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sexta-feira, 10 de abril de 2015

O silêncio da esquerda

Cardeal Óscar Rodriguez Maradiaga
(Foto: Manuel Meira, retirada do sítio Religionline)
Os cardeais mais próximos do Papa estão em sintonia na crítica ao sistema económico que rege o mundo. Na semana passada, em Roma, o cardeal Pietro Parolin, Secretario de Estado da Santa Sé, denunciava um sistema que está a dificultar o acesso ao crédito dos mais pobres. Esta semana, em Fafe, o cardeal Óscar Maradiaga, coordenador do grupo de nove purpurados que aconselham o Papa, afirmou que “temos um sistema que desenvolveu o liberalismo económico mas não traz igualdade, antes acrescenta desigualdade”. Criticou também a austeridade que, mesmo sendo uma “virtude cristã”, não ajudou os países intervencionados como se pretendia, mas gerou ainda mais pobreza.

Muitas dos políticos de esquerda reveem-se nestas e noutras críticas. Por diversas vezes já manifestaram o seu apoio às posições do Papa em matéria económica. Mas têm-no deixado a falar sozinho quando pede à “comunidade internacional que não fique muda” perante a matança de cristãos, como tem acontecido recentemente.

Lucia Annunziata, há dias, num blog italiano, censurava o silêncio da esquerda, que se tem mobilizado em tantas causas, mas não manifestou “a pena e o horror pela morte de tantos homens e mulheres por causa da sua fé”. (…) Fé que, aliás, é a da maioria do nosso país, e é também a matriz (querendo ou não) da história e da cultura do continente em que vivemos”.

Quem assim fala até pode suscitar a ideia de que é uma pessoa de direita e crente. Mas percebe-se, pelo teor do artigo, que não se situa nessa área política. Já quanto à crença, faz questão de dizer: “Não sou católica, nem sequer neo-convertida. Sou ateia e pretendo continuar a sê-lo (…) Sou, contudo, uma jornalista e creio que ainda consigo compreender o que é uma notícia. E a notícia destes dias é a solidão a que foi votado precisamente este popularíssimo Papa, que há meses é a única voz a denunciar os massacres de fiéis e atualmente é o único chefe de estado a apontar o dedo contra o imobilismo das Nações Ocidentais perante estas carnificinas. Na verdade, exatamente o contrário do que aconteceu em relação ao Charlie Hebdo”.

Também, entre nós, se nota algum pudor em condenar categoricamente o massacre dos cristãos. E dificilmente se vê um ateu a admitir e a valorizar a nossa matriz cultural cristã.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/04/2015)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O ano do Papa

Papa Francisco e o cardeal Oscar Maradiaga
foto retirada daqui
A “revolução da ternura” introduzida pelo cardeal Bergoglio consolidou-se ao longo do ano que agora terminou.

Na mensagem para o dia 1 de Janeiro, denunciou, mais uma vez, “a globalização da indiferença” para com as situações de exploração e de tráfico de seres humanos. Apelou ao empenhamento de todos na “globalização da solidariedade e da fraternidade” para vencer o “flagelo da escravidão contemporânea”. A avaliar pela primeira mensagem do ano, os mais pobres e os explorados continuarão a ser a principal preocupação do Papa.

O grande acontecimento eclesial de 2014 foi o Sínodo dos Bispos. No final o Papa impôs que fossem incluídas no texto final os parágrafos sobre os divorciados recasados e o acolhimento aos casais homossexuais, apesar de não terem obtido a aprovação de dois terços da assembleia. Desta forma, a temática da família, bem como, as situações irregulares marcarão a agenda da Igreja em 2015, cujo ponto alto será o Sínodo Ordinário dos Bispos, em Outubro.

Durante o próximo ano será também implementada a Reforma da Cúria Romana. No início de Fevereiro reúnem-se de novo os nove cardeais (C9) que estão a assessorar o Papa nessa tarefa. Apresentarão o ponto da situação e as propostas concretas para a reformulação do governo central da Santa Sé. Prevê-se que haja a fusão de diversos organismos em dois novos Dicastérios, um dedicado ao laicado e família e outro às questões sociais. Será uma espécie de ministério da solidariedade, para o qual será nomeado o cardeal Oscar Maradiaga. Este é o coordenador dos C9 e um dos cardeais em que Francisco deposita maior confiança. Deixará a diocese de Tegucigalpa, nas Honduras, para estar ao seu lado em Roma.

Espera-se que ao longo do ano de 2015, a dinâmica que o cardeal Bergoglio desencadeou na Igreja se traduza em legislação. Mantendo-se contudo o primado da misericórdia sobre o legalismo; uma atitude de acolhimento para com os que estão longe da Igreja e de exigência para os que têm maior responsabilidade no seu interior.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/01/2015)

domingo, 26 de janeiro de 2014

Divorciados a comungar, sim ou não?

Para o cardeal Maradiaga o arcebispo Müller “ é, 
acima de tudo, um professor alemão de teologia”
Foto retirada de Religión Digital
O cardeal Oscar Maradiaga deu uma entrevista ao jornal alemão “Koelner Stadt-Anzeiger” em que recomenda uma maior flexibilidade ao arcebispo Gehrard Müller, o qual tinha reproposto num artigo a doutrina que veda a comunhão aos divorciados que se tenham voltado a casar.

Tanto um como o outro desempenham tarefas relevantes no governo da Igreja. Maradiaga, arcebispo da capital das Honduras, é o coordenador do grupo de oito cardeais conselheiros do Papa. Müller é o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e está na lista dos futuros cardeais.
Não se deve estranhar que, entre os colaboradores mais próximos do Papa, haja divergência de perspetivas. O que não tem sido muito comum é elas serem tornadas públicas no registo que o cardeal hondurenho utilizou na entrevista. “Ele é, acima de tudo, um professor alemão de teologia; na sua mentalidade só existe o verdadeiro e o falso. Mas eu digo, meu irmão: o mundo não é assim; tu deves ser um pouco mais flexível”, disse.

Estas palavras de Maradiaga não terão agradado aos que defendem um discurso único para a Igreja e preferem que os seus mais altos dignatários falem a uma só. Mas essa não parece ser a perspetiva do Papa. Na “Evangelii Gaudium” apresenta a Igreja como a “discípula missionária” que precisa “de crescer na sua interpretação da Palavra revelada e na sua compreensão da verdade”. Por isso deve acolher os contributos de diferentes teólogos, exegetas e até peritos de outros saberes, como as ciências sociais. “A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspetos da riqueza inesgotável do Evangelho”, conclui o Papa.

Esta perspetiva “bergogliana” exigirá do Perfeito da Doutrina da Fé uma atuação menos inquisitorial e mais flexível. Que proponha com clareza as verdades que a fé coletiva foi consolidando ao longo do percurso multisecular da Tradição, mas que não coarte a reflexão teológica. Quanto aos teólogos, que desbravem caminhos novos –mas sem cederem à tentação de pretender impô-los rapidamente aos outros fiéis.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/01/2014)