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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Papa do sorriso

João Paulo I
Foto retirada daqui
Comemoram-se, hoje, os 38 anos da eleição do cardeal Albino Luciani para Papa. Em homenagem aos antecessores João XXIII e Paulo VI, os Papas do Concílio, adotou o nome de João Paulo. Para comemorar esta data, é inaugurado um museu a ele dedicado, na sua terra natal, Canale d'Agordo, na região de Veneza, em Itália.

Nas vésperas da sua eleição o cardeal Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, no Brasil, definia numa entrevista o que deveria ser o perfil do futuro Papa: “Um homem de esperança… Deveria ser sensível aos problemas sociais, aberto ao diálogo… Deveria ser, acima de tudo, um bom pastor…” Albino Luciani correspondia a este perfil e os cardeias elegeram-no convictos que ele iria dar continuidade às reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II e renovar a Cúria Romana.

O museu hoje inaugurado, segundo o Vatican Insider, para além de reunir objetos que ajudam a conhecer melhor João Paulo I, procura também situá-lo no contexto em que nasceu e onde desenvolveu a sua personalidade, dar a conhecer as suas raízes. O catolicismo da região em que Luciani cresceu era, nos finais do século XIX e princípios do século XX, “tudo menos retrógrado”. E parece ter sido também determinante para a sua sensibilidade às questões sociais o convívio com o pai, que era operário e um socialista convicto.

O curto pontificado – apenas 33 dias – não lhe permitiram introduzir na Igreja as reformas que pretendia, mas bastou para demonstrar que era uma pessoa bem-humorada e que não se submetia ao protocolo vaticano. Gostava de contar anedotas e entabulava diálogo com os jovens e crianças nas audiências papais.

Ficou para a história como o “Papa do Sorriso”. Foi precursor de muitas das práticas que se tornaram habituais com o atual Papa. Infelizmente, não conseguiu implementar muitas das mudanças que – já então, há 38 anos... – se percebiam como urgentes.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/08/2016)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Humor e fé

Fernando Ventura, Graça Morais e Maria Rueff no CACGM
Foto: Jornal Nordeste
Em Bragança, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, falou-se de Arte, Humor e Fé. Estiveram à conversa sobre este tema a própria pintora Graça Morais, o frade franciscano Fernando Ventura e a atriz Maria Rueff.

Graça Morais falou da influência da sua educação religiosa na pintura que produz. Tem obras em que é evidente o diálogo e o confronto entre o sagrado e o profano, outras em que transparecem elementos religiosos como a Pietá. E ainda outras que se inspiram em certas manifestações religiosas, como as procissões.

Maria Rueff, apesar de já ter recebido prémios pelo desempenho de papéis dramáticos, ainda é mais conhecida como cómica. Testemunhou as fricções que, por vezes, há entre a fé e o humor. Sobretudo quando o humorismo sobre temas religiosos é entendido como um “rir de” e não como “um rir com”.

Frei Fernando Ventura, com o recurso ao bom humor, ajudou por seu lado a desconstruir a ideia de que o bom sermão é o que faz chorar. Fê-lo no encontro com a pintora e a atriz e também no dia seguinte, na missa dominical da paróquia de Sto. Condestável, em Bragança. Nos dois momentos desafiou as pessoas a olhar nos olhos os seus vizinhos, depois a sorrir, de seguida a dizer “eu gosto de ti”, para culminar em “eu amo-te”. Foi surpreendente perceber que muitos não conseguiram, nem da boca para fora, dizer ao vizinho do lado – “Eu amo-te”. Quanto mais vivê-lo na vida de cada dia!

O bom sermão seria, então, aquele que levasse a pessoa a experimentar a felicidade de ser amado por Deus e desafiá-la a sair de si para fazer o outro mais feliz. Para isso é essencial ter a capacidade de olhá-lo nos olhos, de sorrir e de amá-lo.

A missa dominical não deveria ser sentida, portanto, como uma obrigação. Deve ser antes a celebração de que os cristãos necessitam para recarregar as baterias da felicidade para, durante a semana, irradiarem alegria e amor nos ambientes que frequentam.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/06/2016)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O santo da alegria

S. Filipe Néri
Foto retirada daqui
São Filipe Néri nasceu em Florença, a 21 de Julho de 1515. As comemorações dos quinhentos anos do seu nascimento iniciaram-se na passada terça-feira – o dia em que a Igreja celebra a sua memória – e encerram-se no próximo ano no mesmo dia 26 de Maio. Viveu em Florença atá aos 18 anos e fez os seus estudos no convento de S. Marcos. Então, foi enviado pelo pai para junto de um tio, para aprender o ofício de comerciante. Depressa descobre que essa não é a sua vocação.

Vai para Roma, onde começa por ser perceptor dos filhos de um nobre, mas, por opção, acaba a viver no meio de jovens a que hoje chamaríamos sem abrigo. Era alvo da sua chacota, mas tudo ultrapassava com bom humor para ganhar a sua confiança e motivá-los a uma mudança de vida e à prática religiosa.

É ordenado sacerdote e dedica-se a guiar espiritualmente pobres e ricos, príncipes e plebeus. Criou os “Oratórios”, comunidades de padres que vivem num ambiente de alegria e simplicidade, dedicados aos mais necessitados e em que se prefere a mortificação espiritual à corporal, sobretudo da vaidade.

S. Filipe Néri ficou conhecido como o “Apóstolo de Roma” e o “Santo da Alegria”. Homem culto e criativo, gostava de introduzir nos seus sermões apontamentos bem-humorados. Algo que não é muito habitual em ambientes católicos. Um bom sermão é, ainda, o que comove os ouvintes e não o que os faz rir. Embora não faltem exemplos de quem se aventure por outros caminhos.

Papa João Paulo I
Foto retirada daqui
“Diz-se que o sentido do humor – depois do breve pontificado de João Paulo I – ainda não regressou ao Vaticano. Não faltam sinais dessa demora. A alegria do papa Luciani era subversiva. Ao gostar de anedotas, de perder tempo com crianças, de gracejar em dialeto com a sua gente, destoava naquele cenário de sagradas solenidades” escrevia frei Bento Domingues, em 1998, numa crónica que pode agora ser lida no livro “O bom humor de Deus”, hoje apresentado em Lisboa.

Papa Francisco
Foto retirada daqui
“A descontração teológica com que falava irritava os guardiões da ortodoxia. A recusa dos símbolos do poder e das suas pompas era inquietante. Acabou por semear o pânico, quando mostrou que iria mexer nos métodos da Cúria romana”. Dizia, então, frei Bento, algo que se aplica hoje ao atual Papa: uma nova lufada de bom humor no seio da Igreja Católica.


(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/05/2015)