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quarta-feira, 20 de março de 2024

Não vale tudo para atacar o Papa

Apesar de muitos Papas terem sido santos, todos são criticáveis. Todos são humanos e erram. O Novo Testamento regista aliás aquela que será a primeira crítica a um Papa, S. Pedro, protagonizada por S. Paulo. O autor da Carta aos Gálatas refere que Pedro estava a “comportar-se de modo condenável” (Gál 2, 11).

Paulo discordou de Pedro quando este quis impor aos gentios costumes judaicos, como a circuncisão. Denunciou a sua incoerência por comportar-se de uma forma quando estava com eles e de outra quando estavam judeus presentes. Disse-o primeiro diretamente a Pedro e só depois o escreveu.

É assim que se deve proceder em Igreja. Mesmo sujeitando-se a represálias. Deve-se ter a frontalidade e a coragem de expressar uma opinião divergente a qualquer superior hierárquico. Nunca se deve recorrer à denúncia anónima por temer que a crítica não seja bem acolhida e que as “consequências possam ser desagradáveis” para o próprio. Foi assim, porém, que um anónimo se justificou num texto em que criticou opções do Papa Francisco sem dar a cara.

O Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, na sua crónica no Observador, considerou esse texto “uma exaustiva radiografia do presente pontificado”, meritória “porque tanto refere aspetos positivos como negativos”. É uma conclusão curiosa, uma vez que o escrito anónimo discorre longamente sobre as críticas a Francisco, ao passo que se limita a elencar certos pontos positivos do seu pontificado

O Pe. Gonçalo reconhece que é um “sinal de cobardia” recorrer ao anonimato, mas desculpa-a por “neste caso ser, apenas, elementar prudência”. Pois, não é prudente, porque não é sério nem digno. E também não é evangélico, porque contraria os conselhos de correção fraterna dados por Jesus (Mt 18, 15-18).

A abjeção da mão escondida e a dignidade da cara descoberta não têm o mesmo valor.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Negócios sagrados

Foto retirada daqui
A Igreja testemunha desde os seus inícios a gratuidade da salvação. Na Primeira Epístola de S. Pedro pode ler-se que não fomos resgatados por “bens corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo” (1Pe. 1,18). O Papa Francisco, sucessor de Pedro, na audiência de quarta-feira recordou que não se tem de pagar para passar a Porta do Ano Santo. “A salvação não se compra. A Porta é Jesus e Jesus é grátis”.

Contudo, ao longo dos séculos, foram cometidos abusos que levaram os fiéis a crer que é preciso pagar para se salvarem. Na Idade Média, por exemplo, vendiam-se e compravam-se indulgências, que eram, então, uma das principais formas de financiamento da Igreja.

Esse “comércio religioso” fez despoletar a revolta de Lutero e esteve na génese da Reforma Protestante. O Concílio de Trento procurou corrigir essa conceção errada da salvação e determinou que as “indulgências e outros favores espirituais de que o fiel não deve ser privado” devem ser administrados de forma gratuita, “de modo que todos pudessem finalmente compreender que estes tesouros celestes foram dispensados por causa da piedade e não do lucro”. Quatro anos apenas após o encerramento deste Concílio, em 1567, o Papa Pio V foi obrigado a ser ainda mais explícito e determinou que passava a ser proibido cobrar qualquer taxa ou valor pelas indulgências.

Apesar do esforço da Igreja para expurgar a sua atividade de todo o mercantilismo, ele prevalece no seu interior. É normal as pessoas dizerem que vão pagar a missa, o batizado ou o casamento.

Para um crente esclarecido a Eucaristia e os sacramentos têm um valor infinito. Nenhum dinheiro no mundo os pode pagar. Apenas se podem aceitar ofertas que a Igreja aplica na prossecução dos seus fins. E estes são, principalmente, o “culto divino”, a “sustentação do clero e dos outros ministros”, bem como as “obras do sagrado apostolado e de caridade, especialmente em favor dos necessitados” (cân. 1254 do Código de Direito Canónico).

Ainda que no contexto de alguns sacramentos se possa receber uma oferta, não se aceita qualquer quantia pela Confissão ou pela Unção dos Enfermos para sublinhar a gratuidade da salvação. Todavia, ainda muito há a fazer para expurgar a Igreja de algum “consumismo religioso”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 18/12/2015)