sexta-feira, 29 de maio de 2015

O santo da alegria

S. Filipe Néri
Foto retirada daqui
São Filipe Néri nasceu em Florença, a 21 de Julho de 1515. As comemorações dos quinhentos anos do seu nascimento iniciaram-se na passada terça-feira – o dia em que a Igreja celebra a sua memória – e encerram-se no próximo ano no mesmo dia 26 de Maio. Viveu em Florença atá aos 18 anos e fez os seus estudos no convento de S. Marcos. Então, foi enviado pelo pai para junto de um tio, para aprender o ofício de comerciante. Depressa descobre que essa não é a sua vocação.

Vai para Roma, onde começa por ser perceptor dos filhos de um nobre, mas, por opção, acaba a viver no meio de jovens a que hoje chamaríamos sem abrigo. Era alvo da sua chacota, mas tudo ultrapassava com bom humor para ganhar a sua confiança e motivá-los a uma mudança de vida e à prática religiosa.

É ordenado sacerdote e dedica-se a guiar espiritualmente pobres e ricos, príncipes e plebeus. Criou os “Oratórios”, comunidades de padres que vivem num ambiente de alegria e simplicidade, dedicados aos mais necessitados e em que se prefere a mortificação espiritual à corporal, sobretudo da vaidade.

S. Filipe Néri ficou conhecido como o “Apóstolo de Roma” e o “Santo da Alegria”. Homem culto e criativo, gostava de introduzir nos seus sermões apontamentos bem-humorados. Algo que não é muito habitual em ambientes católicos. Um bom sermão é, ainda, o que comove os ouvintes e não o que os faz rir. Embora não faltem exemplos de quem se aventure por outros caminhos.

Papa João Paulo I
Foto retirada daqui
“Diz-se que o sentido do humor – depois do breve pontificado de João Paulo I – ainda não regressou ao Vaticano. Não faltam sinais dessa demora. A alegria do papa Luciani era subversiva. Ao gostar de anedotas, de perder tempo com crianças, de gracejar em dialeto com a sua gente, destoava naquele cenário de sagradas solenidades” escrevia frei Bento Domingues, em 1998, numa crónica que pode agora ser lida no livro “O bom humor de Deus”, hoje apresentado em Lisboa.

Papa Francisco
Foto retirada daqui
“A descontração teológica com que falava irritava os guardiões da ortodoxia. A recusa dos símbolos do poder e das suas pompas era inquietante. Acabou por semear o pânico, quando mostrou que iria mexer nos métodos da Cúria romana”. Dizia, então, frei Bento, algo que se aplica hoje ao atual Papa: uma nova lufada de bom humor no seio da Igreja Católica.


(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/05/2015)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Os pobres não votam

Foto Reuters retirada daqui
A erradicação da pobreza deveria ser o primeiro objetivo da atividade política e, por conseguinte, da governação.

Apesar de o número de pobres ter aumentado em Portugal nos últimos anos, os partidos políticos revelam “alguma insensibilidade e até desconhecimento desta realidade que já afeta cerca de três milhões de portugueses”. Foi o que constatou o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), padre Jardim Moreira, no final de um encontro na Assembleia da República com deputados de todos os partidos. Alguns deles terão mesmo dito que estas matérias serão aprofundadas “só depois das eleições”!

Infelizmente uma grande quantidade dos pobres, como acontece com a maioria dos portugueses, não votam – e os partidos sabem disso. Se todos votassem seria bem diferente a abordagem dos políticos à pobreza. Todos os programas eleitorais se encarregariam de piscar o olho a esses milhões de portugueses com as mais variadíssimas promessas.

Para atacar este flagelo social não bastam, porém, promessas eleitorais: exige-se um “compromisso para a definição de uma estratégia nacional de erradicação da pobreza”. É essa a convicção da EAPN, que há mais de vinte e cinco anos defende a necessidade de atuar ao nível das causas estruturais da pobreza e de envolver os pobres e os excluídos na procura de respostas para a sua situação.

A Rede não embarca numa prática assistencialista da solidariedade, que se limita a distribuir esmolas e gera subsidiodependência. Nem acredita, como professam as correntes em voga do neo-liberalismo, que o crescimento económico, a competitividade e a inovação, promovam a criação de riqueza e a pobreza desapareça. A história demonstra que os lucros têm tendência a concentrarem-se na mão de poucos, acabando a maioria por não beneficiar grandemente da prosperidade económica.

Nos tempos de crise, não são os ricos os mais afetados, são os pobres os que mais sofrem. E muitos dos que antes não o eram acabam por ser lançados para níveis próximos do limiar da pobreza. Nesta última crise, que o país atravessa, resvalaram para essa situação mais duzentos mil portugueses.

É por isso urgente um envolvimento de todos – a começar pelos partidos políticos – na implementação de uma estratégia nacional para a erradicação da pobreza.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/05/2015)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Papa e a arcebispa

Foto retirada daqui
O Papa Francisco recebeu, no início de maio, a arcebispa luterana de Uppsala, na Suécia, Antje Jackelen. Falou-se sobretudo do diálogo entre os cristãos das diferentes igrejas. “Na realidade, eles não devem ser considerados adversários ou concorrentes, mas reconhecidos por aquilo que são: irmãos e irmãs na fé” disse o Papa. Em consonância, saudou a líder da igreja luterana na Suécia como “querida irmã”.

Nesse encontro o Papa fez questão de sublinhar “a questão da dignidade da vida humana, que deve ser sempre respeitada, assim como o são as temáticas relativas à família, ao matrimónio e à sexualidade, que não podem ser silenciadas ou ignoradas por receio de pôr em perigo o consenso ecuménico já alcançado. Seria lastimável se sobre estas questões se consolidassem novas diferenças confessionais”.

Estas palavras tiveram diferentes leituras. Uns destacam os consensos já conseguidos nas chamadas “questões fraturantes” entre as diferentes igrejas cristãs. Viram nas palavras do Papa um desejo de consolidação desse caminho já percorrido, o qual não exige a mudança da práxis católica nessas matérias para salvar o diálogo ecuménico.

Para outros, o Papa, ao acolher uma mulher ordenada, que apoia o casamento de pessoas do mesmo sexo na igreja, está a dar um sinal de abertura à admissão de mulheres ao sacramento da ordem e dos homossexuais ao sacramento do matrimónio, bem como à revisão da abordagem católica da família e da sexualidade. De facto, ele tem defendido a promoção da mulher na Igreja, que não passa necessariamente pela sua ordenação. E também tem apelado ao acolhimento das pessoas homossexuais, sem nunca pôr em causa o modelo heterossexual do matrimónio católico.

O Papa pediu que se refletisse sobre esta e outras questões relativas à família durante este ano, pelo que as conferências episcopais vão procurar recolher as diferentes sensibilidades no seio da Igreja. Depois, em outubro, o Sínodo dos Bispo procurará ler os contributos dos fiéis espalhados pelo mundo e proporá ao Papa as suas conclusões.

A partir dessa conclusões o Papa Francisco redigirá uma Exortação apostólica que clarificará qual o caminho que a igreja católica irá tomar. E saberemos então quais os procedimentos que serão alterados e quais permanecerão.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/05/2015)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os Papas e a cadeia

João XXIII visita a cadeia de“Regina Coeli”
 Foto retirada daqui
Os cristãos não esquecem que o primeiro Papa esteve preso várias vezes em Jerusalém. E que S. Pedro, no final da vida, passou pela cadeia de Roma e foi condenado à morte, acabando por ser sepultado onde agora se ergue a Basílica com o seu nome.

Com a criação do Estado italiano e a perda dos territórios pontifícios, o Papa Pio IX declarou-se prisioneiro no Vaticano do estado italiano. João XXIII poria fim a essa “autorreclusão papal” e, poucos meses após a sua eleição, no dia 25 de Dezembro de 1958, dirigiu-se a um hospital pediátrico fora dos muros vaticanos. A cadeia “Regina Coeli” foi, no dia seguinte, a sua segunda visita. Dessa passagem ficou a frase do Papa Bom: “Sou José [seu nome próprio], um vosso irmão”!

Paulo VI visitará depois a mesma cadeia e dirá “que se pode ser bom no coração, mesmo quando pesa sobre os ombros uma condenação dos tribunais dos homens”. Na linha do seu antecessor, a 18 de Dezembro de 2011, Bento XVI, disse aos presos da prisão romana de Rebibbia: “É preciso pensar que todos podem cair, mas Deus quer que todos se aproximem dele. Reconheçam a própria fragilidade, avancem com dignidade e encontrem a alegria na vida”.

Para a Igreja um recluso nunca é um caso perdido – e a detenção é uma oportunidade para arrepender-se dos seus crimes, converter-se e recomeçar uma vida nova. Os ordenamentos jurídicos que rejeitam a pena de morte ou a prisão perpétua, por se acreditar na possibilidade da recuperação do criminoso, estão em sintonia com a maneira cristã de encarar a reclusão. Já os que se afastam dela sublinham o carácter punitivo da pena de prisão e negligenciam a reinserção social dos detidos.

O Ano da Misericórdia – que se iniciará a 8 de Dezembro e se concluirá no dia 20 de Novembro de 2016 – irá promover várias iniciativas que traduzam a “proximidade e atenção aos pobres, aos que sofrem, aos marginalizados e a todos aqueles que precisam de um sinal de ternura”. Estas foram as palavras do arcebispo Rino Fisichella na apresentação do calendário do Ano Santo, o qual prevê o “Jubileu dos Presos” a 6 de novembro de 2016.

O Papa Francisco quer que, se for possível, alguns reclusos venham à Praça de São Pedro. Não fará sentido celebrar a Misericórdia e esquecer um dos ambientes em que ela pode ser mais benéfica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/05/2015)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O “Bom Pastor”

D. Oliver Dashe, bispo de Maiduguri, na Nigéria.
Foto: Chema Moya/EFE, retirada daqui
Todos os anos, no quarto domingo da Páscoa, que é, também, o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, as leituras da missa apresentam Jesus como o Bom Pastor.

No último domingo voltou-se a repetir essa celebração. Nessa circunstância o Papa Francisco recordou que “o Bom Pastor é aquele que dá a vida pelas suas ovelhas”. Num contexto, como o nosso, de liberdade religiosa, raramente os sacerdotes correm perigo de vida por assumir essa vocação. Mas, em muitos pontos do globo, morre-se por se ser cristão. Há dias D. Oliver Dashe, bispo nigeriano, disse: “Quando aceitei tornar-me bispo, assinei a minha sentença de morte”.

Esta afirmação foi proferida num congresso em Madrid, dedicado à temática “Todos Somos Nazarenos”, em que se refletiu sobre a situação dos cristãos perseguidos pelo fundamentalismo islâmico. A sua diocese situa-se numa região atacada frequentemente pelo grupo terrorista “Boko Haram”, que tem assassinado todos os que não seguem a fé em Alá, como eles a defendem, mesmo muçulmanos.

Provavelmente, nesses contextos de perseguição são menos os que aspiram a ser bispo, tendo em conta os riscos para a própria vida que esse encargo significa, e mais os que assumem essa missão com entrega e dedicação às comunidades cristãs, que são chamados a santificar, ensinar e governar. Nessas circunstâncias, serão, certamente, em menor número os “trepadores” e “carreiristas” que o Papa tem denunciado por diversas vezes.

Na verdade, este proliferam mais em ambientes em que o episcopado é assumido como uma promoção ou uma posição de destaque. São aqueles que apenas pensam em si próprios e na satisfação dos seus anseios, que se se pavoneiam nos seus cargos e que fazem um triste figura a que o Papa aludiu na homilia da missa do último domingo, em que foram ordenados 19 sacerdotes da diocese de Roma. Já na oração do “Angelus” disse que “todos os que têm a missão de guias na Igreja – sacerdotes, bispos, papas – são chamados a assumir, não a mentalidade do ‘manager’ (gerente), mas a do servo, imitando Jesus que, despindo-se de si próprio, nos salvou com a sua misericórdia”.

Precisam-se mais sacerdotes e bispos que imitem Jesus Cristo o Bom Pastor, que se gastem ao serviço das comunidades cristãs. E que renunciem ao “alpinismo eclesiástico”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 01/05/2015)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O poder e o serviço

Foto retirada daqui
Os bispos portugueses aprovaram, na sua última assembleia, um “modelo de estatutos” a aplicar aos Centros Sociais Paroquiais para adequar os atuais à legislação aprovada no final do ano passado, que regulamenta as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS).

Nos “novos estatutos” os párocos deixam de ser os presidentes por inerência e passam a “poder” desempenhar esse cargo. Houve quem lesse essa alteração como uma perca de poder dos sacerdotes. Ou, então, o desejo dos bispos de os afastarem da direção das IPSS’s.

D. Manuel Clemente, no final da reunião dos bispos, apressou-se a esclarecer que “não está isso em causa”. E reconheceu que “nós, como sociedade, não só como Igreja, somos muito devedores a excelentes padres que investiram o melhor que tinham, que sabiam e podiam, para criar e sustentar instituições de solidariedade social”.

Na verdade, as alterações introduzidas vêm permitir que um sacerdote que não se sinta capacitado, ou com disponibilidade, para dirigir essas instituições, possa escolher entre os seus paroquianos alguém mais indicado para o fazer e proponha a sua nomeação ao bispo.

Seja clérigo ou leigo, não é evangélico assumir esse encargo como uma posição de poder; ele deve é ser exercido numa atitude de serviço aos mais pobres. “Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos”, recomendou Jesus aos seus discípulos (Mc. 10, 44). Ou, como diz o Papa Francisco, que tem mesmo um livro com esse título, “o verdadeiro poder é o serviço”.

Não falta, todavia, quem aspire à direção de uma IPSS, mais atraído pelas quantias que movimenta e pelos empregos que garante do que por uma genuína caridade cristã ou pelo serviço à comunidade. Isso pode levar, como já levou, a que por vezes os recursos sejam usados, não para combater a pobreza, mas para gerar e alimentar “clientelas”. Uma tentação a que ninguém está imune, tanto padres como leigos, e que pode mesmo descambar em esquemas de corrupção e de tráfico de influências.

Ora, para que isto seja evitado, não bastam estatutos bem elaborados: os dirigentes também devem ser escolhidos de forma criteriosa. E a sua atuação à frente das instituições tem de ser acompanhada de perto pelo pároco – quer ele seja, ou não, o presidente – e, sobretudo, pelo bispo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/04/2015)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Papa em contracorrente

Genocídio do povo arménio entre 1915 e 1917
Foto retirada daqui
O Papa não receia expressar as suas ideias mesmo quando elas não são “politicamente corretas” ou vão ao arrepio das tendências da cultura contemporânea.

Papa interroga-se sobre "teoria de género"
Foto retirada 
daqui
No final da semana passada agitou o mundo diplomático ao condenar o “genocídio” do povo arménio pelo império turco otomano. Nunca um Papa tinha verbalizado dessa forma a matança dos arménios no início do século passado, apesar de João Paulo II ter assinado com o Patriarca Arménio, em 2001, um documento conjunto em que o condenava e referia explicitamente.

As palavras de Francisco irritaram o presidente da Turquia que as comentou em termos pouco simpáticos. “Quando os políticos e os religiosos assumem o trabalho de historiadores, não dizem verdades, mas estupidezes”, disse Erdogan. Curiosamente, foi o mesmo Erdogan que, no final do ano passado, num encontro de líderes muçulmanos na Turquia, defendeu que a América foi descoberta por marinheiros islâmicos, baseando-se numa alegada referência de Cristóvão Colombo à existência de uma mesquita em Cuba. Na verdade, é Bartolomeu de las Casas que narra o que o navegador vê ao chegar a terras cubanas, descrevendo o cume de uma montanha como “uma elegante mesquita”, como recordou Diego Contreras no blog “LaIglesia en la prensa”.

O Papa atreveu-se também, na última audiência, a questionar se a “teoria de género” não será “um passo atrás”? E fê-lo em clara contradição com os que vêm nela uma solução para a redutora distinção entre masculino e feminino, bem como para a submissão da mulher ao homem. Estes defendem que as diferenças não provêm das característica biológicas, mas das construções culturais. E, por isso, não faz sentido falar-se de homem e de mulher, de masculino ou feminino.

Para Bergoglio, porém, a solução das desigualdades entre homem e mulher não passa pela negação das diferenças, mas pela defesa da sua complementaridade, da sua mesma dignidade, até porque ambos são “imagem e semelhança de Deus”. E propôs a promoção da mulher e o reconhecimento da sua importância na sociedade e na Igreja.

Nestas como noutras questões, é de louvar que Francisco não se submeta à lógica do “politicamente correto”. Precisamos dele como uma consciência crítica de um mundo que se submete com facilidade às modas intelectuais e culturais.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 17/04/2015)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O silêncio da esquerda

Cardeal Óscar Rodriguez Maradiaga
(Foto: Manuel Meira, retirada do sítio Religionline)
Os cardeais mais próximos do Papa estão em sintonia na crítica ao sistema económico que rege o mundo. Na semana passada, em Roma, o cardeal Pietro Parolin, Secretario de Estado da Santa Sé, denunciava um sistema que está a dificultar o acesso ao crédito dos mais pobres. Esta semana, em Fafe, o cardeal Óscar Maradiaga, coordenador do grupo de nove purpurados que aconselham o Papa, afirmou que “temos um sistema que desenvolveu o liberalismo económico mas não traz igualdade, antes acrescenta desigualdade”. Criticou também a austeridade que, mesmo sendo uma “virtude cristã”, não ajudou os países intervencionados como se pretendia, mas gerou ainda mais pobreza.

Muitas dos políticos de esquerda reveem-se nestas e noutras críticas. Por diversas vezes já manifestaram o seu apoio às posições do Papa em matéria económica. Mas têm-no deixado a falar sozinho quando pede à “comunidade internacional que não fique muda” perante a matança de cristãos, como tem acontecido recentemente.

Lucia Annunziata, há dias, num blog italiano, censurava o silêncio da esquerda, que se tem mobilizado em tantas causas, mas não manifestou “a pena e o horror pela morte de tantos homens e mulheres por causa da sua fé”. (…) Fé que, aliás, é a da maioria do nosso país, e é também a matriz (querendo ou não) da história e da cultura do continente em que vivemos”.

Quem assim fala até pode suscitar a ideia de que é uma pessoa de direita e crente. Mas percebe-se, pelo teor do artigo, que não se situa nessa área política. Já quanto à crença, faz questão de dizer: “Não sou católica, nem sequer neo-convertida. Sou ateia e pretendo continuar a sê-lo (…) Sou, contudo, uma jornalista e creio que ainda consigo compreender o que é uma notícia. E a notícia destes dias é a solidão a que foi votado precisamente este popularíssimo Papa, que há meses é a única voz a denunciar os massacres de fiéis e atualmente é o único chefe de estado a apontar o dedo contra o imobilismo das Nações Ocidentais perante estas carnificinas. Na verdade, exatamente o contrário do que aconteceu em relação ao Charlie Hebdo”.

Também, entre nós, se nota algum pudor em condenar categoricamente o massacre dos cristãos. E dificilmente se vê um ateu a admitir e a valorizar a nossa matriz cultural cristã.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/04/2015)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Crítica ao sistema económico

Pietro Grasso, Presidente do Senado italiano e o card. Pietro Parolin
Foto retirada daqui
O Secretário de Estado do Vaticano e o Presidente do Senado Italiano uniram as suas vozes na crítica ao sistema económico vigente, que promove a exploração dos mais fracos e a promiscuidade ente a finança e o poder, durante a apresentação de um volume da revista italiana “Limes”, dedicada ao tema “Moeda e império” , na passada terça-feira em Roma.

O cardeal Parolin denunciou que “os grandes capitais tendem a financiar os poderes estabelecidos e as atividades mais rentáveis”, enquanto o povo se vê arredado do acesso ao crédito.

O senador Pietro Grasso recordou o discurso do Papa ao Parlamento Europeu e a sua Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, na qual critica a “economia capitalista global dominada pelos poderes financeiros” que subordina ao lucro valores como o da dignidade humana, da democracia e da solidariedade. Em sintonia com o Papa defendeu uma recuperação da “economia real” que produza “bens e valores tangíveis”. Também devem ser subtraídas à lógica do lucro as “empresas de caráter estratégico, que satisfaçam necessidades sociais primárias” e deve-se “reafirmar o seu papel público”. Finalmente, para este magistrado italiano, é preciso reorientar “o fim último da produção”, que deve partir “da pessoa humana, das suas necessidades e das suas expectativas”.

Para corrigir os desvarios do atual sistema económico é decisivo, segundo o líder do Senado, o empenhamento na luta contra a corrupção e o que apelida de “capitalismo criminoso” que acolhe “sem escrúpulos” capitais “sem olhar às suas origens”. Que “não distingue o dinheiro que vem do trabalho, do engenho, da produção ou do empenho, do dinheiro de origem oculta, que resulta do crime, da exploração dos pobres ou o dinheiro de sangue”. Segundo o senador, o sistema económico deve ser reorientado para “o fim único de combater a pobreza e a miséria em coerência com o valor da solidariedade humana e cristã, da misericórdia, destinando os lucros a ajudar os últimos, os fracos, os marginalizados”.

Pietro Grasso apelou a “um verdadeiro sobressalto ético da sociedade civil e da política que imponha aos Estados novas linguagens e novos modelos de relacionamento fundeados, não nos interesses, mas nos princípios e valores”.

Já agora, que resgatasse igualmente a política da subserviência à finança!

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/04/2015)

sexta-feira, 27 de março de 2015

Os sem-abrigo no museu

Sem-abrigo na Capela Sistina
Foto retirada daqui
O Papa Francisco na Evangelii Gaudium criticou “a economia da exclusão e da desigualdade social” (nº 53) e pediu aos políticos o empenhamento numa melhor distribuição da riqueza, na criação de emprego e na “promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo” (nº204). Recordou aos peritos financeiros e aos governantes as palavras de S. João Crisóstomo: “Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos” (nº 57).

Desde que vive no Vaticano, tem sido sensível às necessidades dos sem-abrigo que dormem na colunata de Bernini e nas soleiras dos palácios à sua volta. De entre muitas das suas iniciativas algumas têm sido amplamente noticiadas, como a instalação de sanitários onde eles pudessem tomar banho e cortar o cabelo. Bem como a distribuição de quatrocentos sacos-camas pelas ruas de Roma.

Estes e outros gestos do Papa podem ser facilmente catalogados como mero assistencialismo, ainda que traduzam a sua preocupação com aqueles que lhe estão mais próximo e a ânsia de fazer o que está ao seu alcance para aliviar os seus sofrimentos.

Contudo, não se tem ficado por aí.

No domingo passado, os mais pobres foram escolhidos para entregar os Evangelhos aos milhares peregrinos presentes na Praça de São Pedro. “Hoje ofereço-vos a todos vós que estais na Praça um presente: um Evangelho de bolso. Será distribuído gratuitamente por algumas pessoas sem teto, que vivem em Roma (…). Os mais necessitados são os que nos dão a Palavra de Deus”, disse o Papa.

Ontem, cento e cinquenta sem-abrigo visitaram gratuitamente os museus do Vaticano e comeram nos seus restaurantes. A visita foi promovida pelo arcebispo polaco Konrad Krajewski, responsável da Esmolaria Apostólica – a instituição da Santa Sé que se encarrega dos mais pobres – que guiou a visita. Desta forma “os mais carenciados, que geralmente apenas têm acesso à escadaria exterior à colunata da Praça de São Pedro” tiveram a oportunidade de “apreciar o património artístico do Vaticano”, de acordo com uma nota divulgada pela Santa Sé.

Estes são dois exemplos do empenhamento do Papa em elevar os mais pobres. E em investir na sua promoção integral, seja ela física, espiritual ou cultural.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/03/2015)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Descongelar o concílio

Foto retirada daqui
O Vaticano II permitiu que a liturgia da Igreja pudesse ser celebrada na língua de cada povo e cultura. Essa foi a reforma conciliar que mais rapidamente se tornou efetiva, ainda antes de estar concluído. Foi um sinal claro do desejo de dialogar com o mundo na sua língua. O Papa Francisco quer que a Igreja, depois de ter “aprendido” a falar o vernáculo agora aprofunde a experiência e a linguagem da misericórdia.

Logo no primeiro Angelus a que presidiu, quatro dias depois de ser eleito, falou da misericórdia, como a palavra que “muda o mundo”. Na mensagem para esta Quaresma expressou o desejo de que as comunidades católicas se tornassem “ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença”.

No dia em que se completaram dois anos do seu pontificado proclamou um Ano Santo dedicado a essa temática, para comemorar os cinquenta anos do Vaticano II. De acordo com o comunicado de imprensa da Santa Sé, ao iniciar-se no dia em que se encerrou o concílio, o próximo dia 8 de dezembro, “adquire um significado particular, impelindo a Igreja a continuar a obra começada com o Vaticano II”.

Para o diretor do sítio “Religión Digital”, José Manuel Vidal, o Papa está a “descongelar” o concílio e “como alguns, na Cúria e nos círculos mais conservadores, lhe continuam a pôr areia na engrenagem das suas reformas, Bergoglio convoca as massas e põe a sua primavera nas mãos das ondas de peregrinos que chegarão a Roma durante o Jubileu”.

Alguns, mesmo entre nós, defendem que já não basta “descongelar” o Vaticano II, impõe-se convocar um novo concílio. Para o Papa parece que basta tornar efetiva a reforma conciliar, que não pode ficar-se pela introdução do vernáculo na liturgia, mas ir muito além.

Seja através de um novo concílio ou pelo aprofundamento do caminho iniciado há cinquenta anos, o que parece evidente é que a Igreja precisa de continuar a abrir-se ao mundo, como desejava João XXIII e de sair de si como tem proposto o atual Papa. Que prefere “uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”, como escrevia na Evangelii Gaudium”. Este é mais um passo para ir ao encontro das “periferias geográficas e existenciais”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/03/2015)

sexta-feira, 13 de março de 2015

Missa na própria língua

Foto retirada daqui
Uma das mudanças introduzidas pelo Concílio Vaticano II foi a possibilidade de se celebrar na própria língua. Uma reforma que se tornou efetiva ainda antes do encerramento dos seus trabalhos, a 8 de dezembro de 1965. Uns meses antes, a 7 de março desse ano, Paulo VI celebrava a primeira missa em italiano.

Este sábado, o Papa Francisco presidiu à eucaristia na mesma igreja, em Roma, onde há cinquenta anos o seu antecessor inaugurava essa prática que rapidamente se estendeu a todo o mundo. Em Portugal o primeiro missal em português é publicado no final desse ano, com autorização eclesiástica dada a 22 de agosto.

Com a tradução da liturgia para a língua própria de cada comunidade, a compreensão do que se celebrava deixou de ser exclusiva do clero e de mais alguns que sabiam latim. Foi dada a possibilidade aos fiéis de entenderem o que se celebra, em vez de assistirem a um espetáculo sacro numa linguagem estranha.

Contudo, cinquenta anos depois dessa alteração, para muitos a missa continua a ser algo a que se assiste, ainda incompreensível e, apesar de ser no seu idioma, é quase como se fosse em latim. Ainda muito há a fazer para corrigir uma atitude passiva que cinco séculos de missas tridentinas incutiram nos fiéis.

Entretanto, também não desapareceram os saudosistas dos tempos em que o padre celebrava de costas para o povo. Em que só a ele era permitido recitar a oração que o Senhor nos ensinou: o Pai-nosso. Conseguiram, mesmo, que Bento XVI, em 2007, lhes concedesse a possibilidade de voltarem a assistir à missa tridentina. São os que continuam a considerar o latim como o mais adequado para os textos litúrgicos, conferindo-lhe mesmo uma auréola de língua sacra. Esquecem-se que Jesus não falou nem latim, nem grego, nem sequer hebraico. Utilizava a língua do povo: o aramaico.

Se Jesus se esforçou para falar uma linguagem que todos entendessem, então a Igreja deve fazer esse mesmo esforço. O Vaticano II deu um passo significativo, há cinquenta anos, para tornar mais acessível a sua liturgia e a sua pregação. Ora, é uma incumbência de todos, sobretudo os que presidem às celebrações, dar continuidade a este desígnio do concílio. E estimular nas comunidades uma participação mais ativa na liturgia e na vida da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/03/2015)

sexta-feira, 6 de março de 2015

Um grande Bispo

Primeiro número do Mensageiro de Bragança
Foto retirada de diocesebm.pt
D. Abílio Vaz das Neves era bispo de Cochim, na Índia, quando foi escolhido para ser bispo de Bragança, a 8 de Dezembro de 1938. Amanhã cumprem-se trinta e cinco anos sobre a sua morte. Em tempos conturbados, entre a II Guerra Mundial e a Guerra Colonial, e numa diocese com parcos recursos, conseguiu deixar uma obra assinalável. Concluiu o edifício onde funciona o seminário, construiu colégios e um patronato para rapazes.

Fundou também uma congregação religiosa feminina. Criou o jornal “Mensageiro de Bragança”. Reorganizou a catequese, que era, à época, considerada modelar no país. Deu um grande impulso aos movimentos laicais. E investiu na formação dos futuros padres, reformando o seminário diocesano.

Apesar deste dinamismo, há cinquenta anos, D. Abílio terá sido o primeiro bispo a resignar antes de atingir os 75 anos, a idade prevista desde o Concílio Vaticano II. Até então os bispos não eram obrigados a resignar e permaneciam à frente da diocese até à morte. Justificou então o seu pedido por não se sentir com forças para implementar a reforma conciliar, uma desculpa que surpreendeu. E, logo na altura, se suspeitou da intervenção do poder político.

Segundo escreveu recentemente Henrique Ferreira, no “Mensageiro de Bragança”, a razão foi essa: “D. Abílio foi vítima da sua solidariedade para com o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, expulso do país entre 1959 e 1969 pelo regime político de Salazar. Na sua passagem por Bragança, foi acolhido no Paço Episcopal. Como castigo, Salazar retirou os apoios à construção da catedral (um projeto desse tempo) sob pressão dos líderes locais, e acabou por influenciar a substituição do Bispo” de Bragança.

D. Abílio não conseguiu, assim, concluir um dos muitos projetos em que se empenhou: construir a catedral. Uma aspiração adiada desde 1770 e que só viria a concretizar-se em 2001.

Um dos segredos do sucesso de D. Abílio era saber colocar a pessoa certa no lugar certo. E, apesar de ter um clero numeroso, quando, mesmo assim, este faltava, ia-o buscar fora. Como foi o caso do cónego Formigão, sacerdote de Lisboa, que veio para Bragança com a missão de refundar o seminário.

Por tudo isto, D. Abílio é hoje uma personalidade inspiradora para os momentos difíceis que atravessamos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/03/2015)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Em torno do Papa

Papa celebra no Cenáculo
Foto: AFP PHOTO/ POOL/ ANDREW MEDICHINI  retirada daqui
Três cardeais criaram um grupo de apoio ao Papa a que deram o nome de “Cenáculo do Papa Francisco”. Na intimidade do Cenáculo, Jesus tomou a última ceia com os seus apóstolos para, depois, enfrentar a sua paixão e morte na cruz. Deixou-lhes as suas últimas recomendações e a promessa de estar sempre com eles.

Walter Kasper, Francesco Coccopalmerio e Gualtiero Bassetti, cardeais próximos do Papa, agregaram a si outros clérigos e leigos, homens e mulheres, teólogos e jornalistas, e organizam-se para difundir as ideias do Papa cerrando fileiras contra os “lobos” que continuam a acossar o líder da Igreja Católica – relata o sítio de informação religiosa “Religión Digital”, que classifica esta iniciativa como um “clube de defensores das reformas de Bergoglio”.

Juntaram-se para, em primeiro lugar, “defender o papado e o atual bispo de Roma”; e, em segundo, “difundir o seu pensamento, as suas ideias sobre a Igreja, a sua teologia do povo e para o povo, a sua sensibilidade evangélica e a sua proximidade a toda o tipo de pessoas, sejam quais forem as suas ideias e crenças”, declarou a esse sítio o teólogo José María Castillo.

Para este sacerdote jesuíta é mais relevante “defender a vida das pessoas, a dignidade dos seres humanos, os direitos de todos”, do que “defender ‘dogmas’ e a ‘ortodoxia’ doutrinal”, ainda que isso seja importante. Esse posicionamento está alinhado com o Papa que está “profundamente convencido que só mediante o Evangelho, feito vida em nós, a Igreja tem sentido e pode cumprir a sua missão no mundo”.

Seria bom que nas dioceses espalhadas pelo mundo se replicasse essa ideia e surgissem grupos que congregassem personalidades relevantes em torno das ideias do Papa Francisco. E que fizessem a sua inculturação no contexto local em que professam a sua fé.

Esse grupo poderia – se constituído por peritos de diferentes áreas – refletir sobre a atualidade. E, à luz do Evangelho, da Doutrina Social da Igreja e das palavras do Papa, assessorar o bispo de cada Diocese nas suas tomadas de posição públicas. O resultado seria que estas teriam uma fundamentação maior do que a habitual e, em consequência disso, um impacto mais relevante nos órgãos de comunicação social e na formação da opinião pública.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/02/2015)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Tocar o leproso

Foto retirada daqui
As periferias e os marginalizados ganharam o lugar central nas preocupações e no discurso do Papa Francisco.

No tempo de Jesus, os leprosos eram obrigados a viver fora do acampamento ou das povoações para “salvar os sãos”. Marginalizava-se o “perigo” sem compaixão para com o contagiado, “para proteger os justos”, recordou o Papa na homilia do domingo passado.

Quem ousasse tocar o leproso sujeitava-se à mesma pena, viver à margem da sociedade. Jesus não hesitou em tocar o leproso, para o curar e reintegrar. Como não se coibiu de conviver com os pecadores, os publicanos e as prostitutas, apesar da recriminação dos “puros” – os doutores da lei, os fariseus ou a casta sacerdotal.

São abordagens diferentes que no evangelho se confrontam e que continuam a verificar-se nos nossos dias. “Hoje, às vezes, também acontece encontrarmo-nos na encruzilhada destas duas lógicas: a dos doutores da lei, ou seja: marginalizar o perigo afastando a pessoa contagiada; e a lógica de Deus: este, com a sua misericórdia, abraça e acolhe, reintegrando e transformando o mal em bem, a condenação em salvação e a exclusão em anúncio”, disse o Papa.

Jesus ilustrou a lógica da misericórdia com as parábolas da ovelha perdida, da moeda encontrada e do filho pródigo (Lc. 15). Desafia os seus discípulos a deixarem as noventa e nove para ir à procura da que anda perdida. Hoje como ontem, não faltam os que têm medo de abandonar as noventa e nove “justas” para se aventurar à procura da que se afastou do rebanho. E tudo fazem para as proteger do contágio das que andam tresmalhadas. Por vezes nem se apercebem que nas últimas décadas, em vez de uma, foram noventa e nove as que se afastaram de uma Igreja que resiste em sair de si. Cristalizada numa “casta” de puros, com receio de se deixar contaminar pelo mundo.

O Papa advertiu os cardeais e os cristãos, neste Domingo, para que “não se sintam tentados a estar com Jesus sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial”.

Depois de ter proposto o evangelho da alegria, na sua primeira exortação apostólica, agora enuncia o evangelho dos marginalizados. Porque, conclui o Papa, “é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade!”

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/02/2015)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Passos decididos

Foto Lusa retirada daqui
Há dois anos Bento XVI tornava pública a sua resignação. Um gesto inesperado que abriu caminho ao advento de Francisco. Desde então sentiram-se na Igreja ventos de renovação.

Precisamente um mês após a sua eleição, a 13 de Abril de 2013, o Papa Francisco criou o conselho composto por nove cardeais (C9), oriundos dos cinco continentes, para o coadjuvar no governo da Igreja. Começou a funcionar em Setembro desse ano e apresentou ontem as suas primeiras propostas para a reforma da Cúria aos cardeais de todo o mundo. Estes estão reunidos no Vaticano, num Consistório que já inclui aqueles que irão receber o barrete cardinalício amanhã.

O C9 não está a criar uma nova Igreja, mas, em sintonia com o Papa, estão a contribuir para que se respire “um ar fresco” e se dê “um passo em frente” em muitas matérias, como disse um dos seus membros, o cardeal Reinhard Marx, numa entrevista ao sítio “Religión Digital”.

Alguns dos passos que a Igreja tem dado recuperam ideias que o Concílio Vaticano II propôs, outros aprofundam preocupações dos últimos Sumo Pontífices. E outros aventuram-se por caminhos nunca antes trilhados.

A “desclericalização” da Cúria e a atribuição de papéis relevantes aos leigos na sua orgânica retoma a perspetiva conciliar da dignificação do laicado, deixando de o subalternizar em relação ao clero. Um exemplo disso é a Pontifícia Comissão para Tutela dos Menores, constituída por leigos e clérigos, onde os primeiros têm um papel relevante.

Esta semana decorreu em Roma uma reunião plenária dessa comissão, a qual propôs a responsabilização dos bispos, e dos responsáveis de congregações religiosas, nos casos de negligência ou de tentativa de encobrimento de comportamentos pedófilos no interior das suas comunidades. Intensifica-se, assim, a luta contra a pedofilia iniciada por João Paulo II e aprofundada por Bento XVI.

O acolhimento pastoral às famílias em situações irregulares é um dos caminhos em que a Igreja se está a aventurar e que tem motivado algumas das críticas mais contundentes ao Papa, vindas dos que se opõem a qualquer flexibilização da doutrina católica sobre o matrimónio.

Deseja-se que, apesar dessa oposição interna, os ventos de mudança continuem a soprar e a renovar a multissecular Igreja Católica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/02/2015)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Escolas em rede

Foto retirada daqui
A Igreja não deve limitar-se a denunciar o que está errado, tem de comprometer-se na promoção de soluções para os problemas do mundo em que está inserida. Disso é um bom exemplo a atuação do Papa Francisco. Quando ainda era cardeal de Buenos Aires, para além de estar atento ao que acontecia à sua volta, envolvia-se em projetos para promover a inclusão e a sadia convivência entre diferentes mundividências.

O cardeal Bergoglio acreditava que a construção de um mundo melhor teria de envolver a juventude. As situações de violência, de marginalização e de egoísmo que assolam o mundo exigem um investimento numa educação intercultural e inter-religiosa que habitue os mais jovens a conviver e a respeitar o diferente. Com esse objetivo impulsionou os programas “Escola de Vizinhos” e “Escolas Irmãs”. No primeiro os estudantes eram desafiados a identificar as problemáticas que afetavam a escola, o bairro ou a cidade e, através do seu envolvimento numa “perspetiva construtiva”, apresentarem propostas e colaborarem na sua resolução. O segundo, promovia redes entre escolas e estudantes, em contextos diferentes, que partilhavam experiências e iniciativas, entreajudando-se.

Estas duas iniciativas estiveram na génese do “Scholas occurrentes”, um organismo integrado na Pontifícia Academia das Ciências do Vaticano, que tem como principal objetivo promover a inclusão social e a cultura do encontro através da tecnologia, da arte e do desporto. O “Scholas” agrega já mais de quatrocentas mil escolas, numa rede que abarca os cinco continentes e dedica uma especial atenção às que têm menores recursos. Terminou ontem o seu congresso mundial, que reuniu em Roma alunos, professores e peritos de quarenta países. Foram apresentados projetos educativos de sucesso e diferentes exemplos de atividades desportivas e artísticas, as quais promovem a atenção às necessidades do outro e à cultura do encontro. E acalentam a esperança de um futuro mais pacífico para o mundo.

São dinâmicas como esta que desafiam os cristãos e a sociedade a abandonar a esterilidade de uma crítica ácida e destrutiva. E que os mobilizam para vencer a resignação perante os males do mundo e a acreditar que é sempre possível fazer alguma coisa, mesmo perante os problemas mais difíceis e complexos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/02/2015)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Sacerdócio no feminino

Ordenação episcopal de Libby Lane
Foto retirada daqui
A ordenação episcopal de uma mulher na Igreja Anglicana serviu de pretexto para se questionar a recusa da Igreja Católica ao sacerdócio no feminino. A forma como a questão é posta pode traduzir uma forma errada de entender o ministério ordenado e, até, contrária às perspetivas rasgadas pelo Concílio Vaticano II.

Os padres conciliares, há 50 anos, abandonaram uma conceção piramidal da Igreja e definiram-na como Povo de Deus em que todos os fiéis têm a mesma dignidade (Cf. Lumen Gentium, 32). A ordenação de alguns não os promove, antes os coloca ao serviço dos demais. “O sacerdócio ministerial é um dos meios que Jesus utiliza ao serviço do seu povo, mas a grande dignidade vem do Batismo, que é acessível a todos”, recordou o Papa Francisco (Evangelii Gaudium, 104).

Reclamar o acesso das mulheres ao sacerdócio, como um direito que lhes assiste, ou considerar que não enveredar por esse caminho é um menosprezo pelo papel da mulher na Igreja, pode, mesmo sem o pretender, contribuir para acentuar a ideia de que os clérigos são uma casta superior vedada ao género feminino.

O Vaticano II recordou que ser cristão não se reduz a uma relação pessoal e íntima com Deus, mas exige a vivência da fé e a sua celebração com os outros (Cf. Lumen Gentium, 9). A vitalidade de uma comunidade cristã traduz-se, assim, pela atenção aos mais desfavorecidos, pelo dinamismo missionário que brotam de uma fé esclarecida e por uma intensa vida de oração.

Uma comunidade viva deveria também gerar os seus líderes, homens ou mulheres, casados ou solteiros. E, se estes reunissem as condições consideradas adequadas, poderiam presidir à celebração da Eucaristia, perdoar os pecados e ungir os doentes. Ao fazê-lo, não seriam superiores, mas somente desempenhariam uma tarefa diferente entre iguais. Para garantir a unidade e a comunhão com a Igreja na sua catolicidade teriam no bispo a sua referência, como o maior servidor da comunidade diocesana, e no Papa o garante da unidade na diversidade das diferentes igrejas.


É neste enquadramento que deve ser refletido o ministério ordenado, bem como a sua atribuição a homens ou mulheres, casados ou solteiros. Fazê-lo numa perspetiva individualista de reivindicação de um direito pessoal, ou de género, é um erro.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/01/2015)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os “coelhos” do Papa

Foto retirada daqui
A bordo do avião, no regresso das Filipinas, o Papa não falou só de coelhos. Falou também de “um país que sabe sofrer”. E não se esqueceu dos pobres, “as vítimas desta cultura do descarte”. Denunciou o terrorismo de Estado que lança os cidadãos na pobreza e dos que dela se aproveitam para fazer uma “colonização ideológica”. Ergueu a voz contra a corrupção e os corruptos, que roubam o povo.

Como é normal e natural, o que mereceu um maior destaque e gerou uma maior discussão foi a alusão à paternidade responsável, por causa da formulação utilizada pelo Papa: “Creem alguns – desculpem a frase – que, para ser bons católicos, devem ser como coelhos”.

Esta expressão foi logo aproveitada para sublinhar a aparente contradição entre o apelo à paternidade responsável e a rejeição dos métodos anticoncetivos artificiais. Como se estes fossem o única forma de exercer a responsabilidade na procriação e assumindo que a Igreja é contra eles liminarmente. Porém, Bento XVI, há cinco anos, admitiu o uso do preservativo em determinadas circunstâncias. E Paulo VI, como recordou o Papa Francisco, defendeu a anticoncepção natural mas recomendou “aos confessores para serem misericordiosos, compreensivos” para com os problemas pessoais nestas matérias.

Nestes como noutros assuntos, a Igreja tem vindo a abandonar um discurso fundamentalista e a concentrar-se naquela que deve ser a sua preocupação: anunciar valores e denunciar o seu atropelo. Mais importante do que dizer se se pode ou não usar o preservativo, a Igreja deve, antes, apelar à responsabilidade dos pais para colocarem no mundo os filhos que devem. E isto poderá implicar, para alguns, não procriarem mais e, para outros, serem mais generosos e não cederem à tentação de se ficarem pelo filho único.

É isso que predominantemente acontece na Europa e em particular em Portugal, o qual, segundo o Eurostat, registava em 2012 a mais baixa taxa de fecundidade da União Europeia. A média europeia é de 1,58 filhos por cada mulher fértil. Em Portugal chega apenas aos 1,28, enquanto na Irlanda e na França, os países com o valor mais elevado, se fica pelos 2,01. Muito longe dos três filhos por casal que, “de acordo com o que dizem os peritos – mantêm a população”, como lembrou o Papa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 23/01/2015)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O crente não odeia

Encontro inter-religioso no SriLanka
(Foto: AP Photo/Ettore Ferrari)
A guerra, o terrorismo e a violência continuam a manchar a história da humanidade com o sangue derramado de inúmeras vítimas inocentes. Em muitos dos conflitos, aos interesses económicos, políticos, étnicos são associadas de forma ilegítima motivações pretensamente religiosas, como reconheceram os participantes do encontro inter-religioso que decorreu no Vaticano em Outubro de 1999. E denunciaram com clareza que “não existe finalidade religiosa que possa justificar a prática da violência do homem sobre o homem”.

O Papa Francisco disse, na visita ao Sri Lanka, que “não se deve permitir que as crenças religiosas sejam utilizadas para justificar a violência e a guerra”. Falava num encontro que reuniu budistas, hinduístas, muçulmanos e cristãos. Num país que até 2009 sofreu vinte e seis anos de uma guerra civil com crenças religiosas à mistura. A etnia tâmil, maioritariamente hindu pretendia a independência do norte do país, cuja população é maioritariamente budista.

O Papa disse ainda que “o verdadeiro culto a Deus não leva à discriminação, ao ódio ou à violência, mas ao respeito pela sacralidade da vida, ao respeito pela dignidade e a liberdade dos outros e a um solícito compromisso em prol do bem-estar de todos”. Estas palavras foram proferidas durante a canonização do Pe. José Vaz, missionário português no Sri Lanka durante 24 anos, onde morreu em Janeiro de 1711. Gastou-se ao serviço dos mais necessitados, sem fazer distinção de etnia ou credo, durante o período conturbado em que os holandeses calvinistas e os portugueses católicos se guerreavam pela posse daquele território.

Um crente só consegue conviver e dialogar com pessoas com opções diferentes das suas despindo-se de todo o fundamentalismo e de toda a intolerância. A Igreja Católica demorou séculos para o fazer e conseguir conviver com as outras religiões. Só a partir do Concílio Vaticano II passou a olhar com respeito para as outras crenças. Alguns sectores no seu interior e noutras confissões religiosas ainda precisam de completar esse caminho para que não mais se volte a fazer a guerra em nome de uma falsa imagem de Deus, ou de uma fé que se diz religiosa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 16/01/2015)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O fundamentalismo

Foto retirada daqui
O Papa Francisco condenou o atentado em Paris e classificou-o como “abominável, jamais justificável”. Para um crente, e sobretudo para um cristão, este atentado é ainda mais execrável porque é pretensamente cometido em nome de Deus e de uma fé que condena à morte os que pensam e são diferentes de nós.

A epístola de S. João diz claramente que, “se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo. 4, 20). Os fundamentalistas, mesmo dentro do catolicismo, colocam fora da fraternidade universal os não crentes. Irmão é só o que acredita, ou, no nosso caso, o batizado.

Na verdade, porém, Jesus Cristo sintetizou toda a Lei num único mandamento: o amor a Deus e ao próximo. Propositadamente, na parábola que ilustra o amor ao próximo, coloca um samaritano a prestar auxílio a um judeu. Ou seja o amor ao próximo vence as barreiras do preconceito, das rivalidades e dos ódios religiosos. Deve mesmo abarcar os inimigos. “Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt. 5, 43-44).

Contudo, e apesar do que está escrito, também se matou e continua a matar em nome de um errónea conceção da fé cristã. Continua a matar-se porque, para Jesus, matar não é só tirar a vida, mas irar-se contra o outro (Mt. 5, 22). Basta percorrer as redes sociais para se constatar tanto ódio que é destilado por católicos fundamentalistas para com os que põem em questão o que eles consideram a doutrina ortodoxa e imutável.

Presumo que o ódio, e a execução dos que pensam diferente de nós, também não seja o verdadeiro Islão, mas uma conceção distorcida dos ensinamentos do profeta Maomé. O Papa, há um mês, na visita à Turquia, apelou aos líderes políticos, religiosos e académicos que professam a fé em Alá que condenem a violência e digam claramente: “Isto não é o Islamismo”.

Já alguns o têm feito. E, no rescaldo deste ignóbil atentado contra a liberdade de expressão, vários o têm feito com clareza. Pena é que dificilmente serão ouvidos, porque quem se deixa aprisionar pelo fundamentalismo não consegue ouvir ninguém.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 09/01/2015)