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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Igreja hipócrita com os homossexuais

O Papa Francisco chamou a atenção para a hipocrisia farisaica que se vive no interior da Igreja Católica. Estranhou que tenham surgido tantas críticas ao documento “Fiducia supplicans”, do Dicastério da Doutrina da Fé, que veio esclarecer que se podem dar bênçãos a casais “irregulares”, inclusive homossexuais. Na verdade, como esclareceu posteriormente, que o que se abençoa são as pessoas, não a situação em que vivem.

A hipocrisia que o Papa veio agora criticar, numa entrevista à revista católica “Credere” publicada quinta-feira, é o facto de “ninguém se escandalizar” se ele abençoar “um empresário que talvez explore pessoas”, o que, na opinião do Papa, é “um pecado muito grave”. Contudo, alguns setores da Igreja escandalizam-se se ele abençoar um homossexual, por considerarem que ele vive em pecado. Para o Papa, “isto é hipocrisia”. E disse mais: “Eu não abençoo um 'casamento homossexual', abençoo duas pessoas que se amam e também lhes peço que rezem por mim”.

Quem se der ao trabalho de ler este documento e a explicação posteriormente publicada, verifica que nada foi alterado na doutrina católica em relação ao matrimónio ou às bênçãos. Veio apenas responder às questões sobre se, em determinadas circunstâncias, podiam ser negadas as bênçãos a determinadas pessoas. É evidente que não. O “coração” do documento “Fiducia supplicans”, segundo Francisco, “é o acolhimento”.

Ninguém, por enquanto, pergunta à entrada das igrejas se os fiéis estão em estado de graça ou em pecado, numa situação regular ou irregular, se são hétero ou homossexuais. No final da eucaristia o celebrante abençoa todos os presentes, sem ninguém nunca se ter escandalizado com isso. Não se percebe, pois, porque gerou tanta polémica o Dicastério da Doutrina da Fé ter reconhecido o óbvio. “Fariseus hipócritas”, diria Jesus.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Igreja, Direita e Esquerda

Papa fala aos jornalistas no avião
Foto retirada daqui
A classificação dos líderes da Igreja como de direita ou de esquerda, conservadores ou progressistas, habitualmente não é ajustada. Não só por na política partidária serem cada vez mais difusas as diferenças entre a esquerda e a direita. Mas, sobretudo, porque os responsáveis eclesiásticos têm de, por um lado, ser fiéis à tradição da Igreja – e por isso conservadores –, e, por outro lado, de ser fiéis ao dinamismo do Evangelho, o que os obriga a atualizar a doutrina às circunstâncias concretas de cada tempo – e, por isso, a ser progressistas.

O Papa Francisco tem sido aplaudido à esquerda, quando critica o sistema capitalista, ou apela à ecologia, ou se preocupa com os divorciados recasados e os homossexuais. E é aplaudido à direita quando defende a família ou condena a legalização do aborto. Na sua última viagem ao continente americano acabou por, de certa forma, desiludir os ditos conservadores e progressistas, por não se deixar acantonar em nenhum dos polos. Para os primeiros não foi suficientemente contundente na condenação do aborto e dos casamentos homossexuais. Já para os segundos terá sido muito suave na abordagem do problema dos homossexuais católicos ou do papel da mulher na Igreja.

No voo entre Cuba e os Estados Unidos, foi mesmo questionado se era “esquerdista” e até católico. Ao que ele respondeu: “Não disse nada além do que está na Doutrina Social da Igreja.” Esclareceu depois que o matrimónio continua a ser indissolúvel. Não há divórcio católico, apesar de ter simplificado o processo de declaração de nulidade dos casamentos na Igreja. Nestas posições alguns leram um virar à direita.

Na verdade, ele não é de esquerda nem de direita, mas alguém que quer responder às questões que afetam e preocupam os homens e mulheres de hoje. Como são o acolhimento aos divorciados recasados e aos homossexuais, ou o papel da mulher na Igreja.

Para dar resposta a estes e outros problemas, o Papa quer que se reflita, se discuta e que, à luz do Evangelho e em conformidade com a tradição da Igreja, se encontrem as soluções adaptadas aos dias de hoje. Apesar de ter pedido isso à Igreja, nomeadamente na preparação do próximo Sínodo dos Bispos, ainda se nota pouco essa preocupação no interior das organizações católicas...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/10/2015)

sábado, 20 de setembro de 2014

Papa “casa” divorciado

Foto de Alberto Pizzoli/AFP          
O Papa presidiu à celebração do casamento de vinte casais. De facto, não foi ele que os casou, foram eles que se casaram. É o único sacramento da Igreja em que os próprios que o recebem são eles os ministros do sacramento.

Quando se é batizado, é o diácono ou o sacerdote que batiza o catecúmeno. Quando se é crismado, é o bispo que crisma o crismando. Quando alguém é ordenado, é o bispo que ordena. Ninguém se ordena a si próprio. No caso dos bispos, é mesmo exigida a presença de três bispos, em comunhão plena com a Igreja.

Contudo, na linguagem corrente continua a dizer-se que “foi o padre tal que nos casou”. E até os próprios padres, por vezes, dizem impropriamente: “Fui eu que os casei”. Da mesma forma saíram diversos títulos referindo que o Papa casou…

Este tipo de cerimónias não é muito comum. João Paulo II só o fez por duas vezes. Bento XVI, enquanto Papa, que se saiba, nunca presidiu a um matrimónio. O Papa Francisco fê-lo pela primeira vez este domingo. Para esta celebração escolheu esposos nas mais variadas circunstâncias, entre os quais desempregados, alguns a viverem em união de facto e até um divorciado que casou com uma mãe solteira.

Foi este caso que mereceu maior destaque nos meios de comunicação social e gerou a ideia de que o Papa tinha feito algo de extraordinário. Só que o noivo, apesar de ser divorciado, conseguiu que o seu casamento religioso fosse declarado nulo. Pelo que, canonicamente, ele era solteiro e qualquer clérigo poderia ter abençoado o novo matrimónio.

O problema teria sido repetir o casamento católico sem que o anterior tivesse sido declarado nulo. Para esses é que a Igreja ainda não tem resposta. A maior parte dos divorciados não só não podem casar, novamente perante a Igreja, como também não podem aceder a outros sacramentos se estiverem a viver numa nova união, civil ou de facto.

Espera-se que o Sínodo dos Bispos reflita sobre essa e outras situações irregulares e que encontre uma solução para que as pessoas possam ser admitidas à confissão e comungar. Para já o Papa limitou-se a acolher diferentes percursos para o matrimónio e a cumprir integralmente a práxis da Igreja, sem deixar de sublinhar o carácter heterossexual do matrimónio.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/09/2014)