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quarta-feira, 9 de julho de 2025

O Sínodo é decisivo para o futuro da Igreja

O caminho sinodal iniciado por Francisco é para continuar. Agora sob a batuta de Leão XIV, recebeu esta segunda-feira um novo impulso com o documento da Secretaria Geral do Sínodo, o qual reúne propostas concretas para a sua implementação.

Como era de esperar, o texto retoma muitas das ideias fundamentais do Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, de 26 de Outubro de 2024. Ao citar este documento, clarifica que o Sínodo “constitui um ato de ulterior receção do Concílio, prolongando a sua inspiração e relançando a sua força profética para o mundo de hoje”.

Francisco empenhou-se em “descongelar” o Concílio Vaticano II, nomeadamente ao lançar esta dinâmica sinodal. Ela veio dar continuidade a uma visão conciliar de uma Igreja em diálogo com o mundo, que o escuta e faz suas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” (Gaudium et spes, 1).

Cabe agora a Leão XIV dar continuidade ao caminho iniciado pelo antecessor. Sobre ele recai a responsabilidade de implementar tudo o que até agora foi refletido e proposto nos trabalhos sinodais.

O documento da Secretaria Geral recorda várias das linhas estratégicas do Documento Final. Pede o empenhamento de todos para que elas sejam implementadas, porque “sem mudanças concretas a curto prazo, a visão de uma Igreja sinodal não será credível e isso afastará os membros do Povo de Deus que retiraram força e esperança do caminho sinodal” (DF, 94).

A partir daqui, compete aos bispos liderar a implementação do Sínodo, garantir a comunhão entre perspetivas diversas e não abafar nenhuma. Compete-lhes também promover a participação de todos, para que a alegria e a esperança do Evangelho iluminem o mundo. Se não o conseguirem implementar, o Sínodo não será mais do que um “sonho lindo que acabou”.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

A sinodalidade “está viva” e recomenda-se

Jornadas Pastorais do Episcopado 2025. Foto: Agência Ecclesia
O Santo Padre pode ficar descansado, a igreja portuguesa não vai ficar à margem da dinâmica sinodal. Os bispos nacionais dedicaram as últimas Jornadas Pastorais ao tema e, nas conclusões, referem que “a sinodalidade – que, no dizer do Papa Leão XIV, se ‘deve tornar mentalidade, no coração, nos processos de decisão e nos modos de agir’ – está viva em Portugal, em processo e em construção”.

As Jornadas Pastorais decorrem habitualmente em Fátima e, durante elas, os bispos refletem sobre determinadas questões. Este ano participaram sacerdotes, religiosos e leigos envolvidos na promoção da sinodalidade nas respetivas comunidades ou dioceses.

Os bispos, certamente, escolheram para o debate pessoas que traduzem diferentes sensibilidades, como se pretende no processo sinodal. Contudo, reconheceram que ainda há muito caminho a percorrer: “Notou-se a necessidade de se envolver mais efetivamente os jovens, os mais afastados e aqueles que estão à margem das estruturas eclesiais”. As conclusões das jornadas destacaram também a “importância de fomentar redes interdiocesanas, promovendo espaços de cooperação e partilha de boas práticas”.

Os bispos asseguram que estão “a aprender a caminhar juntos, a escutar com mais profundidade, a discernir com o coração e a decidir com humildade”. Pois bem, a consolidação deste itinerário purificará a Igreja em Portugal de toda a prepotência dos seus líderes. Estes deixarão de impor as suas ideias e de afastar os que não pensam como eles; habituar-se-ão a trabalhar em rede; não terão como preocupação última os seus interesses e agendas pessoais, mas o bem das suas comunidades.

Neste cenário, todos se sentirão acolhidos, escutados e com as suas sugestões ponderadas. Tudo em ordem a discernir o que mais está de acordo com o Evangelho e o que melhor se coaduna com o bem da Igreja.

terça-feira, 22 de abril de 2025

A Igreja precisa de um Paulo VII

Papa Francisco no dia da sua eleição (13/03/2013)
Com a morte do Papa Francisco é mais uma voz que se cala na defesa dos mais pobres, dos refugiados, daqueles que são estigmatizados mesmo dentro da Igreja. Cala-se uma voz que teve a coragem de denunciar uma “economia que mata” e a insanidade da guerra.

As últimas palavras proclamadas em seu nome na bênção Urbi et Orbi, domingo no Vaticano, acabariam por ser o último grito de condenação da “corrida generalizada ao armamento” e em defesa da paz: “Apelo a todos os que, no Mundo, têm responsabilidades políticas para que não cedam à lógica do medo que fecha, mas usem os recursos disponíveis para ajudar os necessitados, combater a fome e promover iniciativas que favoreçam o desenvolvimento. Estas são as ‘armas’ da paz: aquelas que constroem o futuro, em vez de espalhar morte!”

Em contra corrente com o que acontece no Mundo, o Papa denunciou que “não é possível haver paz onde não há liberdade religiosa, ou onde não há liberdade de pensamento nem de expressão, nem respeito pela opinião dos outros”.

Antes, num Mundo envolto em incertezas, o Papa convocou a Igreja para o Jubileu da Esperança. É esta precisamente a palavra que dá título à sua autobiografia recente, na qual ele, humildemente, se assume como “apenas um passo” na caminhada da Igreja.

Na verdade Francisco não foi apenas mais um passo – mas foi o primeiro passo na renovação da Igreja em muitos âmbitos. Nomeou cardeais, por exemplo, em países que nunca tinham sido agraciados com essa distinção. Confiou a mulheres cargos que tradicionalmente eram entregues a clérigos. O Sínodo dos Bispos deixou de ser exclusivamente clerical, em que se ratificavam as ideias do Papa, para se converter na oportunidade de escutar todos e acolher as suas sugestões para a reforma da Igreja.

Um dos maiores desafios que o Papa deixa à Igreja é, precisamente, dar continuidade à renovação sinodal em que ele tanto se empenhou até aos últimos dias de vida. Foi a partir do hospital, há pouco mais de um mês, que convocou uma assembleia de toda a Igreja Católica para outubro de 2028.

Espera-se que o seu sucessor incremente este dinamismo na Igreja. Da mesma forma que Paulo VI não deixou que se travasse o impulso reformista do Concílio Vaticano II convocado por João XXIII, a Igreja precisa agora de um “Paulo VII” que assuma e institucionalize a dinâmica sinodal introduzida por Francisco.

O Papa Francisco lançou processos em ordem a uma “Igreja em saída”, que reclama pastores com “cheiro a ovelhas”. Compete ao seu sucessor consolidá-los e torná-los irreversíveis.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Sinodalidade ou a aparência de recomeçar


O Papa Francisco iniciou este sábado no Vaticano as “audiências jubilares”. Todas as semanas, encontra-se com os “peregrinos da esperança” para evidenciar um aspeto dessa virtude. “A esperança não é um hábito ou um traço de caráter - que se tem ou não - mas uma força a pedir”. Algo que será um dom, “para recomeçar no caminho da vida”.

Na verdade, o Papa pretende que o Jubileu marque um recomeço na vida da Igreja. Recomeçar foi a palavra mais repetida nesta primeira audiência jubilar. Por diversas vezes o Papa pôs a assembleia a dizer: “Recomeçar, recomeçar, recomeçar”.

A este recomeço, preconizado pelo Papa, está ligada a dinâmica sinodal que ele quer implementar como o normal funcionamento de todas as comunidades eclesiais. Desde as pequenas comunidades, passando pelas paróquias e pelas dioceses, até envolver toda a Igreja.

Também no sábado reuniram-se em Fátima 300 representantes das dioceses do país. Tinham como objetivo estudar o documento final do Sínodo 2021-2024 e fizeram propostas para a sua implementação. No final do dia, concluiu-se, segundo a Agência Ecclesia, que será necessário “alargar os espaços de escuta e participação”. Isso implicará “ativar e fortalecer os órgãos de consulta” no interior das paróquias e das dioceses.

Uma efetiva participação dos fiéis nas diversas comunidades depende de uma verdadeira conversão à sinodalidade. Ainda que todos os conselhos se constituam, e até se reúnam frequentemente, podem não passar de uma simulação de escuta e de participação. Se o pároco ou o bispo afastarem desses conselhos todas as vozes incómodas, por exemplo, e se preferirem só as que não levantam problemas, então teremos um mero simulacro de sinodalidade. Não é esta dissimulação que o Papa pretende. Nem será a sinodalidade aparente que conseguirá renovar e relançar a Igreja.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

A igualdade de homens e mulheres na Síria

O Natal será vivido na Síria num ambiente de “feliz esperança” – é este o sentimento que habita a irmã Houda Fadoul. Natural de Damasco, integra uma comunidade de homens e de mulheres que vivem no mosteiro de Deir Mar Musa, na Síria. Expressou o seu estado de espírito numa
entrevista ao jornal digital 7 Margens na qual repetiu diversas vezes a palavra “esperança”.

Não é de estranhar que seja esta a palavra mais proferida por ela, uma vez que pertence à comunidade monástica fundada pelo padre jesuíta italiano Paolo Dall’Oglio, sequestrado há 11 anos e de quem não se sabe o paradeiro. Apesar de ter passado tanto tempo, os monges não perdem a esperança de recuperar o seu fundador com vida, ele que sonhou para aquela comunidade a missão de ser um “farol de esperança numa terra de conflito”.

A irmã Houda Fadoul foi escolhida, “com grande surpresa sua”, para representar as Igrejas Orientais e do Médio Oriente na última sessão do Sínodo que decorreu em Outubro em Roma. Provavelmente foi pela “sua paixão pelo diálogo inter-religioso, particularmente entre cristãos e muçulmanos”.

Questionada sobre se as resistências à dinâmica sinodal por parte da hierarquia seriam motivadas pelo receio de as mulheres assumirem maiores responsabilidades na Igreja, a sua resposta foi surpreendente: “Penso que esse problema não se coloca na Síria”, respondeu Houda Fadoul, uma vez que “as mulheres na Síria têm os mesmos direitos que os homens”. Deu o seu exemplo pessoal, ela que foi superiora de uma comunidade mista durante dez anos.

É extraordinário como uma questão tão fraturante em tantas latitudes – a paridade entre homens e mulheres – é vivida com serenidade num mosteiro no meio do deserto da Síria. É bem verdade que a Igreja tem dentro de si a resposta para muitas das suas questões mais intrincadas...

Um Natal Feliz!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Pe. Samelo, profeta que a morte não cala

Pe. António Samelo
Há pessoas que passam pelas nossas vidas e deixam em nós uma marca indelével. São pessoas que vivem certos valores de uma tal forma que nos desafiam, não a imitá-los, mas a viver esses mesmos valores no nosso contexto vital.

É o caso do Pe. António Samelo, presbítero da diocese de Coimbra, como gostava de se apresentar. Hoje celebra 70 anos de vida junto de “Deus Pai/Mãe”, como gostava de a Ele se referir. Partiu na semana passada para junto d’Ele, após doença prolongada.

O Pe. Samelo estava consciente que se aproximava o fim da sua vida sobre a terra. No início de novembro enviou um correio eletrónico a convidar para a Eucaristia da sua Páscoa. Ou seja, do seu funeral, da sua passagem desta vida para a vida em Deus.

No final dessa sua missiva, referia as conclusões do Sínodo, em que se revia. Aí via confirmada a luta da sua vida por uma Igreja mais fiel ao Evangelho de Jesus Cristo. Nesta, a dignidade dos fiéis advém do sacramento do batismo e não do sacramento da Ordem. Sublinhava, então, em sintonia com o Sínodo, a necessidade de a Igreja se repensar nessa ótica. “É um belo desafio que já não poderei concretizar... mas... o Espírito vai trabalhando... a ver se se quebra ‘o espinhaço’ do diabólico clericalismo”, concluía.

O testemunho que ele nos deixa é de alguém que exerceu o seu ministério com total desprendimento. Nunca procurou qualquer cargo movido pela sede de poder, ou de destaque social. Sempre abominou e denunciou o carreirismo. Esteve sempre disponível para servir o Povo de Deus onde lhe era solicitado.

A coerência, a radicalidade, o desprendimento, a disponibilidade e tantas outras qualidades do Pe. Samelo, permanecerão na memória daqueles que com ele contactaram. Ele continuará a desafiar-nos a sermos mais consequentes com a palavra e o exemplo de Jesus Cristo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

O Sínodo começa agora

Ao fim de três anos, encerrou-se o Sínodo sobre a sinodalidade. O resultado dessa caminhada está vertido num documento de 51 páginas que sintetiza a reflexão produzida e propõe caminhos para a implementação da sua dinâmica na Igreja.

A sinodalidade é definida em “termos simples e sintéticos” como “um caminho de renovação espiritual e de reforma estrutural para tornar a Igreja mais participativa e missionária” (nº28). Nada de novo: desde os inícios, é a forma ajustada de a Igreja funcionar em todos os seus níveis para discernir e tomar as suas decisões. Isto implica escutar e dialogar para chegar ao consenso possível.

No entanto, se o documento final for devidamente implementado, poderá significar a maior transformação na Igreja Católica desde o Concílio Vaticano II. Na verdade, muitas das suas propostas traduzem preocupações conciliares que ainda não se efetivaram, apesar de já terem passado quase 60 anos desde que se concluiu esse Concílio. Há, aliás, o risco de acontecer ao Sínodo o que aconteceu ao Concílio: o sucessor de Francisco e a sua entourage podem achar que se avançou de mais e tentarem congelar as dinâmicas que foram suscitadas na Igreja.

Podem também aqueles que têm a responsabilidade de tomar decisões – nomeadamente padres e bispos – fazerem lindos discursos sobre a sinodalidade e até adotar as estruturas de participação propostas pelo Sínodo, mas usá-las apenas para confirmarem as suas convicções ou as decisões tomadas somente por alguns. Se, como preconiza o documento, não acontecerem “mudanças concretas a curto prazo, a visão de uma Igreja sinodal não será credível e isso afastará os membros do Povo de Deus que retiraram força e esperança do caminho sinodal” (nº 94).

Que o Sínodo não seja um “sonho lindo que acabou”, mas sim o verdadeiro relançamento da participação na Igreja.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 06/11/2024)

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Um frade que faz aquilo que prega

Timothy Radcliffe, frade dominicano, recém-nomeado cardeal
Foto: 
Mazur/catholicchurch.org.uk
Aquele que diz uma coisa, e faz outra, perde a credibilidade. É bem conhecida a expressão: “Bem prega frei Tomás: faz o que ele diz, não faças o que ele faz”. Assim se denuncia a incoerência eclesiástica. Parece que o frei Tomás referido no aforismo existiu mesmo – e que a frase até é do próprio.

Trata-se de um frade dominicano, frei Thomaz de Souza, o qual, no séc. XVI, foi confessor de Dona Catarina da Áustria, esposa de D. João III. Tendo acesso à corte, comprovou a imoralidade dos cortesãos que expunha nos seus sermões. Um dos fidalgos visados escreveu junto aos aposentos do frade: “Aqui mora frei Tomás, que bem diz e mal faz”. Frei Tomás terá acrescentado por baixo: “Fazei o que diz e não façais o que faz”.

Frei Tomás humildemente assume que terá as suas incoerências, as quais não retiram valor ao seu discurso. Não é essa a perspetiva do cardeal Jean-Claude Hollerich. Na abertura do Sínodo que decorre em Roma, na qualidade de relator-geral pediu aos participantes “coerência” entre a prática e o que se diz: “Caso contrário, as pessoas ouvirão as nossas palavras, mas não acreditarão nas nossas práticas, o que tornará o nosso património insignificante, corroendo-o lentamente”.

Frei Timothy Radcliffe, recentemente nomeado cardeal, também ele dominicano, na reflexão que dirigiu ao Sínodo referiu como se podem sentir intimidados os participantes menos habituados aos “títulos grandiosos e roupas estranhas”. Soube-se agora que pediu ao Papa que fosse dispensado de usar a “elaborada indumentária cardinalícia”, tendo o Papa acedido.

Timothy Radcliffe terá as suas incoerências, pois ninguém é perfeito, como reconhecia frei Tomás. Contudo, ao preferir o despojado hábito branco dominicano em vez dos requintados vermelhos cardinalícios, demonstrou que procura fazer aquilo que prega.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Caminhar não é ficar parado nem correr

Deu-se mais um passo, em Portugal, na dinâmica sinodal que o Papa Francisco está a promover na Igreja Católica. Depois de se escutarem novamente as dioceses, os movimentos, os grupos e todos aqueles que fizeram chegar as suas reflexões à Conferência Episcopal Portuguesa, elaborou-se uma síntese que será enviada para Roma.

É um bom relatório da consulta sinodal, elaborado por um conjunto de peritos que soube acolher os mais diversos contributos. Refere mesmo, ainda que brevemente, as “questões doutrinais/pastorais que ainda causam dúvida, controvérsia ou desacordo na vida da Igreja”. São elas, por exemplo, “a moral sexual, o celibato dos padres, o envolvimento de ex-padres casados, a possibilidade de ordenação de mulheres”. Trata-se de temas que exigem maior aprofundamento.

São estas “questões fraturantes” que atraem a opinião publicada, pelo que fizeram títulos de muitas notícias divulgadas desde a semana passada quando foi divulgado o relatório. São questões que deixarão uns desiludidos, outros preocupados.

Aqueles que pretendem que a Igreja avance rapidamente na resolução desses problemas, ao verificarem o curto espaço que lhes é dedicado no relatório e a cautela com que são abordados, ficarão desapontados. Aqueles que temem que a Igreja se degrade pelas reformas que pressentem na liderança de Francisco, só pelo facto de serem mencionados determinados tópicos, encontrarão aí mais sinais preocupantes de desrespeito pela tradição.

Ora, a sinodalidade que o Papa propõe à Igreja é precisamente procurar que esta faça um caminho em conjunto. Tal implica não ficar parado, nem refém de fórmulas e práticas do passado. Contudo, caminhar também não significa correr. Tem de se dar o tempo necessário para discernir o que mais convém à Igreja. E não se devem encerrar liminarmente questões controversas.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

O Sínodo e as mulheres nos seminários


O relatório síntese da primeira sessão do Sínodo que, em outubro, decorreu em Roma, solicita que “se verifique de forma aprofundada a formação para o ministério ordenado à luz da perspetiva da Igreja sinodal missionária”. No relatório propõem-se diversas sugestões a ter em conta na formação dos candidatos a padres, para que estes possam servir melhor “uma Igreja mais próxima das pessoas, menos burocrática e mais relacional”. Esta é, em síntese, a Igreja sinodal que se quer promover.

Os padres, em chave sinodal, “são chamados a viver o seu serviço ao Povo de Deus numa atitude de proximidade às pessoas, de acolhimento e de escuta de todos e a cultivar uma profunda espiritualidade pessoal e uma vida de oração”. Essas exigências deverão levar as dioceses a “repensar os estilos e os percursos formativos” dos candidatos ao ministério sacerdotal, bem como promover o exercício da autoridade num estilo apropriado a uma Igreja sinodal”.

Os seminários, segundo o relatório, não deverão “criar um ambiente artificial, separado da vida comum dos fiéis”, mas diretamente ligados à vida concreta das pessoas e das comunidades: “O Povo de Deus deve estar amplamente representado na formação dos ministros ordenados”, lê-se. Propõe-se que se valorize “o contributo feminino e a cooperação das famílias” nesse percurso formativo: “Insiram-se as mulheres nos programas de ensino e formação dos seminários para favorecer uma melhor formação para o ministério ordenado”.

Nos dias em que a Igreja em Portugal está a viver a Semana de Oração pelos Seminários, o Sínodo abre perspetivas para a revisão profunda da formação ministrada aos futuros padres. É um apelo lúcido, este que vem de Roma. É preciso responder-lhe com coragem, e com espírito reformista, para reinventar percursos formativos para uma Igreja mais sinodal.

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Tornar o Sínodo o “modus vivendi”

Foto retirada daqui

O maior legado que o Papa Francisco deixará à Igreja será a recuperação do seu carácter sinodal. Não é algo revolucionário, porquanto se trata de um regresso às origens e à sua origem – Jesus Cristo. Implica, contudo, uma revolução no seu funcionamento.

Tal como Jesus, o Papa pretende que a Igreja acolha, escute e acompanhe todos os que a ela pertencem ou dela se aproximem. Por isso, o Sínodo que está a decorrer desde 2021 e só se encerrará em 2024 procurou promover a escuta a nível local, regional e continental. Com contributos vindos de todo o mundo, reuniu-se o Sínodo dos Bispos em Roma, desde o dia 7 de outubro até ao passado sábado. Foi a sua primeira sessão, a qual será seguida de uma segunda em outubro de 2024

Pela primeira vez, para além dos bispos de todo o mundo, participaram outros homens e mulheres com direito a voto. Foi dada liberdade de expressão a todos os participantes e promoveu-se um ambiente de escuta recíproca.

Até aqui a preocupação dos intervenientes em sínodos, quase exclusivamente bispos, era dizer o que o Papa esperava ouvir e confirmar as suas orientações para a Igreja. Agora, até os críticos do Papa tiveram assento no Sínodo e foram convidados a falar, apelando-se apenas para que não se fixassem nas suas posições e soubessem acolher as dos outros, para todos fazerem “caminho juntos”. É isso que significa a palavra “sínodo”.

O relatório final desta primeira sessão do Sínodo expõe os pontos de convergência alcançados e as questões que exigem aprofundamento, sublinhando as propostas para implementar a dinâmica sinodal na vida da Igreja. O Sínodo dos Bispos deixou de ser um acontecimento para se converter num processo estrutural constitutivo da própria Igreja. Sendo já um facto, este processo exige ainda muita conversão pessoal e comunitária à nova forma de funcionamento.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Nas mãos do Papa

Papa na missa de Encerramento do Sínodo dos Bispos
Foto ANSA retirada daqui
O Sínodo dos Bispos chegou ao fim. A forma como decorreram os trabalhos, e os problemas que estiveram em cima da mesa, têm permitido as mais diversas leituras. Muitas delas reduzem o Sínodo ao confronto entre duas posições antagónicas: conservadores e progressistas. Parece que a abordagem mais correta é a da existência de dois pequenos grupos mais “extremistas” e uma grande maioria ao centro, tentando esta aproximar esses dois extremos para evitar cismas e encontrar soluções o mais consensuais possíveis para a Igreja. Esta é a convicção de um padre sinodal, revelada pelo sítio espanhol “Religión Digital”, sem contudo referir a sua identificação.

Esse ambiente de um amplo consenso transparece no Relatório Final do Sínodo. Todos os parágrafos foram aprovados com uma maioria qualificada de dois terços. Apenas alguns mereceram uma oposição maior – e todos eles se encontram no capítulo que aborda o “acompanhamento pastoral da família”. Alguns foram rejeitados por vinte por cento dos padres sinodais. São os parágrafos dedicados às situações familiares mais complexas dos dias de hoje. É neles que se aborda, também, o problema do acolhimento à homossexualidade.

Para além desses, apenas três parágrafos estiveram muito próximos de não passarem. São os que referem a necessidade de discernir e de promover a integração dos divorciados recasados, apesar do acesso aos sacramentos nunca ter sido referido explicitamente.

Por mais que se tente dizer que neste Sínodo se abordaram muitas outras questões, foram estas, de facto, que o marcaram. E, perante elas, há pelo menos vinte por cento dos bispos que se opõem a uma mudança, como se viu. E muitos mais experimentam algum desconforto em relação ao acolhimento dos divorciados recasados e dos homossexuais.

Tal como se previa desde o início, o Sínodo não conseguiu encontrar “soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família”, como reconheceu o Papa Francisco no encerramento dos trabalhos. Mas, mesmo assim, permitiu que fossem abordadas “sem medo e sem esconder a cabeça na areia”. Ficou claro que não haverá substanciais mudanças doutrinais, mas a linguagem e a práxis pastoral terá de se adequar às circunstâncias particularmente difíceis das famílias de hoje.

Em resumo: está nas mãos do Papa promover essa mudança, eventualmente através de uma Exortação Apostólica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/10/2015)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O início do Sínodo

Primeiro "briefing" do Sínodo da família
Da esquerda para a direita:
Bruno Forte, Vingt-Trois, Péter Erdo e Federico Lombardi
Foto: LaPresse, retirada daqui
Os principais responsáveis pela condução dos trabalhos do Sínodo dos Bispos procuraram baixar as expectativas em relação aos resultados dessa reunião magna do episcopado mundial, que decorre no Vaticano desde o passado domingo até ao dia 25 deste mês.

No início dos trabalhos o cardeal Peter Erdö, relator geral do Sínodo, sublinhou o valor da “indissolubilidade do matrimónio proposta pelo próprio Jesus Cristo”, pelo que vê com dificuldade o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos. Contudo, essa não é a única questão que será debatida, mas muito outras, organizadas em três grandes áreas temáticas: a escuta dos desafios sobre a família; o discernimento da vocação familiar; a missão da família hoje. São estes os três capítulos do “Instrumentum Laboris” que resultou da reflexão do último Sínodo e que constituem o ponto de partida do que agora se iniciou.

“Se viestes a Roma com a ideia de uma mudança espetacular da doutrina, regressareis desiludidos”, disse aos jornalistas no final do primeiro dia o responsável pela condução dos trabalhos, cardeal Vingt-Trois. Contudo, “este Sínodo não se reúne para não dizer nada”, afirmou na mesma conferência de imprensa o secretário especial do Sínodo, o arcebispo Bruno Forte.

Na abertura dos trabalhos do Sínodo o Papa Francisco colocou as balizas para a reflexão, não deixando de desafiar os padres sinodais: “Recordo que o Sínodo não é um congresso, ou um ‘parlatório’, não é um parlamento ou um senado, onde se procura o consenso”. Para o Papa, este deve ser um espaço em que a Igreja procura “ler a realidade com os olhos da fé”. Em que se questiona “sobre a fidelidade ao depósito da fé”, o qual não é “um museu para olhar ou salvaguardar, mas é uma fonte viva em que a Igreja sacia a sede para saciar e iluminar o depósito da vida”. Ou seja, o Sínodo deve ser fonte de inspiração para dialogar com o mundo contemporâneo e responder às suas questões.

Mesmo quem não conhece em profundidade a Igreja Católica, não deve esperar que esta, de repente, reescreva a doutrina que foi consolidando no seu seio ao longo de dois milénios. O que se deve aspirar – e já será um grande salto – é que as formulações doutrinais se adequem aos tempos atuais e deem resposta aos seus problemas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 09/10/2015)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Igreja, Direita e Esquerda

Papa fala aos jornalistas no avião
Foto retirada daqui
A classificação dos líderes da Igreja como de direita ou de esquerda, conservadores ou progressistas, habitualmente não é ajustada. Não só por na política partidária serem cada vez mais difusas as diferenças entre a esquerda e a direita. Mas, sobretudo, porque os responsáveis eclesiásticos têm de, por um lado, ser fiéis à tradição da Igreja – e por isso conservadores –, e, por outro lado, de ser fiéis ao dinamismo do Evangelho, o que os obriga a atualizar a doutrina às circunstâncias concretas de cada tempo – e, por isso, a ser progressistas.

O Papa Francisco tem sido aplaudido à esquerda, quando critica o sistema capitalista, ou apela à ecologia, ou se preocupa com os divorciados recasados e os homossexuais. E é aplaudido à direita quando defende a família ou condena a legalização do aborto. Na sua última viagem ao continente americano acabou por, de certa forma, desiludir os ditos conservadores e progressistas, por não se deixar acantonar em nenhum dos polos. Para os primeiros não foi suficientemente contundente na condenação do aborto e dos casamentos homossexuais. Já para os segundos terá sido muito suave na abordagem do problema dos homossexuais católicos ou do papel da mulher na Igreja.

No voo entre Cuba e os Estados Unidos, foi mesmo questionado se era “esquerdista” e até católico. Ao que ele respondeu: “Não disse nada além do que está na Doutrina Social da Igreja.” Esclareceu depois que o matrimónio continua a ser indissolúvel. Não há divórcio católico, apesar de ter simplificado o processo de declaração de nulidade dos casamentos na Igreja. Nestas posições alguns leram um virar à direita.

Na verdade, ele não é de esquerda nem de direita, mas alguém que quer responder às questões que afetam e preocupam os homens e mulheres de hoje. Como são o acolhimento aos divorciados recasados e aos homossexuais, ou o papel da mulher na Igreja.

Para dar resposta a estes e outros problemas, o Papa quer que se reflita, se discuta e que, à luz do Evangelho e em conformidade com a tradição da Igreja, se encontrem as soluções adaptadas aos dias de hoje. Apesar de ter pedido isso à Igreja, nomeadamente na preparação do próximo Sínodo dos Bispos, ainda se nota pouco essa preocupação no interior das organizações católicas...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/10/2015)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O "simplex" papal

O Papa Francisco simplificou o processo para a declaração da nulidade de um matrimónio e pediu que passasse a ser gratuito.

Para o tornar mais célere, conferiu maiores responsabilidades aos bispos de cada diocese, podendo eles próprios julgar os pedidos mais evidentes. Mais importante ainda, aboliu a obrigatoriedade de uma dupla sentença positiva. Até agora, para um casamento ser declarado nulo, tinha de obter o aval do tribunal eclesiástico da diocese em que era introduzida a causa e do tribunal da diocese metropolita. Caso o primeiro dissesse que sim e o segundo que não, então transitava para Roma, que resolveria a questão. Com a legislação agora aprovada pelo Papa, se ninguém recorrer na primeira instância, o casamento é automaticamente declarado nulo.

No caso português, depois de um processo passar nas respetivas dioceses, tinha de ir para Braga, metropolita das dioceses do norte, Lisboa, do centro e ilhas, ou Évora, das do sul. Com o acumular de processos nessas dioceses, os esposos tinham de esperar vários anos, e de gastar muito dinheiro, para conseguirem a sua almejada pretensão. Em Espanha pode mesmo demorar entre quatro e cinco anos a ser despachada uma anulação – e custa cerca de cinco mil euros, segundo o sítio "Religión Digital". No nosso país pode demorar mais tempo e ficar ainda mais dispendioso.

Preocupado com a situação das pessoas que vivem afastadas dos sacramentos  devido à morosidade da justiça eclesiástica, ou por não terem dinheiro para introduzir a causa de nulidade, o Papa decidiu legislar para que esta possa ser declarada num mês e de forma gratuita. Não se trata de promover ou facilitar o divórcio, nem de anular os casamentos católicos, mas de declarar nulo com maior rapidez e de forma gratuita o que nunca existiu e que, por isso, não pode continuar a atormentar a vida das pessoas. Trata-se de colocar a lei ao serviço das pessoas.

Com esta legislação, a um mês do Sínodo dos Bispos, o Papa dá um sinal claro aos padres sinodais para se concentrarem nos casos em que o casamento não foi nulo, mas que, por diversos motivos, falhou. Para esses espera-se que o Sínodo encontre uma resposta que não continue a manter os crentes afastados dos sacramentos, mas os reintegre plenamente na vida da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 11/09/2015)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Bispos contra o Papa?!

Manchete da última edição do “Sol”
Imagem recortada daqui
Publicamente, todos os bispos portugueses têm aplaudido o Papa. Ainda nenhum, que me tenha apercebido, criticou alguma das posições e das perspetivas que ele tem proposto para a Igreja. Admito que em privado façam eco de algum desconforto para com certas teses “bergoglianas”. Contudo, como noticiou o semanário "Sol", na sua última edição, chegar ao ponto de não respeitar o desafio que o Papa fez à Igreja de todo mundo para refletir o problema dos divorciados recasados, e enviar um documento votado por todos os bispos, incluindo os eméritos, em que, simplesmente, se lhes recusa o acesso à comunhão, parece-me inconcebível!

Situar o debate só em torno da questão de os católicos recasados poderem, ou não, comungar, é muito redutor. Assim posta a questão, é natural que se criem divisões entre os que defendem, e os que negam, essa possibilidade.

Ora, o objetivo do Papa não terá sido esse ao levantar essa questão (e outras). O que ele pediu à Igreja foi que reflita sobre a forma de conciliar a indissolubilidade do matrimónio com o acesso dos recasados à comunhão. Ou seja: como continuar a valorizar e a propor o matrimónio católico para toda a vida; e ter uma solução para aqueles que falharam nesse projeto e, por isso, se veem arredados dos sacramentos só por terem contraído uma nova união.

Assim sendo, a preocupação dos bispos deverá ser ler as sensibilidades e propostas da Igreja em Portugal. E, depois, enviar para o Sínodo sugestões, linhas de reflexão, pistas para que os bispos de todo mundo possam encontrar uma saída para este problema que, à primeira vista, parece irreconciliável.

Em muitos contextos, e por diferentes personalidades da Igreja, já foram sugeridas diversas soluções. Espera-se que os bispos portugueses, tendo ouvido as diferentes sensibilidades nacionais, consigam retirar das diferentes posições, por vezes diametralmente opostas, um contributo válido para o Sínodo. É crucial para a Igreja, no mundo de hoje, encontrar a solução para este e outros problemas que afetam a vida de pessoas concretas.

Por isso, limitarem-se a dizer ao Papa que se é a favor ou contra a comunhão dos recasados, é, manifestamente, muito pouco. Ele, seguramente, espera muito mais da reflexão dos católicos espalhados por todo o mundo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/08/2015)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Os riscos do Sínodo

Foto retirada daqui
Está a mudar a forma como a Igreja debate as questões que preocupam as pessoas e a maneira como dialoga com o mundo.

O Papa Francisco quer uma “Igreja em saída” e com as portas abertas. Que vá ao encontro das “periferias geográficas e existenciais”. Que acolha as suas preocupações e inquietações e as reflita sem ter medo de enfrentar as questões mais polémicas.

Na abertura do último Sínodo dos Bispos o Papa pediu que se falasse claro. No discurso inaugural afirmou: “É necessário dizer tudo aquilo que, no Senhor, sentimos que devemos dizer: sem hesitações, sem medo. E, ao mesmo tempo, é preciso ouvir com humildade e aceitar de coração aberto aquilo que os irmãos dizem. A sinodalidade exerce-se com estas duas atitudes”.

Fruto dos trabalhos sinodais, foram identificadas as questões em torno da problemática da família a aprofundar no próximo Sínodo, o qual se reunirá no Vaticano de 4 a 25 de outubro deste ano. Algumas delas não obtiveram a maioria de dois terços, como é o caso do acesso dos divorciados recasados aos sacramentos e o acolhimento aos homossexuais. Todavia o Papa impôs que elas fizessem parte do Relatório Final e que sejam refletidas na próxima assembleia de bispos.

Esta semana foi apresentado o documento onde constam os assuntos que serão refletidos e aprofundados pelos padres sinodais. Foi sublinhado o desejo do Papa de que todos falassem com coragem e abertamente. Contudo a maior novidade foi a de deixar à “discrição e responsabilidade” dos participantes a liberdade de comunicar aos média os assuntos que estão a ser debatidos no Sínodo.

Esta é uma opção arriscada de transpor para os meios de comunicação social a discussão que decorre na Aula Sinodal, com o perigo de ser deturpado e corrompido pela lógica mediática, mas confere uma maior transparência e visibilidade ao debate eclesiástico. Está também de acordo com o que dizia o cardeal Bergoglio em Buenos Aires e que reafirmou, como Papa, na Evangelii Gaudium: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (nº49).

Em Outubro poderemos verificar se foram maiores os danos ou os benefícios desta decisão do Sínodo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/06/2015)

domingo, 26 de outubro de 2014

Um Papa determinado

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Os média foram acusados de dar mais destaque às situações irregulares do que à reflexão dos padres sinodais sobre a família. Estes, no entanto, discutiram-nas sem pôr em questão “as verdades fundamentais do sacramento do Matrimónio: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a procriação, ou seja, a abertura à vida”, referiu o Papa no discurso de encerramento do Sínodo.

D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, considerou mesmo que a excessiva mediatização das questões mais polémicas “provocou um certo recuo” na assembleia sinodal, influenciando os trabalhos dos grupos linguísticos. As votações do relatório final do Sínodo revelam esse “recuo” dos bispos em relação às uniões de facto ou civis, ao acesso dos divorciados recasados aos sacramentos e, também, ao acolhimento dos homossexuais.

O parágrafo em que se pede uma “nova sensibilidade da pastoral hodierna, que consiste em colher os elementos positivos presentes nos matrimónios civis e, tendo em conta as devidas diferenças, nas uniões de facto”, passou com apenas três votos acima dos dois terços exigidos para a aprovação.

Já os parágrafos que abordavam as questões dos divorciados recasados e dos homossexuais, não tiveram essa maioria qualificada. Por essa razão, não deveriam constar do documento final do Sínodo, apesar de terem a aprovação de mais de metade dos votantes. Por imposição do Papa, foram incluídos.

Para que ficasse claro que estes temas não obtiveram a aprovação formal do Sínodo, Francisco fez publicar a votação discriminada por parágrafo. Algo que nunca tinha acontecido em nenhum relatório anterior. Para além disso, por sua iniciativa pessoal, fez do “Relatio Synodi” o “Lineamenta” do próximo. Ou seja, transformou este relatório em documento preparatório da próxima reunião sinodal – outra novidade.

Estas duas inovações demonstram a determinação do Papa em não deixar cair essas questões. Apesar de não as ter visto aprovadas pelo Sínodo, ao incluí-las no “Lineamenta” obriga os bispos e os fiéis a refleti-las durante o próximo ano.

O que se desenhava como a primeira derrota do Papa, acabou por se converter numa manifestação da sua firmeza na liderança da Igreja. Aguardemos os próximos capítulos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/10/2014)

domingo, 19 de outubro de 2014

O “terramoto” sinodal


Foto Osservatore Romano/AFP retirada daqui
Nos primeiros dias do Sínodo Extraordinário sobre a família, muitos dos participantes reconheceram que a forma como as pessoas são rotuladas no discurso eclesiástico não as ajuda a aproximarem-se da Igreja. Num dos primeiros “briefings”, foi referido que certas expressões muito utilizadas na linguagem eclesiástica deviam ser abandonadas. Entre essas, destacavam: “Viver em pecado”, uma referência habitual às pessoas que coabitam antes do casamento; “intrinsecamente desordenados”, uma classificação típica dos homossexuais; e ainda, “mentalidade contracetiva” uma categorização frequente de uma sociedade que não respeita a vida.

O relatório apresentado pelo cardeal Péter Erdő na segunda-feira que resume a primeira semana de debate traduz bem essa preocupação dos padres sinodais. Na abordagem da convivência pré-matrimonial é mesmo sublinhada a necessidade de acolher e acompanhar as pessoas nessa situação, pelos mais diversos motivos, com “delicadeza e paciência”.

Em relação à homossexualidade, a expressão referida não é utilizada. O que se afirma é que “os homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã”. E questiona-se: “Somos capazes de acolher essas pessoas, garantindo-lhes um espaço fraterno em nossas comunidades”?

Quanto ao controlo da natalidade, sem deixar de sublinhar “a abertura à vida” como “exigência intrínseca do amor conjugal”, reconhece-se a “necessidade de respeitar a dignidade da pessoa, na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade”. Ou seja, sustenta-se o respeito pela “consciência pessoal do indivíduo”, conclui o padre jesuíta James Martin num artigo da revista “América”.

A forma como o Sínodo está a abordar a temática da família tem abanado os pilares em que se edificou a conceção católica do matrimónio. O relatório é mais um abanão. Para o vaticanista John Travis é um “grande terramoto”, antecedido por “meses de pequenos tremores de terra”.

Espera-se que esta abordagem não reduza a escombros a doutrina tradicional sobre a família, como temem alguns. Mas cresce a expectativa quanto à flexibilidade que será dada aos seus fundamentos para acolher “os valores presentes nas famílias feridas e nas situações irregulares”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 17/10/2014)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Sínodo da família

Sínodo dos Bispos sobre a Família
Foto retirada daqui
O Papa abriu o Sínodo dos Bispos pedindo aos participantes que falem claro e escutem com humildade. É neste clima de abertura que os padres sinodais vão abordar temas como o divórcio, a contraceção, o aborto, as uniões de facto, os casais homossexuais, as crianças no interior de uniões homossexuais, a poligamia, o papel eclesial e social da família, a eventualidade de conceder a comunhão aos recasados.

De entre todos, o que tem merecido maior atenção mediática é o do acesso aos sacramentos por parte de quem rompeu uma anterior união e se voltou a casar. Para quem permanece só esse problema não se põe, isto porque, apesar de estar separado, continua fiel à primeira união, não lhe podendo ser negada a comunhão, ou ser padrinho ou madrinha.

Tudo isso está vedado aos recasados. É essa situação que inúmeros casais vivem com sofrimento e pedem à Igreja que encontre uma saída para a sua situação. O Papa já manifestou que é sensível a essas inquietações e pede ao Sínodo que dê uma resposta a estas pessoas.

Quanto a ela, os mais intransigentes defendem que não se pode pôr em causa o princípio da insolubilidade e da unicidade. Não admitem, por isso, nem mesmo um aligeirar do processo canónico de declaração de nulidade do anterior matrimónio, como alguns propõe. Fundamentam a sua posição na tradição da Igreja e nas palavras de Jesus: “Não separe o homem o que Deus uniu” (Mc. 10, 9).

Jean-Paul Vesco, bispo de Oran, na Argélia, numa entrevista à revista “La Vie”, diz acreditar que “é teologicamente possível afirmar, ao mesmo tempo, a indissolubilidade de qualquer verdadeiro amor conjugal, a unicidade do matrimônio sacramental e a possibilidade de um perdão em caso de fracasso do que constitui uma das mais belas, mas também das mais perigosas aventuras humanas, o casamento para toda a vida”.

Na Igreja primitiva era comum “uma prática de tolerância pastoral, clemência e paciência após um período de penitência”, dos divorciados, recorda também o cardeal Kasper, no livro “Evangelho da família”.

Compete agora ao Sínodo essa árdua tarefa de procurar conciliar o que aparentemente é irreconciliável: indissolubilidade e misericórdia. Eventualmente, recuperando procedimentos do passado.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/10/2014)