quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

A igualdade de homens e mulheres na Síria

O Natal será vivido na Síria num ambiente de “feliz esperança” – é este o sentimento que habita a irmã Houda Fadoul. Natural de Damasco, integra uma comunidade de homens e de mulheres que vivem no mosteiro de Deir Mar Musa, na Síria. Expressou o seu estado de espírito numa
entrevista ao jornal digital 7 Margens na qual repetiu diversas vezes a palavra “esperança”.

Não é de estranhar que seja esta a palavra mais proferida por ela, uma vez que pertence à comunidade monástica fundada pelo padre jesuíta italiano Paolo Dall’Oglio, sequestrado há 11 anos e de quem não se sabe o paradeiro. Apesar de ter passado tanto tempo, os monges não perdem a esperança de recuperar o seu fundador com vida, ele que sonhou para aquela comunidade a missão de ser um “farol de esperança numa terra de conflito”.

A irmã Houda Fadoul foi escolhida, “com grande surpresa sua”, para representar as Igrejas Orientais e do Médio Oriente na última sessão do Sínodo que decorreu em Outubro em Roma. Provavelmente foi pela “sua paixão pelo diálogo inter-religioso, particularmente entre cristãos e muçulmanos”.

Questionada sobre se as resistências à dinâmica sinodal por parte da hierarquia seriam motivadas pelo receio de as mulheres assumirem maiores responsabilidades na Igreja, a sua resposta foi surpreendente: “Penso que esse problema não se coloca na Síria”, respondeu Houda Fadoul, uma vez que “as mulheres na Síria têm os mesmos direitos que os homens”. Deu o seu exemplo pessoal, ela que foi superiora de uma comunidade mista durante dez anos.

É extraordinário como uma questão tão fraturante em tantas latitudes – a paridade entre homens e mulheres – é vivida com serenidade num mosteiro no meio do deserto da Síria. É bem verdade que a Igreja tem dentro de si a resposta para muitas das suas questões mais intrincadas...

Um Natal Feliz!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Francisco regressa à “sã laicidade” de Bento XVI

A matriz cristã da cultura europeia está a desvanecer-se. A questão de Deus perdeu relevância no mundo ocidental, apesar de a fé cristã ter inspirado “a vida dos povos e as suas próprias instituições políticas”, como referiu o Papa Francisco no congresso sobre a religiosidade popular na Sardenha, no domingo. O Papa, contudo, não embarca em análises simplistas, “apressadas” e “ideológicas” do atual contexto europeu, as quais contrapõem a “cultura cristã” à “cultura laica”.

Os crentes são chamados a “viver a sua fé sem a impor”. Será por um testemunho coerente dos valores em que acreditam que poderão transformar os ambientes em que se movimentam. O Papa destaca que, entre os não crentes, há quem se interrogue sobre o sentido da vida e esteja disponível para se envolver na promoção “da verdade, da justiça e da solidariedade”.

Não faz sentido, por isso, um laicismo que procure restringir a vivência da fé ao foro íntimo: os crentes e os não crentes devem empenhar-se na edificação de uma sociedade mais justa e mais solidária. Promover uma “sadia laicidade” em que todos se envolvam na promoção do bem comum.

Nesta sua curta passagem pelo território francês (apenas nove horas) o Papa repropôs a “sã laicidade” que para Bento XVI significava “libertar a religião do peso da política e enriquecer a política com o contributo da religião, mantendo entre ambas a distância necessária, a distinção clara e a colaboração indispensável”.

Tal como Bento XVI, Francisco está a ser um verdadeiro Pontífice na defesa de uma laicidade saudável, ou seja, um construtor de pontes entre crentes e não crentes, entre a Igreja e o Estado. A articulação sadia que ambos defendem entre as duas entidades é uma alternativa fecunda a que vivam de costas voltadas. Ou, pior ainda, a que tentem subjugar-se uma à outra.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

A ausência de Francisco em Paris

Foi notada a ausência do Papa Francisco na reabertura da catedral de Notre-Dame, em Paris, no passado sábado. Foi um evento com grande projeção mediática, em que participaram mais de três dezenas de chefes de Estado e de Governo - e mais de 1500 convidados.

Em vez de ir a Paris, o Papa preferiu deslocar-se ao território francês no próximo domingo para participar no encerramento de um congresso sobre a religiosidade popular, em Ajácio, na ilha da Córsega. Esta decisão do Papa é incompreensível e criticável à luz dos critérios do Mundo, mas faz todo o sentido à luz do exemplo de Jesus Cristo e, consequentemente, dos critérios dos Evangelhos.

Jesus Cristo procurou demonstrar o amor de Deus e a sua predileção por todos aqueles que eram discriminados e marginalizados - os pobres, os pecadores, os doentes... O Papa inclui todos esses na categoria das periferias que podem ser geográficas, económicas, políticas, culturais e existenciais. Preocupam-no, particularmente, os refugiados e tantos que perdem a vida a atravessar o Mediterrâneo em busca de melhores condições de vida. Por isso, em vez de estar onde os olhos do Mundo estão colocados, quer chamar a atenção para aquilo que o Mundo não quer ver.

Outra preocupação do Papa - a qual justifica a sua ida ao encerramento do congresso - advém da sua consciência de que é a religiosidade popular, tão maltratada e menosprezada em tantos contextos, que mantém viva a fé de tantos homens e mulheres. É necessário, por isso, dar-lhe maior relevância.

Jesus Cristo fazia aquilo que não se esperava que um mestre fizesse em Israel. Debater teologia com uma mulher, por exemplo, como no diálogo com a samaritana (Cf. Jo 4, 1-42). Quando o Papa realiza gestos inspirados em Jesus, é natural que, como Ele, escandalize e confunda os que se regem por outras lógicas.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 11/12/2024)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Pe. Samelo, profeta que a morte não cala

Pe. António Samelo
Há pessoas que passam pelas nossas vidas e deixam em nós uma marca indelével. São pessoas que vivem certos valores de uma tal forma que nos desafiam, não a imitá-los, mas a viver esses mesmos valores no nosso contexto vital.

É o caso do Pe. António Samelo, presbítero da diocese de Coimbra, como gostava de se apresentar. Hoje celebra 70 anos de vida junto de “Deus Pai/Mãe”, como gostava de a Ele se referir. Partiu na semana passada para junto d’Ele, após doença prolongada.

O Pe. Samelo estava consciente que se aproximava o fim da sua vida sobre a terra. No início de novembro enviou um correio eletrónico a convidar para a Eucaristia da sua Páscoa. Ou seja, do seu funeral, da sua passagem desta vida para a vida em Deus.

No final dessa sua missiva, referia as conclusões do Sínodo, em que se revia. Aí via confirmada a luta da sua vida por uma Igreja mais fiel ao Evangelho de Jesus Cristo. Nesta, a dignidade dos fiéis advém do sacramento do batismo e não do sacramento da Ordem. Sublinhava, então, em sintonia com o Sínodo, a necessidade de a Igreja se repensar nessa ótica. “É um belo desafio que já não poderei concretizar... mas... o Espírito vai trabalhando... a ver se se quebra ‘o espinhaço’ do diabólico clericalismo”, concluía.

O testemunho que ele nos deixa é de alguém que exerceu o seu ministério com total desprendimento. Nunca procurou qualquer cargo movido pela sede de poder, ou de destaque social. Sempre abominou e denunciou o carreirismo. Esteve sempre disponível para servir o Povo de Deus onde lhe era solicitado.

A coerência, a radicalidade, o desprendimento, a disponibilidade e tantas outras qualidades do Pe. Samelo, permanecerão na memória daqueles que com ele contactaram. Ele continuará a desafiar-nos a sermos mais consequentes com a palavra e o exemplo de Jesus Cristo.