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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Linguagem nova para pregar Jesus

O Papa Francisco encontrou-se pela quinta vez com o realizador Martin Scorsese. Foi um encontro entre “dois grandes homens de génio e experiência”, escreveu o padre jesuíta António Spadaro numa publicação da rede social X. Para ambos “a figura de Jesus tem um fascínio e um valor extraordinário”. Por isso, procuram dialogar sobre ele e encontrarem-se quando podem.

Martin Scorsese estreou em 1988 o filme “A última tentação de Cristo”. Está agora a trabalhar numa nova película sobre Jesus, a qual decidiu fazer, segundo Spadaro, ao ler o prefácio do Papa ao seu livro “Uma Trama Divina: Jesus em Contracampo”.

Esta publicação reúne os comentários de Spadaro aos Evangelhos dominicais, publicados no jornal italiano “Il Fatto Quotidiano”. Ele impôs-se a si próprio o desafio de escrever sobre os Evangelhos “sem cair nas típicas prosas homiléticas que dão por adquiridas tantas coisas – a própria fé – e estão acostumadas a fórmulas óbvias”, refere numa Nota do Autor no final do livro.

No prefácio a essa obra, o Papa afirma que “abrir os Evangelhos é como olhar por uma câmara de filmar que nos mostra Jesus em ação”. O livro de Spadaro é uma particular apropriação da figura de Jesus: “Parece mesmo o olhar do cinema”, escreve Francisco.

Termina o prefácio com um apelo: “Neste tempo de crise da ordem mundial, de guerra e de grandes polarizações, de paradigmas rígidos, de graves desafios a nível climático e económico, precisamos da genialidade de uma linguagem nova, de histórias e imagens poderosas, de escritores, poetas, artistas capazes de gritar ao mundo a mensagem evangélica, de nos fazer ver Jesus”.

Scorsese está a procurar corresponder ao apelo do Papa. Nós, padres, que pregamos o Evangelho todos os domingos, devíamos esforçar-nos por o fazer com essa “linguagem nova” que o Papa pede aos artistas.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Escravos do Séc. XXI

Cartaz do filme retirado de IMDb
O filme “12 Anos Escravo” adapta ao cinema o livro em que o músico negro Solomon Northup narra o seu sequestro em 1841 e a sua venda como escravo. Ao fim de uma dúzia de anos, conseguiu, judicialmente, recuperar a liberdade. Foi considerado o melhor filme de 2013, pela British Academy of Film and Television Arts (BAFTA) no passado domingo.

No decorrer da ação são citadas passagens bíblicas que legitimariam a escravatura. De facto, a Bíblia não condena explicitamente essa prática. Mas, sobretudo no Novo Testamento, propõe os princípios que contribuirão para a sua abolição.

S. Paulo na carta aos Gálatas escreve: “Não há escravo nem livre; pois todos são um em Cristo Jesus” (3, 28). Para além disso, não hesita em acolher Onésimo, o escravo foragido de Filémon, apesar das leis de então punirem tanto o fugitivo como aquele que o acolhia. Devolve-o acompanhado por uma das suas cartas, a mais pequena de todas, que alguns apelidam de “postal”. Pede a Filémon que o receba, já não como escravo, mas “como irmão querido” (v.16), pois ele, entretanto, tinha-o batizado.

Tal como Paulo, a Igreja nunca discriminou os escravos e sempre os admitiu aos sacramentos. Apesar de em muitos contextos ter compactuado com a escravatura, o seu Magistério condena-a desde o século XV. Desde então, na generalidade dos países, esta tem vindo a ser abolida, tendo sido Portugal o primeiro a fazê-lo por decreto do Marquês de Pombal em 12 de Fevereiro de 1761. Contudo, ainda hoje permanecem múltiplas formas de tráfico e exploração de seres humanos.

A Igreja, como lhe compete, continua a preocupar-se com esta temática. Durante o primeiro fim de semana de novembro passado, reuniram-se em Roma sessenta observadores, religiosos e leigos, que refletiram a temática do tráfico humano e formularam uma proposta contra todas as formas de escravidão. Desse encontro saiu, também, a decisão de promover em 2015 um congresso de quatro dias para aprofundar o tema.

Espera-se que a Igreja não se fique pela reflexão e produção de textos condenatórios do tráfico de pessoas. Mas que, tal como S. Paulo, nos contextos concretos em que desenvolve a sua ação, encontre formas de pôr em prática a sua posição oficial.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 21/02/2014)