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quarta-feira, 11 de junho de 2025

Papa quer “ginásios” da sinodalidade

Promover uma Igreja mais sinodal foi uma prioridade para o Papa Francisco. Leão XIV tem referido por diversas vezes a sinodalidade, tão querida ao seu antecessor: na homilia da Vigília do Pentecostes, no sábado, contou que foi essa palavra que lhe veio à mente quando assomou, pela primeira vez, à varanda da Basílica de S. Pedro. E aproveitou para aprofundar o tema, dando-lhe o seu cunho pessoal.

Nesta homilia, se dúvidas havia, ficou claro que Leão XIV procurará dar continuidade ao dinamismo sinodal, o qual não é uma invenção do Papa Francisco, nem de Paulo VI, que criou o Sínodo dos Bispos, mas uma característica essencial da Igreja desde os seus inícios. Sem ela “tudo murcha”, disse o Papa. Ou seja, para Leão XIV é decisiva para a vitalidade e rejuvenescimento das comunidades cristãs.

O problema da sinodalidade é semelhante ao da democracia – não se impõe por decreto, antes conquista-se e cultiva-se. Para a implementar e promover no seio da Igreja, não basta o empenho do Papa: é necessária a corresponsabilidade de todos os fiéis, sejam eles leigos, religiosos ou ordenados.

Aos leigos e religiosos é pedido que se comprometam nas decisões a tomar nas suas comunidades e que não estejam à espera que os seus superiores ou pastores decidam por eles. Aos pastores e superiores exige-se que não imponham as suas decisões, mas que, em conjunto com aqueles que lhe estão confiados, procurem discernir o que o Espírito Santo lhes pede que implementem nas suas comunidades.

A todos exige-se uma docilidade ao Espírito e uma cultura sinodal que só poderão adquirir com treino. Entende-se assim o desejo do Papa de que todas as comunidades “sejam ginásios de fraternidade e participação, não apenas locais de encontro, mas lugares de espiritualidade”. Os espíritos da Igreja têm de treinar muito. Bem precisam...

terça-feira, 22 de abril de 2025

A Igreja precisa de um Paulo VII

Papa Francisco no dia da sua eleição (13/03/2013)
Com a morte do Papa Francisco é mais uma voz que se cala na defesa dos mais pobres, dos refugiados, daqueles que são estigmatizados mesmo dentro da Igreja. Cala-se uma voz que teve a coragem de denunciar uma “economia que mata” e a insanidade da guerra.

As últimas palavras proclamadas em seu nome na bênção Urbi et Orbi, domingo no Vaticano, acabariam por ser o último grito de condenação da “corrida generalizada ao armamento” e em defesa da paz: “Apelo a todos os que, no Mundo, têm responsabilidades políticas para que não cedam à lógica do medo que fecha, mas usem os recursos disponíveis para ajudar os necessitados, combater a fome e promover iniciativas que favoreçam o desenvolvimento. Estas são as ‘armas’ da paz: aquelas que constroem o futuro, em vez de espalhar morte!”

Em contra corrente com o que acontece no Mundo, o Papa denunciou que “não é possível haver paz onde não há liberdade religiosa, ou onde não há liberdade de pensamento nem de expressão, nem respeito pela opinião dos outros”.

Antes, num Mundo envolto em incertezas, o Papa convocou a Igreja para o Jubileu da Esperança. É esta precisamente a palavra que dá título à sua autobiografia recente, na qual ele, humildemente, se assume como “apenas um passo” na caminhada da Igreja.

Na verdade Francisco não foi apenas mais um passo – mas foi o primeiro passo na renovação da Igreja em muitos âmbitos. Nomeou cardeais, por exemplo, em países que nunca tinham sido agraciados com essa distinção. Confiou a mulheres cargos que tradicionalmente eram entregues a clérigos. O Sínodo dos Bispos deixou de ser exclusivamente clerical, em que se ratificavam as ideias do Papa, para se converter na oportunidade de escutar todos e acolher as suas sugestões para a reforma da Igreja.

Um dos maiores desafios que o Papa deixa à Igreja é, precisamente, dar continuidade à renovação sinodal em que ele tanto se empenhou até aos últimos dias de vida. Foi a partir do hospital, há pouco mais de um mês, que convocou uma assembleia de toda a Igreja Católica para outubro de 2028.

Espera-se que o seu sucessor incremente este dinamismo na Igreja. Da mesma forma que Paulo VI não deixou que se travasse o impulso reformista do Concílio Vaticano II convocado por João XXIII, a Igreja precisa agora de um “Paulo VII” que assuma e institucionalize a dinâmica sinodal introduzida por Francisco.

O Papa Francisco lançou processos em ordem a uma “Igreja em saída”, que reclama pastores com “cheiro a ovelhas”. Compete ao seu sucessor consolidá-los e torná-los irreversíveis.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O mundo e a Igreja ainda precisam do Papa

O mundo precisa de vozes como a do Papa Francisco. Vozes proféticas que denunciem a insanidade da guerra, a mercantilização das relações internacionais e a subalternização da dignidade da pessoa humana ao lucro. Vozes que defendam o planeta sem resvalarem para o fundamentalismo ecológico. Vozes que defendam a justiça social e denunciem a discriminação, sem descambarem no wokismo. Vozes que digam a verdade, num mundo que é inquinado pelas “fake news”.

Contudo, como muito bem sabe o Papa, ninguém é eterno. Contudo, não somos efémeros. “Nós não somos nem eternos nem efémeros”, disse-o numa homilia em S. Marta no dia 1 de fevereiro de 2018. Um texto que vale a pena revisitar neste contexto da sua fragilidade física.

A morte encarrega-se de nos recordar que não somos eternos, embora por vezes nos esqueçamos dessa realidade e até desejamos que algumas pessoas o sejam. Esta contingência humana, segundo o Papa, deve levar-nos a questionar: “Que herança eu deixarei como testemunho de vida?”

É difícil de mensurar o legado que Francisco deixará à Igreja e ao mundo. São tantos os dinamismos que suscitou e, na verdade, vários ainda não se cumpriram.

Todos os homens e mulheres de boa vontade desejam que o Papa Francisco possa, por mais algum tempo, continuar a ser a voz que denuncia a corrida aos armamentos e a insensatez da guerra, os extremismos e os fundamentalismos, a cultura do descartável e a devastação do planeta. Os católicos rezam para que recupere a saúde e possa, ainda, consolidar alguns dos processos de renovação que promoveu na Igreja.

Quando ele partir, muitos rezarão para que, à semelhança do que aconteceu com João XXIII, surja um Papa que dê continuidade às reformas introduzidas por Francisco e ao Sínodo, como Paulo VI deu continuidade ao Concílio Vaticano II. Alguns, provavelmente, não...

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 26/02/2025) 

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

A política é mais nobre do que aparenta

Um amigo, de visita a Angola, viu afixado numa igreja um pedido de oração pelos políticos. Pensou que se tratava de algo específico daquele país e colocou num grupo de amigos on-line, propondo que se fizesse o mesmo em Portugal. Não se apercebeu que aquela é a intenção para o mês de agosto proposta pela Rede Mundial de Oração do Papa.

Este movimento católico existe desde 1844. Antes denominava-se Apostolado da Oração. Foi o atual Papa que em 2014 lhe alterou o nome e lhe deu uma renovada presença na Internet, com serviços de oração como o “Click To Pray”, também disponível numa aplicação para telemóvel.

Todos os meses é divulgado um pequeno vídeo em que o Papa expõe brevemente o seu pedido de oração por uma determinada intenção. Acompanha o vídeo uma infografia que explicita o pedido de Francisco e contextualiza o seu âmbito.

Na infografia deste mês realçam-se os principais problemas da política, levando o Papa a reconhecer que, “atualmente, a política não tem boa fama”. Francisco, contudo, não se deixa contaminar pelos discursos populistas que querem fazer de todos os políticos uns corruptos e sublinha que a “política é muito mais nobre do que aparenta”. Recorda aquilo que disse Paulo VI: “A política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum”.

Não se pode “avançar em direção à fraternidade universal sem uma boa política”, é a convicção do Papa. Por isso, agradece “aos muitos políticos que desempenham a sua tarefa com vontade de servir, não de poder, todos os seus esforços pelo bem comum”.

O Papa está verdadeiramente convencido que são muitos os políticos que abraçam com nobreza a atividade política. Pede, através da sua Rede Mundial de Oração – presente oficialmente numa centena de países – que, durante este mês de agosto, os católicos os tenham presentes nas suas orações.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Rezar também pelas vocações cívicas

Há 60 anos Paulo VI convidou os fiéis a rezarem pelas vocações religiosas e ao sacerdócio, no domingo em que a liturgia apresenta Jesus como o Bom Pastor. É o quarto Domingo Pascal, a que se deu o nome de “Dia Mundial de Oração pelas Vocações”. Este ano celebra-se no próximo domingo e a Igreja vive uma semana dedicada ao tema. Os papas passaram a escrever uma mensagem para assinalar este dia.

Ao longo destes 60 anos, a oração pelas vocações foi ampliando o seu âmbito. João Paulo II incluiu o chamamento “à vida familiar”. Francisco, na mensagem de 2019, passou a considerar as “vocações ligadas ao mundo do trabalho e das profissões” que se comprometem “no campo da caridade e da solidariedade, nas responsabilidades sociais e políticas”.

Na mensagem deste ano, o Papa conjuga a felicidade com a realização pessoal que só se alcança quando se descobre a própria vocação. “A nossa vida realiza-se e torna-se plena quando descobrimos quem somos, as qualidades que temos e o campo onde é possível pô-las a render”, escreve o Papa. Depois recorda todos aqueles “que abraçaram uma vocação que envolve toda a sua vida”.

O Papa coloca – logo a seguir aos chamados à vida conjugal e antes das pessoas consagradas – “todos os homens e mulheres de boa vontade que se dedicam ao bem comum”. Refere-se aos que, pelo trabalho, pela dedicação à política ou à solidariedade “procuram construir um mundo melhor”. Todos são “chamados a semear a esperança e a construir a paz” – o título da mensagem.

A Igreja precisa muito de sacerdotes e de religiosos. Porém, o mundo precisa ainda mais de profissionais que assumam o seu trabalho por vocação. Políticos e atores sociais que ponham a render os seus talentos ao serviço do outro. Rezemos pelas vocações consagradas, mas também pelos que são chamados a dedicarem-se ao bem comum.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Líderes que derrubam muros

O encontro de Paulo VI com o
Patriarca Ecumênico Atenágoras
Foto AP retirada daqui
Há 60 anos aconteceu, para muitos historiadores, um dos eventos religiosos mais importantes do século XX: a viagem de Paulo VI à Terra Santa, de 4 a 6 de janeiro de 1964. Na oração do Angelus no último sábado, o Papa Francisco recordou essa viagem e destacou o encontro de Paulo VI com o Patriarca Ecumênico Atenágoras – líder da Igreja Ortodoxa – “quebrando um muro de incomunicabilidade que manteve católicos e ortodoxos separados por séculos”.

Foi a primeira viagem internacional de Paulo VI e a primeira vez que um Papa viajou de avião. Deu início a uma das atividades mais relevantes de um Pontífice: as viagens. Paulo VI também ficou para a história como o primeiro Papa a visitar os cinco continentes.

Essa sua primeira viagem teve ainda o condão de reforçar na Igreja Católica o diálogo ecuménico e a promoção da unidade dos cristãos. O Concílio Vaticano II, que decorria quando Paulo VI visitou a Terra Santa, encarregou de refletir e de o definir como um dos dinamismos a indicar aos católicos.

Esta foi uma das quatro prioridades de Paulo VI para o Concílio. As outras eram uma melhor compreensão da Igreja Católica, a sua renovação e o diálogo com o mundo contemporâneo.

Estes dinamismos que Paulo VI procurou implementar no catolicismo são aqueles que o Papa Francisco agora procura recuperar com a insistência numa “Igreja em saída”.

Vivem-se tempos em que se promove o medo em relação aos que são de outra cultura, raça, igreja ou religião. Que são classificados como os “maus”, para arregimentar os “bons”, seja para ganhar eleições ou para estimular o terrorismo ou a guerra. Hoje, como nunca, são precisos líderes como Paulo VI, mais preocupados em lançar pontes do que em erguer muros. Capazes de promover o diálogo e a reconciliação entre aqueles que se habituaram a odiarem-se, porque a isso foram levados.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

A fisionomia feminina da Igreja


A Igreja celebra Maria, no primeiro dia do ano, como a Mãe de Deus. Esta invocação de Maria está implícita nos Evangelhos, por exemplo quando Maria visita a sua prima Isabel e esta exclama: “Donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?” (Lc. 1, 43). Contudo, foram precisos quatro séculos para ser explicitada e definida dogmaticamente como tal pelo Concílio de Éfeso, em 431.

Desde os inícios do século VI, que a Igreja celebra a 1 de janeiro a solenidade de Santa Maria, Mãe da Igreja. A partir de 1968, Paulo VI declarou-o também o Dia Mundial da Paz.

Este ano, na homilia da celebração de 1 de janeiro, o Papa Francisco recordou a definição dogmática de Éfeso e assumiu que a Igreja precisa de “descobrir o seu próprio rosto feminino” e de “abrir espaço às mulheres e ser geradora através duma pastoral feita de cuidado e solicitude, paciência e coragem materna”.

Desde que está ao leme da barca de Pedro, este Papa tem feito muito para promover a mulher na Igreja. Com ele, elas têm vindo a desempenhar cargos que nunca tinham sido confiados às mulheres. Pela primeira vez tiveram voz num Sínodo dos Bispos – e direito a votar.

É certo que ainda há muito caminho a fazer para que seja reconhecida a dignidade da mulher na Igreja e estas possam assumir encargos que continuam reservados aos homens. O caminho faz-se caminhando. É a convicção de Francisco. Maria é a sua inspiração e guia.

Entretanto, o Papa empenha-se em que a Igreja redescubra a sua fisionomia mariana. Maria não é só a Mãe de Deus: é também a Mãe da Igreja, como a definiu Paulo VI em 1964.

Da mesma forma que se identificam nos filhos parecenças com as mães, também na Igreja se devem identificar traços marianos, tais como o acolhimento da Palavra de Deus, a disponibilidade para fazer a sua vontade ou a atenção aos que mais precisam.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

A Cúria gera santos e promove ladrões

Cardeal Eduardo Pironio
e Cardeal 
Angelo Becciu

A Cúria Romana, como todas as circunstâncias humanas, pode levar à perdição ou à santificação. Disso são um exemplo os cardeais Angelo Becciu e Eduardo Pironio.

O cardeal Angelo Becciu, com 75 anos, foi uma espécie de chefe de gabinete dos Papas Bento XVI e Francisco entre 2011 e 2018 e Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, de 2018 a 2020. No sábado passado, foi condenado a cinco anos e meio de prisão efetiva por peculato, abuso de poder, corrupção e branqueamento de capitais.

No mesmo dia o cardeal Eduardo Pironio (1920-1998) foi beatificado numa celebração junto da Basílica de Nossa Senhora de Luján, na Argentina. Esta é a última etapa antes de ser proclamado santo.

Em 1975, Paulo VI chamou-o para a Cúria Romana. No dia em que assumiu essas responsabilidades escreveu no seu diário: “Quanto me custou deixar a diocese, a família e a pátria, os amigos e os parentes! Agora estou sozinho no caminho: mas o Senhor está comigo.”

O cardeal Fernando Vérgez, que foi secretário de Pironio em Roma, presidiu à sua beatificação e recordou “a sua paz interior e a sua profunda amizade com Deus”.

Entre 1984 e 1996, Pironio foi presidente do Pontifício Conselho para os Leigos. Nessa qualidade colaborou com João Paulo II na promoção da formação laical e na criação das Jornadas Mundiais da Juventude.

No final da oração do Angelus, no domingo passado, o Papa Francisco classificou o cardeal Pironio como um “pastor humilde e zeloso, testemunha da esperança, defensor dos pobres”.

As mesmas circunstâncias podem fazer o ladrão ou o santo. Em relação à Cúria Romana, tudo depende como se encara essa posição. Se é vivida como uma promoção, é fácil deixar-se corromper e perder o sentido de missão. Se é vivida com humildade e como um serviço à Igreja, então será, seguramente, um caminho de santidade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A Igreja e a cremação

Foto retirada daqui
Os primeiros cristãos começaram a designar o local de deposição dos mortos como cemitérios. Deixou de ser a necrópole (cidade dos mortos), como acontecia nas culturas grega e latina, para passar a ser o terreno onde os corpos são depositados. Onde é semeado o corruptível para ressuscitar incorruptível, na perspetiva de S. Paulo (Cf. 1 Cor. 15, 42).

Desde então, a Igreja Católica continua a privilegiar a sepultura dos mortos, embora Paulo VI, em 1963, tenha aberto a possibilidade de estes poderem ser cremados por “razões de ordem higiénica, social ou económica”. É o que sucede nas restantes igrejas cristãs, com exceção da Igreja Ortodoxa, que não admite essa prática. O mesmo se passa com os judeus e os muçulmanos.

O Vaticano, através da Congregação da Doutrina da Fé, divulgou esta semana uma instrução em que se reafirma esta práxis e em que aborda as questões em torno da cremação. “A Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos uma vez que, assim, se evidencia uma estima maior pelos defuntos; todavia, a cremação não é proibida, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã”, refere o documento.

A sepultura dos entes queridos facilita uma leitura do acontecimento da morte mais em sintonia com a perspetiva cristã. Já a cremação pode originar o que o documento denomina “conceções erróneas sobre a morte”: as que a percebam como “o aniquilamento definitivo da pessoa”; “o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo”; “uma etapa no processo da reincarnação”; ou, ainda, “como a libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo”.

Por isso, a Igreja admite a cremação, mas propõe que as cinzas sejam sepultadas num cemitério ou num local sagrado. E não admite a “dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água” ou que estas sejam conservadas “sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/10/2016)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A santa de Francisco

Foto de Andreas Solaro/AFP retirada daqui
Cada um dos últimos papas tem os seus santos. E estes podem ser considerados o “ponto de referência e uma síntese eficaz da mensagem do Pontífice que os elevou aos altares”.

Esta é a leitura de Andrea Tornelli, vaticanista, para quem “não há dúvida que Madre Teresa de Calcutá é emblemática para o pontificado de Francisco, como o foram, por exemplo, os mártires do Uganda proclamados santos por Paulo VI, ou as canonizações de José Maria Escrivá e da Santa Faustina Kowalska para o pontificado de João Paulo II”. Mas de quem falamos, quando falamos da agora Santa Teresa?

Foi longo o caminho que ela percorreu desde a sua terra natal, então Üsküp, hoje Skopje, capital da Macedônia, até chegar às ruas de Calcutá. Nascida numa família de origem albanesa, desde cedo sentiu o desejo de ser missionária na Índia. Passou pela Irlanda, onde entrou numa congregação religiosa e aprendeu inglês. Quando já era diretora e professora num colégio de meninas ricas em Calcutá, abandonou o conforto do convento para recolher moribundos abandonados nas sarjetas, o que lhe valeu o epíteto de “santa das sarjetas”.

Foi então que fundou a congregação das Missionárias da Caridade, que se dedicaram, nas suas palavras, “aos famintos, aos nus, aos que não têm lar, aos aleijados, aos cegos, aos leprosos, toda essa gente que se sente inútil, não amada ou desprotegida pela sociedade, gente que se converteu num fardo para a sociedade e que é rejeitada por todos”.

O Papa Francisco destacou, na missa da canonização, a “sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece, nos nossos dias, como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres”. Nesta santa confluem duas das principais preocupações do Papa: os mais pobres; e “a Igreja em saída” para as periferias. Por isso, Madre Teresa é a santa à imagem de Francisco.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/09/2016)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Papa do sorriso

João Paulo I
Foto retirada daqui
Comemoram-se, hoje, os 38 anos da eleição do cardeal Albino Luciani para Papa. Em homenagem aos antecessores João XXIII e Paulo VI, os Papas do Concílio, adotou o nome de João Paulo. Para comemorar esta data, é inaugurado um museu a ele dedicado, na sua terra natal, Canale d'Agordo, na região de Veneza, em Itália.

Nas vésperas da sua eleição o cardeal Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, no Brasil, definia numa entrevista o que deveria ser o perfil do futuro Papa: “Um homem de esperança… Deveria ser sensível aos problemas sociais, aberto ao diálogo… Deveria ser, acima de tudo, um bom pastor…” Albino Luciani correspondia a este perfil e os cardeias elegeram-no convictos que ele iria dar continuidade às reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II e renovar a Cúria Romana.

O museu hoje inaugurado, segundo o Vatican Insider, para além de reunir objetos que ajudam a conhecer melhor João Paulo I, procura também situá-lo no contexto em que nasceu e onde desenvolveu a sua personalidade, dar a conhecer as suas raízes. O catolicismo da região em que Luciani cresceu era, nos finais do século XIX e princípios do século XX, “tudo menos retrógrado”. E parece ter sido também determinante para a sua sensibilidade às questões sociais o convívio com o pai, que era operário e um socialista convicto.

O curto pontificado – apenas 33 dias – não lhe permitiram introduzir na Igreja as reformas que pretendia, mas bastou para demonstrar que era uma pessoa bem-humorada e que não se submetia ao protocolo vaticano. Gostava de contar anedotas e entabulava diálogo com os jovens e crianças nas audiências papais.

Ficou para a história como o “Papa do Sorriso”. Foi precursor de muitas das práticas que se tornaram habituais com o atual Papa. Infelizmente, não conseguiu implementar muitas das mudanças que – já então, há 38 anos... – se percebiam como urgentes.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/08/2016)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os Papas e o sexo

Foto retirada daqui
O discurso da Igreja é, em diversas circunstâncias, demasiado crítico em relação ao mundo em que se insere. “Muitas vezes agimos na defensiva e gastámos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” escreve o Papa Francisco no nº 38 da última exortação apostólica, Amoris Lætitia (A Alegria do Amor).

A alegria aparece logo no título, o que indicia uma valorização positiva do amor humano e da sua vivência em contexto familiar. Ao longo do texto percebemos melhor essa preocupação do Papa. Este não exclui a sexualidade nem o prazer, como tantas vezes acontece no discurso eclesiástico em que a sexualidade só é admitida em ordem à geração da vida. A virtude, por seu lado, costuma ser associada à renúncia e ao sofrimento, nunca ao prazer.

O Concílio Vaticano II, todavia, afirmou perentoriamente que “o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação”, como lembra o Papa no nº 178 da exortação. Na verdade, a Igreja (por exemplo Paulo VI na Humanae Vitae) sempre “destacou o vínculo intrínseco entre amor conjugal e procriação”. Mas isso não significa que seja esse o fim único e primordial. O Papa Francisco refere que “São João Paulo II rejeitou a ideia de que a doutrina da Igreja leve a ‘uma negação do valor do sexo humano’ ou que o tolere simplesmente ‘pela necessidade da procriação’” (nº 150).

Nesta exortação reconhece-se ainda que, aos olhos do mundo, a Igreja aparece muitas vezes como “inimiga da felicidade humana” (nº147). E recuperam-se os ensinamentos de Bento XVI que reconciliou o magistério com o prazer na encíclica Deus caritas est.

Os últimos Papas já tinham referido a sexualidade e o prazer nos seus ensinamentos. Francisco, contudo, tem conseguido ser mais ouvido por utilizar um discurso mais claro e menos embrulhado em considerações filosófica ou teológicas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/04/2016)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A ilha da reunião

Foto retirada daqui
O Papa Francisco e o Patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa Russa, encontraram-se hoje em Havana, Cuba. Nos anos 60, esta ilha foi o palco da tensão mais grave entre as duas superpotências de então – os Estados Unidos e a União Soviética – colocando o mundo à beira da guerra nuclear. Na altura João XXIII contribuiu para que prevalecesse a paz. E, há pouco tempo, o Papa Francisco conseguiu que Cuba e os EUA reatassem relações diplomáticas suspensas há mais de cinquenta anos.

Hoje Cuba pode tornar-se no símbolo da reconciliação entre a Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica. Em 1054, deu-se a primeira grande cisão na Igreja, que ainda não foi remediada. Nessa data o Papa e o Patriarca de Constantinopla excomungaram-se mutuamente. Também por razões teológicas, mas, sobretudo, por causa da questão do reconhecimento da autoridade do sucessor de Pedro sobre toda a Igreja. Desde então a Igreja Ortodoxa organiza-se em torno de diversos Patriarcas, sendo o da Igreja Russa o que reúne o maior número de fiéis, cerca de 135 milhões.

Na sequência do Concílio Vaticano II a Igreja Católica abriu-se ao ecumenismo, isto é, ao diálogo com os cristãos de outras confissões cristãs. Estes, de hereges, passaram a ser irmãos que a história separou. Em 1965 o Papa Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla encontraram-se e levantaram as excomunhões do passado. Desde então tem-se intensificado o diálogo entre o Papa e os diversos Patriarcas Ortodoxos. O único que nunca tinha entrado nesta dinâmica era o Patriarca Russo. Inicia-se, portanto, uma nova fase nas relações entre o catolicismo e a ortodoxia.

Tudo isto só é possível graças ao esforço de abertura dos últimos papas. Sem renunciarem ao essencial do primado petrino, tentam complementar o seu exercício com a escuta dos irmãos no episcopado – o carácter sinodal, “de caminhar juntos”, da Igreja – de que Francisco tanto tem falado e pedido.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 12/02/2016)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O plágio do cardeal

Foto retirada daqui
O cardeal Juan Luis Cipriani, arcebispo de Lima, no Perú, utilizou em artigos de opinião, publicados no principal diário daquele país latino-americano, o “El Comercio”, textos do Papa Paulo VI e do então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa-emérito Bento XVI, sem os citar.

Logo que foi detetado o plágio, o jornal decidiu não publicar mais textos assinados pelo arcebispo. Cipriani, numa carta ao diretor da publicação, pediu desculpa aos leitores pelo sucedido e tentou justificar o injustificável, socorrendo-se de dois argumentos. Referiu a falta de espaço para citar as fontes e, o mais extraordinário, que se escusou a citá-las porque os “ensinamentos de Cristo, dos Papas e da Doutrina Social da Igreja”, que ele segue fielmente, são um “património comum da fé, não têm uma propriedade intelectual”.

Como acontece muitas vezes em determinados meios eclesiásticos, bem como no seio de outras instituições, quando não se consegue abafar o escândalo tenta-se tapar o sol com a peneira. Só que isso revela-se sempre uma péssima estratégia. Neste caso, o purpurado peruano acicatou ainda mais os jornalistas, que foram investigar se ele teria feito o mesmo com ideias provenientes de outras fontes. E descobriram que, em 2009, utilizou numa homilia textos do filósofo espanhol Alejandro Llano Cifuentes, publicados no livro “La Nueva Sensibilidad”, sem referir o autor.

Plagiar alguém é sempre um comportamento abjeto e condenável. Não há forma de o justificar nem de o escamotear. Mas fazê-lo em textos publicados on-line, para além de ser desonesto, é imbecil. Se por um lado a internet e os motores de pesquisa permitem o acesso fácil a muita informação, também permitem detetar facilmente a apropriação indevida das ideias de outra pessoa. Pelo que quem se habituou a copiar as ideias dos outros o melhor é não disponibilizar os “seus” textos on-line, porque rapidamente poderá ser apanhado. Quando tal acontece, é preferível reconhecer que errou, sem tentar justificar-se.

Quem o faz num órgão de informação, tal como aconteceu com Cipriani, deve ser imediatamente impedido de publicar porque pode voltar a ceder à tentação. E, para além disso, ficará sempre nos leitores a dúvida se os textos por ele assinados são, ou não, da sua autoria.


(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/08/2015)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Inépcia e insensibilidade

Foto: Reuters/Yannis Behrakis retirada daqui
A crise grega é mais um sintoma das fragilidades da construção europeia e da sua união monetária.

É certo que governos de diferentes cores políticas, com a adoção de políticas ruinosas conduziram a Grécia ao colapso financeiro e económico. A intervenção da Troika e a austeridade aplicada aos gregos, que deveria ser um programa de auxílio, em vez de resolver os seus problemas, agravou-os ainda mais. Os líderes europeus não tiveram a clarividência de avaliar os reais resultados das suas políticas – e, assim, não emendaram os seus próprios erros e persistiram na obsessão de obrigar os gregos a expiar os “pecados políticos” cometidos no passado.

Contudo, não foram os políticos ou os responsáveis pelas instituições financeiras que pagaram pelos seus erros. Foi o povo, e os mais pobres, os que mais sofreram e continuam a arcar com as consequências da irresponsabilidade dos seus líderes.

O arrastar da situação grega e a incapacidade de encontrar uma solução demonstra, não só a inépcia dos líderes europeus, mas também a sua insensibilidade para com a situação dramática das pessoas que perderam o seu emprego, que foram despejados na rua ou que não fazem ideia do que comerão amanhã.

Por isso o Papa Francisco, para além de manifestar a sua solidariedade e preocupação com o povo helénico, veio lembrar aos políticos que “a dignidade da pessoa humana deve permanecer no centro de todos os debates políticos e técnicos, assim como na tomada de decisões responsáveis”.

Há quase cinquenta anos, em 1967, na encíclica Populorum Progressio, Paulo VI propunha a visão cristã do desenvolvimento que “não se reduz a um simples crescimento económico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo” (nº 14).

Vivemos tempos em que dignidade da pessoa e a promoção de todos e de cada um são frequentemente esquecidas no debate político e subalternizadas à ditadura da finança. Tempos de “uma economia globalizada e financeirizada, que se sobrepõe à política”. Em que os “bancos são salvos da falência enquanto as pessoas perdem as casas onde vivem porque não têm condições de continuar honrando seus empréstimos”, denuncia esta semana o Instituto Humanitas Unisinos, de uma universidade jesuíta no Brasil.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/07/2015)

sábado, 20 de junho de 2015

A encíclica verde

Foto retirada daqui
Na Encíclica “Laudato si” o Papa Francisco junta a sua voz à da terra que “clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou” (nº2).

O texto ontem apresentado no Vaticano dá continuidade ao discurso ecológico introduzido por Paulo VI no magistério social da Igreja. Em 1971, na carta apostólica “Octogesima adveniens” para comemorar a publicação da “Rerum novarum” de Leão XIII, “referiu-se à problemática ecológica, apresentando-a como uma crise que é ‘consequência dramática’ da atividade descontrolada do ser humano”, recorda o Papa Francisco noº4 da sua última Encíclica. João Paulo II propôs a fundamentação bíblica e teológica destas questões. Bento XVI assumiu e aprofundou o pensamento do seu antecessor, chegando mesmo a ser apelidado como “o primeiro papa verde” pela revista National Geographic, de 28 de fevereiro de 2013.

Francisco é o primeiro Papa a dedicar um texto com a relevância de uma Encíclica à problemática do ambiente.

A preocupação que ele procura suscitar é traduzida pela questão: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” Com uma linguagem frontal, que não se submete à lógica do politicamente correto, critica os governos e as grandes empresas que contribuem para a degradação ambiental e o acentuar da pobreza. Denuncia o consumismo e a divinização do mercado.

“Convém evitar uma conceção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos” (nº 190). Mas também censura aqueles que se preocupam mais com o desaparecimento de algumas espécies do que com os atentados contra a vida humana, como o aborto, ou o desaparecimento de uma cultura. Por isso, propõe uma ecologia integral que não seja só ambiental, mas que inclua também as dimensões humanas e sociais.

Para salvar, não só o planeta, mas também a humanidade e a sociedade, convoca todos e acredita que “nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto” (nº 205).

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/06/2015)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os Papas e a cadeia

João XXIII visita a cadeia de“Regina Coeli”
 Foto retirada daqui
Os cristãos não esquecem que o primeiro Papa esteve preso várias vezes em Jerusalém. E que S. Pedro, no final da vida, passou pela cadeia de Roma e foi condenado à morte, acabando por ser sepultado onde agora se ergue a Basílica com o seu nome.

Com a criação do Estado italiano e a perda dos territórios pontifícios, o Papa Pio IX declarou-se prisioneiro no Vaticano do estado italiano. João XXIII poria fim a essa “autorreclusão papal” e, poucos meses após a sua eleição, no dia 25 de Dezembro de 1958, dirigiu-se a um hospital pediátrico fora dos muros vaticanos. A cadeia “Regina Coeli” foi, no dia seguinte, a sua segunda visita. Dessa passagem ficou a frase do Papa Bom: “Sou José [seu nome próprio], um vosso irmão”!

Paulo VI visitará depois a mesma cadeia e dirá “que se pode ser bom no coração, mesmo quando pesa sobre os ombros uma condenação dos tribunais dos homens”. Na linha do seu antecessor, a 18 de Dezembro de 2011, Bento XVI, disse aos presos da prisão romana de Rebibbia: “É preciso pensar que todos podem cair, mas Deus quer que todos se aproximem dele. Reconheçam a própria fragilidade, avancem com dignidade e encontrem a alegria na vida”.

Para a Igreja um recluso nunca é um caso perdido – e a detenção é uma oportunidade para arrepender-se dos seus crimes, converter-se e recomeçar uma vida nova. Os ordenamentos jurídicos que rejeitam a pena de morte ou a prisão perpétua, por se acreditar na possibilidade da recuperação do criminoso, estão em sintonia com a maneira cristã de encarar a reclusão. Já os que se afastam dela sublinham o carácter punitivo da pena de prisão e negligenciam a reinserção social dos detidos.

O Ano da Misericórdia – que se iniciará a 8 de Dezembro e se concluirá no dia 20 de Novembro de 2016 – irá promover várias iniciativas que traduzam a “proximidade e atenção aos pobres, aos que sofrem, aos marginalizados e a todos aqueles que precisam de um sinal de ternura”. Estas foram as palavras do arcebispo Rino Fisichella na apresentação do calendário do Ano Santo, o qual prevê o “Jubileu dos Presos” a 6 de novembro de 2016.

O Papa Francisco quer que, se for possível, alguns reclusos venham à Praça de São Pedro. Não fará sentido celebrar a Misericórdia e esquecer um dos ambientes em que ela pode ser mais benéfica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/05/2015)

sexta-feira, 13 de março de 2015

Missa na própria língua

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Uma das mudanças introduzidas pelo Concílio Vaticano II foi a possibilidade de se celebrar na própria língua. Uma reforma que se tornou efetiva ainda antes do encerramento dos seus trabalhos, a 8 de dezembro de 1965. Uns meses antes, a 7 de março desse ano, Paulo VI celebrava a primeira missa em italiano.

Este sábado, o Papa Francisco presidiu à eucaristia na mesma igreja, em Roma, onde há cinquenta anos o seu antecessor inaugurava essa prática que rapidamente se estendeu a todo o mundo. Em Portugal o primeiro missal em português é publicado no final desse ano, com autorização eclesiástica dada a 22 de agosto.

Com a tradução da liturgia para a língua própria de cada comunidade, a compreensão do que se celebrava deixou de ser exclusiva do clero e de mais alguns que sabiam latim. Foi dada a possibilidade aos fiéis de entenderem o que se celebra, em vez de assistirem a um espetáculo sacro numa linguagem estranha.

Contudo, cinquenta anos depois dessa alteração, para muitos a missa continua a ser algo a que se assiste, ainda incompreensível e, apesar de ser no seu idioma, é quase como se fosse em latim. Ainda muito há a fazer para corrigir uma atitude passiva que cinco séculos de missas tridentinas incutiram nos fiéis.

Entretanto, também não desapareceram os saudosistas dos tempos em que o padre celebrava de costas para o povo. Em que só a ele era permitido recitar a oração que o Senhor nos ensinou: o Pai-nosso. Conseguiram, mesmo, que Bento XVI, em 2007, lhes concedesse a possibilidade de voltarem a assistir à missa tridentina. São os que continuam a considerar o latim como o mais adequado para os textos litúrgicos, conferindo-lhe mesmo uma auréola de língua sacra. Esquecem-se que Jesus não falou nem latim, nem grego, nem sequer hebraico. Utilizava a língua do povo: o aramaico.

Se Jesus se esforçou para falar uma linguagem que todos entendessem, então a Igreja deve fazer esse mesmo esforço. O Vaticano II deu um passo significativo, há cinquenta anos, para tornar mais acessível a sua liturgia e a sua pregação. Ora, é uma incumbência de todos, sobretudo os que presidem às celebrações, dar continuidade a este desígnio do concílio. E estimular nas comunidades uma participação mais ativa na liturgia e na vida da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/03/2015)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os “coelhos” do Papa

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A bordo do avião, no regresso das Filipinas, o Papa não falou só de coelhos. Falou também de “um país que sabe sofrer”. E não se esqueceu dos pobres, “as vítimas desta cultura do descarte”. Denunciou o terrorismo de Estado que lança os cidadãos na pobreza e dos que dela se aproveitam para fazer uma “colonização ideológica”. Ergueu a voz contra a corrupção e os corruptos, que roubam o povo.

Como é normal e natural, o que mereceu um maior destaque e gerou uma maior discussão foi a alusão à paternidade responsável, por causa da formulação utilizada pelo Papa: “Creem alguns – desculpem a frase – que, para ser bons católicos, devem ser como coelhos”.

Esta expressão foi logo aproveitada para sublinhar a aparente contradição entre o apelo à paternidade responsável e a rejeição dos métodos anticoncetivos artificiais. Como se estes fossem o única forma de exercer a responsabilidade na procriação e assumindo que a Igreja é contra eles liminarmente. Porém, Bento XVI, há cinco anos, admitiu o uso do preservativo em determinadas circunstâncias. E Paulo VI, como recordou o Papa Francisco, defendeu a anticoncepção natural mas recomendou “aos confessores para serem misericordiosos, compreensivos” para com os problemas pessoais nestas matérias.

Nestes como noutros assuntos, a Igreja tem vindo a abandonar um discurso fundamentalista e a concentrar-se naquela que deve ser a sua preocupação: anunciar valores e denunciar o seu atropelo. Mais importante do que dizer se se pode ou não usar o preservativo, a Igreja deve, antes, apelar à responsabilidade dos pais para colocarem no mundo os filhos que devem. E isto poderá implicar, para alguns, não procriarem mais e, para outros, serem mais generosos e não cederem à tentação de se ficarem pelo filho único.

É isso que predominantemente acontece na Europa e em particular em Portugal, o qual, segundo o Eurostat, registava em 2012 a mais baixa taxa de fecundidade da União Europeia. A média europeia é de 1,58 filhos por cada mulher fértil. Em Portugal chega apenas aos 1,28, enquanto na Irlanda e na França, os países com o valor mais elevado, se fica pelos 2,01. Muito longe dos três filhos por casal que, “de acordo com o que dizem os peritos – mantêm a população”, como lembrou o Papa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 23/01/2015)

domingo, 4 de maio de 2014

Papas ausentes

Papas desde João XXIII até ao atual
Arranjo gráfico de Lorenzo Rumori retirado daqui
Cerca de um milhão de pessoas acorreram à Praça de S. Pedro para participar na canonização de dois novos santos: João XXIII e João Paulo II. Dado que a memória do papa polaco está mais viva na mente e no coração dos fiéis, não é de estranhar que a maioria dos presentes sejam seus devotos. João XXIII foi um papa muito popular, no seu tempo, e querido pelos fiéis, que rapidamente o começaram a apelidar de "Papa Bom", apesar de então não haver os meios de difusão das notícias, que, hoje, possibilitam o acompanhamento próximo do dia-a-dia do Papa.

João XXIII iniciou o caminho de humanização do papado que se intensificou com os seus sucessores – em particular com João Paulo II que, após anos de exposição mediática nas inúmeras viagens que realizou, não quis esconder a doença e a decrepitude do Papa. Também Bento XVI deu um assinalável contributo ao reclamar para o bispo e de Roma o direito a "reformar-se".

Numa mesma celebração reuniram-se quatro dos Papas que resgataram a Igreja do encerramento nos muros vaticanos para o diálogo com o mundo e a contemporaneidade. Faltaram somente o Papa Paulo VI e João Paulo I, a quem ainda não foi reconhecida oficialmente a santidade mas que, também, contribuíram para essa caminhada.

Paulo VI foi o timoneiro que assumiu o leme do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu antecessor, e o soube levar a bom porto. Ficou, assim, ligado à maior reforma da Igreja desde o concílio de Trento, quinhentos anos antes.

João Paulo I, para além de ter homenageado os seus dois antecessores no nome escolhido, no seu curtíssimo pontificado deixou antever uma personalidade muito semelhante à do atual Papa. Era um bom comunicador. Criou uma relação empática com as pessoas, que o cognominaram de "Papa do Sorriso". Tal como Francisco, nas audiências gerais interagia com os assistentes, "entrevistava" crianças e jovens.

São dois papas a que a história ainda não fez justiça. Muitos acreditam que também eles trilharam o caminho da Santidade e desejam que rapidamente sejam reconhecidos como pertencentes a essa galeria de homens e de mulheres que, nas mais diversas circunstâncias, viveram a sua fidelidade a Jesus Cristo e aos valores do  Evangelho.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/05/2014)