quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Pelos jornais, contra a desinformação

Imagem criada com apoio da inteligência artificial Microsoft Copilot
Foi um privilégio escrever neste jornal. Tive a oportunidade de partilhar reflexões sobre a atualidade ao longo de oito anos, com maior incidência nos temas da religião católica.

Cada novo ano impõe o discernimento do caminho feito, a necessidade de introduzir reestruturações e o acolhimento de novos projetos. A imprensa não é imune a estas decisões. Sobretudo em tempos em que diminuem os leitores com a migração para as redes sociais: estas parecem corresponder melhor ao que as pessoas procuram, porque lhes dão o que querem ver e ouvir, sem controlo editorial ou deontológico.

Dissemina-se a ideia que agora se está mais informado. Tem-se acesso gratuito a mais informação, ainda que, como se vai verificando, muita dela seja completamente falsa. Mas são falsidades em que muitos querem acreditar. E autoconvencem-se até que são verdades sonegadas pelos média tradicionais. Estes, sim, sujeitos a critérios de relevância, objetividade e controlo deontológico, abstêm-se de publicar tudo, ao contrário do que acontece na generalidade da Internet.

Impõe-se, por isso, resistir à tentação de deixar-se informar apenas pelas redes sociais, pois corre-se o risco de acabar formatado e deformado pelos que as controlam e pela programação dos algoritmos que as regem. Hoje, é um ato de resistência comprar, assinar e ler jornais e revistas, para que eles possam subsistir e continuar a transmitir uma informação isenta, verdadeira, rigorosa, equilibrada, clara e socialmente responsável. Isenta de condicionamentos políticos, económicos ou religiosos, ou seja: livre.

Respeitando os critérios do JN, deixarei de escrever semanalmente, mas continuarei a partilhar esporadicamente com os leitores as minhas reflexões sobre acontecimentos relevantes, sobretudo relacionados com a vida da Igreja Católica.

Até breve!


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Leão continua o que Francisco lançou

O acontecimento mais marcante deste ano para a vida da Igreja Católica foi o falecimento do Papa Francisco. Para muitos – particularmente para os que se aproximaram ou reaproximaram da Igreja – deixou-lhes um sentimento de orfandade que Leão XIV não conseguiu colmatar: têm ainda dúvidas se ele dará continuidade ao dinamismo e à reforma que Francisco introduziu.

É evidente que o estilo do atual Papa é totalmente diferente do anterior. Mais sereno e contido nas suas intervenções. Mais cauteloso e muito preocupado em criar pontes, em superar divisões, para evitar cismas no interior da Igreja. Contudo, embora em alguns aspetos já tenha feito certas cedências aos “retrocedistas”, tem dado sinais da sua sintonia com Francisco e do seu empenhamento em consolidar, e levar por diante, a renovação por ele iniciada.

Este ano assinalaram-se duas efemérides relativas ao primeiro e ao último concílio ecuménico da História da Igreja. Um nos seus inícios – os 1700 anos do Concílio de Niceia; outro mais recente – os 60 anos do Concílio Vaticano II.

Seis décadas após a conclusão do Vaticano II verifica-se, sobretudo no Ocidente, uma diminuição da prática religiosa. Este declínio para uns é o resultado da não implementação do Concílio; para outros, é o próprio Vaticano II a causa desta situação.

Entre estas duas tentações – a da “nostalgia pelo passado e a [da] expectativa de um futuro incerto” – Frei Roberto Pasolini conclui que a Igreja está a ser chamada a viver processos de renovação baseados na confiança, no diálogo e na fidelidade ao Evangelho. Frei Roberto expôs esta convicção à Cúria Romana antes do Natal, numa meditação de Advento.

Foi este dinamismo que o Papa Francisco procurou implementar na Igreja e que Leão XIV já demonstrou querer continuar e consolidar.

Votos de um bom ano de 2026!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Novo bispo de NY é crítico de Trump

Ronald Hicks, novo arcebispo de NY, Leão XIV, Timothy Dolan com Donald Trump
Foto retirada daqui
Leão XIV começa a colocar as suas peças no xadrez da Igreja Católica. No final da semana passada nomeou dois arcebispos para duas importantes arquidioceses do catolicismo anglófono: Nova Iorque, na quinta-feira, e Westminster, na sexta-feira.

Richard Moth, com 67 anos, bispo de Arundel e Brighton desde 2015, foi escolhido pelo Papa para substituir o cardeal Vincent Nichols, de 80 anos, como arcebispo da maior diocese britânica: com sede em Londres, Westminster é considerada a igreja-mãe de mais de seis milhões de católicos na Inglaterra e no País de Gales.

Ronald Hicks, com 58 anos, até agora bispo de Joliet (Illinois – EUA), foi selecionado por Leão XIV para suceder ao cardeal Timothy Dolan, de 75 anos, na condução de uma das maiores e mais importantes dioceses norte-americanas, com dois milhões e meio de católicos: Nova Iorque.

Hicks sucede a Dolan, alguém muito próximo do presidente Donald Trump e distante do Papa Francisco. Já Hicks é um bispo alinhado com o atual Papa, nomeadamente, na condenação da política de emigração da Administração Trump.

Leão XIV, no mês passado, num encontro com os bispos italianos, disse que é seu desejo substituir os bispos mal estes atinjam os 75 anos, como prevê a lei da Igreja. Admitiu, contudo, manter os cardeais por mais um ou dois anos à frente das suas dioceses.

Não concedeu esse tempo ao cardeal Dolan, que completou os 75 anos em fevereiro e foi substituído poucos meses depois. Parece um sinal da determinação do Papa em renovar o episcopado do seu país.

Nada como um Papa norte-americano para se atrever a colocar em Nova Iorque, a terra de Trump, precisamente um dos bispos mais críticos da política do atual presidente norte-americano e remover, tão rapidamente, um dos seus mais destacados apoiantes. Não foi uma boa prenda para Trump...

Um Feliz Natal!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Construir a esperança nas prisões

Os temas da reclusão e da liberdade mereceram destaque no início do Jubileu da Esperança e no seu encerramento. No dia seguinte à abertura da primeira Porta Santa, no dia 25 de Dezembro, no Vaticano, o Papa Francisco deslocou-se à cadeia de Rebibbia, em Roma, para, também aí, criar uma porta jubilar destinada aos homens privados de liberdade.

Um gesto inédito na história dos jubileus. Habitualmente, são abertas as portas das quatro Basílicas Maiores de Roma (S. Pedro, S. Paulo, S. João de Latrão e S. Maria Maior). Em 2025 o Jubileu teve cinco portas jubilares em Roma.

Este domingo celebrou-se o Jubileu dos Reclusos, o último dos grandes eventos jubilares antes do seu encerramento no próximo dia 6 de janeiro.

A cadeia é um local em que, habitualmente, pontifica a tristeza, a revolta, o desespero... Um lugar em que é necessário implantar a esperança. Por isso, faz todo o sentido que tenha merecido este destaque no Jubileu da Esperança.

Na tradição judaica, “o Jubileu era precisamente um ano de graça em que a cada um se oferecia, de muitas maneiras, a possibilidade de recomeçar”, recordou Leão XIV na homilia da missa dessa celebração. O Papa está consciente dos problemas que afetam o meio prisional, nomeadamente a “sobrelotação” e a falta de empenho “para garantir programas educativos estáveis de reabilitação e oportunidades de trabalho”.

De facto, investem-se muitos mais recursos humanos e financeiros na segurança e reclusão dos indivíduos do que na sua reinserção. Para já não falar na prevenção da criminalidade...

A prisão, mais do que um local de punição, deveria tornar-se numa oportunidade de relançar a própria vida. Até porque, referiu Leão XIV, como “nenhum ser humano se reduz ao que fez”, o tempo de reclusão deveria converter-se num “processo de reparação e reconciliação”.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A fé de uma Imaculada que se interroga

A celebração da Imaculada Conceição nesta segunda-feira, um dogma definido há 171 anos, configura uma oportunidade para refletir sobre a relação entre a fé e a razão. É comum a interpretação simplista que reduz o dogma a uma mera imposição, exigindo que o crente suspenda o intelecto e aceite as verdades dogmáticas de forma acrítica. Nesta visão, o cristão submeter-se-ia à tradição e ao dogma, sem procurar as razões profundas do seu acreditar, o que não corresponde à verdadeira fé.

No caso do dogma da Imaculada Conceição – a convicção de que Maria foi preservada do pecado original – não se trata de um decreto arbitrário do Papa, mas o reconhecimento de uma verdade já vivida e celebrada pelo Povo de Deus, desde os inícios do segundo milénio, nomeadamente em Portugal. Pio IX acabou por confirmá-lo em 1854.

Tal como aconteceu com a Imaculada, também os dogmas se foram impondo à Igreja, que não se demitiu de os estudar e de procurar entendê-los cada vez melhor. Reconheceu, porém, que jamais os conseguirá explicar e provar de uma forma puramente racional.

Maria, escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador, foi preservada do pecado na sua conceção, mas não foi dispensada de se interrogar nem de encontrar razões para a sua fé: é esta a perspetiva evangélica.

Quando o Anjo lhe anuncia que vai ser a Mãe de Jesus, ela interroga-se: Como será isso possível? O Anjo responde que a Deus nada é impossível. Como sinal dessa omnipotência divina, comunica-lhe a gravidez da sua prima Isabel, em idade avançada. Então Maria (mesmo continuando sem compreender plenamente a missão que lhe é confiada) dá o salto da fé e disponibiliza-se para ser a Escrava do Senhor.

Maria torna-se, assim, modelo para os cristãos: alguém que se questiona, reflete e interroga para desenvolver uma fé mais consciente e mais consistente.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 10/12/2025)