quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Na Igreja somos todos estrangeiros

Na Igreja, ou não há estrangeiros, ou somos todos estrangeiros. Não há estrangeiros, porque todos temos a mesma dignidade de filhos de Deus. Pelo batismo "todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus", escreve S. Paulo aos Gálatas (3, 26). "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus", conclui o Apóstolo dos gentios (3, 28).

Por outro lado, todos somos estrangeiros na terra, porque acreditamos num reino outro, aonde somos chamados a viver para sempre. "A nossa pátria está nos céus", diz S. Paulo aos Filipenses (3, 20).

O JN do domingo passado destacava na manchete que os "Padres estrangeiros ganham terreno na Igreja portuguesa". Ainda que não faça sentido do ponto de vista cristão, aceita-se o título do JN no contexto jornalístico que tem marcado a atualidade: a nova lei de estrangeiros.

Seria interessante perceber as motivações que levaram estes padres a escolher o nosso país para desenvolverem a sua atividade pastoral. É louvável quando o fazem motivados por uma vocação missionária, devidamente discernida e orientada para servir a Igreja onde os seus superiores assim o entenderem.

Já quando saem dos seus países por interesses meramente pessoais, à procura de uma situação mais lucrativa, então, em vez de serem uma solução para a escassez de clero, acabam por se tornar, eles próprios, em mais um problema para as dioceses que os acolhem, a somar a tantos outros. Para a falta de clero há outras soluções, como "a ordenação de membros das comunidades com provas dadas", e outras que o pe. Jorge Cunha, professor de Teologia, elencou ao JN.

Acolher padres estrangeiros não deverá ser, por isso, um expediente para resolver a escassez de clero. Mas é uma excelente forma de promover o dinamismo missionário característico da Igreja.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

As questões que inquietam os jovens


Leão XIV encontrou-se com mais de um milhão de jovens em Tor Vergata, Roma, no domingo passado. Foi a maior multidão a que teve de se dirigir até agora. Tendo este encontro decorrido no âmbito do Jubileu da Esperança, o Papa acolheu os anseios próprios da juventude e desafiou-os a contagiarem com a sua fé todos aqueles com quem se cruzarem na vida.

O Papa durante a homilia começou por falar em italiano, depois passou pelo espanhol, pelo inglês, e, para terminar, falou novamente em italiano. São as três línguas que domina. O inglês é a sua língua materna. Porque passou vinte anos no Perú, fala bem o espanhol. Nos últimos anos tem vivido em Itália, o que o levou a desenvolver o italiano.

Abordou as aspirações dos jovens a “algo mais” em italiano: “Sentimos uma sede tão grande e ardente que nenhuma bebida deste mundo pode saciar”. Já em espanhol recordou as palavras do Papa Francisco em Lisboa, na Jornada Mundial da Juventude: “Não nos alarmemos se nos encontramos intimamente sedentos, inquietos, incompletos, desejosos de sentido e de futuro”.

Foi em inglês, porém, que Leão XIV identificou claramente as questões que traduzem a busca de verdade que habita o coração dos jovens: “O que é a verdadeira felicidade? Qual é o verdadeiro sentido da vida? O que nos pode libertar de sermos capturados pela falta de sentido, pelo tédio e pela mediocridade?”

A Igreja tem como primordial missão levar as pessoas a encontrarem-se com Jesus Cristo, para nele descobrirem respostas para as questões que as habitam. Aqueles que vão trilhando esse caminho encontram, naturalmente, formas de dar testemunho da sua experiência, contagiando outros e desafiando-os a fazerem essa descoberta. Se os jovens não descobrem na Igreja resposta para as suas inquietações, é porque nela não encontram testemunhos credíveis para tal.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Mitos nos dis­cur­sos sobre a pobreza

É sur­pre­en­dente a man­chete desta segunda-feira do JN que os “bene­fi­ci­á­rios do RSI são cada vez menos e o valor médio do sub­sí­dio é de 155 euros”. Não é essa a sen­sa­ção que temos quando pas­sa­mos pelas redes soci­ais. Parece que a mai­o­ria dos por­tu­gue­ses não que­rem tra­ba­lhar por­que rece­bem o ren­di­mento social de inser­ção (RSI). “O mito de que há muita gente que vive à custa do RSI, vul­gar­mente conhe­cido como ren­di­mento mínimo, é antigo e cada vez mais facil­mente des­mon­tado pelos núme­ros da Segu­rança Social e da exe­cu­ção orça­men­tal con­sul­ta­dos pelo JN”, escla­rece este jor­nal.

Há um outro mito que con­ta­mina qual­quer abor­da­gem séria da pobreza. “Desde o tempo da Lei das Ses­ma­rias [com­ba­ter a crise agrí­cola e o des­po­vo­a­mento rural] que vem esta ideia de que os pobres são pobres por­que não que­rem tra­ba­lhar, não fazem esfor­ços para sair da situ­a­ção, o que é com­ple­ta­mente con­tra­di­tado pela pró­pria estru­tura e cate­go­ri­za­ção dos bene­fi­ci­á­rios de RSI”, explica ao JN o soci­ó­logo Luís Capu­cha.

São notí­cias como esta que aju­dam a des­mon­tar as fal­si­da­des de dis­cur­sos polí­ti­cos que, para além de domi­na­rem as redes soci­ais, estão a inqui­nar a opi­nião pública. É mesmo muito difí­cil ven­cer a men­tira mui­tas vezes repe­tida.

Já dizia Goeb­bels, o minis­tro da pro­pa­ganda nazi, que “uma men­tira dita mil vezes torna-se ver­dade”. Sobre­tudo nes­tes tem­pos em que essa men­tira se dis­se­mina expo­nen­ci­al­mente, já não mil, mas milhões de vezes pelas redes soci­ais. É muito difí­cil a ver­dade tri­un­far.

Tam­bém não é fácil con­tra­riar o dis­curso popu­lista por­que mui­tas pes­soas, perante as difi­cul­da­des que enfren­tam, pre­fe­rem acre­di­tar que são os pobres, os imi­gran­tes ou os refu­gi­a­dos os cau­sa­do­res dos seus pro­ble­mas no acesso à edu­ca­ção, à saúde ou ao emprego. Não há pior cego do que aquele que não quer ver. Ou que decide ser míope.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Estimar os idosos até ao fim

A sociedade ocidental tende a valorizar o papel dos avós e dos idosos, ainda que por vezes o faça numa perspetiva meramente utilitarista.

Eles são muito úteis para irem buscar os filhos às escolas ou às atividades extracurriculares. Ou para acompanharem os netos enquanto os pais estão ocupados no trabalho. Mais tarde, quando as crianças crescem e os pais já não precisam desse apoio, os idosos começam a perder as suas capacidades de mobilidade e autogoverno: nessa altura passam a ser eles a necessitar de acompanhamento. Muitas vezes, porém, são “despejados” num lar e votados ao abandono.

Para chamar a atenção para isto o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, que se passou a celebrar no domingo mais próximo de 26 de Julho, o dia em que a Igreja Católica festeja S. Joaquim e S. Ana, pais de Maria e, portanto, avós de Jesus.

Esta efeméride celebra-se, pela quinta vez, no próximo domingo. Na mensagem que lhe dedica, Leão XIV pede que se promova a libertação dos idosos “da solidão e do abandono”. O Papa constata que “as nossas sociedades estão a habituar-se, com demasiada frequência, a deixar que uma parte tão importante e rica do seu tecido social seja marginalizada e esquecida”. É preciso “trabalhar por uma mudança que devolva aos idosos a estima e o afeto”.

Os idosos não devem ser descartados quando as suas forças diminuem e mais precisam de atenção. Não devem ser afastados do ambiente familiar, a não ser que tal seja humanamente impossível. Também os jovens precisam de contactar com a sua fragilidade e decrepitude para terem uma conceção mais ajustada do que é a vida.

O ser humano não vale só pelo que produz, mas pelo que é ao longo de todo o seu ciclo. A sua dignidade é inviolável e deve ser protegida quando está mais frágil. As velas ardem até ao fim.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 23/07/2025)

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Os que vão, e os que não vão, à missa

Há políticos que fazem questão em dizer que vêm da missa e outros que se vangloriam de não ir missa. A estes não é exigido que estejam em sintonia com o Evangelho ou com o que o Papa e os bispos pregam. Porém, surpreendentemente, estão por vezes mais alinhados com posições da Doutrina Social da Igreja do que os primeiros. É o caso do acolhimento aos imigrantes.

No Evangelho aparecem diversas passagens em que Jesus exalta e promove os estrangeiros. Jesus elogia a fé da cananeia a quem cura a filha (Mt. 15, 21-29) e do centurião romano a quem cura o escravo (Lc. 7, 1-10). Uma samaritana, que encontra junto ao poço de Jacó, converte-se em sua apóstola (Jo. 4, 31-33). Na parábola que foi lida na missa deste domingo em todo o mundo, é também um samaritano que se compadece e presta assistência a um judeu assaltado e abandonado quase sem vida. Um sacerdote e um levita veem o seu estado de necessidade, mas ignoram-no (Lc. 10, 25-37).

Comentando essa parábola, Leão XIV denunciou que, por vezes, “consideramos nosso próximo somente quem está no nosso círculo, quem pensa como nós, quem tem a mesma nacionalidade ou religião. Porém, Jesus inverte a perspetiva, apresentando-nos um samaritano, um estrangeiro e herege, que se torna próximo daquele homem ferido. E pede-nos que façamos o mesmo”.

Em sintonia com o Papa, D. José Ornelas, bispo de Leiria–Fátima, defendeu que, num contexto “de discernimento e de legislação sobre os imigrantes”, a prioridade deve estar “no bem acolher”. E apelou a que não se caia “na ratoeira dos medos instrumentalizados, nem dos preconceitos manipulados, das evidências negadas”.

Tendo em conta o Evangelho e a doutrina social que dele decorre, o cristão não pode embarcar em discursos levianos que imputam ao estrageiro os problemas da nação e pretendem dificultar o seu acolhimento.