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quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Dar visibilidade aos invisíveis

A peça “Elogio do Riso” é uma homenagem à comédia e aos seus mestres. Estes “são sempre tratados como o parente pobre das artes”, disse Maria Rueff, coautora e protagonista da peça, ao Diário de Notícias.

A peça é o resultado de quatro anos de pesquisa de Maria Rueff e de Rodrigo Francisco. A atriz e o diretor artístico da Companhia de Teatro de Almada “mergulharam no que filósofos, dramaturgos, comediantes e outros escreveram sobre a origem e a função do riso”, segundo o DN. Durante esse percurso, juntou-se a este projeto Hajo Schüler, ator e encenador da companhia alemã Familie Floz, também ele coautor da peça.

Maria Rueff assume o papel de alguém que, não só vive no teatro, como também vive do e para o teatro. Representa aqueles que tantas vezes são ignorados e menosprezados. O “Elogio do Riso” é uma peça que “também tem coisas que fazem rir, mas eu diria que é talvez mais para pensar”, disse a atriz ao DN.

Por ironia do destino, assisti ao “Elogio do Riso” no domingo em que a Igreja Católica celebrava o IX Dia Mundial do Pobre, instituído pelo Papa Francisco em 2016 e celebrado pela primeira vez em 2017. Esse é um dia dedicado a dar mais visibilidade aos que tantos não querem ver. Àqueles que até são acusados de nada fazerem para sair dessa situação. E ali estava a Maria Rueff a dar palco aos que se movem nos bastidores do teatro. A dar visibilidade aos invisíveis.

Não foi isso que fez Jesus durante a sua vida? Não é isso que a Igreja é chamada a fazer? Não é isso que significa a opção preferencial pelos mais pobres, que os católicos são chamados a assumir?

A peça “Elogio do Riso” traduz a homenagem da atriz Maria Rueff ao “parente pobre das artes” e é, também, um testemunho eloquente da sua opção preferencial pelos pobres. Faz rir, e faz pensar, como é próprio da comédia.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Deus ri e Jesus tinha sentido de humor

Encontro do Papa Francisco com humoristas, entre os quais
estiveram Ricardo Araujo Pereira, Joana Marques e Maria Rueff.
Foto retirada daqui
A relação da Igreja Católica com o humor é por vezes tensa. No passado, mesmo em Portugal, motivou condenações de peças humorísticas em que alguns se sentiram maltratados e até insultados nas suas convicções religiosas. Levaram, por vezes, demasiado a sério o que não deveriam ter valorizado desse modo.

Foi por isso surpreendente ver o Papa Francisco convocar ao Vaticano, na semana passada, mais de uma centena de cómicos. Não só os recebeu, como se atreveu a dizer-lhes que, quando fazem sorrir alguém, fazem “sorrir Deus”. E ainda que se pode rir com Deus, da mesma forma que se pode “brincar e gracejar com as pessoas que amamos”. O Papa, no final da audiência e de improviso, disse-lhes que “é mais fácil ser trágico do que cómico”.

Dizer que Deus ri, para o Papa, “não é uma heresia”. O Pe. James Martin, um jesuíta norte-americano, no livro “Deus Ri” vai mais longe na provocação: diz que “imaginar Jesus sem sentido de humor pode andar próximo da heresia”. Na verdade, se acreditamos que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, como se encarregaram de definir os concílios dos primeiros séculos do Cristianismo, então ele tem de ter sentido de humor, pois esta é uma característica – e uma qualidade – do ser humano.

Apesar de os Evangelhos nunca o referirem explicitamente, para quem privilegiava o convívio à mesa com os seus discípulos, Jesus teria de possuir bom sentido de humor. Registam os Evangelhos a alegria que sentiam os que se encontram com ele, bem como os diversos apelos de Jesus a que se alegrassem. A alegria não pode ser estranha a um texto que se define como “Boa Notícia”. É o que significa a palavra Evangelho em grego.

Terá sido reconfortante para os humoristas verem o Papa reconhecer a sua arte de fazer rir. Logo eles, tantas vezes injustamente atacados pelas religiões.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 19/06/2024)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Humor e fé

Fernando Ventura, Graça Morais e Maria Rueff no CACGM
Foto: Jornal Nordeste
Em Bragança, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, falou-se de Arte, Humor e Fé. Estiveram à conversa sobre este tema a própria pintora Graça Morais, o frade franciscano Fernando Ventura e a atriz Maria Rueff.

Graça Morais falou da influência da sua educação religiosa na pintura que produz. Tem obras em que é evidente o diálogo e o confronto entre o sagrado e o profano, outras em que transparecem elementos religiosos como a Pietá. E ainda outras que se inspiram em certas manifestações religiosas, como as procissões.

Maria Rueff, apesar de já ter recebido prémios pelo desempenho de papéis dramáticos, ainda é mais conhecida como cómica. Testemunhou as fricções que, por vezes, há entre a fé e o humor. Sobretudo quando o humorismo sobre temas religiosos é entendido como um “rir de” e não como “um rir com”.

Frei Fernando Ventura, com o recurso ao bom humor, ajudou por seu lado a desconstruir a ideia de que o bom sermão é o que faz chorar. Fê-lo no encontro com a pintora e a atriz e também no dia seguinte, na missa dominical da paróquia de Sto. Condestável, em Bragança. Nos dois momentos desafiou as pessoas a olhar nos olhos os seus vizinhos, depois a sorrir, de seguida a dizer “eu gosto de ti”, para culminar em “eu amo-te”. Foi surpreendente perceber que muitos não conseguiram, nem da boca para fora, dizer ao vizinho do lado – “Eu amo-te”. Quanto mais vivê-lo na vida de cada dia!

O bom sermão seria, então, aquele que levasse a pessoa a experimentar a felicidade de ser amado por Deus e desafiá-la a sair de si para fazer o outro mais feliz. Para isso é essencial ter a capacidade de olhá-lo nos olhos, de sorrir e de amá-lo.

A missa dominical não deveria ser sentida, portanto, como uma obrigação. Deve ser antes a celebração de que os cristãos necessitam para recarregar as baterias da felicidade para, durante a semana, irradiarem alegria e amor nos ambientes que frequentam.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/06/2016)