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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Humor e fé

Fernando Ventura, Graça Morais e Maria Rueff no CACGM
Foto: Jornal Nordeste
Em Bragança, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, falou-se de Arte, Humor e Fé. Estiveram à conversa sobre este tema a própria pintora Graça Morais, o frade franciscano Fernando Ventura e a atriz Maria Rueff.

Graça Morais falou da influência da sua educação religiosa na pintura que produz. Tem obras em que é evidente o diálogo e o confronto entre o sagrado e o profano, outras em que transparecem elementos religiosos como a Pietá. E ainda outras que se inspiram em certas manifestações religiosas, como as procissões.

Maria Rueff, apesar de já ter recebido prémios pelo desempenho de papéis dramáticos, ainda é mais conhecida como cómica. Testemunhou as fricções que, por vezes, há entre a fé e o humor. Sobretudo quando o humorismo sobre temas religiosos é entendido como um “rir de” e não como “um rir com”.

Frei Fernando Ventura, com o recurso ao bom humor, ajudou por seu lado a desconstruir a ideia de que o bom sermão é o que faz chorar. Fê-lo no encontro com a pintora e a atriz e também no dia seguinte, na missa dominical da paróquia de Sto. Condestável, em Bragança. Nos dois momentos desafiou as pessoas a olhar nos olhos os seus vizinhos, depois a sorrir, de seguida a dizer “eu gosto de ti”, para culminar em “eu amo-te”. Foi surpreendente perceber que muitos não conseguiram, nem da boca para fora, dizer ao vizinho do lado – “Eu amo-te”. Quanto mais vivê-lo na vida de cada dia!

O bom sermão seria, então, aquele que levasse a pessoa a experimentar a felicidade de ser amado por Deus e desafiá-la a sair de si para fazer o outro mais feliz. Para isso é essencial ter a capacidade de olhá-lo nos olhos, de sorrir e de amá-lo.

A missa dominical não deveria ser sentida, portanto, como uma obrigação. Deve ser antes a celebração de que os cristãos necessitam para recarregar as baterias da felicidade para, durante a semana, irradiarem alegria e amor nos ambientes que frequentam.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/06/2016)

sábado, 26 de março de 2016

Páscoa é alegria

Emmaus de Janet Brooks-Gerloff, 1992.
Foto retirada daqui
O Papa Francisco mencionou na Evangelii Gaudium a situação dos cristãos que “parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa” (nº6). Referia-se às pessoas “que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar” e não conseguem descobrir a alegria da fé.

Há circunstâncias em que a piedade popular se fixa no sofrimento e lhe dá mais atenção do que à alegria. Centra-se mais no padecimento do que no júbilo pela salvação. As cerimónias da Semana Santa são disso um bom exemplo. Milhares de pessoas que acorrem hoje ao Enterro do Senhor não darão depois, amanhã à noite, tanta relevância à celebração de Jesus ressuscitado na Vigília Pascal. Só que este é precisamente o momento que deveria ser a maior festa, a maior razão de alegria e de congregação para os cristãos.

Este comportamento justifica-se por ser muito mais fácil assistir a um espetáculo, que naturalmente comove, do que participar numa celebração longa, repleta de simbolismo, que exige alguma formação religiosa para recolher o seu sentido mais profundo.

Para além disso, durante séculos a Igreja especializou-se mais em condenar e em recriminar todos os prazeres do que em anunciar a alegria da salvação em Cristo Ressuscitado. Durante demasiado tempo preferiu-se assustar as pessoas com o medo do Inferno, do que anunciar o Paraíso. Sublinhou-se o pecado em vez da graça. Até artisticamente, existem muitas mais imagens do Crucificado do que do Ressuscitado. É mais fácil desenhar ou esculpir um crucificado do que projetar numa tela a imagem do corpo glorioso de Cristo...

Felizmente, a arte e a teologia vão redescobrindo a essência da fé cristã e começam a repropor formas mais eloquentes de representar a alegria da ressurreição. Esta não prescinde nem escamoteia o sofrimento da cruz, mas não o hipervaloriza. É neste sentido que se deve reorientar a fé dos crentes em todo o mundo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 25/03/2016)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Escolas em rede

Foto retirada daqui
A Igreja não deve limitar-se a denunciar o que está errado, tem de comprometer-se na promoção de soluções para os problemas do mundo em que está inserida. Disso é um bom exemplo a atuação do Papa Francisco. Quando ainda era cardeal de Buenos Aires, para além de estar atento ao que acontecia à sua volta, envolvia-se em projetos para promover a inclusão e a sadia convivência entre diferentes mundividências.

O cardeal Bergoglio acreditava que a construção de um mundo melhor teria de envolver a juventude. As situações de violência, de marginalização e de egoísmo que assolam o mundo exigem um investimento numa educação intercultural e inter-religiosa que habitue os mais jovens a conviver e a respeitar o diferente. Com esse objetivo impulsionou os programas “Escola de Vizinhos” e “Escolas Irmãs”. No primeiro os estudantes eram desafiados a identificar as problemáticas que afetavam a escola, o bairro ou a cidade e, através do seu envolvimento numa “perspetiva construtiva”, apresentarem propostas e colaborarem na sua resolução. O segundo, promovia redes entre escolas e estudantes, em contextos diferentes, que partilhavam experiências e iniciativas, entreajudando-se.

Estas duas iniciativas estiveram na génese do “Scholas occurrentes”, um organismo integrado na Pontifícia Academia das Ciências do Vaticano, que tem como principal objetivo promover a inclusão social e a cultura do encontro através da tecnologia, da arte e do desporto. O “Scholas” agrega já mais de quatrocentas mil escolas, numa rede que abarca os cinco continentes e dedica uma especial atenção às que têm menores recursos. Terminou ontem o seu congresso mundial, que reuniu em Roma alunos, professores e peritos de quarenta países. Foram apresentados projetos educativos de sucesso e diferentes exemplos de atividades desportivas e artísticas, as quais promovem a atenção às necessidades do outro e à cultura do encontro. E acalentam a esperança de um futuro mais pacífico para o mundo.

São dinâmicas como esta que desafiam os cristãos e a sociedade a abandonar a esterilidade de uma crítica ácida e destrutiva. E que os mobilizam para vencer a resignação perante os males do mundo e a acreditar que é sempre possível fazer alguma coisa, mesmo perante os problemas mais difíceis e complexos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/02/2015)