sexta-feira, 29 de julho de 2016

“Je suis prêtre”

O ataque a uma igreja em França e o assassinato do padre Jacques Hamel culmina uma série de atentados a símbolos da cultura francesa e ocidental.

O primeiro, desta série, atingiu o Charlie Hebdo e foi lido como um ataque à imprensa satírica e à liberdade de expressão. Levou muitas pessoas a declararem-se “Je suis Charlie”. Seguiu-se-lhe o ataque a um concerto rock e a um jogo de futebol (este falhado), dois símbolos da diversão que congrega multidões. Ambos tiveram uma cuidada planificação – e uma clara ligação ao Daesh.

Já o ataque de Nice partiu da iniciativa de alguém transtornado que os terroristas muçulmanos se apressaram a reivindicar, apesar de em nada terem contribuído na sua planificação e execução, a não ser fornecer inspiração. Acabou, mesmo assim, por atingir dezenas de pessoas que festejavam o dia nacional de França, celebrando os valores da fraternidade, igualdade e liberdade: os valores da revolução francesa, os quais, curiosamente, estiveram na génese da última grande perseguição religiosa na Europa, com a morte de muitos religiosos e a profanação de igrejas. Também em Portugal, nas lutas liberais e na implantação da República, se passaram coisas semelhantes.

Apesar da consternação que provocou a morte de um sacerdote em plena celebração, em algo que ultrapassou o ataque à liberdade religiosa, não se verificou nenhum movimento de pessoas a declararem-se “Je suis prêtre” (eu sou padre) ou “Je suis catholique”. Na verdade, houve muito maior solidariedade e indignação pela violação da liberdade de expressão do que agora neste ataque ao que os árabes consideram um símbolo da sociedade ocidental.

Os ocidentais não se reveem na maior das suas religiões. E têm mesmo pudor em declarar, nem que seja por solidariedade, “Eu sou católico”. É um sinal dos tempos numa cultura que rejeita as suas raízes e até se envergonha em manifestar a sua fé.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/07/2016)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A porta-voz do Papa

O Papa Francisco já reconheceu por diversas vezes que a mulher é marginalizada na Igreja e tem-se empenhado em corrigir esta situação. Por isso, tem introduzido algumas inovações, de carácter simbólico, em tradições multiseculares. Foi o caso de admitir mulheres no lava-pés ou a promoção a festa da celebração litúrgica de S. Maria Madalena, que acontece hoje pela primeira vez.

Na Igreja, as celebrações litúrgicas podem ter quatro categorias. As datas com menor relevância são celebradas como memória facultativa – o celebrante pode mencioná-las ou não; as que têm uma relevância maior são memória obrigatória para todo o mundo. Há ainda a classificação de “festa”, para as celebrações mais importantes, e de “solenidade”, para as datas mais significativas para os católicos, como celebrar S. Pedro e S. Paulo, o Corpo de Deus ou o Natal. S. Maria Madalena foi elevada de memória obrigatória à categoria de festa.

Recentemente, o Papa tomou outra decisão que promove a mulher no seio da Igreja. Para substituir o diretor da Sala da Imprensa da Santa Sé, o P. Federico Lombardi, escolheu dois jornalistas: o norte-americano Greg Burke, como diretor, e a espanhola Paloma García Ovejero, como vice-diretora. Pela primeira vez, uma mulher vai desempenhar as funções de porta-voz do Papa.

Esta nomeação, para além de trazer uma mulher para a primeira linha da comunicação institucional da Igreja, revela a preocupação da Santa Sé em se expressar, não só em italiano, mas também nas duas principais línguas do catolicismo: o inglês (a língua franca do mundo contemporâneo) e o espanhol (a língua mais falada pelos católicos no mundo).

Nesta geometria linguística ficou de fora o português. Uma pena, porque o país com mais católicos é o Brasil (125 milhões) e o país mais católico do mundo é Timor-Leste (97% da população) – e ambos falam português. Esperemos que o Papa corrija esta falta.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/07/2016)

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A fé do treinador

Fernando Santos, selecionador nacional de futebol
Foto: Carlos Barroso, retirada 
daqui
Na conferência de imprensa da final do Euro 2016, Fernando Santos, o selecionador nacional de futebol, surpreendeu os jornalistas ao ler um texto antes de responder às suas questões. Esse texto foi escrito quando muitos criticavam a seleção e desconfiavam do seu sucesso. Nessa altura, todavia, ele continuava a acreditar e escreveu o discurso da vitória.

Nas suas primeiras palavras agradeceu a Deus a vitória. Refere todos os que contribuíram para ela e as pessoas que lhe são mais próximas. Termina a dedicar a vitória a Jesus Cristo e à sua Mãe e a agradecer-lhe por “ter sido convocado” e por lhe ter sido concedido “o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado”.

É frequente muitos dos protagonistas do desporto rei terem gestos religiosos, como o sinal da cruz ao entrar em campo, e até agradecerem a Deus os seus sucessos. Contudo é muito raro ouvir-se testemunhar a fé com a clareza e a profundidade de Fernando Santos. As suas palavras não foram de circunstância, antes o resultado de uma vivência interior profunda que soube transmitir com verdade. Não foi pelo que disse, nem pela forma, mas pela sua autenticidade que recolheu os aplausos dos que assistiam.

Ficou também bem patente a sua leitura crente dos acontecimentos. Como crente, acredita que Deus lhe confiou a missão de conduzir a seleção nacional. Que não o abandonou, mesmo quando muitos dele desconfiavam. E, por isso, é com humildade que Fernando Santos recolhe o sucesso e o converte num voto de tom jesuítico: “Espero e desejo que seja para glória do Seu nome”. O lema proposto por S. Inácio de Loiola aos jesuítas é: “Ad maiorem Dei gloriam” (Para maior glória de Deus).

A Igreja Católica precisa de mais crentes que consigam dar testemunho da sua fé, desta forma autêntica e esclarecida, no púlpito dos meios de comunicação social.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/07/2016)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Bento revolucionário

Papa Francisco e o Papa Emérito Bento XVI
Foto retirada daqui
O Papa Francisco deu uma entrevista ao jornal argentino “La Nación”. Nela aborda sobretudo questões que interessam aos leitores do seu país. Rejeita ter um relacionamento tenso com o presidente argentino. E fala da polémica receção no Vaticano de uma das mães da Praça de Maio, que no passado criticou duramente o então cardeal Bergoglio.

A entrevista coincidiu com a celebração dos 65 anos de ordenação sacerdotal de Bento XVI. Por isso, deste lado do Atlântico, o que mereceu maior destaque foi a forma carinhosa como o Papa se referiu ao seu antecessor e como o classificou a sua renúncia.

“Foi um revolucionário (…). É de louvar o seu desprendimento. A sua renúncia expôs todos os problemas da Igreja. A sua abdicação não teve nada que ver com nada pessoal. Foi um ato de governo, o seu último ato de governo”, disse o Papa acerca de Bento XVI.

Quando ainda perdura na opinião pública (e na publicada...) a imagem conservadora e até retrograda do cardeal Ratzinger, é o próprio Papa que o considera um pontífice avançado. Mas, mais relevante do que isso, foi ter destacado a principal virtualidade da sua resignação: o seu desprendimento obrigou a Igreja a confrontar-se com a podridão que campeava no seu interior. Esse tratamento de choque, não só permitiu o advento de Francisco, como facilitou a sua intervenção em ordem à reforma da Cúria Romana e da Igreja no seu todo.

Com estas palavras de Francisco, a histórica resignação de Bento XVI ganhou o um novo sentido. Mais do que uma desistência, ou o reconhecimento de uma incapacidade para promover a reforma, trata-se de um verdadeiro ato promotor da renovação da Igreja.

A forma como o Papa Francisco trata e considera o seu antecessor, bem como a forma como este tem exercido a sua condição de Papa emérito – dizem bem da enorme estatura destes dois homens. Em vez de se atrapalharem, apoiam-se e promovem-se reciprocamente.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/07/2016)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Vaticano e os pobres

Foto retirada daqui
O Papa Francisco dedica aos mais pobres uma atenção privilegiada. Na Evangelii Gaudium escreveu: “O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los” (nº58).

No mesmo texto adverte que “o crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha – requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo”.

Em sintonia com o Papa, o Pontifício Conselho Justiça e Paz promoveu, em 2014, um congresso para refletir sobre o investimento ao serviço do bem comum, na linha da Evangelii Gaudium. “A solidariedade com os pobres e com os excluídos estimulou-vos a refletir sobre uma forma emergente de investimento responsável, conhecida como Impact Investing”, disse então o Papa aos congressistas. E desafiou-os a “estudar formas inovadoras de investimento, que possam proporcionar benefícios às comunidades locais e ao ambiente circunstante”.

Durante esta semana reuniram-se no Vaticano académicos, políticos e clérigos para estudar o impacto dos investimentos no combate à pobreza. Este ano pretende-se aprofundar “como a Igreja Católica e outras instituições religiosas podem canalizar o resultado dos investimentos para sustentar a sua própria missão social”. E, também, como “ desenvolver estratégias para captar investimentos privados em ordem a servir os mais pobres e os mais vulneráveis”, disse o cardeal Peter Turkson, presidente da Justiça e Paz.

É importante que a Igreja, em relação à pobreza, vá vencendo a tentação do “mero assistencialismo”. E que saiba encontrar novas formas para financiar e gerir a luta contra as suas causas estruturais.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 01/07/2016)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O Papa e os presos

Papa Francisco na prisão de Ciudad Juarez, México
Foto retirada daqui
Há uma tendência para esconder as realidades que incomodam, como é o caso do envelhecimento ou da delinquência. Os idosos são “despejados” nos lares de terceira idade, os presos são amontoados em estabelecimentos prisionais – e por lá são esquecidos.

O Papa Francisco, contudo, não os esquece. E expressou o seu desejo de “incentivar todos a trabalhar, não somente pela abolição da pena de morte, mas também pelo melhoramento das condições de detenção, para que respeitem plenamente a dignidade humana das pessoas privadas de liberdade”. Disse-o numa vídeo-mensagem dirigida aos participantes num congresso mundial contra a pena de morte que terminou ontem em Oslo, na Noruega.

Em Portugal, por exemplo, as condições dos reclusos têm vindo a melhorar. No Estabelecimento Prisional de Bragança, onde sou assistente espiritual, o balde foi substituído por casas de banho nas celas e houve outras notórias melhorias. Mas muito há ainda a fazer.

Um dos principais problemas é a sobrelotação das cadeias. A 15 de Junho deste ano, segundo os dados da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, a taxa de ocupação situava-se nos 112,4%. Enquanto entre nós se verifica a necessidade de ampliar ou construir novas instalações prisionais, noutros países estas estão a ser encerradas, como acontece na Suécia e na Noruega. Aí encontraram-se outras formas de aplicar a justiça e apostou-se no acompanhamento dos que saem em liberdade.

Em Portugal, porém, há reclusos que rejeitam a saída em liberdade porque não têm para onde ir. Durante a sua reclusão nada os prepara para a vida cá fora e, muitas vezes, acabam por regressar ao mundo do crime e, mais tarde, à prisão.

É por isso imperativo apostar na prevenção. É crucial aplicar penas alternativas à prisão. E é obrigatório acompanhar, séria e empenhadamente, os que saem em liberdade. Só é justo quem tenta ajudar o seu semelhante a melhorar.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/06/2016)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Euro e a paz

Reflexões dos bispos europeus sobre a paz mundial
Foto retirada daqui
Como é normal, o Europeu de Futebol em França domina as atenções dos europeus. Mas muitas outras coisas acontecem para além dos jogos de futebol. Fora dos campos têm marcado a atualidade os desacatos entre claques, as ameaças terroristas, o assassinato de dois polícias e, a contrastar com tudo isto, a saudável confraternização entre adeptos de Portugal e da Islândia.

O Euro deveria ser uma festa das nações europeias em torno do futebol. Infelizmente, há quem aproveite estes acontecimentos para semear a violência e o terror. Será sempre de realçar, por isso, quando povos tão distantes e diferentes como o islandês e o português gostam de se misturar num estádio e confraternizam entre si.

A comunidade europeia foi sonhada precisamente para promover a paz e prevenir a guerra no Velho Continente. Contudo, enquanto decorre este Euro, ventos de desagregação varrem a Europa. Os partidos eurocéticos crescem em quase todos os países. Os europeístas convictos não conseguem reinventar o projeto europeu. A Grécia esteve à beira de sair da construção europeia e, agora, é o Reino Unido que a poderá abandonar.

Cientes disto, os bispos europeus, reunidos em Bruxelas no início desta semana, renovaram a sua profissão de fé numa Europa unida e solidária. Em ordem à promoção da paz mundial, os bispos defenderam um maior investimento na prevenção da escalada da violência; uma paz enraizada no respeito pela dignidade da pessoa e da diversidade; e um maior investimento na segurança das pessoas, de forma a que estas possam permanecer nos seus países.

As reflexões dos bispos estão vertidas num documento que termina com 21 “recomendações” concretas, nas quais não é esquecido o papel fundamental que as igrejas e as religiões podem desempenhar na construção da paz. É um documento que os líderes europeus deveriam ler e refletir. A construção europeia tem de ser relançada.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 17/06/2016)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Bispo dos sem-terra

D. Pedro Casaldáliga bispo emérito de São Félix do Araguaia, Brasil
Foto retirada daqui
Pedro Casaldáliga é um daqueles homens admirado por muitos e odiado por outros tantos. Este catalão, hoje com 88 anos, foi enviado para o Brasil, para a floresta amazónica, fundar uma missão claretiana em 1968. Acabou por ser nomeado por Paulo VI bispo de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso. Defensor de uma “democracia participativa”, submeteu a escolha do Papa a uma assembleia local constituída por religiosos e leigos. E só após a anuência desta aceitou a nomeação.

Na sua ordenação episcopal, a 23 de outubro de 1971, em vez da mitra própria dos bispos usou um chapéu de palha dos agricultores. Para báculo escolheu um bastão de madeira, típico dos indígenas tapirapé do Mato Grosso. Preferiu um anel usado pelos escravos, feito de uma semente de tucum, uma palmeira da Amazônia, a um de ouro ou prata. E, tal como o atual Papa, não habitou no palácio episcopal.

Defensor dos sem terra e dos mais pobres, depressa arranjou inimizades entre os latifundiários e junto da ditadura militar. Recebeu inúmeras ameaças de morte, mas nada o demoveu de continuar a defender os oprimidos e a lutar pela justiça. Fê-lo também através de inúmeros poemas que foi publicando ao longo dos anos. Pelas causas em que se empenhou, foi logo classificado como de esquerda e como revolucionário.

Esta semana foi apresentada em Madrid uma obra que reúne uma seleção dos seus textos, nas suas três línguas: português, castelhano e catalão. Nessa circunstância, disse-se que ele não era “nem de direita nem de esquerda”, mas “um homem intrépido”, para quem “se há algo irrenegociável é o Evangelho”. Há dias, em Lisboa, o P. António Spadaro, questionado sobre se o Papa Francisco era revolucionário, respondeu: “Revolucionário é o Evangelho”.

Homens como Casaldáliga ou o Papa Francisco não são revolucionários. São é fiéis aos valores do Evangelho de Jesus Cristo. E não se vergam a nada, nem a ninguém.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/06/2016)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Humor e fé

Fernando Ventura, Graça Morais e Maria Rueff no CACGM
Foto: Jornal Nordeste
Em Bragança, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, falou-se de Arte, Humor e Fé. Estiveram à conversa sobre este tema a própria pintora Graça Morais, o frade franciscano Fernando Ventura e a atriz Maria Rueff.

Graça Morais falou da influência da sua educação religiosa na pintura que produz. Tem obras em que é evidente o diálogo e o confronto entre o sagrado e o profano, outras em que transparecem elementos religiosos como a Pietá. E ainda outras que se inspiram em certas manifestações religiosas, como as procissões.

Maria Rueff, apesar de já ter recebido prémios pelo desempenho de papéis dramáticos, ainda é mais conhecida como cómica. Testemunhou as fricções que, por vezes, há entre a fé e o humor. Sobretudo quando o humorismo sobre temas religiosos é entendido como um “rir de” e não como “um rir com”.

Frei Fernando Ventura, com o recurso ao bom humor, ajudou por seu lado a desconstruir a ideia de que o bom sermão é o que faz chorar. Fê-lo no encontro com a pintora e a atriz e também no dia seguinte, na missa dominical da paróquia de Sto. Condestável, em Bragança. Nos dois momentos desafiou as pessoas a olhar nos olhos os seus vizinhos, depois a sorrir, de seguida a dizer “eu gosto de ti”, para culminar em “eu amo-te”. Foi surpreendente perceber que muitos não conseguiram, nem da boca para fora, dizer ao vizinho do lado – “Eu amo-te”. Quanto mais vivê-lo na vida de cada dia!

O bom sermão seria, então, aquele que levasse a pessoa a experimentar a felicidade de ser amado por Deus e desafiá-la a sair de si para fazer o outro mais feliz. Para isso é essencial ter a capacidade de olhá-lo nos olhos, de sorrir e de amá-lo.

A missa dominical não deveria ser sentida, portanto, como uma obrigação. Deve ser antes a celebração de que os cristãos necessitam para recarregar as baterias da felicidade para, durante a semana, irradiarem alegria e amor nos ambientes que frequentam.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/06/2016)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O ateu e o bispo

Marco Panella e o arcebispo Vicenzo Paglia
Foto retirada daqui
A amizade pode surgir entre pessoas que militam em campos diametralmente opostos, com opções nada compatíveis. As quais, todavia, não os impedem de desenvolver uma admiração e uma estima recíprocas.

A morte do fundador do líder do Partido Radical italiano de extrema-esquerda, Marco Panella, veio tornar mais conhecida uma dessas amizades improváveis. Um homem que se definia a si mesmo como “radical, socialista, liberal, federalista europeu, anticlerical, anti proibicionista, antimilitarista, não violento e gandhiano” era amigo do arcebispo Vicenzo Paglia, o atual Presidente do Pontifício Conselho para a Família. A quem até admitia que rezasse por ele.

Uma estranha amizade entre um libertino que defendia o divórcio a eutanásia ou a despenalização do aborto e um clérigo que se opõe frontalmente a tudo isso. Entre um ateu declarado e um crente confesso, mas que convergiam na defesa dos direitos humanos. E, cada um a seu modo, declaravam ter um espírito religioso.

D. Vicenzo Paglia reconheceu, numa entrevista ao “Corriere della Sera”, que apesar das divergências em algumas opções políticas, até o admirava por “gastar a vida em função dos ideais em que acreditava”. Algo que até levou o Papa Francisco a “apreciá-lo”. Um sentimento que era recíproco.

“Escrevo-te do meu quarto no último andar, perto do céu, para te dizer que, na realidade, eu estive contigo em Lesbos, quando abraçavas a carne torturada daquelas mulheres, daquelas crianças, e daqueles homens que ninguém quer acolher na Europa”, dizia Marco Panella, numa carta escrita na cama do hospital e entregue pelo amigo arcebispo ao Papa. Terminava essa carta com a expressão carinhosa italiana: “Ti voglio bene davvero tuo Marco” (Quero-te, muito, de verdade, o teu Marco).

Estas palavras, para além do afeto pelo Papa, demonstram bem que, para lá de tudo o que os separava, os unia a predileção pelos mais desprezados.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/05/2016)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

As mulheres na Igreja

Papa Francisco na Assembleia
das Superioras das Congregações Religiosas
Foto da REUTERS retirada daqui
O papel da mulher na Igreja Católica continua a parecer secundário, apesar de nas suas assembleias serem a maioria e desempenharem nas comunidades tarefas relevantes. Isto deve-se ao facto de lhes ser vedado o acesso à ordenação e às instância em que muitas das decisões são tomadas, entre outras razões. O próprio Papa o reconheceu perante as superioras das congregações femininas reunidas em Roma.

Desafiado nesse contexto a criar uma comissão para esclarecer se, nos primeiros tempos do cristianismo, as mulheres já terão sido ordenadas diaconisas, o Papa aceitou o repto e até valorizou como “útil” esse esforço. De facto, há documentos da antiguidade cristã que referem as diaconisas, embora não seja claro se terão, ou não, recebido o sacramento da Ordem.

Até agora, tendo como base que entre as escolhas de Jesus para apóstolos não figura nenhuma mulher, assumiu-se que a Igreja não poderia ir além das decisões do seu fundador. Foi isso que levou João Paulo II a afirmar que “a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”.

Em relação a esta posição oficial do magistério, há quem não dê a questão por encerrada e contraponha que Jesus terá tomado essa opção numa concessão à cultura patriarcal em que viveu, embora o Evangelho registe vários gestos seus desafiantes e contracorrente. Por exemplo, quando permite a uma samaritana discutir com ele teologia, o que era impensável à época. Para estes, não são razões teológicas, mas sim razões culturais que impediram até hoje a Igreja de dar esse passo.

Veremos se a tal comissão irá comprovar a ordenação de diaconisas no passado. Se tal suceder, poder-se-á pensar em restaurar essa práxis e em dar mais um passo para garantir a paridade das mulheres no seio da Igreja Católica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/05/2016)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O sonho do Papa

Papa Francisco no Parlamento Europeu a 25/11/2014
Foto retirada daqui
A construção europeia atravessa tempos difíceis. O euroceticismo tem cada vez mais adeptos. A Grécia esteve com um pé de fora e o Reino Unido pondera o abandono do projeto europeu. É neste contexto que foi atribuído ao Papa Francisco o Prémio Carlos Magno, que distingue personalidades que contribuíram para a construção da União Europeia.

Habitualmente o Papa não aceita condecorações. Decidiu, porém, aceitar esta distinção “como um gesto para que a Europa trabalhe pela paz”.

Perante uma plateia em que se destacavam alguns conhecidos políticos europeus, o Papa recuperou preocupações suas que já havia mencionado na visita ao Parlamento Europeu. E questionou: “Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, filósofos, artistas, músicos, escritores? Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações, mãe de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irmãos?” 

Com o olhar no passado, e tendo em conta as exigências do presente, o Papa propôs “um novo humanismo baseado em três capacidades: a capacidade de integrar; a capacidade de dialogar; e a capacidade de gerar”. Terminou o discurso com o seu sonho de uma “Europa jovem”, que cuide das crianças, dos jovens e dos idosos, “onde ser migrante não seja delito”. Uma Europa das famílias “que promova e tutele os direitos de cada um, sem esquecer os deveres para com todos”.

Para que o sonho se torne realidade são necessários líderes políticos da estatura dos “pais fundadores” do projeto europeu. Estadistas que consigam vencer os mesquinhos egoísmos nacionalistas e que tenham uma visão de longo prazo. Políticos diferentes das atuais lideranças, da esquerda à direita, que se limitam a gerir uma crise que não conseguiram antecipar, nem conseguem vencer. Que governam ao sabor de uma corrente adversa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/05/2016)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Pe. Telmo continua a voar nas alturas…


Pe. Telmo Batista Afonso (1929-2016)
Foto retirada daqui
O Papa Francisco, no famoso discurso à Cúria Romana nas vésperas do Natal de 2014, em que elencou as quinze doenças curiais, disse também: “Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam”.
Morreu um dos padres mais dedicados e, ao mesmo tempo, mais discretos da diocese de Bragança – Miranda: o Pe. Telmo Baptista Afonso, que voou bem alto durante toda a sua vida. Vivia e movia-se acima da lamentável e condenável coscuvilhice e maledicência eclesiástica, que demasiadas vezes se acantona e campeia nos corredores do poder, e a que, infelizmente, as dioceses não são imunes.
Nos últimos dias de vida confidenciou-me que nunca falou mal de um bispo. Quem com ele convivia pode testemunhar que ele preferia sempre realçar os aspetos positivos de uma pessoa, sacerdote ou não, do que os seus defeitos. Que habitualmente omitia.
Assumiu as mais destacadas missões na igreja brigantina. No início da sua vida sacerdotal foi professor e prefeito no seminário de Vinhais. Depois desempenhou as mesmas funções no seminário de Bragança. Foi diretor do Colégio de S. João de Brito, diretor espiritual dos Cursos de Cristandade, vigário geral e reitor do Seminário. Apesar do papel relevante que desempenhou na vida diocesana, desde os anos oitenta remeteu-se à função de humilde “cura de aldeia” na sua terra natal, o Zoio, e povoações serranas circunvizinhas.
A sua morte foi notícia no jornal diocesano. Mas a sua vida gasta ao serviço das pessoas, e na atenção às necessidades de todos, não mereceu qualquer destaque mediático. Foi um formador do Seminário dedicado aos seminaristas, de quem sabia o nome completo muitos anos depois de lhe terem passado pelas mãos.
Foi um capelão atento a todos soldados, particularmente aos mais necessitados. Nunca recebeu o salário a que tinha direito pela capelania do quartel de Bragança. Entregou-o, sempre na totalidade, para a Obra do Soldado. Visitava os presos. E, sempre que tinha algum paroquiano ou conhecido no hospital, imediatamente lhe prestava assistência. Antecipando-se mesmo ao capelão, não deixando nunca de lhe pedir autorização para o sacramentar, quando era caso disso. Comigo aconteceu por diversas vezes.
O Pe. Telmo continua agora a voar nas alturas adequadas à grandeza da sua alma. Recebe a retribuição, que tantas vezes rejeitou, pelo bem que fez ao longo dos seus 86 anos de vida…

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Papa e tecnologia

Foto retirada daqui
A Igreja precisa de atualizar a linguagem da sua pregação para ser mais eficaz. Jesus Cristo utilizou as imagens que os seus ouvintes entendiam, da agricultura, da pastorícia ou da pesca. Hoje, num mundo dominado pela tecnologia, as pessoas, sobretudo em meios urbanos, estão cada vez mais distantes do mundo rural e, por isso, serão muito mais sensíveis a comparações que utilizem os seus utensílios de todos os dias.

O Papa Francisco diz que não é muito dado às tecnologias. Já confidenciou que a rádio é ideal porque só tem dois botões: um para ligar e aumentar o volume e outro para sintonizar. Todavia, tem utilizado metáforas tecnológicas. No sábado, numa vídeo-mensagem dirigida aos participantes no jubileu dos adolescentes, no estádio Olímpico de Roma, disse de aparelho na mão que uma vida sem Cristo é como “um telemóvel sem rede”. No dia seguinte, durante a homilia, quando falava sobre o “desejo de liberdade” acrescentou: “A vossa felicidade não tem preço, nem se comercializa: não é uma ‘app’ que se descarrega do telemóvel. Nem a versão mais atualizada vos poderá ajudar a tornar-vos livres e grandes no amor. A liberdade é outra coisa”.

Na exortação Amoris Lætitia o Papa refere, como um desafio à família, a transitoriedade da relações humanas, dos que “crêem que o amor, como acontece nas redes sociais, se possa conectar ou desconectar ao gosto do consumidor e, inclusive, bloquear rapidamente” (nº 39).

Da mesma forma que no passado uma certa ruralidade envolvia todos as pessoas, hoje a tecnologia está presente em todos os ambientes. A Igreja e os seus pastores devem estar atentos a esta tendência e, tal como o Papa, em vez de insistirem numa linguagem de outros tempos, devem propor outra que esteja em linha com as vivências de hoje. Jesus Cristo não hesitaria em fazê-lo para anunciar o Reino dos Céus – o qual, hoje, eventualmente seria a República de Deus...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/04/2016)

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Papa em Lesbos

Papa Francisco de visita a refugiados em Lesbos
com os líderes ortodoxos Bartolomeu I e Hieronymos
Foto retirada daqui
Os refugiados estão no coração do Papa Francisco. De tal forma que este aproveita todas as oportunidades para abordar esta questão que já é considerada como a maior tragédia humanitária depois da Segunda Guerra Mundial.

Na sua última Exortação abordou por diversas vezes este problema. E até ao fazer a fundamentação bíblica da temática da família, recordou que a Sagrada Família também passou por essa experiência “que ainda hoje se repete tragicamente em muitas famílias de refugiados descartados e inermes” (nº 30)

São inúmeros os discursos e textos em que o Papa se tem referido ao problema dos que se veem obrigados a abandonar a sua terra e a rumar à Europa. Contudo, mais do que palavras, ele tem protagonizado gestos eloquentes. A sua primeira saída de Roma foi precisamente para visitar a ilha de Lampedusa: é esta a porta de entrada na Europa para muitos refugiados e, ao mesmo tempo, a testemunha de tantos que perderam a vida na tentativa de ali chegar.

Esta semana, o Papa visitou a ilha de Lesbos. Completam-se assim 150 viagens pontifícias fora de Itália, como lembra Luis Badilla no “Vatican Insider”. Muitas delas, recorde-se, foram marcadas por gestos ecuménicos – logo a primeira, em 1964, a visita de Paulo VI à Terra Santa, ficou assinalada pelo primeiro encontro entre um Papa e um líder Ortodoxo. Mas esta ida a Lesbos foi a primeira visita organizada em conjunto pelo Papa, o Patriarca de Constantinopla e o Arcebispo de Atenas. Uma peregrinação ecuménica de um católico e dois ortodoxos que, numa declaração conjunta, apelaram “a todos os líderes políticos para que usem todos os meios possíveis a fim de garantir que os indivíduos e as comunidades, incluindo os cristãos, permaneçam nos seus países de origem”.

Na verdade, mais importante do que acorrer às necessidades dos refugiados, é criar condições para que eles não sejam obrigados a sair das suas terras.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/04/2016)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os Papas e o sexo

Foto retirada daqui
O discurso da Igreja é, em diversas circunstâncias, demasiado crítico em relação ao mundo em que se insere. “Muitas vezes agimos na defensiva e gastámos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” escreve o Papa Francisco no nº 38 da última exortação apostólica, Amoris Lætitia (A Alegria do Amor).

A alegria aparece logo no título, o que indicia uma valorização positiva do amor humano e da sua vivência em contexto familiar. Ao longo do texto percebemos melhor essa preocupação do Papa. Este não exclui a sexualidade nem o prazer, como tantas vezes acontece no discurso eclesiástico em que a sexualidade só é admitida em ordem à geração da vida. A virtude, por seu lado, costuma ser associada à renúncia e ao sofrimento, nunca ao prazer.

O Concílio Vaticano II, todavia, afirmou perentoriamente que “o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação”, como lembra o Papa no nº 178 da exortação. Na verdade, a Igreja (por exemplo Paulo VI na Humanae Vitae) sempre “destacou o vínculo intrínseco entre amor conjugal e procriação”. Mas isso não significa que seja esse o fim único e primordial. O Papa Francisco refere que “São João Paulo II rejeitou a ideia de que a doutrina da Igreja leve a ‘uma negação do valor do sexo humano’ ou que o tolere simplesmente ‘pela necessidade da procriação’” (nº 150).

Nesta exortação reconhece-se ainda que, aos olhos do mundo, a Igreja aparece muitas vezes como “inimiga da felicidade humana” (nº147). E recuperam-se os ensinamentos de Bento XVI que reconciliou o magistério com o prazer na encíclica Deus caritas est.

Os últimos Papas já tinham referido a sexualidade e o prazer nos seus ensinamentos. Francisco, contudo, tem conseguido ser mais ouvido por utilizar um discurso mais claro e menos embrulhado em considerações filosófica ou teológicas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/04/2016)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A fuga aos impostos

Foto retirada daqui
A utopia de possuir tudo em comum de forma a não haver “ninguém necessitado” aparece na descrição das primeiras comunidades cristãs (Act. 4, 32-37). Mas, logo nesse contexto, um casal, Ananias e Safira, desviam dinheiro, não entregando a totalidade da venda aos apóstolos. Isso indicia que nem mesmo as comunidades primitivas foram imunes ao mesquinho egoísmo humano (Act. 5, 1-11).

A Doutrina Social da Igreja, consciente da dificuldade humana em abdicar de possuir, sempre admitiu e até defendeu a propriedade privada. Contudo, também esta deve submeter-se ao bem comum. Uma das formas de o fazer é a sua tributação. Desde a primeira encíclica social, a “Rerum Novarum” de Leão XIII, que se considera uma política de impostos correta aquela que consegue harmonizar o direito à propriedade privada e a prossecução do bem comum.

O Concílio Vaticano II apelou ao contributo “de cada um em favor do bem comum” e denunciou “uma ética puramente individualística” de tantos que se atrevem “a eximir-se, com várias fraudes e enganos, aos impostos e outras obrigações sociais” (GS 30).

Hoje em dia, graças à sofisticação da máquina fiscal, é cada vez mais difícil para a generalidade dos cidadãos fugir aos impostos. Contudo, como comprova o escândalo dos “Papéis do Panamá”, para os ricos e poderosos inventam-se sempre mirabolantes subterfúgios para o conseguir e aumentar os seus lucros. Desta forma, a riqueza concentra-se cada vez mais nas mãos de poucos à custa do prejuízo de tantos. “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz”, denunciou o Papa Francisco na “Evangelii Gaudium”. Nela criticou também “uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais”.

Assiste-se a uma notória globalização da fraude. Exige-se, por isso, uma estratégia global para a combater.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/04/2016)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Dia de enganos

Ícone da Misericórdia, Taizé
Foto retirada daqui
Há equívocos que não surgiram neste dia primeiro de Abril – e que subsistem a ele. Um desses enganos é o das instituições que mantêm o nome muito tempo depois de terem perdido a filiação à instituição que lhes deu origem. E afetam o bom nome dos que permanecem na organização que as gerou.

Há dias, Henrique Manuel Pereira escrevia no Facebook: “Rasgou-se uma almofada e o vendaval dos meios de difusão coletiva espalhou as penas! Quem poderá agora dizer que o dito nada tem a ver com a Casa do Gaiato/Obra da Rua, nem com nenhum dos seus padres? A Casa do Gaiato em apreço é a de Santo Antão do Tojal (Loures). E será bom saber-se que, desde 2006, é propriedade do Patriarcado de Lisboa. Irra, pobres Padres da Rua!”

Acontece algo semelhante com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que desde 2 de Dezembro de 1851 (há 165 anos) é administrada pelo Estado. Apesar disso, muitas pessoas pensem que continua vinculada à Igreja. No entanto, o seu provedor é nomeado pelo Governo, enquanto nas outras misericórdias este é eleito pelos irmãos da respetiva Santa Casa e homologado pelo bispo diocesano.

Nestas misericórdias o equívoco poderá ser outro. Não se devem comportar como meras Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS): têm de ter o mesmo rigor e profissionalismo das outras, claro!, mas têm também de estar imbuídas do verdadeiro espírito cristão. Ou seja, ver nos mais pobres, e nos que precisam de assistência, o próprio Cristo. “Tive fome e deste-me de comer… Estive doente ou na prisão e foste-me visitar…” (Cf. Mt. 25). Devem também as verdadeiras santas casas e outras IPSS’s católicas promover a formação espiritual e humana dos utentes e colaboradores, sem fazer aceção de pessoas. E, aos crentes, devem ajudar a desenvolver a sua convicção cristã.

Só corrigindo estes enganos deixaremos de viver num contínuo dia 1 de Abril em matéria social e institucional.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 01/04/2016)

sábado, 26 de março de 2016

Páscoa é alegria

Emmaus de Janet Brooks-Gerloff, 1992.
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O Papa Francisco mencionou na Evangelii Gaudium a situação dos cristãos que “parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa” (nº6). Referia-se às pessoas “que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar” e não conseguem descobrir a alegria da fé.

Há circunstâncias em que a piedade popular se fixa no sofrimento e lhe dá mais atenção do que à alegria. Centra-se mais no padecimento do que no júbilo pela salvação. As cerimónias da Semana Santa são disso um bom exemplo. Milhares de pessoas que acorrem hoje ao Enterro do Senhor não darão depois, amanhã à noite, tanta relevância à celebração de Jesus ressuscitado na Vigília Pascal. Só que este é precisamente o momento que deveria ser a maior festa, a maior razão de alegria e de congregação para os cristãos.

Este comportamento justifica-se por ser muito mais fácil assistir a um espetáculo, que naturalmente comove, do que participar numa celebração longa, repleta de simbolismo, que exige alguma formação religiosa para recolher o seu sentido mais profundo.

Para além disso, durante séculos a Igreja especializou-se mais em condenar e em recriminar todos os prazeres do que em anunciar a alegria da salvação em Cristo Ressuscitado. Durante demasiado tempo preferiu-se assustar as pessoas com o medo do Inferno, do que anunciar o Paraíso. Sublinhou-se o pecado em vez da graça. Até artisticamente, existem muitas mais imagens do Crucificado do que do Ressuscitado. É mais fácil desenhar ou esculpir um crucificado do que projetar numa tela a imagem do corpo glorioso de Cristo...

Felizmente, a arte e a teologia vão redescobrindo a essência da fé cristã e começam a repropor formas mais eloquentes de representar a alegria da ressurreição. Esta não prescinde nem escamoteia o sofrimento da cruz, mas não o hipervaloriza. É neste sentido que se deve reorientar a fé dos crentes em todo o mundo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 25/03/2016)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Igreja e tecnologia


Foto retirada daqui
O Vaticano está atento às novas tecnologias e usa-as para espalhar a sua mensagem. Após o sucesso da presença do Papa Francisco no Twitter, vai agora ter uma conta na rede social de partilha de fotografias, o Instagram, com o nome Franciscus. Essa presença inicia-se amanhã, dia de S. José, quando se comemora o terceiro aniversário da missa de início do ministério do Papa Francisco.

Para além desta iniciativa, a Santa Sé assumiu a aplicação portuguesa “Click to Pray” e deu-lhe dimensão mundial. Passou a estar disponível, para além do português, em castelhano, francês e inglês. E, graças a ela, cristãos de todo o mundo podem rezar três vezes ao dia, em união com as intenções do Santo Padre.

Na verdade, estas ditas novas tecnologias só o são para os que viveram num mundo em que elas não existiam. Para os mais novos elas são a realidade com que se habituaram a conviver. D. Claudio Maria Celli, presidente do Pontifício Conselho das Comunicações Socias, já há alguns anos contava que foi falar a um congresso sobre evangelização e novas tecnologias. Foi, então, corrigido por um jovem que lhe disse: “Novas para si, que é velho! Para mim não são nada novas”.

Uma outra transformação está também a verificar-se no que se passa pela Internet. Há bem pouco tempo falava-se de “realidade virtual”, de “comunidades virtuais” e até de “paróquias virtuais”. Cedo, porém, se começou a perceber que o que acontece na rede é cada vez menos virtual e é, cada vez mais, uma extensão da vida real – um espelho da realidade, até. Por isso, as comunidades virtuais converteram-se em redes sociais. E, tal como tudo na vida, o que acontece e se transmite on-line pode ter os seus efeitos positivos, mas pode igualmente ampliar e acentuar efeitos perversos. Compete também à Igreja aproveitar todas as potencialidades das ainda consideradas novas tecnologias e alertar para os seus perigos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 18/03/2016)