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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Igreja mostra contas

Foto retirada daqui
A Santa Sé está atenta à crise humanitária na Síria e no Iraque. Pela quinta vez reuniram-se, ontem, no Vaticano cerca de quarenta instituições católicas presentes no Médio Oriente. Pela primeira vez, o Papa Francisco abriu os trabalhos, sinal do seu empenhamento pessoal nesta questão. Estiveram também presentes representantes do episcopado da região, das congregações religiosas, os núncios apostólicos na Síria e no Iraque. Acompanharam os trabalhos o secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin e o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, e o secretário do Pontifício Concílio “Cor Unum” (organismo promotor do encontro), D. Giampietro Dal Toso.

Esta reunião tinha como objetivo fazer “o balanço do trabalho desenvolvido até agora pelos organismos caritativos católicos no contexto da crise (…), individualizar as prioridades para o futuro, analisar a situação das comunidades cristãs residentes em países afetados pela guerra, promovendo a sinergia entre as dioceses, congregações religiosas e órgãos da igreja”, segundo uma nota de imprensa do “Cor Unum”.

Os doze mil voluntários e profissionais da Igreja Católica presentes no Médio Oriente apoiam mais de quatro milhões de pessoas na região, segundo a mesma nota de imprensa, e no ano de 2015 gastaram mais de 200 milhões de euros. Este ano, só até Julho, já foi despendida quase a mesma verba.

É importante que as instituições da Igreja, também em Portugal e à semelhança do que aconteceu ontem no Vaticano, se reúnam para avaliar as suas iniciativas e projetar o futuro da sua ação social. Devem também divulgar os recursos humanos e financeiros que empregam e a origem destes últimos. Devem fazê-lo, não tanto para fazer propaganda da sua ação e justificar os apoios que recebem, mas, sobretudo, para demonstrar a sua fidelidade ao Evangelho, na opção preferencial pelos mais pobres.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/09/2016)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

As religiões e a paz

Foto retirada daqui
O mundo mudou muito desde que os representantes de várias religiões se reuniram pela primeira vez em Assis, há trinta anos, em torno do Papa João Paulo II. Então rezava-se pelo fim da Guerra Fria e da escalada nuclear que ameaçava destruir o planeta. Agora pede-se o fim da “Terceira Guerra Mundial em pedaços”, como a tem denominado o Papa Francisco.

Mais de 400 líderes religiosos reuniram-se de novo para reavivar o espírito de Assis. Juntaram as suas vozes para condenar os que matam em nome de Deus e testemunhar a sua convicção de que as “religiões são e podem ser fontes de paz”, como disse Andrea Riccardi, da Comunidade de S. Egídio, na abertura do encontro.

Na declaração final conjunta, “homens e mulheres de diferentes religiões” afirmam claramente: “A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso”.

Tamar Mikalli deu o seu testemunho de como a guerra pôs fim a um bom relacionamento entre pessoas de diferentes credos. “Venho de Alepo, a cidade mártir da Síria. Alepo, quando pronuncio este nome, apertasse-me o coração... Vêm-me à mente tantos amigos muçulmanos e cristãos. Agora há divisões entre cristãos e muçulmanos, mas antes da guerra não existiam… Depois rebentou a guerra, ainda não sei bem porquê. Começaram a chover mísseis que destruíam as casas. Ainda ouço os gritos de um pai, de uma mãe ou os gritos das crianças que procuram os seus pais”.

São testemunhos como este que desafiam a abandonar o “paganismo da indiferença”, que o Papa denunciou em Assis. E estimulam os crentes a serem construtores de paz, no interior das suas comunidades e com os que professam outra fé.

(Texto publicado no Correio da Manhã de236/09/2016)

domingo, 27 de julho de 2014

A expulsão de Mossul

Foto retirada do sítio Aleteia
Os extremistas muçulmanos do auto proclamado Estado Islâmico estão, na Planície de Nínive, a fazer uma limpeza étnica e religiosa pelos territórios que conquistaram entre a Síria e o Iraque. Todos os que não professam a fé em Alá segundo a tradição sunita, ou se convertem, ou têm de abandonar a região para salvar a vida. Mesmo os sunitas mais moderados, ou os xiitas, não escapam à perseguição, mas é sobretudo aos curdos e aos cristãos que a intolerância religiosa está a fustigar de forma mais dura.

Em Mossul, a terceira cidade do Iraque, as casas dos cristãos foram assinaladas com a letra “n” do alfabeto árabe, a inicial de “Nazareno”, o nome depreciativo dado aos cristãos em ambientes islâmicos. Os seus habitantes foram despojados de todos os bens e tiveram de optar entre o exílio e a morte. Durante esta semana saíram da cidade os últimos três mil cristãos – quando, em 2003, após a invasão liderada pelos Estados Unidos  se contabilizavam cerca de 35 mil.

Acaba, assim, uma presença cristã de dois mil anos naquela zona do globo. Uma presença que sobreviveu às controvérsias teológicas e heréticas dos primeiros séculos do cristianismo, que resistiu às perseguições turcas e mongóis, que conviveu com a cultura árabe. Uma presença que se instalou na região, arabizando-se nos seus costumes mas mantendo a fé cristã.

Perante a expulsão de Mossul o mundo ocidental remeteu-se a um silêncio “vergonhoso”, como o classificou o Papa Francisco num telefonema ao Patriarca Sírio-católico Youssef III Younan.

É compreensível o embaraço dos líderes ocidentais que têm ziguezagueado no Médio Oriente, apostando ora nos sunitas, ora nos xiitas: na Síria apoiam os sunitas contra o ditador Bashar al-Assad; no Iraque defendem os xiitas que colocaram no poder depois de os terem utilizado contra Saddam Hussein, o qual, por seu lado, tinham apoiado nos anos 80 na guerra que este moveu ao xiitas do Irão.

O Ocidente comporta-se na pior tradição dos que consideram amigos os inimigos dos seus inimigos. É por isso que os sunitas são apoiados pela Ocidente na Síria e inimigos no Iraque, os dois países onde estes querem controlar territórios para criar o Califado Islâmico...

“Sic transit gloria mundi”!

(Texto publicado no Correio da Manhã de 25/07/2014)