sábado, 23 de dezembro de 2017

Os colaboradores e os ″traidores″ do Papa

O Papa Francisco costuma ser contundente nos discursos que dirige habitualmente aos membros da Cúria Romana antes do Natal. Não se limita a apresentar os cumprimentos natalícios aos seus mais diretos colaboradores - vai muito além do que as regras protocolares, nestas circunstâncias, determinam. Aproveita para criticar alguns procedimentos da Cúria e chama a atenção para comportamentos desajustados.

Excerto do artigo publicado hoje, dia 23/12/2017, no JN. Pode ler o texto completo  aqui.

sábado, 16 de dezembro de 2017

IPSS, flores e espinhos

IPSS, flores e espinhos: Há alguns anos ouvi a uma mesa do café um destacado dirigente de uma instituição particular de solidariedade social (IPSS) dizer que 'anda muita gente a governar-se à custa dos pobres'. Será, porventura, exagerado dizer que é 'muita gente', referindo-se aos dirigentes, mas é um facto que essas instituições, para além de garantirem o apoio social a muitas pessoas, garantem o salário e regalias a muitas outras.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Para que servem os diáconos?

Todos os membros da Igreja, mesmo os que não receberam qualquer grau do sacramento da ordem, deverão desenvolver essa capacidade de continuamente se colocarem ao serviço do outro. Os diáconos devem ser o sinal mais eloquente dessa opção preferencial da Igreja pelos mais pobres e pelos mais pequenos. Como nos recordava o Evangelho do domingo passado, são estes o rosto de Cristo: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt. 25, 40).
Que os diáconos que agora foram ordenados saibam ser fiéis a essa missão e nunca se deixem reduzir a uma função meramente decorativa, ao lado dos outros ministros ordenados. E que não se conformem a ser supletivos destes a calcorrear montes e vales para desfiar celebrações da Palavra. A sua verdadeira missão é muito mais importante que isso.

Excerto do texto publicado no Mensageiro de Bragança de 30/11/2017. Pode ler o texto completo aqui

sábado, 25 de novembro de 2017

O Papa não gosta de ″graxa″

O Papa não gosta de ″graxa″: Um jornalista, por princípio, não deve ser 'pró' ou 'contra' ninguém. Deve, isso sim, desenvolver assuntos e colocar-se numa atitude crítica em relação às pessoas e aos acontecimentos, para melhor desempenhar a sua missão de informar.

É importante que os jornalistas não assumam uma atitude de acolhimento acrítico de qualquer personalidade, mesmo que seja Papa.
É de louvar que, apesar do título do encontro [I Encontro Internacional de Jornalistas Pro Papa Francisco], os participantes se tenham disposto a colocar o seu trabalho ao serviço dos mais pobres e a juntar esforços para divulgar valores como a busca da igualdade, a justiça, a solidariedade, a liberdade, a paz e o cuidado da nossa casa comum. Aos fazê-lo, estarão em linha com o Papa e com a
missão do jornalismo: dar voz a quem não a tem. Como Bergoglio se tem esforçado por fazer.

A declaração final do I Encontro Internacional de Jornalistas Pro Papa Francisco pode ser lida aqui

sábado, 18 de novembro de 2017

Sacerdotes casados em breve

Sacerdotes casados em breve: O Papa já está a ponderar a possibilidade de ordenar padres escolhidos de entre homens casados e há quem acredite que tal acontecerá em breve.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Os filhos dos padres

Os filhos dos padres: Os casos de padres com filhos, como o que foi revelado há dias no Funchal, são sempre pretexto para pôr em causa o celibato e pedir à Igreja que 'deixe casar os padres'. Esta é uma má forma de pôr a questão. O que a Igreja deve refletir é se deve ou não voltar a ordenar homens casados, uma práxis comum em quase toda a Igreja durante o primeiro milénio do Cristianismo e que se manteve até hoje na Igreja Católica Oriental.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

“Onomatopeias do Teu Nome”

O nome de Deus já fez correr muita tinta ao longo dos séculos. Refiro-me ao tetragrama sagrado que aparece na Bíblia como o nome de Deus.

É constituído pelas quatro consoantes hebraicas יהוה (Yode, Hê, Vau e Hê), que em caracteres latinos costuma ser escrito com YHWH. No hebraico primitivo só se escreviam as consoantes, as vogais subentendiam-se. Com o passar dos tempos, começaram a surgir dúvidas em relação à leitura do nome de Deus. Por isso discutiu-se se a pronúncia correta seria, entre outras, Javé ou Jeová. Entre judeus e cristãos foram sendo usadas ambas, com argumentos válidos usados por uns e outros para justificar a sua opção.

No “Dicionário dos termos da fé” podemos ler na entrada dedicada à palavra “nome”:
“Vocábulo que serve para designar as pessoas ou coisas. Na Bíblia pensa-se que o nome exprime o ser profundo das pessoas e das coisas: A tudo o que existe já há muito foi dado um nome (Ecl. 6, 10). Deus conhece cada criatura pelo seu nome (Sl. 146, 4) e o facto de o homem poder nomear os animais significa que é o seu dono (Gn. 2, 20). De maneira geral o facto de dar um nome a alguém ou de lhe mudar o nome atesta o poder que se tem sobre ele (Gn. 17, 5; 35, 10; 2 Rs. 23, 34)”[1].

Para os judeus causava algum desconforto pronunciar o nome de Deus, já que, na sua mentalidade, dizer o nome de Deus era ter poder sobre ele, pelo que assumiram o tetragrama sagrado como impronunciável. Quando ele aparecia diziam “Adonay”.
Na tradução para grego da Bíblia hebraica, conhecida como a Versão dos LXX, essa palavra é substituída por “Kyrios”. Quando houve necessidade de traduzir as Escrituras para latim, então utilizou-se a expressão “Dominus”, a que corresponde o vocábulo em língua portuguesa: “Senhor”.

Respeitando esta tradição, a Igreja católica, sobretudo na Liturgia, também não pronuncia o nome de Deus do tetragrama sagrado mas prefere a palavra Senhor. Perante algumas dúvidas nesta matéria, a Congregação do Culto divino enviou uma carta, a 29 de Junho de 2008, às Conferências Episcopais de todo o mundo a estabelecer essa práxis na invocação litúrgica do nome de Deus.

Ir. Maria José, sfrjs
A Irmã Maria José, confrontada com estas questões em torno da correta forma de pronunciar o nome de Deus, entregou-se com dedicação a essa problemática. Estudou-a, meditou-a, rezou-a... Fruto de todo esse labor, começou a desenhar-se no seu espírito um poema ao nome de Deus. E este foi-se desenvolvendo até se formar, no seu íntimo, o livro que hoje temos diante de nós com o sugestivo título: “Onomatopeias do Teu Nome”.

É um livro que pode ser lido apressadamente, em apenas uma semana, como tive de fazer. O que será apenas, e só, um primeiro contacto. O facto é que este despertou o desejo de uma leitura mais pausada, mais meditada e muitas vezes repetida, desde logo pelo puro prazer poético, o prazer formal, o prazer de ler boa poesia.

Para abrir o apetite, apresento algumas notas que fui recolhendo nesta primeira aproximação a esta obra.
Pela pena da Irmã Maria José vamos sendo introduzidos no mistério do nome impronunciável de Deus, o qual se traduz e plasma na criação como Onomatopeias do Seu amor. O nome de Deus está impresso em cada criatura – e toda a criação faz ressoar o amor de Deus.

Antes de mergulhar no nome de Deus, a autora deambula pelo “mundo dos nomes” e dá-nos conta da fragilidade das palavras. Contudo, os nomes dizem muito das pessoas que os usam, que os constroem, que os conquistam. Que tantas vezes “vendem o corpo e a alma ao esquecimento do presente para comprar a memória do amanhã” (pág. 34). Os nomes expressam e escondem a condição humana. A reflexão sobre os diferentes tipos de nomes é o caminho percorrido pela autora para aceder à “essência da humanidade” (pág. 42). Pelos nomes acedemos às grandezas e às misérias da condição humana.

Estamos, então, preparados para nos lançarmos no mundo bíblico. Acompanhamos os que fizeram da sua vida peregrinação traduzida num nome. Adão, Abel e Caim, Jacob, Ana e o filho Samuel, Moisés e o povo que caminha do Egipto à Terra Prometida, José e Maria são todos nossos companheiros na viagem pelo mundo bíblico dos nomes.

Deste percurso bíblico tocou-me particularmente a luta interior de Caim e a serenidade de Abel, traduzidas em linguagem poética. Um poema que traduz bem a tranquilidade de quem encontrou Deus e experimenta a harmonia no seu ser. Isso mesmo contrasta com o drama de quem deambula no contrassenso de uma existência em que nada faz sentido, porque não encontra o sentido último de todas as coisas.

Só então estamos preparados para mergulharmos, com a autora, na “perseguição do inominável”. Ela nos confidencia, preparando para a tarefa árdua que nos espera:

Quanto mar tenho de silenciar!
Quanto silêncio tenho de marear!” (pág. 81)

Tal como os judeus piedosos e a liturgia católica, concluímos que o nome de Deus é: Indescritível! Inenarrável! Indefinível! Indizível! Imperceptível! Invisível! Impronunciável! Não é possível nomeá-lo, é o Inominável! (págs. 88-89). Ou seja, é mais fácil dizer o que não é do que aquilo que ele verdadeiramente é. Não é acessível aos sentidos do corpo humano, mas inunda todos os sentidos do espírito humano, a quem se revela como belo, perfumado, melodioso, suave e saboroso (págs. 90-94).

De Deus com S. João, só podemos dizer: “Deus é amor!” (1 Jo. 4, 8) Parafraseando o evangelista, a Ir. Maria José dirá: “Ah! O teu Nome é Amor!” (pág. 96)

Finalmente, podemos reconhecer a assinatura do Verbo, em que o nome de Deus se faz carne. A Paixão segundo são Marcos dá-nos as pistas para encontrarmos a resposta para a questão que atravessa todo esse Evangelho: “Quem é este homem?” A autora conduz-nos pelos caminhos para o Calvário e oferece-nos oito pistas para, tal como o centurião do Evangelho de S. Marcos, descobrirmos a resposta: “Este era na verdade o Filho de Deus!” (pág. 106).

O nome de Deus, para os cristãos, é, também, Espírito Santo, que, com o Pai e o Filho, é Trindade. “Não na unidade de uma só pessoa, mas na trindade de uma só natureza”, como rezamos no prefácio da missa da Santíssima Trindade.

Aqui chegados, o nome de Deus faz-se Eucaristia, Ação de Graças, que conduz ao louvor perene e despido de sons que poluam a Palavra:

“A Vós, Nome que os espaços siderais não retêm,
na Atmosfera onde toda a revelação se evidencia,
submetemos o nosso silêncio deslumbrado,
ao aval de um louvor perene.
Amén.” (pág. 123)
  
A abordagem poética da Irmã Maria José não responde à questão estéril de como se pronuncia o nome de Deus, mas ajuda-nos – e muito! – a aprender a dizer o nome das coisas e dos outros, para podermos balbuciar o nome de Deus. No final desta primeira leitura do livro “Onomatopeias do Teu Nome”, habita-me o desejo de a ele regressar, por diversas vezes, para recolher as riquezas que ele contém, que não são acessíveis a uma primeira e rápida abordagem.

A primeira jóia que colhi da leitura desta obra é que, com quatro letras apenas, se escreve, em português, o nome de Deus: “Amor”.

Agradeço à Irmã Maria José por ter partilhado connosco a sua reflexão traduzida numa linguagem poética, que não me sinto habilitado a avaliar, mas que, como simples leitor, despertou sensações e vivências muito gratificantes.

Recomendo por isso a todos que façam uma leitura pausada, e repetida, que deixe ressoar no vosso íntimo as “Onomatopeias” do nome de Deus.



[1] VA, Dicionário dos termos da fé, Editorial Perpétuo Socorro, Porto 1995.

Fotos: Fernando Cordeiro

domingo, 14 de maio de 2017

“Sentinelas da madrugada”

Foto retirada daqui
O Papa Francisco veio a Fátima recordar que “temos Mãe!”

Repetiu-o três vezes na homilia da missa de ontem, que celebrou os cem anos das aparições. Uma mãe misericordiosa e “bendita por ter acreditado”, não alguém que segura o “braço justiceiro de Deus pronto a castigar”, ou uma “Santinha a quem se recorre para obter favores a baixo preço”, como tinha esclarecido na noite anterior, depois da bênção das velas e antes da oração do Rosário. Mais uma vez, o Papa preferiu sublinhar a misericórdia e não o juízo ou a condenação.

Terminou a homilia a desafiar os fiéis a não serem “uma esperança abortada”, mas a converterem-se, “sob a proteção de Maria”, em “sentinelas da madrugada”. Exortou-os a saber “contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.

Com as suas palavras o Papa deu um contributo extraordinário para ajudar os crentes a melhor entenderem o papel da Virgem Maria nas suas vidas, bem como a forma como se devem relacionar com ela. Não o fez com uma linguagem hermética e complicada, como tantas vezes acontece em contextos eclesiais, mas com o recurso a uma linguagem que todos compreendem, mesmo arriscando-se a escandalizar alguns que preferem as conceções marianas que ele criticou.

Compete à Igreja, sobretudo a portuguesa, dar agora continuidade ao percurso que o Papa iniciou na Cova da Iria. Levar as pessoas a viverem uma espiritualidade mariana ajustada ao Evangelho e, por isso, mais sadia. A Igreja deve tornar-se mais luminosa, com uma pulsação mais jovem e um renovado ardor missionário. E – ponto muito importante – não deve ter receio de empobrecer, desde que seja para se tornar muito mais rica em caridade.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 13/05/2017)

sábado, 13 de maio de 2017

Papa Francisco: Peregrino da Paz

Foto retirada daqui
Passaram cem anos e muitas das questões que se colocaram quando as três crianças disseram que viram a Nossa Senhora continuam por responder. Ao longo de um século, o Santuário de Fátima — com diversas iniciativas, como os congressos marianos — tem procurado encontrar respostas para muitas das dúvidas e críticas que têm sido feitas às aparições.

Nos últimos meses reacenderam-se polémicas e trocaram-se argumentos. Começou-se logo pela designação mais correta dos acontecimentos, se aparições ou visões. Se as crianças tiveram uma experiência mística e digna de fé, como defende a Igreja, ou se tudo não passou de um aproveitamento para reforçar o papel da Igreja num período em que ela era muito contestada, e perseguida.

São debates interessantes, que devem continuar depois da celebração do centenário para um melhor conhecimento da mensagem de Fátima e seu aprofundamento. E até para a correção de algumas interpretações erróneas. Essa discussão, contudo, passa ao lado dos peregrinos que rumam à Cova da Iria com as mais diversas motivações, como não se têm cansado de mostrar todos os meios de comunicação presentes no acompanhamento e chegada dos peregrinos ao Santuário.

O Papa Francisco fez questão de sublinhar que vem como peregrino. Afirmou-o tanto na mensagem que dirigiu aos portugueses, como na primeira oração na Capelinha das Aparições. Extraordinário é que tenha assumido igualmente a condição de pecador, o qual caminha em sintonia com tantos outros que reconhecem em si essa mesma condição.

Vem como peregrino da paz preocupado com esta “terceira guerra mundial aos pedaços”. Ergue a sua voz para denunciar os muros que estão a ser construídos, num mundo que precisa, como nunca, de pontes que congreguem.

O Papa Francisco, embora não seja essa a sua principal preocupação, poderá ajudar a compreender melhor a Mensagem de Fátima — e também a actualizá-la, a usá-la como resposta ao contexto que o mundo vive neste início do terceiro milénio. Pode ser que não resolva questões com cem anos, mas contribuirá decerto para a forma como Fátima será interpretada nos próximos anos.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 12/05/2017)

domingo, 15 de janeiro de 2017

Fátima o altar do mundo

Ao longo destes cem anos, o Santuário de Fátima consolidou-se como o “Altar do mundo”. Nos inícios, as aparições foram acolhidas com ceticismo, como convém, pela Igreja Católica. Graças à intervenção e ao escrutínio do Cónego Manuel Nunes Formigão, foram-se desfazendo as dúvidas. A mensagem divulgada pelos pastorinhos mereceu então a aprovação eclesiástica, por não por em causa mas estar em consonância com o Evangelho. Desde então o Santuário acolhe peregrinos oriundos de todo o mundo e até de todas as latitudes da fé.
Do ambiente pastorício onde os pastorinhos brincavam e rezavam, hoje, resta apenas uma frondosa azinheira, junto da Capelinha das Aparições, que assinala o local das aparições, ponto de passagem quase obrigatória de todos os peregrinos. Onde podem contemplar a primeira imagem, segundo a Irmã Lúcia, a que melhor traduz a Senhora que ela viu. Diz-se que o seu escultor, José Ferreira Thedim, nunca mais conseguiu esculpir outra tão fiel como essa. É essa, também, a que fixou os elementos fundamentais da iconografia de Nossa Senhora de Fátima. Que aparecem nas imagens espalhadas por todo o mundo.
Nos espaços, que antes eram as pastagens das ovelhas e onde cresciam as azinheiras, estende-se agora uma esplanada, que envolve a Capelinha e vai desde a basílica de Nossa Senhora do Rosário (inaugurada em 1953) à da Santíssima Trindade, que assinala os 90 anos das aparições. Este é o espaço que acolhe as principais celebrações entre Maio e Outubro, onde se reúnem, ao longo de todo o ano, milhares de peregrinos com as mais variadas inquietações, preocupações e motivações.

O primeiro livro da coleção sobre os Santos que nos protegem é precisamente dedicado ao acontecimento de Fátima. É uma súmula das aparições e das principais datas que marcaram os cem anos de história do Santuário. Tal como nos seguintes, referem-se as principais celebrações, a iconografia e algumas orações para invocar a intercessão de cada santo, particularmente nas situações de que eles são patronos.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 14/01/2017)

sábado, 14 de janeiro de 2017

Homens e mulheres que também caíram mas nunca desistiram

Os santos são homens e mulheres como qualquer um de nós, com defeitos e virtudes. Falharam e caíram mas, contrariamente ao que acontece tantas vezes connosco, nunca desistiram. Insistiram em se levantar e continuaram a procurar fazer a vontade de Deus, a qual passa, necessariamente, por um certo esvaziamento de si próprios em virtude da dedicação aos outros, particularmente aos mais necessitados.
Os santos são aqueles que souberam, no passado, corresponder ao desafio que, atualmente, o Papa Francisco não se cansa de repetir e repropor: “sair de si” e ir ao encontro dos que habitam nas “periferias existenciais e geográficas do nosso mundo”.
Por vezes colocamos os santos fora do mundo, ou num mundo à parte. Na verdade, eles, embora acreditando num mundo outro, nunca desistiram do mundo em que viveram e empenharam-se em transformá-lo à luz das suas convicções, dos valores em que acreditaram, os quais se sentiam chamados a viver na quotidianidade das suas existências.
“O santo testemunha-nos que a vida é responder às provocações que, dia-a-dia, são vertidas no coração e na mente; é o desejo de ‘estar’ dentro deste mundo, num mundo original e ao mesmo tempo útil e construtivo; é também a superação do contingente e evocação – pressentimento do futuro, do eterno”, como se pode ler na introdução ao volume 16 da obra “Lectio divina: per ogni giorno dell’anno”, dirigida por Giorgio Zevini e Pier Giordano Cabra.
Este livro refere igualmente que, lendo nós a vida dos santos à luz da Palavra de Deus, aprendemos também a ler a nossa própria vida, descobrindo com eles o segredo de viver melhor o nosso quotidiano.

O Jornal de Notícias decidiu oferecer aos seus leitores um conjunto de livros sobre alguns santos. Esta coleção é uma oportunidade para conhecer melhor a sua vida e, a essa luz, fazermos uma releitura da nossa vida.
Nossa Senhora de Fátima abre esta coleção. Ela que é seguramente aquela, de entre todos os santos, a quem os portugueses dedicam uma maior veneração.
Seguem-se outros. Os três santos celebrados no mês de Junho, conhecidos pelos Santos Populares: Santo António, São João e São Pedro. Faz também parte desta coleção São Francisco de Assis, que não sendo um santo popular é um dos santos mais conhecidos em toda a cristandade e fora dela.
Para além destes são também contemplados Santa Bárbara e São Jorge, com uma grande tradição na piedade popular. A santa protetora das trovoadas entrou mesmo na linguagem proverbial portuguesa e São Jorge era já invocado pelo Santo Condestável, Nuno Álvares Pereira, que atribuiu à sua intercessão a vitória na Batalha de Aljubarrota.
Juntam-se a estes alguns que adquiriram uma relevância particular por serem invocados em situações particularmente difíceis, como é o caso de S. Rita de Cássia, S. Judas Tadeu e Santa Hedviges, a protetora dos pobres, dos aflitos e dos endividados.
Completa este conjunto de santos o esposo de Maria: São José, padroeiro da Igreja universal.

Foram muitos os homens e as mulheres que trilharam o caminho da santidade. Este é um bom conjunto para os representar.

(Texto publicado no Jornal de Notícias de 13/01/2017)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Feliz Natal e um bom ano de 2017

Há uns meses ouvi esta frase ao Padre Josep Font, do movimento “Mambré”: Dios es loco: cuando todo el mundo quiere subir, El baja. Que a teria visto num antigo postal de Natal.

Enviou-me a frase em castelhano e em catalão: Déu és ben boix: quan tothom vol pujar Ell baixa.

Eu traduzi, talvez suavizando um pouco o original: Deus deve estar louco, quando todos querem subir, Ele desce.

Pedi à Isabel Chumbo, professor do IPB, que traduzisse em inglês e o resultado foi: The foolishness of God: when all want to go up, He wants to go down.

A Ana Sousa e Silva, uma grande amiga, fez o desenho que integra estas quatro traduções e o resultado foi a imagem que ilustra este texto.

Um Feliz Natal e um ano de 2017 em que, como Jesus, nos esforcemos por corresponder ao amor de Deus, procuremos mais servir do que ser servidos, cuidar dos mais desfavorecidos em vez de trepar, nem que para isso tenhamos de ser um pouco loucos, aos olhos do mundo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A Igreja e a cremação

Foto retirada daqui
Os primeiros cristãos começaram a designar o local de deposição dos mortos como cemitérios. Deixou de ser a necrópole (cidade dos mortos), como acontecia nas culturas grega e latina, para passar a ser o terreno onde os corpos são depositados. Onde é semeado o corruptível para ressuscitar incorruptível, na perspetiva de S. Paulo (Cf. 1 Cor. 15, 42).

Desde então, a Igreja Católica continua a privilegiar a sepultura dos mortos, embora Paulo VI, em 1963, tenha aberto a possibilidade de estes poderem ser cremados por “razões de ordem higiénica, social ou económica”. É o que sucede nas restantes igrejas cristãs, com exceção da Igreja Ortodoxa, que não admite essa prática. O mesmo se passa com os judeus e os muçulmanos.

O Vaticano, através da Congregação da Doutrina da Fé, divulgou esta semana uma instrução em que se reafirma esta práxis e em que aborda as questões em torno da cremação. “A Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos uma vez que, assim, se evidencia uma estima maior pelos defuntos; todavia, a cremação não é proibida, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã”, refere o documento.

A sepultura dos entes queridos facilita uma leitura do acontecimento da morte mais em sintonia com a perspetiva cristã. Já a cremação pode originar o que o documento denomina “conceções erróneas sobre a morte”: as que a percebam como “o aniquilamento definitivo da pessoa”; “o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo”; “uma etapa no processo da reincarnação”; ou, ainda, “como a libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo”.

Por isso, a Igreja admite a cremação, mas propõe que as cinzas sejam sepultadas num cemitério ou num local sagrado. E não admite a “dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água” ou que estas sejam conservadas “sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/10/2016)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O “Papa Negro”

Papa Francisco com P. Arturo Sosa, Geral dos jesuítas
Foto retirada daqui
Os jesuítas elegeram o venezuelano Arturo Sosa para seu Superior Geral, no último fim de semana. Durante quase cinco séculos de história – completaram no mês de setembro 476 anos de existência – essa função foi sempre desempenhada por europeus e, salvo raras exceções, oriundos da Europa Ocidental.

Desde esta semana, tanto o Papa Francisco como o denominado “Papa Negro”, são oriundos do mesmo continente. Esta designação deve-se ao facto de o Superior Geral dos Jesuítas usar a batina negra própria dos clérigos e ambos receberem um encargo vitalício. Ainda que, como aconteceu com Bento XVI, bem como com os últimos Superiores Gerais, possam renunciar aos seus cargos.

No passado, falava-se destes dois Papas também pelo poder que o Superior Geral detinha dentro da Igreja e fora dela, uma vez que os jesuítas geriam as mais destacadas universidades do mundo e estavam presentes nas principais cortes, nomeadamente como confessores de reis e de rainhas.

Foi o seu poder de influência nas decisões políticas que terá despertado invejas e motivado a perseguição que culminou, em 1773, com a supressão da Companhia de Jesus. Acabaria por ser restaurada em 1814 e, desde então, tornou-se num dos institutos religiosos masculinos com maior número de membros: atualmente tem mais de quinze mil jesuítas, espalhados pelos cinco continentes, com uma particular dedicação ao ensino e à investigação. Apesar de, em muitos contextos, conviverem com as elites, também não esquecem os mais pobres e a atividade missionária nos países mais recônditos.

Arturo Sosa vai liderar esta relevante congregação da Igreja. Contará, certamente, com a cumplicidade do Papa. Para além de ambos serem latino-americanos, une-os uma amizade desenvolvida no interior da Companhia de Jesus, anterior aos cargos que agora desempenham. E partilham a mesma preocupação e empenhamento na luta contra a pobreza.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 21/10/2016)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Os cardeais de Francisco

Foto retirada daqui
O Papa Francisco anunciou este domingo a criação de 17 novos cardeais no consistório que se realizará a 19 de Novembro, na vigília do encerramento da Porta Santa do Ano da Misericórdia.

Quatro dos cardeais agora nomeados ultrapassaram os oitenta anos, pelo que já não poderão participar na eleição do Papa. Um deles é um sacerdote albanês, perseguido pelo regime comunista que proclamou a Albânia como “o primeiro estado ateu no mundo”. O P. Ernest Simoni, agora com 88 anos, foi sujeito a trabalhos forçados entre 1963 e 1990. O seu testemunho emocionou Francisco durante a visita à Albânia em Setembro de 2014, que agora decidiu conceder-lhe o título cardinalício.

Esta não é uma novidade de Francisco. Já no consistório de 26 de Novembro de 1994, João Paulo II fez cardeal Mikel Koliqi, ele um sacerdote albanês perseguido pelo comunismo.

Com mais esta nomeação de Francisco, continua a verificar-se a tendência de universalização do colégio cardinalício iniciada por Pio XII. Desde então, tem vindo a diminuir o número de cardeais italianos e europeus e a aumentar o dos oriundos de outras geografias. Dos 13 cardeais com menos de 80 anos, três são europeus, três da América Latina, três dos Estados Unidos, dois africanos, um da Ásia e outro da Oceânia. Isto traduz bem a preocupação de Francisco em nomear cardeais dos cinco continentes.

Para além dessa tendência, o Papa continua a não atribuir o barrete cardinalício em função das prerrogativas que determinadas dioceses adquiriram no passado, mas sim pelo perfil pastoral dos bispos escolhidos para receberem essa distinção. Os bispos de Turim e de Veneza, dioceses habituadas a ter um cardeal, voltaram a ser preteridos nas escolhas do Papa.

A lógica de Francisco não é a dos privilégios, por vezes adquiridos no passado a peso de ouro. A sua lógica é pastoral, determinada por uma especial atenção às “periferias”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/10/2016)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Impostos e Igreja

A Igreja Católica em Portugal não está isenta de impostos como, por vezes, se afirma em público: está isenta de alguns impostos, tal como acontece com os partidos e outras instituições, nomeadamente do IMI de prédios afetos a determinadas atividades. Os sacerdotes católicos também não estão isentos de impostos e, até no exercício do seu múnus sacerdotal, pagam IRS sobre os rendimentos recebidos.

A Doutrina Social da Igreja defende políticas fiscais justas como forma de harmonizar os direitos da propriedade privada com as exigências do bem comum. O documento do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes denuncia todos os subterfúgios de éticas de cariz individualista “que promovem a fuga aos impostos e outras obrigações sociais”. Na Evangelii Gaudium o Papa Francisco denuncia mesmo a “corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais”.

Ainda que alguns impostos – como infelizmente acontece tantas vezes... –  sejam desviados para alimentar clientelas e aumentar certos patrimónios, a Igreja nunca poderá pactuar com esquemas de fuga aos impostos e, muito menos, abençoá-los no seu discurso oficial. Só assim poderá manter a sua autoridade moral intacta para exigir uma justa redistribuição da riqueza, com prioridade às necessidades dos mais pobres.

Em relação ao IMI, se as outras instituições deixarem de estar abrangidas por essa isenção, a Igreja Católica não deverá exigir a sua manutenção para si. Deverá, isso sim, propor ao Estado que a verba daí resultante não se dilua no conjunto dos impostos arrecadados, mas que seja utilizada para ajudar as populações no restauro do seu património e para apoiar os mais desfavorecidos, nomeadamente, ampliando os apoios às IPSS’s que deles se ocupam.

E a Igreja deve – sempre! – pugnar para que sejam implementadas medidas mais eficazes na luta contra a corrupção e a formação de clientelas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/10/2016)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Igreja mostra contas

Foto retirada daqui
A Santa Sé está atenta à crise humanitária na Síria e no Iraque. Pela quinta vez reuniram-se, ontem, no Vaticano cerca de quarenta instituições católicas presentes no Médio Oriente. Pela primeira vez, o Papa Francisco abriu os trabalhos, sinal do seu empenhamento pessoal nesta questão. Estiveram também presentes representantes do episcopado da região, das congregações religiosas, os núncios apostólicos na Síria e no Iraque. Acompanharam os trabalhos o secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin e o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, e o secretário do Pontifício Concílio “Cor Unum” (organismo promotor do encontro), D. Giampietro Dal Toso.

Esta reunião tinha como objetivo fazer “o balanço do trabalho desenvolvido até agora pelos organismos caritativos católicos no contexto da crise (…), individualizar as prioridades para o futuro, analisar a situação das comunidades cristãs residentes em países afetados pela guerra, promovendo a sinergia entre as dioceses, congregações religiosas e órgãos da igreja”, segundo uma nota de imprensa do “Cor Unum”.

Os doze mil voluntários e profissionais da Igreja Católica presentes no Médio Oriente apoiam mais de quatro milhões de pessoas na região, segundo a mesma nota de imprensa, e no ano de 2015 gastaram mais de 200 milhões de euros. Este ano, só até Julho, já foi despendida quase a mesma verba.

É importante que as instituições da Igreja, também em Portugal e à semelhança do que aconteceu ontem no Vaticano, se reúnam para avaliar as suas iniciativas e projetar o futuro da sua ação social. Devem também divulgar os recursos humanos e financeiros que empregam e a origem destes últimos. Devem fazê-lo, não tanto para fazer propaganda da sua ação e justificar os apoios que recebem, mas, sobretudo, para demonstrar a sua fidelidade ao Evangelho, na opção preferencial pelos mais pobres.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/09/2016)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

As religiões e a paz

Foto retirada daqui
O mundo mudou muito desde que os representantes de várias religiões se reuniram pela primeira vez em Assis, há trinta anos, em torno do Papa João Paulo II. Então rezava-se pelo fim da Guerra Fria e da escalada nuclear que ameaçava destruir o planeta. Agora pede-se o fim da “Terceira Guerra Mundial em pedaços”, como a tem denominado o Papa Francisco.

Mais de 400 líderes religiosos reuniram-se de novo para reavivar o espírito de Assis. Juntaram as suas vozes para condenar os que matam em nome de Deus e testemunhar a sua convicção de que as “religiões são e podem ser fontes de paz”, como disse Andrea Riccardi, da Comunidade de S. Egídio, na abertura do encontro.

Na declaração final conjunta, “homens e mulheres de diferentes religiões” afirmam claramente: “A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso”.

Tamar Mikalli deu o seu testemunho de como a guerra pôs fim a um bom relacionamento entre pessoas de diferentes credos. “Venho de Alepo, a cidade mártir da Síria. Alepo, quando pronuncio este nome, apertasse-me o coração... Vêm-me à mente tantos amigos muçulmanos e cristãos. Agora há divisões entre cristãos e muçulmanos, mas antes da guerra não existiam… Depois rebentou a guerra, ainda não sei bem porquê. Começaram a chover mísseis que destruíam as casas. Ainda ouço os gritos de um pai, de uma mãe ou os gritos das crianças que procuram os seus pais”.

São testemunhos como este que desafiam a abandonar o “paganismo da indiferença”, que o Papa denunciou em Assis. E estimulam os crentes a serem construtores de paz, no interior das suas comunidades e com os que professam outra fé.

(Texto publicado no Correio da Manhã de236/09/2016)

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Redenção na prisão

Os três reclusos que fazem hóstias na cadeia de Milão, Itália.
Giuseppe (perpétua), Cristiano (condenado a 23 anos) e Ciro (perpétua)
Foto retirada daqui
Não falta quem pense que tudo o que se faz com os reclusos é tempo perdido. Todavia, continua a haver quem acredite que o tempo de reclusão pode transformar-se numa oportunidade de conversão.

Foi com esta convicção que a Fundação “Casa dello Spirito e delle Arti” pôs três reclusos, que cumprem penas pesadas por homicídio, na cadeia de alta segurança de Milão, em Itália, a produzir hóstias. Ciro, Giuseppe e Cristiano, em Abril, levaram pessoalmente ao Papa Francisco doze mil hóstias. “Entregámos ao Santo Padre o fruto do nosso trabalho e da nossa redenção. Jesus, presente com o seu corpo na Eucaristia, mudou o nosso coração e hoje podemos testemunhar a todos que a Misericórdia de Deus é possível para todos, até para quem – como nós – tenha cometido crimes horrendos”, disseram então ao sítio “Vatican Insider”.

Durante o mês de Agosto, as mesmas mãos que antes tiraram a vida, produziram agora dezasseis mil partículas que serão consagradas no Congresso Eucarístico que decorre, desde ontem até domingo, na cidade italiana de Génova.

Hoje, na cadeia de Bragança, conclui-se uma sessão da Novahumanitas, denominada “Descobre-te a ti mesmo…” Esta formação pretende ajudar cada participante “a iniciar um processo de autoconhecimento e de crescimento pessoal que o conduza a uma maior liberdade e plenitude de vida”. É a primeira vez que é ministrada em contexto prisional. Ao longo de quatro dias, guiados por Maria dos Anjos, com os seus “78 anos de juventude acumulada”, homens amargurados e angustiados fizeram a experiência de, talvez pela primeira vez, entrar em si mesmos. Descobriram que, para além dos seus defeitos e falhas, também são habitados por valores e potencialidades. Sentiram o desejo de mudar as suas vidas.

Oxalá o consigam, para que também eles se convertam em testemunhas de que, apesar de tudo o que se possa ter feito, é sempre possível mudar de vida.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 16/09/2016)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A santa de Francisco

Foto de Andreas Solaro/AFP retirada daqui
Cada um dos últimos papas tem os seus santos. E estes podem ser considerados o “ponto de referência e uma síntese eficaz da mensagem do Pontífice que os elevou aos altares”.

Esta é a leitura de Andrea Tornelli, vaticanista, para quem “não há dúvida que Madre Teresa de Calcutá é emblemática para o pontificado de Francisco, como o foram, por exemplo, os mártires do Uganda proclamados santos por Paulo VI, ou as canonizações de José Maria Escrivá e da Santa Faustina Kowalska para o pontificado de João Paulo II”. Mas de quem falamos, quando falamos da agora Santa Teresa?

Foi longo o caminho que ela percorreu desde a sua terra natal, então Üsküp, hoje Skopje, capital da Macedônia, até chegar às ruas de Calcutá. Nascida numa família de origem albanesa, desde cedo sentiu o desejo de ser missionária na Índia. Passou pela Irlanda, onde entrou numa congregação religiosa e aprendeu inglês. Quando já era diretora e professora num colégio de meninas ricas em Calcutá, abandonou o conforto do convento para recolher moribundos abandonados nas sarjetas, o que lhe valeu o epíteto de “santa das sarjetas”.

Foi então que fundou a congregação das Missionárias da Caridade, que se dedicaram, nas suas palavras, “aos famintos, aos nus, aos que não têm lar, aos aleijados, aos cegos, aos leprosos, toda essa gente que se sente inútil, não amada ou desprotegida pela sociedade, gente que se converteu num fardo para a sociedade e que é rejeitada por todos”.

O Papa Francisco destacou, na missa da canonização, a “sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece, nos nossos dias, como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres”. Nesta santa confluem duas das principais preocupações do Papa: os mais pobres; e “a Igreja em saída” para as periferias. Por isso, Madre Teresa é a santa à imagem de Francisco.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/09/2016)