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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Pelos jornais, contra a desinformação

Imagem criada com apoio da inteligência artificial Microsoft Copilot
Foi um privilégio escrever neste jornal. Tive a oportunidade de partilhar reflexões sobre a atualidade ao longo de oito anos, com maior incidência nos temas da religião católica.

Cada novo ano impõe o discernimento do caminho feito, a necessidade de introduzir reestruturações e o acolhimento de novos projetos. A imprensa não é imune a estas decisões. Sobretudo em tempos em que diminuem os leitores com a migração para as redes sociais: estas parecem corresponder melhor ao que as pessoas procuram, porque lhes dão o que querem ver e ouvir, sem controlo editorial ou deontológico.

Dissemina-se a ideia que agora se está mais informado. Tem-se acesso gratuito a mais informação, ainda que, como se vai verificando, muita dela seja completamente falsa. Mas são falsidades em que muitos querem acreditar. E autoconvencem-se até que são verdades sonegadas pelos média tradicionais. Estes, sim, sujeitos a critérios de relevância, objetividade e controlo deontológico, abstêm-se de publicar tudo, ao contrário do que acontece na generalidade da Internet.

Impõe-se, por isso, resistir à tentação de deixar-se informar apenas pelas redes sociais, pois corre-se o risco de acabar formatado e deformado pelos que as controlam e pela programação dos algoritmos que as regem. Hoje, é um ato de resistência comprar, assinar e ler jornais e revistas, para que eles possam subsistir e continuar a transmitir uma informação isenta, verdadeira, rigorosa, equilibrada, clara e socialmente responsável. Isenta de condicionamentos políticos, económicos ou religiosos, ou seja: livre.

Respeitando os critérios do JN, deixarei de escrever semanalmente, mas continuarei a partilhar esporadicamente com os leitores as minhas reflexões sobre acontecimentos relevantes, sobretudo relacionados com a vida da Igreja Católica.

Até breve!


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Nativos digitais que se tornam “offliners”

Os nativos digitais começam a sentir atração por atividades em que a presença das tecnologias seja reduzida. Aqueles que nasceram e cresceram num ambiente digital e que, por isso, têm dificuldade em imaginar um mundo sem telemóvel, sem videojogos, sem Internet ou redes sociais, querem experimentar esse mundo, nem que seja por uns dias.

Esta é uma razão que explica a adesão que se tem verificado entre os alunos do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) a uma proposta da respetiva capelania para passarem um fim-de-semana sem telemóvel e desconectados das redes sociais: o “Offline Weekend”. Já é a segunda edição, em poucos meses, com as inscrições de ambas a ultrapassarem a meia centena.

Os estudantes referem outras motivações para se inscreverem nesta atividade. Começam a perceber que se sentem viciados e que precisam de um tempo de desintoxicação. Estas tecnologias, que prometiam aproximar as pessoas, têm afinal provocado maior isolamento e dificultado a interação social.

Quando as tecnologias são silenciadas, então os estudantes podem escutar-se melhor e aceder à sua interioridade. Verificam como é gratificante conversar e conviver com os outros. Como é tão ou mais divertido jogar cartas ou jogos de tabuleiros, adivinhar charadas ou desafios de palavras. 

É certo que uma centena num universo de dez mil alunos do IPB é pouco. Contudo, são um sinal de que há nativos do digital que estão abertos a explorar outros mundos. Destes foram selecionados apenas trinta para participar no “Offline Weekend” anterior. Todos saíram dinamizados para desafiar amigos e familiares a experimentarem um dia sem telemóvel. Alguns já promoveram iniciativas offline entre eles.

Os nativos digitais estão, assim, a converterem-se em “offliners”. Esperemos que não fundamentalistas, pois a digitalização tem imensas virtualidades.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

A nova missão da Igreja nas redes sociais

A Internet e, sobretudo, as redes sociais, pela quantidade de informação que difundem geram nas pessoas a sensação de que estão mais informadas do que no passado. O problema é que muita dessa informação é falsa, manipulada e disseminada sem qualquer escrutínio deontológico e de difícil controle legal. Acaba por ser consumida de forma acrítica e assumida como verdadeira, principalmente quando confirma algumas das sensações ou crenças dos que a procuram.

Quem domina estas plataformas, e os algoritmos que as gerem, controla também o que chega aos seus utilizadores, induzindo o que quer que eles vejam prioritariamente. Tem o poder de promover, não só a desinformação entre os que as frequentam, mas também a formatação do seu pensamento e a adesão às ideias que quer propagar.

Dada a atratividade dos discursos populistas, os quais se caracterizam por apresentar soluções fáceis para questões complexas e apontar bodes expiatórios para os problemas que afetam as sociedades, as redes sociais são também um meio propício para os divulgar e arregimentar seguidores e votantes.

Os conteúdos das redes não são sujeitos a qualquer tipo de controle sobre a sua veracidade. Verifica-se até que, quando as falsidades são denunciadas, as denúncias acabam por, ou não chegar a quem as recebeu, ou não serem acolhidas por aqueles que foram primeiro convencidos da sua veracidade.

O cardeal Robert Francis Prevost escolheu o nome de Leão porque – explicou ele aos cardeais que o elegeram – tal como Leão XIII defendeu a dignidade humana quando ela era posta em causa pela revolução industrial, ele quer agora fazer o mesmo no contexto de uma transição digital que está a ser ameaçada pela “ditadura do algoritmo”.

Leão XIV é o primeiro Papa que já utilizava as redes sociais quando era cardeal. Como é sabido, denunciou as falsidades ali colocadas, por exemplo, pelo vice-presidente norte-americano J. D. Vance. Fê-lo quando este as apresentava como decorrentes da sua fé católica a que recentemente se converteu.

Se voltar a intervir, agora o Papa terá de o fazer de forma mais diplomática do que quando era apenas o cardeal Prevost. Compete, por isso, aos católicos darem continuidade ao exemplo que o cardeal deu de uma presença mais incisiva. Faz hoje parte da missão da Igreja a pedagogia do bom uso das tecnologias, devendo empenhar-se na defesa da verdade e na denúncia perante os fiéis das falsidades que nelas circulam.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 21/05/2025)

quarta-feira, 12 de março de 2025

Colher a verdade onde se semeia a mentira

Chequeado, uma ONG argentina que verifica
a veracidade das informações que circulam na rede
Nem tudo o que vem à rede é peixe. Ou seja, nem tudo o que se publica na rede é verdade. Aliás, são cada vez mais as mentiras que se publicam e disseminam na Internet. Na semana passada chegou-me, através de um grupo numa rede social, uma suposta reflexão do Papa Francisco sobre os hospitais.

O tom e o estilo são de facto próximos daquilo a que nos habituou o Papa. O texto abria com a afirmação, a ele atribuída, de que “as paredes dos hospitais escutam orações mais autênticas que muitas igrejas”. Continuava com uma declaração provocatória, muito ao estilo de Francisco: “É no hospital onde se pode ver um homofóbico a ser salvo por um médico gay. Onde uma médica da classe alta salva a vida de um mendigo… Onde, na UCI, um judeu cuida de um racista…”

Não era referida nessa publicação onde Francisco teria proferido aquelas palavras. Fui pesquisar, para ter acesso ao texto original e à citação do tal discurso. Foi então que descobri que era falso graças a uma organização argentina, denominada “Chequeado”, uma organização não governamental, que se dedica a verificar a veracidade das informações que circulam na rede. A “Chequeado” acredita que, desta forma, contribui “para melhorar a qualidade do debate público” e “fortalecer o sistema democrático”.

Neste caso, a notícia falsa não parece à partida degradar o debate público, até dá a ideia que o eleva. Tal só sucederia se provocasse, como é habitual nas redes sociais, um debate soez entre os que perfilham teses racistas e homofóbicas e aqueles que se reveem nas afirmações atribuídas ao Papa. 

Embora a Internet, em geral, e as redes sociais, em particular, promovam a disseminação de notícias falsas, há cada vez mais instrumentos fiáveis para desmontar a falsidade de forma rápida e eficaz. É a esses instrumentos que se deve recorrer cada vez mais.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Papa e o Facebook

Papa Francisco recebe Mark Zuckerberg
Foto retirada daqui
O papa Francisco recebeu Mark Zuckerberg, o fundador e CEO da rede social Facebook. Conversaram sobre “como usar as tecnologias de comunicação para aliviar a pobreza, promover uma cultura do encontro e fazer com que uma mensagem de esperança possa chegar especialmente às pessoas mais necessitadas”, refere um comunicado do porta-voz da Santa Sé.

O Papa já assumiu que não sabe utilizar o computador e que o seu aparelho preferido é a rádio, porque só tem dois botões, um para sintonizar e outro para o volume. Mesmo assim, avalia como positivas as redes sociais e a Internet para a vivência da fé. O que não o impede de as considerar envoltas em muitos perigos e riscos, em sintonia aliás com a reflexão que a Igreja tem produzido sobre esta temática desde 2002, o ano em que foram publicados os primeiros documentos dedicados especificamente à relação entre a Igreja e a Internet e à “ética na rede”.

Na mensagem para o dia mundial das comunicações de 2014 o Papa reconhecia que a “Internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus”. E já na mensagem deste ano lembrou que “as redes sociais são capazes de favorecer as relações e de promover o bem da sociedade, mas podem também levar a uma maior polarização e divisão entre as pessoas e os grupos”.

Todos os meios de comunicação social, e particularmente as novas tecnologias, provocam duas reações típicas no seio da Igreja: uns reagem liminarmente à sua utilização e realçam os seus perigos; outros aderem a eles de forma ingénua, inconsciente e acrítica. Ora, a melhor atitude em relação às novas tecnologias e à Internet deverá situar-se algures entre a condenação moralista e a excessiva confiança. Tal como tem feito o Papa, deve promover-se a serena consciência das suas oportunidades e uma atitude vigilante em relação aos seus riscos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/09/2016)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Igreja e tecnologia


Foto retirada daqui
O Vaticano está atento às novas tecnologias e usa-as para espalhar a sua mensagem. Após o sucesso da presença do Papa Francisco no Twitter, vai agora ter uma conta na rede social de partilha de fotografias, o Instagram, com o nome Franciscus. Essa presença inicia-se amanhã, dia de S. José, quando se comemora o terceiro aniversário da missa de início do ministério do Papa Francisco.

Para além desta iniciativa, a Santa Sé assumiu a aplicação portuguesa “Click to Pray” e deu-lhe dimensão mundial. Passou a estar disponível, para além do português, em castelhano, francês e inglês. E, graças a ela, cristãos de todo o mundo podem rezar três vezes ao dia, em união com as intenções do Santo Padre.

Na verdade, estas ditas novas tecnologias só o são para os que viveram num mundo em que elas não existiam. Para os mais novos elas são a realidade com que se habituaram a conviver. D. Claudio Maria Celli, presidente do Pontifício Conselho das Comunicações Socias, já há alguns anos contava que foi falar a um congresso sobre evangelização e novas tecnologias. Foi, então, corrigido por um jovem que lhe disse: “Novas para si, que é velho! Para mim não são nada novas”.

Uma outra transformação está também a verificar-se no que se passa pela Internet. Há bem pouco tempo falava-se de “realidade virtual”, de “comunidades virtuais” e até de “paróquias virtuais”. Cedo, porém, se começou a perceber que o que acontece na rede é cada vez menos virtual e é, cada vez mais, uma extensão da vida real – um espelho da realidade, até. Por isso, as comunidades virtuais converteram-se em redes sociais. E, tal como tudo na vida, o que acontece e se transmite on-line pode ter os seus efeitos positivos, mas pode igualmente ampliar e acentuar efeitos perversos. Compete também à Igreja aproveitar todas as potencialidades das ainda consideradas novas tecnologias e alertar para os seus perigos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 18/03/2016)