sexta-feira, 29 de abril de 2016

Papa e tecnologia

Foto retirada daqui
A Igreja precisa de atualizar a linguagem da sua pregação para ser mais eficaz. Jesus Cristo utilizou as imagens que os seus ouvintes entendiam, da agricultura, da pastorícia ou da pesca. Hoje, num mundo dominado pela tecnologia, as pessoas, sobretudo em meios urbanos, estão cada vez mais distantes do mundo rural e, por isso, serão muito mais sensíveis a comparações que utilizem os seus utensílios de todos os dias.

O Papa Francisco diz que não é muito dado às tecnologias. Já confidenciou que a rádio é ideal porque só tem dois botões: um para ligar e aumentar o volume e outro para sintonizar. Todavia, tem utilizado metáforas tecnológicas. No sábado, numa vídeo-mensagem dirigida aos participantes no jubileu dos adolescentes, no estádio Olímpico de Roma, disse de aparelho na mão que uma vida sem Cristo é como “um telemóvel sem rede”. No dia seguinte, durante a homilia, quando falava sobre o “desejo de liberdade” acrescentou: “A vossa felicidade não tem preço, nem se comercializa: não é uma ‘app’ que se descarrega do telemóvel. Nem a versão mais atualizada vos poderá ajudar a tornar-vos livres e grandes no amor. A liberdade é outra coisa”.

Na exortação Amoris Lætitia o Papa refere, como um desafio à família, a transitoriedade da relações humanas, dos que “crêem que o amor, como acontece nas redes sociais, se possa conectar ou desconectar ao gosto do consumidor e, inclusive, bloquear rapidamente” (nº 39).

Da mesma forma que no passado uma certa ruralidade envolvia todos as pessoas, hoje a tecnologia está presente em todos os ambientes. A Igreja e os seus pastores devem estar atentos a esta tendência e, tal como o Papa, em vez de insistirem numa linguagem de outros tempos, devem propor outra que esteja em linha com as vivências de hoje. Jesus Cristo não hesitaria em fazê-lo para anunciar o Reino dos Céus – o qual, hoje, eventualmente seria a República de Deus...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/04/2016)

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Papa em Lesbos

Papa Francisco de visita a refugiados em Lesbos
com os líderes ortodoxos Bartolomeu I e Hieronymos
Foto retirada daqui
Os refugiados estão no coração do Papa Francisco. De tal forma que este aproveita todas as oportunidades para abordar esta questão que já é considerada como a maior tragédia humanitária depois da Segunda Guerra Mundial.

Na sua última Exortação abordou por diversas vezes este problema. E até ao fazer a fundamentação bíblica da temática da família, recordou que a Sagrada Família também passou por essa experiência “que ainda hoje se repete tragicamente em muitas famílias de refugiados descartados e inermes” (nº 30)

São inúmeros os discursos e textos em que o Papa se tem referido ao problema dos que se veem obrigados a abandonar a sua terra e a rumar à Europa. Contudo, mais do que palavras, ele tem protagonizado gestos eloquentes. A sua primeira saída de Roma foi precisamente para visitar a ilha de Lampedusa: é esta a porta de entrada na Europa para muitos refugiados e, ao mesmo tempo, a testemunha de tantos que perderam a vida na tentativa de ali chegar.

Esta semana, o Papa visitou a ilha de Lesbos. Completam-se assim 150 viagens pontifícias fora de Itália, como lembra Luis Badilla no “Vatican Insider”. Muitas delas, recorde-se, foram marcadas por gestos ecuménicos – logo a primeira, em 1964, a visita de Paulo VI à Terra Santa, ficou assinalada pelo primeiro encontro entre um Papa e um líder Ortodoxo. Mas esta ida a Lesbos foi a primeira visita organizada em conjunto pelo Papa, o Patriarca de Constantinopla e o Arcebispo de Atenas. Uma peregrinação ecuménica de um católico e dois ortodoxos que, numa declaração conjunta, apelaram “a todos os líderes políticos para que usem todos os meios possíveis a fim de garantir que os indivíduos e as comunidades, incluindo os cristãos, permaneçam nos seus países de origem”.

Na verdade, mais importante do que acorrer às necessidades dos refugiados, é criar condições para que eles não sejam obrigados a sair das suas terras.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/04/2016)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os Papas e o sexo

Foto retirada daqui
O discurso da Igreja é, em diversas circunstâncias, demasiado crítico em relação ao mundo em que se insere. “Muitas vezes agimos na defensiva e gastámos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” escreve o Papa Francisco no nº 38 da última exortação apostólica, Amoris Lætitia (A Alegria do Amor).

A alegria aparece logo no título, o que indicia uma valorização positiva do amor humano e da sua vivência em contexto familiar. Ao longo do texto percebemos melhor essa preocupação do Papa. Este não exclui a sexualidade nem o prazer, como tantas vezes acontece no discurso eclesiástico em que a sexualidade só é admitida em ordem à geração da vida. A virtude, por seu lado, costuma ser associada à renúncia e ao sofrimento, nunca ao prazer.

O Concílio Vaticano II, todavia, afirmou perentoriamente que “o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação”, como lembra o Papa no nº 178 da exortação. Na verdade, a Igreja (por exemplo Paulo VI na Humanae Vitae) sempre “destacou o vínculo intrínseco entre amor conjugal e procriação”. Mas isso não significa que seja esse o fim único e primordial. O Papa Francisco refere que “São João Paulo II rejeitou a ideia de que a doutrina da Igreja leve a ‘uma negação do valor do sexo humano’ ou que o tolere simplesmente ‘pela necessidade da procriação’” (nº 150).

Nesta exortação reconhece-se ainda que, aos olhos do mundo, a Igreja aparece muitas vezes como “inimiga da felicidade humana” (nº147). E recuperam-se os ensinamentos de Bento XVI que reconciliou o magistério com o prazer na encíclica Deus caritas est.

Os últimos Papas já tinham referido a sexualidade e o prazer nos seus ensinamentos. Francisco, contudo, tem conseguido ser mais ouvido por utilizar um discurso mais claro e menos embrulhado em considerações filosófica ou teológicas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/04/2016)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A fuga aos impostos

Foto retirada daqui
A utopia de possuir tudo em comum de forma a não haver “ninguém necessitado” aparece na descrição das primeiras comunidades cristãs (Act. 4, 32-37). Mas, logo nesse contexto, um casal, Ananias e Safira, desviam dinheiro, não entregando a totalidade da venda aos apóstolos. Isso indicia que nem mesmo as comunidades primitivas foram imunes ao mesquinho egoísmo humano (Act. 5, 1-11).

A Doutrina Social da Igreja, consciente da dificuldade humana em abdicar de possuir, sempre admitiu e até defendeu a propriedade privada. Contudo, também esta deve submeter-se ao bem comum. Uma das formas de o fazer é a sua tributação. Desde a primeira encíclica social, a “Rerum Novarum” de Leão XIII, que se considera uma política de impostos correta aquela que consegue harmonizar o direito à propriedade privada e a prossecução do bem comum.

O Concílio Vaticano II apelou ao contributo “de cada um em favor do bem comum” e denunciou “uma ética puramente individualística” de tantos que se atrevem “a eximir-se, com várias fraudes e enganos, aos impostos e outras obrigações sociais” (GS 30).

Hoje em dia, graças à sofisticação da máquina fiscal, é cada vez mais difícil para a generalidade dos cidadãos fugir aos impostos. Contudo, como comprova o escândalo dos “Papéis do Panamá”, para os ricos e poderosos inventam-se sempre mirabolantes subterfúgios para o conseguir e aumentar os seus lucros. Desta forma, a riqueza concentra-se cada vez mais nas mãos de poucos à custa do prejuízo de tantos. “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz”, denunciou o Papa Francisco na “Evangelii Gaudium”. Nela criticou também “uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais”.

Assiste-se a uma notória globalização da fraude. Exige-se, por isso, uma estratégia global para a combater.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/04/2016)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Dia de enganos

Ícone da Misericórdia, Taizé
Foto retirada daqui
Há equívocos que não surgiram neste dia primeiro de Abril – e que subsistem a ele. Um desses enganos é o das instituições que mantêm o nome muito tempo depois de terem perdido a filiação à instituição que lhes deu origem. E afetam o bom nome dos que permanecem na organização que as gerou.

Há dias, Henrique Manuel Pereira escrevia no Facebook: “Rasgou-se uma almofada e o vendaval dos meios de difusão coletiva espalhou as penas! Quem poderá agora dizer que o dito nada tem a ver com a Casa do Gaiato/Obra da Rua, nem com nenhum dos seus padres? A Casa do Gaiato em apreço é a de Santo Antão do Tojal (Loures). E será bom saber-se que, desde 2006, é propriedade do Patriarcado de Lisboa. Irra, pobres Padres da Rua!”

Acontece algo semelhante com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que desde 2 de Dezembro de 1851 (há 165 anos) é administrada pelo Estado. Apesar disso, muitas pessoas pensem que continua vinculada à Igreja. No entanto, o seu provedor é nomeado pelo Governo, enquanto nas outras misericórdias este é eleito pelos irmãos da respetiva Santa Casa e homologado pelo bispo diocesano.

Nestas misericórdias o equívoco poderá ser outro. Não se devem comportar como meras Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS): têm de ter o mesmo rigor e profissionalismo das outras, claro!, mas têm também de estar imbuídas do verdadeiro espírito cristão. Ou seja, ver nos mais pobres, e nos que precisam de assistência, o próprio Cristo. “Tive fome e deste-me de comer… Estive doente ou na prisão e foste-me visitar…” (Cf. Mt. 25). Devem também as verdadeiras santas casas e outras IPSS’s católicas promover a formação espiritual e humana dos utentes e colaboradores, sem fazer aceção de pessoas. E, aos crentes, devem ajudar a desenvolver a sua convicção cristã.

Só corrigindo estes enganos deixaremos de viver num contínuo dia 1 de Abril em matéria social e institucional.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 01/04/2016)

sábado, 26 de março de 2016

Páscoa é alegria

Emmaus de Janet Brooks-Gerloff, 1992.
Foto retirada daqui
O Papa Francisco mencionou na Evangelii Gaudium a situação dos cristãos que “parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa” (nº6). Referia-se às pessoas “que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar” e não conseguem descobrir a alegria da fé.

Há circunstâncias em que a piedade popular se fixa no sofrimento e lhe dá mais atenção do que à alegria. Centra-se mais no padecimento do que no júbilo pela salvação. As cerimónias da Semana Santa são disso um bom exemplo. Milhares de pessoas que acorrem hoje ao Enterro do Senhor não darão depois, amanhã à noite, tanta relevância à celebração de Jesus ressuscitado na Vigília Pascal. Só que este é precisamente o momento que deveria ser a maior festa, a maior razão de alegria e de congregação para os cristãos.

Este comportamento justifica-se por ser muito mais fácil assistir a um espetáculo, que naturalmente comove, do que participar numa celebração longa, repleta de simbolismo, que exige alguma formação religiosa para recolher o seu sentido mais profundo.

Para além disso, durante séculos a Igreja especializou-se mais em condenar e em recriminar todos os prazeres do que em anunciar a alegria da salvação em Cristo Ressuscitado. Durante demasiado tempo preferiu-se assustar as pessoas com o medo do Inferno, do que anunciar o Paraíso. Sublinhou-se o pecado em vez da graça. Até artisticamente, existem muitas mais imagens do Crucificado do que do Ressuscitado. É mais fácil desenhar ou esculpir um crucificado do que projetar numa tela a imagem do corpo glorioso de Cristo...

Felizmente, a arte e a teologia vão redescobrindo a essência da fé cristã e começam a repropor formas mais eloquentes de representar a alegria da ressurreição. Esta não prescinde nem escamoteia o sofrimento da cruz, mas não o hipervaloriza. É neste sentido que se deve reorientar a fé dos crentes em todo o mundo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 25/03/2016)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Igreja e tecnologia


Foto retirada daqui
O Vaticano está atento às novas tecnologias e usa-as para espalhar a sua mensagem. Após o sucesso da presença do Papa Francisco no Twitter, vai agora ter uma conta na rede social de partilha de fotografias, o Instagram, com o nome Franciscus. Essa presença inicia-se amanhã, dia de S. José, quando se comemora o terceiro aniversário da missa de início do ministério do Papa Francisco.

Para além desta iniciativa, a Santa Sé assumiu a aplicação portuguesa “Click to Pray” e deu-lhe dimensão mundial. Passou a estar disponível, para além do português, em castelhano, francês e inglês. E, graças a ela, cristãos de todo o mundo podem rezar três vezes ao dia, em união com as intenções do Santo Padre.

Na verdade, estas ditas novas tecnologias só o são para os que viveram num mundo em que elas não existiam. Para os mais novos elas são a realidade com que se habituaram a conviver. D. Claudio Maria Celli, presidente do Pontifício Conselho das Comunicações Socias, já há alguns anos contava que foi falar a um congresso sobre evangelização e novas tecnologias. Foi, então, corrigido por um jovem que lhe disse: “Novas para si, que é velho! Para mim não são nada novas”.

Uma outra transformação está também a verificar-se no que se passa pela Internet. Há bem pouco tempo falava-se de “realidade virtual”, de “comunidades virtuais” e até de “paróquias virtuais”. Cedo, porém, se começou a perceber que o que acontece na rede é cada vez menos virtual e é, cada vez mais, uma extensão da vida real – um espelho da realidade, até. Por isso, as comunidades virtuais converteram-se em redes sociais. E, tal como tudo na vida, o que acontece e se transmite on-line pode ter os seus efeitos positivos, mas pode igualmente ampliar e acentuar efeitos perversos. Compete também à Igreja aproveitar todas as potencialidades das ainda consideradas novas tecnologias e alertar para os seus perigos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 18/03/2016)

sexta-feira, 11 de março de 2016

Pai moral e global


Imagem televisiva da eleição do Papa a 13/03/2013
Foto retirada daqui
O cardeal Jorge Mario Bergoglio calçou as sandálias do pescador há três anos e já calcorreou quatro dos cinco continentes. A sua mensagem e, particularmente, os seus gestos, têm tido uma repercussão global. Para o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, ele é cada vez mais “o líder moral” do planeta: “A humanidade olha o Papa Francisco como uma pessoa que a ajuda a encontrar orientação, a encontrar uma mensagem de referência numa situação que – em muitos aspetos – é de grande incerteza”, afirmou.

Francisco aparece num momento em que a humanidade atravessa uma crise global e se sente órfã de líderes que a conduzam com segurança. Por isso, rapidamente, adotou-o como um pai. Uma paternidade moral e planetária, que ele tem exercido com firmeza, assim como com ternura e misericórdia.

É um Papa particularmente atento aos mais desfavorecidos e às “periferias existenciais e geográficas”. Mas não deixa de ser exigente e determinado, sobretudo com os que lhe estão mais próximos, como a Cúria Romana. Como um verdadeiro pai de família, “ama os seus filhos, ajuda-os, cuida deles, perdoa-os”. E, como pai, “educa-os e corrige-os quando erram, favorecendo o seu crescimento no bem”. As palavras são de Francisco referindo-se à misericórdia divina, mas traduzem bem a forma como ele tem exercido o seu Pontificado.

Tem sido também um verdadeiro Pontífice, no sentido em que é um fazedor de pontes. Tem promovido a reconciliação do mundo com a Igreja na forma como aborda as chamadas questões fraturantes, procurando ser inclusivo. Tem contribuído para a reconciliação entre povos desavindos. Tem promovido o diálogo inter-religioso (entre diferentes credos) e ecuménico (entre cristãos de diferentes igrejas).

É esta forma de proceder que lhe tem dado uma popularidade global. Mas também lhe tem valido as críticas dos que receiam aventurar-se em caminhos não trilhados.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 11/03/2016)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Dinheiro sujo

Foto retirada daqui
O Papa Francisco não desconhece que o “dinheiro sujo” proveniente de atividades ilícitas, ou manchado pela exploração dos trabalhadores, é introduzido na Igreja e, por vezes, aceite em diversas organizações católicas. Porventura, também em Portugal. Muitas das vezes sem que os responsáveis pelas comunidades disso se apercebam. E (espera-se...) habitualmente sem o seu consentimento ou a sua colaboração.

Na sua primeira entrevista ele confidenciou que, quando era arcebispo de Buenos Aires, determinadas pessoas chegaram a propor-lhe doar uma avultada quantia para uma obra de beneficência a troco de um recibo de montante superior. Nessas circunstâncias, dada a importância do que pretendia levar por diante e do bem que isso significaria para as pessoas, podia ter sido grande a tentação de pactuar com esse esquema. Mas o cardeal Bergoglio soube resistir-lhe e recusou a proposta.

Isso dever-se-á ao facto de ele ser um “homem resolvido”, como alguém dizia há dias. Pode, por isso, ter palavras duras para quem alinha em esquemas ou tem comportamentos menos corretos na relação da Igreja com o dinheiro.

Na última audiência o Papa apontou o dedo aos que, para sossegarem a sua consciência pesada, fazem consideráveis doações à Igreja. Dinheiro manchado pelo “sangue de tanta gente explorada, maltratada, escravizada pelo trabalho mal pago”. A esses ele diz: “O Povo de Deus –quer dizer, a Igreja – não precisa do dinheiro sujo, precisa de corações abertos à misericórdia de Deus”. Ou seja, precisa de homens e de mulheres que aproveitem este Ano Jubilar da Misericórdia, se arrependam do seu proceder, acolham o perdão de Deus pelos seus atos e se aproximem do altar de “mãos purificadas, evitando o mal e praticando o bem e a justiça”.

Oxalá que a Igreja, também entre nós, não se deixe tentar pelo dinheiro conspurcado com o sangue e o suor dos explorados.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 04/03/2016)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Pecados clericais

Foto retirada daqui
O filme “Spotlight” veio chamar de novo a atenção para o escândalo da pedofilia no seio da Igreja Católica. Desde 2002 – quando o jornal “The Boston Globe” denunciou diversos padres abusadores, que o filme relata – até hoje, mudou muito a práxis da Igreja em relação a esses deploráveis comportamentos. Na altura tentava-se abafar o escândalo e os bispos limitavam-se a mudar de paróquia os padres prevaricadores. Hoje, são obrigados a denunciar os casos às autoridades civis e eclesiásticas. Vindo-se a provar a veracidade das denúncias, sujeitam-se às penas civis e canónicas. E estas últimas podem implicar a perda do estatuto clerical.

A bordo do avião, no regresso do México, o Papa falou da questão aos jornalistas. Recordou a pessoa a quem muito se deve a mudança de atitude por parte da hierarquia. “Aqui gostaria de prestar homenagem a um homem que lutou, num momento em que não tinha força para se impor, até conseguir impor-se: o Cardeal Ratzinger – uma salva de palmas para ele” disse o Papa. Depois, já como Bento XVI, continuou a sua luta contra esta chaga na Igreja. E obrigou todas as conferências episcopais a definirem diretrizes claras para intervir nestes casos.

O Papa Francisco continuou a obra do seu antecessor. No diálogo com os jornalistas, elencou as várias medidas que tem tomado e deixou uma séria advertência aos seus irmãos no episcopado: “Um bispo que muda de paróquia um sacerdote quando se verifica um caso de pedofilia, é um inconsciente. E a melhor coisa que pode fazer é apresentar a renúncia”.

Apesar de globalmente a atitude dos bispos se ter modificado muito na abordagem da pedofilia, ainda se nota alguma condescendência com outros comportamentos que também corrompem os clérigos. Estes, ainda que pareçam menos graves – como o carreirismo, o apego ao dinheiro, o plágio, a sobranceria ou a vaidade –têm merecido a condenação veemente do Papa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/02/2016)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Mensagem ao México

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O Papa Francisco propôs uma mensagem de esperança a um país com muitas potencialidades mas que enfrenta tantas contrariedades. Convocou todos para a construção de um futuro melhor. Desafiou a Igreja a vencer as tentações do desânimo e da resignação. A sair da “sacristia” e a comprometer-se na transformação da sociedade mexicana.

Nas suas primeiras palavras – dirigidas ao presidente da república e às autoridades que o receberam no aeroporto – disse que o México é um país “abençoado com riquezas naturais abundantes e uma enorme biodiversidade”. Contudo, a sua maior riqueza “são os seus jovens”. E estes merecem um melhor México, na certeza de que “um futuro rico de esperança se forja num presente feito de homens e mulheres justos, honestos, capazes de se comprometerem com o bem comum”. O Papa denunciou que, “quando se busca o caminho do privilégio ou do benefício para poucos em detrimento do bem de todos, mais cedo ou mais tarde, a vida em sociedade transforma-se num terreno fértil para a corrupção, o tráfico de drogas, a exclusão das culturas diferentes, a violência e até o tráfico humano, o sequestro e a morte, que causam sofrimento e travam o desenvolvimento”.

A Igreja foi também convocada pelo Papa a contribuir para inverter essa tendência. Aos jovens confiou a esperança e pediu a “ousadia de sonhar”. Aos trabalhadores convidou “a sonhar o México que os filhos mereçam”. E até os presos, que experimentaram o “inferno”, podem ser “profetas na sociedade” e ajudá-la a encontrar formas de prevenir a criminalidade e a reincidência.

O anúncio da esperança a um país submerso em criminalidade, violência e morte foi a principal preocupação do Papa: é o que se pode constatar pela leitura dos seus discursos. Já na cobertura noticiosa foi mais difícil de perceber, uma vez que o ruído introduzido por elementos marginais não deixou concentrar no essencial.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/02/2016)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A ilha da reunião

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O Papa Francisco e o Patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa Russa, encontraram-se hoje em Havana, Cuba. Nos anos 60, esta ilha foi o palco da tensão mais grave entre as duas superpotências de então – os Estados Unidos e a União Soviética – colocando o mundo à beira da guerra nuclear. Na altura João XXIII contribuiu para que prevalecesse a paz. E, há pouco tempo, o Papa Francisco conseguiu que Cuba e os EUA reatassem relações diplomáticas suspensas há mais de cinquenta anos.

Hoje Cuba pode tornar-se no símbolo da reconciliação entre a Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica. Em 1054, deu-se a primeira grande cisão na Igreja, que ainda não foi remediada. Nessa data o Papa e o Patriarca de Constantinopla excomungaram-se mutuamente. Também por razões teológicas, mas, sobretudo, por causa da questão do reconhecimento da autoridade do sucessor de Pedro sobre toda a Igreja. Desde então a Igreja Ortodoxa organiza-se em torno de diversos Patriarcas, sendo o da Igreja Russa o que reúne o maior número de fiéis, cerca de 135 milhões.

Na sequência do Concílio Vaticano II a Igreja Católica abriu-se ao ecumenismo, isto é, ao diálogo com os cristãos de outras confissões cristãs. Estes, de hereges, passaram a ser irmãos que a história separou. Em 1965 o Papa Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla encontraram-se e levantaram as excomunhões do passado. Desde então tem-se intensificado o diálogo entre o Papa e os diversos Patriarcas Ortodoxos. O único que nunca tinha entrado nesta dinâmica era o Patriarca Russo. Inicia-se, portanto, uma nova fase nas relações entre o catolicismo e a ortodoxia.

Tudo isto só é possível graças ao esforço de abertura dos últimos papas. Sem renunciarem ao essencial do primado petrino, tentam complementar o seu exercício com a escuta dos irmãos no episcopado – o carácter sinodal, “de caminhar juntos”, da Igreja – de que Francisco tanto tem falado e pedido.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 12/02/2016)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Inseminação vocacional

Encontro do Papa com os consagrados no dia 01/02/2016
Foto retirada daqui
Na Europa, Estados Unidos e Canadá os sacerdotes, os religiosos e as religiosas são cada vez menos e mais idosos. Na América Latina aumentam ligeiramente. Já no continente africano e asiático a Igreja rejuvenesce-se e aumentam os que optam por uma vida de consagração. Graças ao contributo destes continentes o número dos consagrados tem aumentado nos últimos anos. Contudo, ainda se está longe de atingir o pico que se registou no final dos anos 60, em que haveria mais de 1,5 milhões de consagrados. De acordo com as estatísticas da Santa Sé, em 2013 havia no mundo 1,2 milhões de consagrados.

A diminuição das vocações, sobretudo no mundo ocidental, tem feito com que os critérios de admissão aos seminários e às casas de formação religiosa sejam menos rigorosos do que num passado recente, quando ainda havia candidatos em abundância. O Papa Francisco tem consciência que assim acontece. Num encontro com cinco mil consagrados, em Roma, no passado dia 1, denunciou que algumas congregações, devido à sua esterilidade vocacional, recorrem ao que chamou a “inseminação artificial”.

Como têm falta de vocações, deixam entrar todos os que aproximam sem o devido discernimento. Ou, então, recrutam na Ásia e em África para viabilizar as comunidades religiosas no Ocidente. “Não!”, exclamou o Papa. “Deve-se recrutar com seriedade! Deve-se discernir bem se existe uma verdadeira vocação e ajudá-la a crescer”, disse.

Quando se procede levianamente na consagração de pessoas que não reúnem as condições para abraçar este estilo de vida, para além de não se resolver o problema da falta de consagrados, geram-se outros. São disso um bom exemplo os párocos que, por não serem líderes, têm dificuldade em orientar as suas comunidades e em gerir os conflitos. Esses, em vez de serem parte da solução, são parte dos problemas. E, por vezes, são até os instigadores das controvérsias.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 05/02/2016)

sábado, 30 de janeiro de 2016

As religiões e a Paz

O encontro do Papa Francisco com Hassan Rohani
Foto REUTERS/Andrew Medichini/Pool, retirada daqui
O Jubileu da Misericórdia desafia a Igreja a sair de si e a construir pontes de entendimento com as outras religiões monoteístas. “A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus”, escreveu o Papa Francisco na Bula de convocação do ano jubilar.

Já nos vamos habituando a que tudo o que o Papa diz e escreve é acompanhado por gestos concretos para traduzir o seu pensamento. Ainda antes da convocação do Jubileu protagonizou diversas iniciativas de encontro e diálogo com as outras religiões. De entre todos, talvez o mais marcante tenha sido o abraço aos seus dois amigos – o judeu Abraham Skorka e o muçulmano Ombar Abboud – na visita à Terra Santa.

No contexto do Ano da Misericórdia, na semana passada, visitou a Sinagoga de Roma. É a terceira vez que um Papa visita esse templo. Entretanto, foi convidado formalmente a visitar a maior Mesquita sunita da Europa, situada em Roma. Embora, os últimos Papas já tenham estado em vários templos muçulmanos será a primeira vez que o Romano Pontífice visitará a Mesquita da sua cidade.

Pode-se também incluir no âmbito do diálogo inter-religioso a audiência concedida ao presidente iraniano, o xiita Hassan Rohani. Mesmo sendo um encontro entre os chefes de estado do Vaticano e do Irão foi-o também um encontro entre dois clérigos, um cristão e católico e outro muçulmano e xiita. Por isso, não é de estranhar que tenha sido sublinhada “a importância do diálogo inter-religioso e a responsabilidade das comunidades religiosas na promoção da reconciliação, da tolerância e da paz”, como refere o comunicado da Santa Sé.

Quando o nome de Deus é invocado, indevidamente, para fazer a guerra, é importante que os líderes religiosos se encontrem e se comprometam na promoção da paz entre diferentes religiões.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/01/2016)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os pobres em Davos

Foto retirada daqui
Os mais destacados líderes políticos e empresários do mundo refletem sobre a “quarta revolução industrial”. Em Davos, uma pequena localidade dos alpes suíços, decorre o 46º Fórum Económico Mundial, que se iniciou na quarta e termina amanhã. A primeira revolução industrial foi provocada pela máquina a vapor, a segunda pela eletricidade e a terceira pela eletrónica e robótica. A quarta desenvolve-se devido à combinação de diversos fatores e das tecnologias digitais.

Numa mensagem dirigida ao Fórum, o Papa Francisco defende “a necessidade de criar novos modelos empresariais que, enquanto promovem o desenvolvimento de tecnologias avançadas, sejam capazes também de utilizá-las para criar trabalho digno para todos, manter e consolidar os direitos sociais e proteger o meio ambiente”.

O Papa aproveitou ainda para apelar aos mais ricos e poderosos do mundo que não esqueçam os mais pobres. E mais uma vez ergueu a sua voz para denunciar a “cultura do descarte” e da indiferença perante a exclusão e o sofrimento de tantas pessoas, em todo o mundo. “Não devemos permitir jamais que a cultura do bem-estar nos anestesie” Desafiou os que têm nas mãos os destinos do mundo “a garantir que a vinda da ‘quarta revolução industrial’, os efeitos da robótica e das inovações científicas e tecnológicas não levem à destruição da pessoa humana – ao ser substituída por uma máquina sem alma – nem à transformação do nosso planeta num jardim vazio para deleite de poucos escolhidos”.

Na verdade, uma economia e uma tecnologia que não colocam a pessoa humana no centro das suas preocupações, rapidamente resvalam para uma “economia que mata” e uma tecnologia que gera ainda mais exclusão social. O Papa deseja que o Fórum contribua para corrigir essa tendência e promova “a defesa e salvaguarda da criação” e um “progresso que seja mais saudável, mais humano, mais social, mais integral”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/01/2016)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Papa e refugiados

Foto Lusa retirada daqui
A Santa Sé mantém relações diplomáticas com cento e oitenta estados soberanos, dos cerca de duzentos que existem no mundo, de acordo com a página oficial do Vaticano. Mas, mais importante do que o número, é a qualidade do serviço diplomático que a Igreja desenvolve pelo mundo. Ainda recentemente se viu o resultado desse trabalho no reatar das relações entre os Estados Unidos e Cuba.

No início desta semana o Papa Francisco, no seu discurso anual aos embaixadores, garantiu que “a Santa Sé não deixará jamais de trabalhar para que a voz da paz possa ser ouvida até aos últimos confins da terra”. Aproveitou a oportunidade para denunciar, uma vez mais, o problema dos que se vêem obrigados a abandonar a sua terra pelos mais diversos motivos, entre os quais destacou a perseguição religiosa.

Recordou que “toda a Bíblia nos conta a história duma humanidade a caminho” e que até Jesus, segundo o Evangelho, foi um refugiado no Egito. Para o Papa, na génese da crise humanitária que se vive na Europa, está o individualismo e “a arrogância dos poderosos que instrumentalizam os fracos, reduzindo-os a objetos para fins egoístas ou por cálculos estratégicos e políticos”. 

Para resolver esta crise é necessário pôr em causa “hábitos e práticas consolidadas, a começar pelas problemáticas relacionadas com o comércio dos armamentos, até ao problema da conservação de matérias-primas e energia, aos investimentos, às políticas de financiamento e apoio ao desenvolvimento, até à grave chaga da corrupção”. E, para ele, é necessário também implementar “projetos de médio e longo prazo que ultrapassem a resposta de emergência”, que promovam a integração dos refugiados e, ainda mais importante, “o desenvolvimento dos países de origem com políticas solidárias” para estancar os fluxos migratórios.

Nada disto será fácil de conseguir. Mesmo com o auxílio da diplomacia da Santa Sé...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/01/2016)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A reforma continua…

Foto retirada daqui
O Papa Francisco, na apresentação das saudações natalícias aos membros da Cúria Romana, no final do ano passado, apareceu cansado e engripado. Por isso, em vez de falar de pé, como habitualmente, pediu desculpas e falou sentado. Fez, mesmo assim, um discurso vigoroso e determinado. E afirmou que “a reforma prosseguirá com determinação, lucidez e ardor, porque Ecclesia semper reformanda”.

Desta vez, porém, não foi tão contundente como em 2014, quando elencou as quinze tentações da Cúria que desta vez recordou como o “catálogo das doenças curiais”. Reconheceu, agora, que “nem as doenças, nem mesmo os escândalos, poderão esconder a eficiência dos serviços que a Cúria Romana presta ao Papa e à Igreja inteira, com desvelo, responsabilidade, empenho e dedicação, sendo isso motivo de verdadeira consolação”. E frisou que “seria uma grande injustiça não expressar sentida gratidão e o devido encorajamento a todas as pessoas sãs e honestas que trabalham com dedicação, lealdade, fidelidade e profissionalismo”.

Aos que trabalham na Cúria, bem como a “todos aqueles que querem tornar fecunda a sua consagração ou o seu serviço à Igreja”, o Papa propõe doze “antibióticos curiais”. A lista, em italiano, é um acróstico, em que a primeira letra de cada um dos antibióticos formam a palavra Misericórdia.

A lista completa é: Missionariedade e pastoreação, Idoneidade e sagacidade, Espiritualidade (Spiritualità em italiano) e humanidade, Exemplaridade e fidelidade, Racionalidade e amabilidade, Inocuidade e determinação, Caridade e verdade, Honestidade (Onestà) e maturidade, Respeito e humildade, “Dadivosidade” e atenção, Impavidez e prontidão, Fiabilidade (Affidabilità) e sobriedade.
Para a letra D o Papa propõe mais um neologismo: com a “Dadivosidade” ele quer traduzir a capacidade, não só de dar, mas também e sobretudo de se dar e estar atento aos que precisam.

O Papa adverte que este não é um “catálogo das virtudes” exaustivo. E apela a todos os que trabalham na Cúria “a aprofundá-lo, enriquecê-lo e completá-lo”. É seguramente um bom instrumento para todos os que têm responsabilidades na Igreja fazerem o exame de consciência à sua atuação e forma de estar.

A todos, votos de um feliz 2016, que se anuncia reformista para a vida da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/01/2016)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Negócios sagrados

Foto retirada daqui
A Igreja testemunha desde os seus inícios a gratuidade da salvação. Na Primeira Epístola de S. Pedro pode ler-se que não fomos resgatados por “bens corruptíveis, prata ou ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo” (1Pe. 1,18). O Papa Francisco, sucessor de Pedro, na audiência de quarta-feira recordou que não se tem de pagar para passar a Porta do Ano Santo. “A salvação não se compra. A Porta é Jesus e Jesus é grátis”.

Contudo, ao longo dos séculos, foram cometidos abusos que levaram os fiéis a crer que é preciso pagar para se salvarem. Na Idade Média, por exemplo, vendiam-se e compravam-se indulgências, que eram, então, uma das principais formas de financiamento da Igreja.

Esse “comércio religioso” fez despoletar a revolta de Lutero e esteve na génese da Reforma Protestante. O Concílio de Trento procurou corrigir essa conceção errada da salvação e determinou que as “indulgências e outros favores espirituais de que o fiel não deve ser privado” devem ser administrados de forma gratuita, “de modo que todos pudessem finalmente compreender que estes tesouros celestes foram dispensados por causa da piedade e não do lucro”. Quatro anos apenas após o encerramento deste Concílio, em 1567, o Papa Pio V foi obrigado a ser ainda mais explícito e determinou que passava a ser proibido cobrar qualquer taxa ou valor pelas indulgências.

Apesar do esforço da Igreja para expurgar a sua atividade de todo o mercantilismo, ele prevalece no seu interior. É normal as pessoas dizerem que vão pagar a missa, o batizado ou o casamento.

Para um crente esclarecido a Eucaristia e os sacramentos têm um valor infinito. Nenhum dinheiro no mundo os pode pagar. Apenas se podem aceitar ofertas que a Igreja aplica na prossecução dos seus fins. E estes são, principalmente, o “culto divino”, a “sustentação do clero e dos outros ministros”, bem como as “obras do sagrado apostolado e de caridade, especialmente em favor dos necessitados” (cân. 1254 do Código de Direito Canónico).

Ainda que no contexto de alguns sacramentos se possa receber uma oferta, não se aceita qualquer quantia pela Confissão ou pela Unção dos Enfermos para sublinhar a gratuidade da salvação. Todavia, ainda muito há a fazer para expurgar a Igreja de algum “consumismo religioso”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 18/12/2015)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Misericórdia para os recasados

Há questões que nos inquietam e desinstalam.
Uma senhora pergunta:
“Porque é que eu não posso comungar? O meu único erro foi ter falhado no meu casamento católico e ter refeito a minha vida com outra pessoa. Na nossa família esforço-me por ser boa esposa e boa mãe. Mas a Igreja não me permite ser uma boa cristã a que seja permitida a participação nos sacramentos da penitência e da eucaristia. Outros, no entanto, podem até não acolher a palavra do Papa, podem atacar o bispo e os padres e quando lhes convém, acomodarem-se à sombra da Igreja. Mas, como estão casados pela Igreja, é-lhes permitido ir todos os dias à missa e até comungar.

E que dizer de sacerdotes ordenados mesmo sem recolher a anuência das instâncias devidas? E os que não olham a meios para atingir os seus fins, aos quais o Papa chamou ‘trepadores’? E os padres que vivem em função da promoção ou da acumulação de riquezas, que procuram aparentar virtudes públicas e esconder vícios privados, mesmo quando estes são do conhecimento público?

Estes, apesar de tudo isso, podem continuar a presidir à eucaristia e a pregar piedosos sermões…para os outros. E podem, também, desempenhar os mais destacados cargos na estruturas eclesiásticas”.

A esta senhora – mesmo admitindo que, se é como diz, essas pessoas não reunirão as condições exigidas para receber a comunhão – pode sempre recordar-se a frase do Papa Francisco: “A Eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (Evangelii Gaudium, 47). Contudo, a todos é dada a possibilidade de arrepender-se, acolher a misericórdia divina e corrigir o seu proceder.

Aqui surge um problema para o qual a Igreja ainda não conseguiu encontrar resposta. Um divorciado recasado, mantendo-se a atual disciplina da Igreja, não consegue emendar o erro que cometeu sem refazer o casamento anterior, que não pode ser anulado. Contrariamente ao que se diz, só pode ser declarado nulo caso não tenha existido.

Espera-se que durante este Ano da Misericórdia, que se iniciou no passado dia 8 de Dezembro, o Papa Francisco encontre uma forma de estender o manto da misericórdia divina às pessoas que falharam no seu primeiro compromisso matrimonial, permitindo-lhes casar novamente perante a Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 11/12/2015)


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A Igreja e o preservativo

Papa Francisco conversa com os jornalista no regresso a Roma
Foto retirada daqui
Quando Bento XVI visitou os Camarões e Angola, em Março de 2009, a questão do preservativo acabou por captar a atenção mediática e relegar para segundo plano questões tão importantes como, por exemplo, a condenação veemente da corrupção.

A bordo do avião o Papa defendeu que “não se pode superar este problema da SIDA só com a distribuição de preservativos”, mas que tal exigia “a conjugação de dois factores: o primeiro, uma humanização da sexualidade” e “o segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem”. Assim, Bento XVI tentou alargar o âmbito da discussão em torno do uso do preservativo, mas o que ficou foi que a Igreja continuava a ser contra o seu uso. Este Papa viria depois a corrigir a sua posição afirmando claramente que o seu uso é justificado em determinados casos.

Já o Papa Francisco, no regresso da visita ao Uganda, Quénia e República Centro Africana, quando confrontado com a questão, também a bordo do avião, furtou-se a dar uma resposta se “sim” ou “não” se deve usar. Insistiu nas grandes questões que abordou em África e voltou a chamar a atenção para “a desnutrição, a exploração das pessoas, o trabalho escravo, a falta de água potável: estes são os problemas”, disse. E considerou que a “grande ferida” do continente africano “é a injustiça social, a injustiça ao meio ambiente”. Desta forma o Papa voltou aos principais assuntos da viagem por África, apelando ao diálogo e à reconciliação entre as pessoas de diferentes religiões, etnias e condições sociais.

É desta forma que a Igreja pode dar o seu maior contributo ao mundo. Não “descer a reflexões de casuística”, nas palavras do Papa Francisco, mas elevar a reflexão ao nível dos princípios e dos valores.

Mais importante do que ditar o uso ou não uso do preservativo, a Igreja deve preocupar-se em propor valores, como sejam o altruísmo e a abertura à vida, ou a humanização da sexualidade, como defendeu Bento XVI. No fundo, é fazer o mesmo caminho que percorreu em relação à organização política das sociedades: em vez de propor um modelo a partir da sua Doutrina Social, fornecer os valores a respeitar no exercício do poder. E denunciar todos os comportamentos que não os respeitam, sem canonizar um qualquer sistema político.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 04/12/2015)