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quarta-feira, 28 de maio de 2025

O caráter materno da Igreja em Leão XIV


A sé ou catedral de uma diocese é assim denominada porque nela se encontra a cadeira – sede ou cátedra – do seu bispo titular. No caso da diocese de Roma, essa igreja não é a Basílica de S. Pedro, mas a Basílica de S. João de Latrão.

A catedral é considerada a mãe de todas as igrejas da respetiva diocese. A Basílica de Latrão ostenta na sua fachada o título de Mater omnium Ecclesiarum (Mãe de todas as Igrejas), como lembrou o Papa Leão XIV, este domingo, quando assumiu solenemente a diocese de Roma. Esse título refere-se não apenas às igrejas da diocese de Roma, mas de todo o mundo.

Na homilia dessa celebração de tomada de posse da cátedra de S. João de Latrão, Leão XIV recuperou as reflexões do seu antecessor, o Papa Francisco, sobre a dimensão materna da Igreja, cujas características seriam “a ternura, a disponibilidade para o sacrifício e a capacidade de escuta que permite, não só socorrer, mas muitas vezes prover às necessidades e às expectativas, antes mesmo que sejam manifestadas”.

O desejo do novo bispo de Roma é que essas características cresçam e se desenvolvam, não só entre os seus diocesanos romanos, mas também entre todos os católicos do mundo, a começar por ele. Leão XIV, ao assumir a diocese de Roma, disponibilizou-se para fazer caminho com os seus diocesanos e assumir as suas “alegrias e dores, fadigas e esperanças”. Assumiu como suas as palavras de João Paulo I que, quando tomou posse da Basílica de Latrão, disse: “Posso assegurar-vos que vos amo, que desejo apenas estar ao vosso serviço e colocar à disposição de todos as minhas pobres forças, o pouco que tenho e que sou”.

Este Papa demonstra, não só uma profunda humildade em relação aos seus antecessores, mas também a preocupação de, sem os imitar, dar continuidade aos seus pontificados. Ao de Francisco, principalmente.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Papa do sorriso

João Paulo I
Foto retirada daqui
Comemoram-se, hoje, os 38 anos da eleição do cardeal Albino Luciani para Papa. Em homenagem aos antecessores João XXIII e Paulo VI, os Papas do Concílio, adotou o nome de João Paulo. Para comemorar esta data, é inaugurado um museu a ele dedicado, na sua terra natal, Canale d'Agordo, na região de Veneza, em Itália.

Nas vésperas da sua eleição o cardeal Aloísio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, no Brasil, definia numa entrevista o que deveria ser o perfil do futuro Papa: “Um homem de esperança… Deveria ser sensível aos problemas sociais, aberto ao diálogo… Deveria ser, acima de tudo, um bom pastor…” Albino Luciani correspondia a este perfil e os cardeias elegeram-no convictos que ele iria dar continuidade às reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II e renovar a Cúria Romana.

O museu hoje inaugurado, segundo o Vatican Insider, para além de reunir objetos que ajudam a conhecer melhor João Paulo I, procura também situá-lo no contexto em que nasceu e onde desenvolveu a sua personalidade, dar a conhecer as suas raízes. O catolicismo da região em que Luciani cresceu era, nos finais do século XIX e princípios do século XX, “tudo menos retrógrado”. E parece ter sido também determinante para a sua sensibilidade às questões sociais o convívio com o pai, que era operário e um socialista convicto.

O curto pontificado – apenas 33 dias – não lhe permitiram introduzir na Igreja as reformas que pretendia, mas bastou para demonstrar que era uma pessoa bem-humorada e que não se submetia ao protocolo vaticano. Gostava de contar anedotas e entabulava diálogo com os jovens e crianças nas audiências papais.

Ficou para a história como o “Papa do Sorriso”. Foi precursor de muitas das práticas que se tornaram habituais com o atual Papa. Infelizmente, não conseguiu implementar muitas das mudanças que – já então, há 38 anos... – se percebiam como urgentes.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/08/2016)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O santo da alegria

S. Filipe Néri
Foto retirada daqui
São Filipe Néri nasceu em Florença, a 21 de Julho de 1515. As comemorações dos quinhentos anos do seu nascimento iniciaram-se na passada terça-feira – o dia em que a Igreja celebra a sua memória – e encerram-se no próximo ano no mesmo dia 26 de Maio. Viveu em Florença atá aos 18 anos e fez os seus estudos no convento de S. Marcos. Então, foi enviado pelo pai para junto de um tio, para aprender o ofício de comerciante. Depressa descobre que essa não é a sua vocação.

Vai para Roma, onde começa por ser perceptor dos filhos de um nobre, mas, por opção, acaba a viver no meio de jovens a que hoje chamaríamos sem abrigo. Era alvo da sua chacota, mas tudo ultrapassava com bom humor para ganhar a sua confiança e motivá-los a uma mudança de vida e à prática religiosa.

É ordenado sacerdote e dedica-se a guiar espiritualmente pobres e ricos, príncipes e plebeus. Criou os “Oratórios”, comunidades de padres que vivem num ambiente de alegria e simplicidade, dedicados aos mais necessitados e em que se prefere a mortificação espiritual à corporal, sobretudo da vaidade.

S. Filipe Néri ficou conhecido como o “Apóstolo de Roma” e o “Santo da Alegria”. Homem culto e criativo, gostava de introduzir nos seus sermões apontamentos bem-humorados. Algo que não é muito habitual em ambientes católicos. Um bom sermão é, ainda, o que comove os ouvintes e não o que os faz rir. Embora não faltem exemplos de quem se aventure por outros caminhos.

Papa João Paulo I
Foto retirada daqui
“Diz-se que o sentido do humor – depois do breve pontificado de João Paulo I – ainda não regressou ao Vaticano. Não faltam sinais dessa demora. A alegria do papa Luciani era subversiva. Ao gostar de anedotas, de perder tempo com crianças, de gracejar em dialeto com a sua gente, destoava naquele cenário de sagradas solenidades” escrevia frei Bento Domingues, em 1998, numa crónica que pode agora ser lida no livro “O bom humor de Deus”, hoje apresentado em Lisboa.

Papa Francisco
Foto retirada daqui
“A descontração teológica com que falava irritava os guardiões da ortodoxia. A recusa dos símbolos do poder e das suas pompas era inquietante. Acabou por semear o pânico, quando mostrou que iria mexer nos métodos da Cúria romana”. Dizia, então, frei Bento, algo que se aplica hoje ao atual Papa: uma nova lufada de bom humor no seio da Igreja Católica.


(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/05/2015)

domingo, 4 de maio de 2014

Papas ausentes

Papas desde João XXIII até ao atual
Arranjo gráfico de Lorenzo Rumori retirado daqui
Cerca de um milhão de pessoas acorreram à Praça de S. Pedro para participar na canonização de dois novos santos: João XXIII e João Paulo II. Dado que a memória do papa polaco está mais viva na mente e no coração dos fiéis, não é de estranhar que a maioria dos presentes sejam seus devotos. João XXIII foi um papa muito popular, no seu tempo, e querido pelos fiéis, que rapidamente o começaram a apelidar de "Papa Bom", apesar de então não haver os meios de difusão das notícias, que, hoje, possibilitam o acompanhamento próximo do dia-a-dia do Papa.

João XXIII iniciou o caminho de humanização do papado que se intensificou com os seus sucessores – em particular com João Paulo II que, após anos de exposição mediática nas inúmeras viagens que realizou, não quis esconder a doença e a decrepitude do Papa. Também Bento XVI deu um assinalável contributo ao reclamar para o bispo e de Roma o direito a "reformar-se".

Numa mesma celebração reuniram-se quatro dos Papas que resgataram a Igreja do encerramento nos muros vaticanos para o diálogo com o mundo e a contemporaneidade. Faltaram somente o Papa Paulo VI e João Paulo I, a quem ainda não foi reconhecida oficialmente a santidade mas que, também, contribuíram para essa caminhada.

Paulo VI foi o timoneiro que assumiu o leme do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu antecessor, e o soube levar a bom porto. Ficou, assim, ligado à maior reforma da Igreja desde o concílio de Trento, quinhentos anos antes.

João Paulo I, para além de ter homenageado os seus dois antecessores no nome escolhido, no seu curtíssimo pontificado deixou antever uma personalidade muito semelhante à do atual Papa. Era um bom comunicador. Criou uma relação empática com as pessoas, que o cognominaram de "Papa do Sorriso". Tal como Francisco, nas audiências gerais interagia com os assistentes, "entrevistava" crianças e jovens.

São dois papas a que a história ainda não fez justiça. Muitos acreditam que também eles trilharam o caminho da Santidade e desejam que rapidamente sejam reconhecidos como pertencentes a essa galeria de homens e de mulheres que, nas mais diversas circunstâncias, viveram a sua fidelidade a Jesus Cristo e aos valores do  Evangelho.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/05/2014)