sábado, 4 de outubro de 2014

Pode-se criticar o Papa?

O bispo Livieres Plano reage à remoção e diz que "o Papa terá de prestar contas a Deus".
Foto retirada de Aleteia.org
O bispo paraguaio Livieres Plano reagiu violentamente à remoção que lhe foi imposta pela Santa Sé através de uma carta enviada ao Prefeito da Congregação dos Bispos, o cardeal Marc Ouellet. Chega mesmo a considerar que o afastamento da diocese de Ciudad del Este é uma decisão “infundada e arbitrária e sobre a qual o Papa terá que prestar contas a Deus”.

Foi noticiado que o principal motivo a ditar a remoção do bispo foi o encobrimento e a defesa de um sacerdote acusado de pedofilia nos Estados Unidos. São várias, contudo, as razões que levaram o Vaticano a investigar aquela diocese e o seu bispo. “Livieres não foi removido por questões de pedofilia”, disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, ao Catholic News Service. “Esse não foi o problema principal”, sublinhou, e esclareceu que na base desta “grave decisão” estiveram “problemas sérios na administração da diocese, na formação do clero e nas relações como os outros bispos”.

A relação de Livieres com os outros bispos foi sempre tensa. Agudizou-se quando retirou os seus seminaristas do único seminário do Paraguai, por considerar que a formação ali ministrada era “deficiente” e muito influenciada pela Teologia da Libertação. Criou um seminário próprio, com uma orientação mais tradicionalista e com apenas quatro anos de estudo, em vez dos seis que a Santa Sé recomenda. Recentemente envolveu-se numa polémica com um outro bispo do seu país, que chegou a apelidar de homossexual.

Foi este ambiente de crispação que ditou a sua remoção e, depois, o ataque que o próprio fez à decisão do Papa. Uma reação que é surpreendente para quem criticou o bispo Fernando Lugo quando este se candidatou à presidência do Paraguai, por não acatar as ordens de João Paulo II. Liviers não é o único que no passado defendeu um seguimento incondicional das determinações do Papa mas que, agora, quando lhe toca a ele e não lhe agradam, já se sente à vontade para as criticar e até por em causa.

Apesar de alguns sectores sustentarem a obediência cega às resoluções do Papa, talvez seja mais sensato admitir que até as decisões papais são passíveis de serem discutidas. O que não se pode é pôr em causa a unidade em torno do essencial da fé.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/10/2014)

domingo, 28 de setembro de 2014

Papa prende bispo

Arcebispo Josef Wesolowski
Foto retirada daqui
O Papa Francisco recebeu esta semana os bispos por ele nomeados durante o último ano. E, tal como noutras circunstâncias, usou esse encontro para sublinhar algumas das características que quer ver nos Pastores da Igreja: acima de tudo não quer que estes sejam “apagados ou pessimistas”, mas que cultivem e ofereçam ao mundo a “alegria do Evangelho”.

Quando são colocados numa diocese não devem aspirar a uma outra. Têm de resistir à tentação de mudar de povo, bem como de “mudar o povo”. E devem ter uma particular atenção aos mais jovens e aos mais idosos.

O Papa solicitou também aos bispos uma grande disponibilidade para receber, acolher, escutar e guiar os sacerdotes que lhes são confiados. E a manterem-se “acessíveis” a todos, “sem discriminação”. Na Evangelii Gaudium já tida recomendado aos bispos que deviam “ouvir a todos, e não apenas alguns sempre prontos a lisonjeá-lo” (nº31). Agora pediu-lhes para resistirem à “tentação” de sacrificar a própria liberdade rodeando-se de “cortes ou coros de consenso”.

Os bispos são chamados, segundo o Papa, a oferecer nos mais diversos contextos “a doçura de uma paternidade que gera”, acompanhada da “firmeza da autoridade que faz crescer”. No exercício do ministério petrino, Jorge Mario Bergoglio tem preconizado para os bispos a bondade e o acolhimento. Mas não abdica da determinação e da firmeza em relação a eles quando as circunstâncias o exigem.

Disto é um bom exemplo a forma como conduziu o escândalo do ex-núncio apostólico na República Dominicana, o arcebispo Josef Wesolowski. Logo que foram tornados públicos os comportamentos reprováveis do representante diplomático da Santa Sé junto do Governo daquele país, removeu-o imediatamente do seu cargo – embora lhe tenha garantido a liberdade de movimentos, em Roma, enquanto decorria o processo.

Porém, quando se comprovaram as acusações, a Congregação da Doutrina da Fé fê-lo regressar ao estado laical. Enquanto decorre o processo judicial, o tribunal civil do Vaticano decretou a sua prisão domiciliária, dando seguimento “à vontade expressa do Papa, para que um caso tão sério e delicado fosse tratado sem demora, com o justo e necessário rigor”, revelou o porta-voz da Santa Sé.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/09/2014)

sábado, 20 de setembro de 2014

Papa “casa” divorciado

Foto de Alberto Pizzoli/AFP          
O Papa presidiu à celebração do casamento de vinte casais. De facto, não foi ele que os casou, foram eles que se casaram. É o único sacramento da Igreja em que os próprios que o recebem são eles os ministros do sacramento.

Quando se é batizado, é o diácono ou o sacerdote que batiza o catecúmeno. Quando se é crismado, é o bispo que crisma o crismando. Quando alguém é ordenado, é o bispo que ordena. Ninguém se ordena a si próprio. No caso dos bispos, é mesmo exigida a presença de três bispos, em comunhão plena com a Igreja.

Contudo, na linguagem corrente continua a dizer-se que “foi o padre tal que nos casou”. E até os próprios padres, por vezes, dizem impropriamente: “Fui eu que os casei”. Da mesma forma saíram diversos títulos referindo que o Papa casou…

Este tipo de cerimónias não é muito comum. João Paulo II só o fez por duas vezes. Bento XVI, enquanto Papa, que se saiba, nunca presidiu a um matrimónio. O Papa Francisco fê-lo pela primeira vez este domingo. Para esta celebração escolheu esposos nas mais variadas circunstâncias, entre os quais desempregados, alguns a viverem em união de facto e até um divorciado que casou com uma mãe solteira.

Foi este caso que mereceu maior destaque nos meios de comunicação social e gerou a ideia de que o Papa tinha feito algo de extraordinário. Só que o noivo, apesar de ser divorciado, conseguiu que o seu casamento religioso fosse declarado nulo. Pelo que, canonicamente, ele era solteiro e qualquer clérigo poderia ter abençoado o novo matrimónio.

O problema teria sido repetir o casamento católico sem que o anterior tivesse sido declarado nulo. Para esses é que a Igreja ainda não tem resposta. A maior parte dos divorciados não só não podem casar, novamente perante a Igreja, como também não podem aceder a outros sacramentos se estiverem a viver numa nova união, civil ou de facto.

Espera-se que o Sínodo dos Bispos reflita sobre essa e outras situações irregulares e que encontre uma solução para que as pessoas possam ser admitidas à confissão e comungar. Para já o Papa limitou-se a acolher diferentes percursos para o matrimónio e a cumprir integralmente a práxis da Igreja, sem deixar de sublinhar o carácter heterossexual do matrimónio.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/09/2014)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

ONU das religiões


Abdel-Karim Allam
Foto retirada daqui
Abdel-Karim Allam, o grande mufti do Egito, classificou o Estado Islâmico como uma organização “corrupta e extremista” e sustentou que “é um erro tremendo chamar esse grupo terrorista de ‘estado islâmico’, porque ele viola todos os valores islâmicos, os objetivos mais elevados da lei islâmica e os valores universais compartilhados por toda a humanidade”. Defendeu mesmo que os seus membros devem responder em tribunal pelas atrocidades que têm cometido na Síria e no Iraque.

O líder máximo dos muçulmanos egípcios proferiu estas afirmações no início desta semana, num encontro internacional da Comunidade de Santo Egídio que reuniu 300 líderes religiosos em Antuérpia, na Bélgica.

Não se conhecem muitas condenações tão veementes na boca dos líderes religiosos muçulmanos. No entanto, como se vê, muitos deles não aprovam o derramamento de sangue pelos motivos que os fundamentalistas advogam. Motivos, esses, já agora, que são os mesmos que os católicos invocaram há séculos e que mancharam a história da Igreja – mas que, felizmente, o pensamento católico já abandonou.

O Papa Francisco tem condenado a guerra em nome de Deus. Comentando a expulsão dos cristãos de Mossul e o conflito na faixa de Gaza, disse no início de Agosto que a guerra ofende gravemente a Deus e à humanidade. “Não se faz guerra em nome de Deus!”, afirmou.

Para ultrapassar este paradoxo, o ex-presidente israelita, Shimon Peres, defendeu numa entrevista à revista “Famiglia Cristiana” a criação de uma ONU das religiões: “Creio que deveria existir também uma Carta das Religiões Unidas, que serviria para estabelecer em nome de todas as religiões que degolar pessoas ou cometer assassinatos em massa, como vemos nestas semanas, não tem nada a ver com a religião”, afirmou. “Foi isto que propus ao Papa”.

Uma ideia que o Papa terá acolhido com interesse, na demorada audiência que concedeu a Peres. Haja por parte dos outros líderes religiosos a mesma abertura e a ONU das religiões poderá vir a ser uma realidade. Mas não basta criá-la: será preciso dotá-la dos meios necessários para que consiga, não só denunciar e condenar os fundamentalismos, mas também travá-los. Em suma, evitar que haja guerras em nome de uma conceção distorcida da religião.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 12/09/2014)

domingo, 7 de setembro de 2014

Revisão do celibato

Foto: L’Osservatore Romano
Mães biológicas e espirituais de sacerdotes escreveram ao Papa para pedir que “proteja o celibato”. O documento é assinado por 332 mulheres que, desta forma, respondem a uma outra missiva, a qual em maio teve ampla divulgação mediática, de 26 mulheres que pediram a revisão dessa disciplina eclesiástica.

Há quem pense que deixando casar os padres aumentariam as vocações ao sacerdócio e que se resolveriam muitos dos problemas associados a esta prática eclesiástica. Esta é uma forma simplista e errónea de pôr a questão: não será a partir dessas teses que a Igreja concluirá pela mudança dessa práxis.

De facto, as Igrejas que têm o celibato como opcional, como é o caso das comunidades evangélicas, ou anglicanas, ou mesmo as católicas de rito oriental, têm também falta de vocações sacerdotais. Se alguns problemas se resolveriam, outros se levantariam. Talvez por isso, os bispos de rito oriental – que sempre teve padres casados – são os que olham com maior apreensão para a revisão da obrigatoriedade do celibato para os sacerdotes. Por exemplo: uma infidelidade de um clérigo afetaria, não só as promessas sacerdotais, mas também os compromissos assumidos com a sua esposa e a estabilidade da vida conjugal.

Também não se evitariam os escândalos de pedofilia, como erroneamente alguns pensam, uma vez que essas práticas são distúrbios que nada têm a ver com o facto de as pessoas serem ou não casadas.

Não é por aí que deve passar a discussão de mudar, ou não, dessa disciplina da Igreja. O que se pode vir a equacionar é a possibilidade de, em determinadas realidades, virem a ser ordenados homens casados que já têm uma vida familiar estável e desempenham um papel de liderança da comunidade. Em muitos contextos, como os de missão, são eles que orientam a celebração dominical na ausência do presbítero, que mantêm viva a fé dos crentes e a alimentam. Por que razão não podem eles ser ordenados e garantirem a celebração da eucaristia, a confissão e a unção dos enfermos a essas pessoas?

O cerne da questão não deve ser tanto o abandono do celibato, mas a revitalização das comunidades eclesiais, de forma a que elas próprias gerem os seus pastores. E estes poderão ser celibatários ou não.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 05/09/2014)

domingo, 31 de agosto de 2014

Terrorismo interno

Foto retirada daqui
O Papa Francisco retomou, esta semana, as audiências na Praça de S. Pedro com críticas contundentes para o interior da Igreja. Regressou à temática das divisões entre os cristãos, que já abordou noutras circunstâncias, nomeadamente no encontro com os pentecostais.  Agora, porém, aplica-a ao interior das comunidades católicas e não tanto no âmbito do diálogo ecuménico.

A proposta do Papa foi uma reflexão sobre a “Igreja Una e Santa”. Recordou que “há tantos pecados contra a unidade; e não pensemos apenas nas heresias ou nos cismas, mas em faltas muito mais comuns, nos pecados ‘paroquiais’: com efeito, as nossas paróquias, chamadas a ser lugares de partilha e comunhão, infelizmente parecem marcadas por invejas, ciúmes, antipatias. Como se coscuvilha nas paróquias! Isto não é Igreja, não se faz! É verdade que isso é humano, mas não é cristão!”

São estas e outras críticas, acompanhadas por uma atitude de compreensão para com os que andam afastados, que entusiasmam muitos e incomodam alguns. Estes, aliás, têm promovido uma oposição silenciosa e sub-reptícia ao Papa muito mais perigosa que um atentado terrorista.

Um atentado terrorista faria dele um mártir das suas convicções e da renovação que propõe à Igreja e ao Mundo. Mas este terrorismo eclesiástico é muito mais perigoso, porque procura descredibilizar e esvaziar a dinâmica reformadora por ele introduzida.

“No início, criticaram-no pela simplicidade das suas roupas, depois pela sua liberdade litúrgica, mais tarde por causa da sua crítica ao sistema económico. Agora ficam incomodados com as visitas que faz aos seus amigos – é mau que tenha amigos, pior ainda se são judeus, muçulmanos ou pentecostais. Não gostam que ria, brinque, surpreenda, improvise, converse, telefone, em resumo, que haja humanamente”, escreveu Marco Velásquez Uribe, no sítio chileno “Reflexión y Liberación”.

Prossegue este autor: “A um nível mais elevado, e de maneira mais orgânica, estrutura-se uma oposição dogmática. Silenciosamente, vai ganhando força uma corrente teológica que, sem pudor, vai corrigindo os desejos reformistas do papa”.

O que se deseja é que tanto o terrorismo externo como o interno não consigam calar nem travar o Papa Francisco.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/08/2014)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Viagens papais com convidado especial

Foto retirada daqui
O Papa Francisco regressa da Coreia do Sul já com os olhos postos na Albânia, nos Estados Unidos e em Espanha. Confirmou esse programa na conferência de imprensa durante o voo de regresso. Nesse diálogo com os jornalistas alguns assuntos saltaram para o topo da atualidade, como as alusões ao bombardeamento norte-americano do autoproclamado Estado Islâmico, à sua esperança de vida – “dois ou três anos”, disse ele – e a hipótese de vir a resignar.

Vários outros temas, compreensivelmente, não mereceram o mesmo destaque. Na resposta a uma questão sobre as próximas viagens, o Papa revelou que, ainda este ano, irá à Albânia. Visitará aquele país por causa de os albaneses terem conseguido formar um governo de unidade nacional, com a participação de islâmicos, ortodoxos e católicos. Se ali foi possível, o Papa quer animar outros povos a fazerem o mesmo. Até entre nós, portugueses, não é fácil fazer um governo que coloque o interesse nacional acimas das estratégias político-partidárias....

Uma outra razão que o leva àquelas paragens é o facto de a fé ali se ter mantido, apesar de aquele ter sido o único país do bloco de Leste que incluía o ateísmo prático na sua Constituição. “Se tu ias à missa era anticonstitucional”, disse o Papa. Para além disso, recordou também, durante a vigência do regime comunista 1820 igrejas católicas e ortodoxas foram destruídas e outras foram transformadas em cinemas, teatros e salões de dança...

No próximo ano, atravessa o Atlântico para ir ao Encontro Mundial da Família em Filadélfia e, eventualmente, passar pelo Parlamento norte-americano e na sede das Nações Unidas. Depois seguir-se-á a visita ao Santuário de N. Sra. de Guadalupe, no México. E põe, ainda, a hipótese de aceder aos inúmeros convites para ir a Santiago de Compostela, em Espanha.

Por imposição do Papa, em todas as viagens fora de Itália a comitiva, para além dos habituais altos dignatários da Santa Sé, inclui pelo menos um funcionário de nível inferior. Nesta viagem à Coreia, por exemplo, foi convidado um telefonista do Vaticano. O Papa pretende, desta forma, demonstrar que para ele todas as pessoas são importantes, sobretudo as que, habitualmente, são menos consideradas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 22/08/2014)

domingo, 17 de agosto de 2014

Os nossos "Franciscos"

Conferência de imprensa de apresentação da peregrinação anual
do migrante e refugiado ao Santuário de Fátima
Foto: Fatima.pt, retirada daqui
Os nossos bispos alinham o seu discurso com o do Papa Francisco e não se coíbem de criticar o capitalismo, os políticos e a falta de ética nos mercados.

D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, para além de ter o mesmo nome que escolheu o Papa, tem manifestado as mesmas preocupações pelos mais pobres nas palavras e em gestos, muito semelhantes. Ainda neste S. João do Porto escolheu as famílias mais desfavorecidas da Ribeira para com elas passar essas festividades.

Na homilia da missa da peregrinação anual do migrante e refugiado ao Santuário de Fátima, anteontem, não disse, como o Papa, que “a economia mata”. Mas deu o passo que se impõe, que é o de promover “uma economia de rosto humano e solidário e um sistema financeiro assente na verdade”.

Um outro Francisco – o frei Francisco Sales, diretor da Obra Católica Portuguesa para as Migrações – na conferência de imprensa de apresentação da peregrinação foi ainda mais contundente do que o seu homónimo na crítica às políticas que têm provocado um “grande fluxo migratório português, quase uma sangria da população portuguesa, pela Europa e pelo mundo”. Disse: “A emigração e as migrações são uma denúncia contra as políticas e contra os governos, ou seja, contra a incompetência dos políticos criarem condições para fixarem as suas populações”. E clarificou que essa incompetência é “fruto de uma crise de valores, de uma corrupção política e financeira que levou a que o país não tivesse condições para criar trabalhos e condições para fixar particularmente os jovens”.

D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima e anfitrião da peregrinação, classificou a turbulência financeira e bancária que se vive em Portugal como mais uma manifestação da “ditadura do capitalismo financeiro e especulativo”, como a apelidou Bento XVI. Lembrou também o Papa Francisco e considerou o momento em que nos encontramos como o resultado da “tirania económico-financeira, especulativa, virtual, desligada da economia real”.

São palavras corajosas em que transparece uma sintonia com os pensamentos do anterior e do atual Papa. E – o que é fundamental – evidenciam o mesmo compromisso com os problemas dos mais desfavorecidos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/08/2014)

domingo, 10 de agosto de 2014

A queda de um banco

Ricardo Salgado
Foto retirada daqui
A crise do BES é mais um exemplo de como o lucro a qualquer preço e uma gestão à margem da lei e da ética podem perverter uma atividade que deveria estar ao serviço do desenvolvimento humano, social e económico dos seus clientes e do contexto em que se insere.

“A vocação dum empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos”, recordava o Papa Francisco no nº 203 da “Evangelii Gaudium”.

Já Bento XVI, na “Caritas in Veritate”, avisava que “a economia e as finanças, enquanto instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas referimentos egoístas. Deste modo é possível conseguir transformar instrumentos de per si bons em instrumentos danosos; mas é a razão obscurecida do homem que produz estas consequências, não o instrumento por si mesmo” (nº 36).

De facto a Igreja não demoniza os mercados financeiros, mas valoriza o seu papel fundamental no crescimento económico, “que permitiu, entre outras coisas, apreciar as funções positivas da poupança para o desenvolvimento integral do sistema económico e social”, como se pode ler no nº 368 do Compêndio de Doutrina Social da Igreja, publicado em 2004, com o objetivo de apresentar de forma sistemática o pensamento católico sobre as questões sociais.

O mesmo Compêndio cita João Paulo II para denunciar “as ações e as atitudes opostas à vontade de Deus e ao bem do próximo” que corrompem a atividade económica: “por um lado, há a avidez exclusiva do lucro; e, por outro lado, a sede do poder, com o objetivo de impor aos outros a própria vontade. A cada um destes comportamentos pode juntar-se, para os caracterizar melhor, a expressão: ‘a qualquer preço’. Por outras palavras, estamos diante da absolutização dos comportamentos humanos, com todas as consequências possíveis” (Sollicitudo Rei Socialis, nº 37).

Ambas as tendências parecem ter estado na génese do terramoto que ditou a derrocada do BES, bem como a queda do seu líder, “o banqueiro do regime”, como era considerado. Este que, se conhecia, não seguia a Doutrina Social da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/08/2014)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O Papa e o pastor

Foto retirada daqui
Na sua deslocação a Caserta, no sul de Itália, para participar na festa da padroeira Santa Ana, o Papa Francisco teve um encontro com a comunidade pentecostal daquela cidade e o pastor evangélico, Giovanni Traettino. Uma “visita privada”, segundo o sítio oficial da Santa Sé, um “encontro de irmãos” para o Papa, que desde Buenos Aires vêm trilhando um caminho de “amizade” e “proximidade”.

Uma iniciativa papal surpreendente para alguns, com a qual o próprio ironizou no final do seu discurso. “Alguns estarão espantados: ‘Mas, o Papa foi visitar os evangélicos!’ Foi encontrar irmãos! – respondeu – Porque, na verdade, foram eles que vieram primeiro visitar-me em Buenos Aires. [...] Agradeço-vos muito, peço que rezem por mim, preciso muito... para que ao menos eu seja melhor. Obrigado!”

Anteriormente, tinha denunciado os católicos que colaboraram com a ditadura fascista de Mussolini e perseguiram os evangélicos que eram considerados uma seita e “nocivos à identidade física e psíquica da raça” italiana. Com a conivência de muitos – e à denúncia de outros tantos – muitos evangélicos foram detidos, vários pastores foram deportados e as suas igrejas destruídas. Por todas essas atrocidades, cometidas na Itália dos anos 30, pediu perdão aos pentecostais.

Esta é mais uma atitude do Papa Francisco que incomodou alguns sectores mais tradicionalistas, tanto católicos como evangélicos. Se uns não veem com bons olhos o “mea culpa” papal, os outros não apreciaram o acolhimento do pastor Giovanni Traettino ao Papa, nem estas palavras de saudação dirigidas ao amigo Bergoglio: “A nossa alegria é grande pela sua visita [...] E tem que saber de uma coisa: pela sua pessoa, também entre nós evangélicos, há muito afeto e muitos de nós também rezamos todos os dias por si. Além do mais, é muito fácil gostar de si. Muitos de nós acreditamos que a sua eleição como Bispo de Roma tem sido obra do Espírito Santo”.

O Papa está convicto de que a divisão entre os cristãos não é obra do Espírito Santo, mas do Mal que espalha a semente da discórdia entre irmãos. E pensa, também, que a unidade não pode ser construída na uniformidade, mas no respeito pela diversidade e no apreço pelo diverso.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 01/08/2014)

domingo, 27 de julho de 2014

A expulsão de Mossul

Foto retirada do sítio Aleteia
Os extremistas muçulmanos do auto proclamado Estado Islâmico estão, na Planície de Nínive, a fazer uma limpeza étnica e religiosa pelos territórios que conquistaram entre a Síria e o Iraque. Todos os que não professam a fé em Alá segundo a tradição sunita, ou se convertem, ou têm de abandonar a região para salvar a vida. Mesmo os sunitas mais moderados, ou os xiitas, não escapam à perseguição, mas é sobretudo aos curdos e aos cristãos que a intolerância religiosa está a fustigar de forma mais dura.

Em Mossul, a terceira cidade do Iraque, as casas dos cristãos foram assinaladas com a letra “n” do alfabeto árabe, a inicial de “Nazareno”, o nome depreciativo dado aos cristãos em ambientes islâmicos. Os seus habitantes foram despojados de todos os bens e tiveram de optar entre o exílio e a morte. Durante esta semana saíram da cidade os últimos três mil cristãos – quando, em 2003, após a invasão liderada pelos Estados Unidos  se contabilizavam cerca de 35 mil.

Acaba, assim, uma presença cristã de dois mil anos naquela zona do globo. Uma presença que sobreviveu às controvérsias teológicas e heréticas dos primeiros séculos do cristianismo, que resistiu às perseguições turcas e mongóis, que conviveu com a cultura árabe. Uma presença que se instalou na região, arabizando-se nos seus costumes mas mantendo a fé cristã.

Perante a expulsão de Mossul o mundo ocidental remeteu-se a um silêncio “vergonhoso”, como o classificou o Papa Francisco num telefonema ao Patriarca Sírio-católico Youssef III Younan.

É compreensível o embaraço dos líderes ocidentais que têm ziguezagueado no Médio Oriente, apostando ora nos sunitas, ora nos xiitas: na Síria apoiam os sunitas contra o ditador Bashar al-Assad; no Iraque defendem os xiitas que colocaram no poder depois de os terem utilizado contra Saddam Hussein, o qual, por seu lado, tinham apoiado nos anos 80 na guerra que este moveu ao xiitas do Irão.

O Ocidente comporta-se na pior tradição dos que consideram amigos os inimigos dos seus inimigos. É por isso que os sunitas são apoiados pela Ocidente na Síria e inimigos no Iraque, os dois países onde estes querem controlar territórios para criar o Califado Islâmico...

“Sic transit gloria mundi”!

(Texto publicado no Correio da Manhã de 25/07/2014)

domingo, 20 de julho de 2014

Gaza e o Papa

Foto retirada daqui
Os assassinatos bárbaros de três jovens israelitas e a execução pelo fogo de um palestiniano fizeram despoletar, novamente, a guerra na Faixa de Gaza. Puseram fim a um período de alguma acalmia nas difíceis relações israelo-palestinianas. Mataram as sementes de reconciliação e paz que o Papa espalhou durante a sua visita àquela região e que germinaram no encontro entre o líder palestiniano, Mahmud Abbas, e o presidente israelita, Shimon Peres, com a bênção do Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu.

Nessas circunstâncias o Papa disse que “é preciso mais coragem para fazer a paz do que a guerra”. A evolução dos acontecimentos demonstraram que não houve nem coragem, nem discernimento para calar as armas – e dá a ideia de que os esforços do Papa de nada valeram. Porém, para o seu amigo judeu, Abraham Skorka, “o que está a acontecer não atesta o fracasso da iniciativa do Papa Francisco”. Pelo contrário, “confirma dramaticamente que é necessário continuar a promover ainda mais gestos de encontro para que a coragem prevaleça sobre o ódio irracional”.

Num simpósio sobre a Paz, que terminou ontem em Madrid, Rodríguez Zapatero propôs a criação de uma “autoridade religiosa global” que se opusesse a toda e qualquer violência e promovesse o pluralismo religioso, a paz e a liberdade. Para o antigo Presidente do Governo de Espanha, nenhuma religião pode pretender que as suas crenças sejam as únicas verdadeiras e que todas as outras formas de acreditar tenham de ser combatidas e eliminadas.

Foi esta perspetiva que esteve na génese de todas as guerras santas da história e que os fanatismos de todas as religiões, ainda hoje, querem ressuscitar. Contudo, num mundo plural e tolerante “não há hereges” para Zapatero: “Há pessoas que pensam de maneira diferente ou têm diferentes ideias e em nome de nenhuma fé se pode apoiar o ódio e o fanatismo”.

O Vaticano II resgatou a Igreja da intransigência e colocou-a na estrada da abertura ao diferente, embora ainda haja franjas no seu interior que resistem à renovação conciliar. Meio século depois, o Papa Francisco continua a desafiar os católicos a saírem dos seus muros e a percorrerem esse caminho de tolerância e diálogo inter-religioso.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 18/07/2014)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Despovoamento do interior

Sítio do "Projeto Policoro"
A agência Ecclesia dedica o dossier do último número do seu semanário digital às questões do interior do país e o papel da Igreja, nomeadamente das dioceses, no combate ao despovoamento e o envelhecimento da população, problemas que afetam o todo nacional, mas com uma maior incidência nas localidades mais afastadas dos grandes centros e do litoral.

Não compete à Igreja resolver certos problemas sociais. Contudo, não pode ser insensível às preocupações e necessidades das pessoas concretas a que é chamada a anunciar os valores evangélicos. Da mesma forma que Pedro e João não ficaram indiferentes ao coxo que pedia esmola à porta do templo. “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isto te dou: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!” - disse-lhe Pedro e, pegando-lhe na mão, levantou-o.

D. António Vitalino, bispo de Beja, num texto de opinião inserido nessa publicação, reflete sobre os desafios que o “inverno demográfico” coloca às dioceses do interior e propõe algumas linhas de atuação pastoral para ajudar a inverter esta situação na sua diocese.

Contudo, a complexidade do problema exigem um envolvimento supradiocesano e a cooperação entre diversos organismos eclesiais. Foi a essa conclusão que chegaram algumas dioceses no sul de Itália, confrontadas com problemas semelhantes. Identificaram como principal causa para essa situação o desemprego juvenil. Reuniram-se na cidade de Policoro com os responsáveis nacionais da Pastoral Social, da Pastoral Juvenil e da Cáritas e, inspirando-se na resposta de Pedro, gizaram o Projeto que recebeu o nome da cidade em que se reuniram.

A filosofia deste projeto é ajudar os jovens a levantarem-se da berma da “estrada da resignação” e deixarem de “mendigar assistência”, para caminharem em conjunto e criarem o seu próprio emprego.
Desde 1995, graças ao “Projeto Policoro”, foram criados mais de quatro mil postos de trabalho em sociedades comerciais, cooperativas e pequenas empresas. O projeto credibilizou-se e foi até citado pelo Papa Francisco na recente visita à Calábria.

Este e outros projetos no mundo podem inspirar a Igreja em Portugal no lançamento de iniciativas para melhorar as condições de vida dos portugueses.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 11/07/2014)

domingo, 6 de julho de 2014

Recasados sem resposta

Foto retirada daqui
O Vaticano divulgou o “Instrumentum Laboris”, que acolhe as respostas de diversos organismos eclesiais ao inquérito sobre a problemática da família e propõe linhas de reflexão aos participantes no Sínodo dos Bispos Extraordinário.

Para além de propor uma análise bastante aprofundada da “situação familiar contemporânea, dos seus desafios e das reflexões que suscita”, transparece no documento um esforço da Igreja em olhar de frente para o que define como “situações matrimoniais difíceis”. Estas são os casos das uniões de facto, dos divorciados e recasados, ou das uniões de pessoas do mesmo sexo. As pessoas nessas situações vivem “histórias de grande sofrimento, assim como testemunhos de amor sincero”. São pessoas que sofrem quando lhes é negado o acesso aos sacramentos ou o batismo dos filhos. São situações que exigem da Igreja uma resposta, resposta essa que permita que estas “pessoas curem as feridas, sarem e retomem o caminho juntamente com toda a comunidade eclesial”.

O “Instrumentum Laboris” propõe alguns caminhos e resolve algumas questões, mas deixa outras em aberto para a reflexão dos bispos. Por exemplo: diz claramente que os sacramentos não podem ser negados às pessoas que vivem separadas. Também não pode ser negado o batismo ao filho de uma mãe solteira ou de uma pessoa que vive numa união com outra do mesmo sexo. Neste último caso, diz explicitamente: “deve ser acolhido com as mesmas atenção, ternura e solicitude que recebem os outros filhos”.

Em relação aos divorciados a viverem uma nova união, dá-se conta do pedido vindo sobretudo da Europa e da América para que possam “receber os sacramentos”. Ou, então, que à semelhança do que acontece em determinadas Igrejas ortodoxas, se abra “o caminho para um segundo ou terceiro matrimónio, com carácter penitencial”. Também se refere que alguns pedem que se esclareça se “a questão é de índole doutrinal ou apenas disciplinar”.

Terá de se aguardar pela realização do Sínodo dos Bispos, em Outubro, para, eventualmente, se ficar com uma resposta clara para a situação dos divorciados recasados. A Igreja precisa de ter para essa e para outras questões uma forma de atuação adequada que possa ser compreendida por todos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 04/07/2014)

domingo, 29 de junho de 2014

Máfia excomungada

Papa na Calábria
Foto retirada daqui
O Papa Francisco foi corajoso ao proferir palavras duras contra a máfia e os mafiosos na visita à diocese calabresa de Cassano all’Jonio, no sul de Itália, no passado sábado. Afirmou: “A 'Ndrangheta’ [máfia calabresa] é isto: adoração do mal e desprezo pelo bem comum”. E concluiu: “Aqueles que na sua vida seguem o caminho do mal, como são os mafiosos, não estão em comunhão com Deus: estão excomungados”. São palavras fortes e constituem a crítica mais contundente de um Papa a esta organização criminosa.

João Paulo II, a 9 de maio de 1993, em Agrigento, na Sicília, atreveu-se a dizer aos mafiosos: “Arrependei-vos, virá o juízo de Deus”. Meses depois foi assassinado em Palermo o padre Pino Puglisi, um sacerdote que se dedicava à prevenção da toxicodependência e da delinquência juvenil. Para Alessandra Dino, professora da Universidade de Palermo, tratou-se de “uma vingança, uma resposta direta a João Paulo II” da máfia siciliana. A Igreja considera Pino Puglisi o primeiro mártir da “Cosa Nostra” e foi beatificado a 25 de maio do ano passado.

Desde a sua morte, “o compromisso antimáfia da cúpula eclesiástica pareceu enfraquecer-se, delegando tudo aos padres definidos como ‘de fronteira’ ou ‘de rua’, de acordo com a moda jornalística” escreveu há dias Roberto Saviano, jornalista perseguido pela 'Ndrangheta, no jornal “La Repubblica”. Alessandra Dino, que tem estudado a relação entre a Igreja e a máfia, identificou mesmo alguma condescendência dos párocos sicilianos para com os mafiosos, os quais, de acordo com a sua pesquisa em Palermo, chegam a considerar alguns como “homens de honra”.

O bispo de Cassano all’Jonio, nomeado pelo Papa Francisco secretário da Conferência Episcopal Italiana, quer corrigir essa atitude no clero da sua diocese e garante que “a Igreja calabresa sente-se parte do despertar das consciências contra o crime organizado”, porque “o crime organizado alimenta-se de consciências adormecidas”.

Apesar de o crime organizado não ter em Portugal a dimensão italiana, não faltam “mafiazinhas” que pervertem regras e prejudicam quem não lhes pertence. Seria bom que a Igreja portuguesa não se acobardasse perante elas e contribuísse para acordar as consciências.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/06/2014)

domingo, 22 de junho de 2014

O fazedor de pontes

O abraço junto ao Muro das Lamentações
Foto retirada daqui
O Papa apresentou-se ao mundo como Bispo de Roma e parece preferir esse título a outros, que a história foi atribuindo a essa função na Igreja, como o de Sumo Pontífice. Porém, o exercício do ministério petrino que o cardeal Bergoglio tem vindo a desempenhar está a tornar-se num verdadeiro pontificado, não no sentido tradicional do tema mas no sentido originário.

A palavra pontífice tem a sua origem etimológica nos termos latinos pons facere. É, portanto, um fazedor de pontes, literalmente. Atribuído ao Papa entende-se como aquele que faz a ponte entre os homens e Deus. Precedido do qualificativo Sumo, é mesmo considerado o mais elevado, mais excelso construtor de pontes.
O Papa Francisco não se limita a fazer a ponte entre Deus e os homens, mas preocupa-se também com os muros que dividem a humanidade, a começar pelos que têm a sua origem nas convicções religiosas.

Numa recente entrevista ele confidenciou que rejeitou o papa-móvel, com vidros à prova de bala, por detestar todas as barreiras, mesmo as que são colocadas para sua segurança, mas que o impedem de contactar com as pessoas. Nessa mesma entrevista referiu que na Argentina é normal a convivência entre emigrantes originários de diferentes países, culturas e religiões. Daí a sua amizade com o judeu Abraham Skorka e o muçulmano Ombar Abboud, que se abraçaram junto ao Muro das Lamentações, em Jerusalém. Um desejo antigo de todos e uma bela parábola das pontes que é preciso construir entre as três religiões

Francisco tem-se destacado como Sumo Pontífice, ou seja, altíssimo mediador dessa reconciliação que não é bem vista pelos fundamentalistas de todas as três religiões, presentes também entre os católicos. Basta consultar a Internet para tropeçar em inúmeras críticas à atitude tolerante e conciliadora do Papa. Contrariamente ao que se possa pensar, não quer, contudo, uma uniformização das diferentes e peculiares identidades de cada pessoa, crença ou cultura, o que ele denomina de má globalização. Propõe, isso sim, uma sadia globalização, em que as especificidades de cada um não ponham em causa o bom entendimento entre todos. Tal como acontece no seu relacionamento com os seus amigos judeu e muçulmano.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/06/2014)

domingo, 15 de junho de 2014

O diamante Taizé

Oração na Igreja da Reconciliação em Taizé
Foto retirada do site de Taizé
“O que tem de especial Taizé?” Foi essa a questão que um jovem colocou ao frei Alois, o prior da Comunidade. Ao que ele respondeu com simplicidade: “Eu acho que nada. Somos uma comunidade de frades com limitações e fraquezas”.

Mas este é, de facto, um local especial. Onde é possível um pastor protestante desempregado abeirar-se de um sacerdote católico paramentado e pedir-lhe que o abençoe para que Deus o ajude a encontrar emprego. Onde se vive e respira o acolhimento e a reconciliação. Onde o ritmo diário é marcado pelos sinos que convocam milhares de pessoas à oração na Igreja da Reconciliação, de manhã, ao meio da jornada e ao fim do dia.

A pequena aldeia de Taizé foi escolhida, em 1940, por Roger Schutz para ali se fixar. Comprou uma quinta com uma casa em ruínas e aí sonhou fundar uma fraternidade que se dedicasse a sarar as feridas de uma humanidade em conflito mundial. Dada a sua situação – a sul dos limites da França ocupada pelos nazis – começou por acolher refugiados de guerra, que ajudava a passar para o seu país de origem, a neutral Suíça. Entretanto foi desenhando uma comunidade que reunisse os seguidores do mesmo Jesus Cristo, que a história tinha dispersado em diferentes igrejas.

Estão agora a completar-se os setenta e cinco anos dessa caminhada. A Comunidade de Taizé é formada por uma centena de irmãos católicos e protestantes, de quase trinta países diferentes. Taizé é cada vez mais uma «parábola de comunidade», como se pode ler na sua página da Internet, “um sinal concreto de reconciliação entre cristãos divididos e entre povos separados”.

A sua vida de oração e comunhão atraem pessoas de todo mundo e milhares de jovens. Para o frei Alois, vão a Taizé “à procura de esperança, para olhar o futuro com alegria e não com medo”. A todos desafia a não se deixarem vencer pelo medo ou pela resignação, mas a trilharem o caminho de uma “nova solidariedade”, que “não se opõe a uma ‘antiga solidariedade’ que esteja hoje ultrapassada; ela deve corresponder mais a uma renovação, a uma ‘dinâmica do provisório’, que leva o crente a avançar, para lá de novos obstáculos”.

Para os monges de Taizé a solidariedade é, hoje, o caminho da reconciliação e da comunhão.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/06/2014)

domingo, 8 de junho de 2014

A doença do interior

Passos Coelho na Expo Trás-os-Montes, Bragança
Foto do Portal do Governo
O interior do país apresenta, há décadas, sintomas de uma doença grave, dos quais os mais preocupantes são o despovoamento e o envelhecimento da população. Parece que são problemas que afetam todo o mundo ocidental, mas sentem-se com maior incidência e relevância nas zonas mais periféricas dos países, como é o caso de Trás-os-Montes.

Uma vez que o diagnóstico está mais do que feito, é urgente encontrar terapêuticas para tratar esses males. Tal como acontece com os problemas mais graves, como a crise que atravessamos, os políticos, a maior parte das vezes, não têm a menor ideia de como os resolver. Compete à sociedade civil não se abandonar nas suas mãos e assumir a responsabilidade de rasgar novos horizontes.

O NERBA (Núcleo Empresarial de Bragança), na comemoração dos seus 25 anos de existência, promoveu, na semana passada, um Fórum Empresarial com o objetivo de "identificar algumas orientações estratégicas e ideias de projetos mobilizadores, ao nível regional e no âmbito da cooperação transfronteiriça, focadas numa trajetória de crescimento económico e de criação de emprego, em sintonia com a estratégia da União Europeia para o crescimento inteligente, sustentável e inclusivo".

Foram mais uma vez elencados os problemas acima referidos, e sublinhada a sua "tendência a agravarem-se". As políticas nacionais não têm ajudado a inverter esta tendência na região, antes pelo contrário, têm-na acentuado com "a redução da presença de serviços públicos, a eliminação das ligações aéreas, a incompreensível exclusão do distrito de Bragança dos investimentos previsto para os próximos sete anos" a candidatar aos fundos da União Europeia.

Passos Coelho esteve presente e confirmou outra medida que vai dificultar, ainda mais, o desenvolvimento desta região: a introdução de portagens na autoestrada. Não seria uma medida muito gravosa se os políticos tivessem o engenho de a fazer acompanhar por outras que minimizassem o seu impacto.

Tal, porém, não irá acontecer. E também não deverão ser aproveitadas algumas das ideias surgidas nesse Fórum, como a da criação de uma agência para o desenvolvimento do interior que corrigisse as escandalosas assimetrias entre o litoral e estes territórios.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/06/2014)

domingo, 1 de junho de 2014

Diplomacia papal

Logo da Peregrinação do Papa à Terra Santa
retirado da página do Vaticano
A questão do celibato quase relegou para segundo plano a importância da viagem do Papa Francisco à Terra Santa na comemoração dos cinquenta anos do encontro em Jerusalém entre o Paulo VI e o Patriarca Atenágoras.

Em relação a essa temática o Papa limitou-se a repetir que não se trata de uma questão teológica, mas meramente disciplinar. E recordou algo que muitos continuam a desconhecer: que a Igreja Católica já tem padres casados, no Rito Oriental. Por isso não constituirá um grande problema estender essa disciplina ao catolicismo ocidental, de Rito Latino. Contudo, não parece estar para breve essa alteração, pois Francisco continua a valorizar o testemunho do celibato e não o considera uma questão decisiva para a vida da Igreja. “Temos coisas mais importantes a abordar”, disse o Papa aos jornalistas no voo de regresso a Roma. E recentrou o debate em algo que o preocupa muito mais: a unidade da Igreja.

A paz entre os povos do Médio Oriente, o diálogo inter-religioso e a reconciliação entre as igrejas cristãs foram as grandes questões abordadas pelo Papa, não só por palavras, mas, sobretudo, por gestos muito significativos. Nestes destacam-se os momentos de oração silenciosa junto do muro que separa a Palestina de Israel, no Muro das Lamentações e na visita ao memorial dedicado às vítimas do holocausto de Yad Vashem, onde beijou as mãos de alguns sobreviventes da perseguição nazi.

Em apenas três dias o Papa “desativou as minas do ódio multisecular da divisão e do receio, para semear sobre elas as rosas do diálogo, da reconciliação, da unidade, da paz e da esperança. Para fora e para dentro da Igreja”. Esta é a avaliação que José Manuel Vidal, diretor do sítio religioso “Religión Digital”, faz da viagem papal.

Nesta deslocação à Terra Santa o Papa Francisco demonstrou a sua habilidade na abordagem de questões sensíveis, como a conturbada convivência entre os povos do Médio Oriente ou o diálogo com a Igreja Ortodoxa – e recuperou para o papado e para o Vaticano um papel destacado na cena diplomática mundial. “Francisco tem essa capacidade de tocar a tecla apropriada em todos os momentos, que torna fácil o difícil”, conclui José Manuel Vidal.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/05/2014)