticos que “a dignidade da pessoa humana deve permanecer no centro de todos os debates políticos e técnicos, assim como na tomada de decisões responsáveis”.

Há quase cinquenta anos, em 1967, na encíclica Populorum Progressio, Paulo VI propunha a visão cristã do desenvolvimento que “não se reduz a um simples crescimento económico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo” (nº 14).

Vivemos tempos em que dignidade da pessoa e a promoção de todos e de cada um são frequentemente esquecidas no debate político e subalternizadas à ditadura da finança. Tempos de “uma economia globalizada e financeirizada, que se sobrepõe à política”. Em que os “bancos são salvos da falência enquanto as pessoas perdem as casas onde vivem porque não têm condições de continuar honrando seus empréstimos”, denuncia esta semana o Instituto Humanitas Unisinos, de uma universidade jesuíta no Brasil.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/07/2015)