sexta-feira, 6 de março de 2015

Um grande Bispo

Primeiro número do Mensageiro de Bragança
Foto retirada de diocesebm.pt
D. Abílio Vaz das Neves era bispo de Cochim, na Índia, quando foi escolhido para ser bispo de Bragança, a 8 de Dezembro de 1938. Amanhã cumprem-se trinta e cinco anos sobre a sua morte. Em tempos conturbados, entre a II Guerra Mundial e a Guerra Colonial, e numa diocese com parcos recursos, conseguiu deixar uma obra assinalável. Concluiu o edifício onde funciona o seminário, construiu colégios e um patronato para rapazes.

Fundou também uma congregação religiosa feminina. Criou o jornal “Mensageiro de Bragança”. Reorganizou a catequese, que era, à época, considerada modelar no país. Deu um grande impulso aos movimentos laicais. E investiu na formação dos futuros padres, reformando o seminário diocesano.

Apesar deste dinamismo, há cinquenta anos, D. Abílio terá sido o primeiro bispo a resignar antes de atingir os 75 anos, a idade prevista desde o Concílio Vaticano II. Até então os bispos não eram obrigados a resignar e permaneciam à frente da diocese até à morte. Justificou então o seu pedido por não se sentir com forças para implementar a reforma conciliar, uma desculpa que surpreendeu. E, logo na altura, se suspeitou da intervenção do poder político.

Segundo escreveu recentemente Henrique Ferreira, no “Mensageiro de Bragança”, a razão foi essa: “D. Abílio foi vítima da sua solidariedade para com o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, expulso do país entre 1959 e 1969 pelo regime político de Salazar. Na sua passagem por Bragança, foi acolhido no Paço Episcopal. Como castigo, Salazar retirou os apoios à construção da catedral (um projeto desse tempo) sob pressão dos líderes locais, e acabou por influenciar a substituição do Bispo” de Bragança.

D. Abílio não conseguiu, assim, concluir um dos muitos projetos em que se empenhou: construir a catedral. Uma aspiração adiada desde 1770 e que só viria a concretizar-se em 2001.

Um dos segredos do sucesso de D. Abílio era saber colocar a pessoa certa no lugar certo. E, apesar de ter um clero numeroso, quando, mesmo assim, este faltava, ia-o buscar fora. Como foi o caso do cónego Formigão, sacerdote de Lisboa, que veio para Bragança com a missão de refundar o seminário.

Por tudo isto, D. Abílio é hoje uma personalidade inspiradora para os momentos difíceis que atravessamos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/03/2015)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Em torno do Papa

Papa celebra no Cenáculo
Foto: AFP PHOTO/ POOL/ ANDREW MEDICHINI  retirada daqui
Três cardeais criaram um grupo de apoio ao Papa a que deram o nome de “Cenáculo do Papa Francisco”. Na intimidade do Cenáculo, Jesus tomou a última ceia com os seus apóstolos para, depois, enfrentar a sua paixão e morte na cruz. Deixou-lhes as suas últimas recomendações e a promessa de estar sempre com eles.

Walter Kasper, Francesco Coccopalmerio e Gualtiero Bassetti, cardeais próximos do Papa, agregaram a si outros clérigos e leigos, homens e mulheres, teólogos e jornalistas, e organizam-se para difundir as ideias do Papa cerrando fileiras contra os “lobos” que continuam a acossar o líder da Igreja Católica – relata o sítio de informação religiosa “Religión Digital”, que classifica esta iniciativa como um “clube de defensores das reformas de Bergoglio”.

Juntaram-se para, em primeiro lugar, “defender o papado e o atual bispo de Roma”; e, em segundo, “difundir o seu pensamento, as suas ideias sobre a Igreja, a sua teologia do povo e para o povo, a sua sensibilidade evangélica e a sua proximidade a toda o tipo de pessoas, sejam quais forem as suas ideias e crenças”, declarou a esse sítio o teólogo José María Castillo.

Para este sacerdote jesuíta é mais relevante “defender a vida das pessoas, a dignidade dos seres humanos, os direitos de todos”, do que “defender ‘dogmas’ e a ‘ortodoxia’ doutrinal”, ainda que isso seja importante. Esse posicionamento está alinhado com o Papa que está “profundamente convencido que só mediante o Evangelho, feito vida em nós, a Igreja tem sentido e pode cumprir a sua missão no mundo”.

Seria bom que nas dioceses espalhadas pelo mundo se replicasse essa ideia e surgissem grupos que congregassem personalidades relevantes em torno das ideias do Papa Francisco. E que fizessem a sua inculturação no contexto local em que professam a sua fé.

Esse grupo poderia – se constituído por peritos de diferentes áreas – refletir sobre a atualidade. E, à luz do Evangelho, da Doutrina Social da Igreja e das palavras do Papa, assessorar o bispo de cada Diocese nas suas tomadas de posição públicas. O resultado seria que estas teriam uma fundamentação maior do que a habitual e, em consequência disso, um impacto mais relevante nos órgãos de comunicação social e na formação da opinião pública.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/02/2015)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Tocar o leproso

Foto retirada daqui
As periferias e os marginalizados ganharam o lugar central nas preocupações e no discurso do Papa Francisco.

No tempo de Jesus, os leprosos eram obrigados a viver fora do acampamento ou das povoações para “salvar os sãos”. Marginalizava-se o “perigo” sem compaixão para com o contagiado, “para proteger os justos”, recordou o Papa na homilia do domingo passado.

Quem ousasse tocar o leproso sujeitava-se à mesma pena, viver à margem da sociedade. Jesus não hesitou em tocar o leproso, para o curar e reintegrar. Como não se coibiu de conviver com os pecadores, os publicanos e as prostitutas, apesar da recriminação dos “puros” – os doutores da lei, os fariseus ou a casta sacerdotal.

São abordagens diferentes que no evangelho se confrontam e que continuam a verificar-se nos nossos dias. “Hoje, às vezes, também acontece encontrarmo-nos na encruzilhada destas duas lógicas: a dos doutores da lei, ou seja: marginalizar o perigo afastando a pessoa contagiada; e a lógica de Deus: este, com a sua misericórdia, abraça e acolhe, reintegrando e transformando o mal em bem, a condenação em salvação e a exclusão em anúncio”, disse o Papa.

Jesus ilustrou a lógica da misericórdia com as parábolas da ovelha perdida, da moeda encontrada e do filho pródigo (Lc. 15). Desafia os seus discípulos a deixarem as noventa e nove para ir à procura da que anda perdida. Hoje como ontem, não faltam os que têm medo de abandonar as noventa e nove “justas” para se aventurar à procura da que se afastou do rebanho. E tudo fazem para as proteger do contágio das que andam tresmalhadas. Por vezes nem se apercebem que nas últimas décadas, em vez de uma, foram noventa e nove as que se afastaram de uma Igreja que resiste em sair de si. Cristalizada numa “casta” de puros, com receio de se deixar contaminar pelo mundo.

O Papa advertiu os cardeais e os cristãos, neste Domingo, para que “não se sintam tentados a estar com Jesus sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial”.

Depois de ter proposto o evangelho da alegria, na sua primeira exortação apostólica, agora enuncia o evangelho dos marginalizados. Porque, conclui o Papa, “é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade!”

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/02/2015)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Passos decididos

Foto Lusa retirada daqui
Há dois anos Bento XVI tornava pública a sua resignação. Um gesto inesperado que abriu caminho ao advento de Francisco. Desde então sentiram-se na Igreja ventos de renovação.

Precisamente um mês após a sua eleição, a 13 de Abril de 2013, o Papa Francisco criou o conselho composto por nove cardeais (C9), oriundos dos cinco continentes, para o coadjuvar no governo da Igreja. Começou a funcionar em Setembro desse ano e apresentou ontem as suas primeiras propostas para a reforma da Cúria aos cardeais de todo o mundo. Estes estão reunidos no Vaticano, num Consistório que já inclui aqueles que irão receber o barrete cardinalício amanhã.

O C9 não está a criar uma nova Igreja, mas, em sintonia com o Papa, estão a contribuir para que se respire “um ar fresco” e se dê “um passo em frente” em muitas matérias, como disse um dos seus membros, o cardeal Reinhard Marx, numa entrevista ao sítio “Religión Digital”.

Alguns dos passos que a Igreja tem dado recuperam ideias que o Concílio Vaticano II propôs, outros aprofundam preocupações dos últimos Sumo Pontífices. E outros aventuram-se por caminhos nunca antes trilhados.

A “desclericalização” da Cúria e a atribuição de papéis relevantes aos leigos na sua orgânica retoma a perspetiva conciliar da dignificação do laicado, deixando de o subalternizar em relação ao clero. Um exemplo disso é a Pontifícia Comissão para Tutela dos Menores, constituída por leigos e clérigos, onde os primeiros têm um papel relevante.

Esta semana decorreu em Roma uma reunião plenária dessa comissão, a qual propôs a responsabilização dos bispos, e dos responsáveis de congregações religiosas, nos casos de negligência ou de tentativa de encobrimento de comportamentos pedófilos no interior das suas comunidades. Intensifica-se, assim, a luta contra a pedofilia iniciada por João Paulo II e aprofundada por Bento XVI.

O acolhimento pastoral às famílias em situações irregulares é um dos caminhos em que a Igreja se está a aventurar e que tem motivado algumas das críticas mais contundentes ao Papa, vindas dos que se opõem a qualquer flexibilização da doutrina católica sobre o matrimónio.

Deseja-se que, apesar dessa oposição interna, os ventos de mudança continuem a soprar e a renovar a multissecular Igreja Católica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/02/2015)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Escolas em rede

Foto retirada daqui
A Igreja não deve limitar-se a denunciar o que está errado, tem de comprometer-se na promoção de soluções para os problemas do mundo em que está inserida. Disso é um bom exemplo a atuação do Papa Francisco. Quando ainda era cardeal de Buenos Aires, para além de estar atento ao que acontecia à sua volta, envolvia-se em projetos para promover a inclusão e a sadia convivência entre diferentes mundividências.

O cardeal Bergoglio acreditava que a construção de um mundo melhor teria de envolver a juventude. As situações de violência, de marginalização e de egoísmo que assolam o mundo exigem um investimento numa educação intercultural e inter-religiosa que habitue os mais jovens a conviver e a respeitar o diferente. Com esse objetivo impulsionou os programas “Escola de Vizinhos” e “Escolas Irmãs”. No primeiro os estudantes eram desafiados a identificar as problemáticas que afetavam a escola, o bairro ou a cidade e, através do seu envolvimento numa “perspetiva construtiva”, apresentarem propostas e colaborarem na sua resolução. O segundo, promovia redes entre escolas e estudantes, em contextos diferentes, que partilhavam experiências e iniciativas, entreajudando-se.

Estas duas iniciativas estiveram na génese do “Scholas occurrentes”, um organismo integrado na Pontifícia Academia das Ciências do Vaticano, que tem como principal objetivo promover a inclusão social e a cultura do encontro através da tecnologia, da arte e do desporto. O “Scholas” agrega já mais de quatrocentas mil escolas, numa rede que abarca os cinco continentes e dedica uma especial atenção às que têm menores recursos. Terminou ontem o seu congresso mundial, que reuniu em Roma alunos, professores e peritos de quarenta países. Foram apresentados projetos educativos de sucesso e diferentes exemplos de atividades desportivas e artísticas, as quais promovem a atenção às necessidades do outro e à cultura do encontro. E acalentam a esperança de um futuro mais pacífico para o mundo.

São dinâmicas como esta que desafiam os cristãos e a sociedade a abandonar a esterilidade de uma crítica ácida e destrutiva. E que os mobilizam para vencer a resignação perante os males do mundo e a acreditar que é sempre possível fazer alguma coisa, mesmo perante os problemas mais difíceis e complexos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/02/2015)