domingo, 29 de junho de 2014

Máfia excomungada

Papa na Calábria
Foto retirada daqui
O Papa Francisco foi corajoso ao proferir palavras duras contra a máfia e os mafiosos na visita à diocese calabresa de Cassano all’Jonio, no sul de Itália, no passado sábado. Afirmou: “A 'Ndrangheta’ [máfia calabresa] é isto: adoração do mal e desprezo pelo bem comum”. E concluiu: “Aqueles que na sua vida seguem o caminho do mal, como são os mafiosos, não estão em comunhão com Deus: estão excomungados”. São palavras fortes e constituem a crítica mais contundente de um Papa a esta organização criminosa.

João Paulo II, a 9 de maio de 1993, em Agrigento, na Sicília, atreveu-se a dizer aos mafiosos: “Arrependei-vos, virá o juízo de Deus”. Meses depois foi assassinado em Palermo o padre Pino Puglisi, um sacerdote que se dedicava à prevenção da toxicodependência e da delinquência juvenil. Para Alessandra Dino, professora da Universidade de Palermo, tratou-se de “uma vingança, uma resposta direta a João Paulo II” da máfia siciliana. A Igreja considera Pino Puglisi o primeiro mártir da “Cosa Nostra” e foi beatificado a 25 de maio do ano passado.

Desde a sua morte, “o compromisso antimáfia da cúpula eclesiástica pareceu enfraquecer-se, delegando tudo aos padres definidos como ‘de fronteira’ ou ‘de rua’, de acordo com a moda jornalística” escreveu há dias Roberto Saviano, jornalista perseguido pela 'Ndrangheta, no jornal “La Repubblica”. Alessandra Dino, que tem estudado a relação entre a Igreja e a máfia, identificou mesmo alguma condescendência dos párocos sicilianos para com os mafiosos, os quais, de acordo com a sua pesquisa em Palermo, chegam a considerar alguns como “homens de honra”.

O bispo de Cassano all’Jonio, nomeado pelo Papa Francisco secretário da Conferência Episcopal Italiana, quer corrigir essa atitude no clero da sua diocese e garante que “a Igreja calabresa sente-se parte do despertar das consciências contra o crime organizado”, porque “o crime organizado alimenta-se de consciências adormecidas”.

Apesar de o crime organizado não ter em Portugal a dimensão italiana, não faltam “mafiazinhas” que pervertem regras e prejudicam quem não lhes pertence. Seria bom que a Igreja portuguesa não se acobardasse perante elas e contribuísse para acordar as consciências.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/06/2014)

domingo, 22 de junho de 2014

O fazedor de pontes

O abraço junto ao Muro das Lamentações
Foto retirada daqui
O Papa apresentou-se ao mundo como Bispo de Roma e parece preferir esse título a outros, que a história foi atribuindo a essa função na Igreja, como o de Sumo Pontífice. Porém, o exercício do ministério petrino que o cardeal Bergoglio tem vindo a desempenhar está a tornar-se num verdadeiro pontificado, não no sentido tradicional do tema mas no sentido originário.

A palavra pontífice tem a sua origem etimológica nos termos latinos pons facere. É, portanto, um fazedor de pontes, literalmente. Atribuído ao Papa entende-se como aquele que faz a ponte entre os homens e Deus. Precedido do qualificativo Sumo, é mesmo considerado o mais elevado, mais excelso construtor de pontes.
O Papa Francisco não se limita a fazer a ponte entre Deus e os homens, mas preocupa-se também com os muros que dividem a humanidade, a começar pelos que têm a sua origem nas convicções religiosas.

Numa recente entrevista ele confidenciou que rejeitou o papa-móvel, com vidros à prova de bala, por detestar todas as barreiras, mesmo as que são colocadas para sua segurança, mas que o impedem de contactar com as pessoas. Nessa mesma entrevista referiu que na Argentina é normal a convivência entre emigrantes originários de diferentes países, culturas e religiões. Daí a sua amizade com o judeu Abraham Skorka e o muçulmano Ombar Abboud, que se abraçaram junto ao Muro das Lamentações, em Jerusalém. Um desejo antigo de todos e uma bela parábola das pontes que é preciso construir entre as três religiões

Francisco tem-se destacado como Sumo Pontífice, ou seja, altíssimo mediador dessa reconciliação que não é bem vista pelos fundamentalistas de todas as três religiões, presentes também entre os católicos. Basta consultar a Internet para tropeçar em inúmeras críticas à atitude tolerante e conciliadora do Papa. Contrariamente ao que se possa pensar, não quer, contudo, uma uniformização das diferentes e peculiares identidades de cada pessoa, crença ou cultura, o que ele denomina de má globalização. Propõe, isso sim, uma sadia globalização, em que as especificidades de cada um não ponham em causa o bom entendimento entre todos. Tal como acontece no seu relacionamento com os seus amigos judeu e muçulmano.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/06/2014)

domingo, 15 de junho de 2014

O diamante Taizé

Oração na Igreja da Reconciliação em Taizé
Foto retirada do site de Taizé
“O que tem de especial Taizé?” Foi essa a questão que um jovem colocou ao frei Alois, o prior da Comunidade. Ao que ele respondeu com simplicidade: “Eu acho que nada. Somos uma comunidade de frades com limitações e fraquezas”.

Mas este é, de facto, um local especial. Onde é possível um pastor protestante desempregado abeirar-se de um sacerdote católico paramentado e pedir-lhe que o abençoe para que Deus o ajude a encontrar emprego. Onde se vive e respira o acolhimento e a reconciliação. Onde o ritmo diário é marcado pelos sinos que convocam milhares de pessoas à oração na Igreja da Reconciliação, de manhã, ao meio da jornada e ao fim do dia.

A pequena aldeia de Taizé foi escolhida, em 1940, por Roger Schutz para ali se fixar. Comprou uma quinta com uma casa em ruínas e aí sonhou fundar uma fraternidade que se dedicasse a sarar as feridas de uma humanidade em conflito mundial. Dada a sua situação – a sul dos limites da França ocupada pelos nazis – começou por acolher refugiados de guerra, que ajudava a passar para o seu país de origem, a neutral Suíça. Entretanto foi desenhando uma comunidade que reunisse os seguidores do mesmo Jesus Cristo, que a história tinha dispersado em diferentes igrejas.

Estão agora a completar-se os setenta e cinco anos dessa caminhada. A Comunidade de Taizé é formada por uma centena de irmãos católicos e protestantes, de quase trinta países diferentes. Taizé é cada vez mais uma «parábola de comunidade», como se pode ler na sua página da Internet, “um sinal concreto de reconciliação entre cristãos divididos e entre povos separados”.

A sua vida de oração e comunhão atraem pessoas de todo mundo e milhares de jovens. Para o frei Alois, vão a Taizé “à procura de esperança, para olhar o futuro com alegria e não com medo”. A todos desafia a não se deixarem vencer pelo medo ou pela resignação, mas a trilharem o caminho de uma “nova solidariedade”, que “não se opõe a uma ‘antiga solidariedade’ que esteja hoje ultrapassada; ela deve corresponder mais a uma renovação, a uma ‘dinâmica do provisório’, que leva o crente a avançar, para lá de novos obstáculos”.

Para os monges de Taizé a solidariedade é, hoje, o caminho da reconciliação e da comunhão.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/06/2014)

domingo, 8 de junho de 2014

A doença do interior

Passos Coelho na Expo Trás-os-Montes, Bragança
Foto do Portal do Governo
O interior do país apresenta, há décadas, sintomas de uma doença grave, dos quais os mais preocupantes são o despovoamento e o envelhecimento da população. Parece que são problemas que afetam todo o mundo ocidental, mas sentem-se com maior incidência e relevância nas zonas mais periféricas dos países, como é o caso de Trás-os-Montes.

Uma vez que o diagnóstico está mais do que feito, é urgente encontrar terapêuticas para tratar esses males. Tal como acontece com os problemas mais graves, como a crise que atravessamos, os políticos, a maior parte das vezes, não têm a menor ideia de como os resolver. Compete à sociedade civil não se abandonar nas suas mãos e assumir a responsabilidade de rasgar novos horizontes.

O NERBA (Núcleo Empresarial de Bragança), na comemoração dos seus 25 anos de existência, promoveu, na semana passada, um Fórum Empresarial com o objetivo de "identificar algumas orientações estratégicas e ideias de projetos mobilizadores, ao nível regional e no âmbito da cooperação transfronteiriça, focadas numa trajetória de crescimento económico e de criação de emprego, em sintonia com a estratégia da União Europeia para o crescimento inteligente, sustentável e inclusivo".

Foram mais uma vez elencados os problemas acima referidos, e sublinhada a sua "tendência a agravarem-se". As políticas nacionais não têm ajudado a inverter esta tendência na região, antes pelo contrário, têm-na acentuado com "a redução da presença de serviços públicos, a eliminação das ligações aéreas, a incompreensível exclusão do distrito de Bragança dos investimentos previsto para os próximos sete anos" a candidatar aos fundos da União Europeia.

Passos Coelho esteve presente e confirmou outra medida que vai dificultar, ainda mais, o desenvolvimento desta região: a introdução de portagens na autoestrada. Não seria uma medida muito gravosa se os políticos tivessem o engenho de a fazer acompanhar por outras que minimizassem o seu impacto.

Tal, porém, não irá acontecer. E também não deverão ser aproveitadas algumas das ideias surgidas nesse Fórum, como a da criação de uma agência para o desenvolvimento do interior que corrigisse as escandalosas assimetrias entre o litoral e estes territórios.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/06/2014)

domingo, 1 de junho de 2014

Diplomacia papal

Logo da Peregrinação do Papa à Terra Santa
retirado da página do Vaticano
A questão do celibato quase relegou para segundo plano a importância da viagem do Papa Francisco à Terra Santa na comemoração dos cinquenta anos do encontro em Jerusalém entre o Paulo VI e o Patriarca Atenágoras.

Em relação a essa temática o Papa limitou-se a repetir que não se trata de uma questão teológica, mas meramente disciplinar. E recordou algo que muitos continuam a desconhecer: que a Igreja Católica já tem padres casados, no Rito Oriental. Por isso não constituirá um grande problema estender essa disciplina ao catolicismo ocidental, de Rito Latino. Contudo, não parece estar para breve essa alteração, pois Francisco continua a valorizar o testemunho do celibato e não o considera uma questão decisiva para a vida da Igreja. “Temos coisas mais importantes a abordar”, disse o Papa aos jornalistas no voo de regresso a Roma. E recentrou o debate em algo que o preocupa muito mais: a unidade da Igreja.

A paz entre os povos do Médio Oriente, o diálogo inter-religioso e a reconciliação entre as igrejas cristãs foram as grandes questões abordadas pelo Papa, não só por palavras, mas, sobretudo, por gestos muito significativos. Nestes destacam-se os momentos de oração silenciosa junto do muro que separa a Palestina de Israel, no Muro das Lamentações e na visita ao memorial dedicado às vítimas do holocausto de Yad Vashem, onde beijou as mãos de alguns sobreviventes da perseguição nazi.

Em apenas três dias o Papa “desativou as minas do ódio multisecular da divisão e do receio, para semear sobre elas as rosas do diálogo, da reconciliação, da unidade, da paz e da esperança. Para fora e para dentro da Igreja”. Esta é a avaliação que José Manuel Vidal, diretor do sítio religioso “Religión Digital”, faz da viagem papal.

Nesta deslocação à Terra Santa o Papa Francisco demonstrou a sua habilidade na abordagem de questões sensíveis, como a conturbada convivência entre os povos do Médio Oriente ou o diálogo com a Igreja Ortodoxa – e recuperou para o papado e para o Vaticano um papel destacado na cena diplomática mundial. “Francisco tem essa capacidade de tocar a tecla apropriada em todos os momentos, que torna fácil o difícil”, conclui José Manuel Vidal.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/05/2014)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Padres casados?

Mastroianni e Loren no filme cómico de 1971 "La moglie del prete"
Foto retirada do sítio do Vatican Insider
Vinte e seis mulheres escreveram ao Papa a pedir a revisão da disciplina do celibato, disponibilizando-se para transmitirem em viva voz as suas histórias de amor com sacerdotes, algumas assumidas, outras clandestinas. Esta iniciativa, para além de relançar o tema, demonstra como o Papa gerou um ambiente de abertura e de diálogo, de tal forma que as pessoas não têm receio em lhe expor as suas ideias e acalentam a esperança de serem por ele recebidas e escutadas.

O Papa Francisco tem-se referido esporadicamente a esta questão, mas ainda não clarificou a sua posição. Contudo, é conhecido o pensamento do cardeal Bergoglio. Nos diálogos com o rabino Skorka, abordou o tema sublinhando que esta não é uma questão de fé, mas de disciplina – e que, por isso, pode ser mudada. Dizia porém: “Para já, sou a favor de que se mantenha o celibato, com os prós e os contras que ele tem, porque são dez séculos de boas experiências mais do que de más”.

Em relação aos relacionamentos dos sacerdotes que teve de gerir, nunca alinhou com situações dúbias ou escondidas. “Se um deles me aparecer a dizer que engravidou uma mulher, ouço-o, procuro transmitir-lhe paz e, aos poucos, faço-o perceber que o direito natural é anterior ao seu direito como padre. Portanto, tem de abandonar o ministério e tomar conta daquele filho, […] porque, tal como aquela criança tem direito a ter uma mãe, também tem direito a conhecer o rosto de um pai”.

O teólogo Vito Mancuso, num artigo publicado no jornal “La Repubblica”, defende que “chegou o momento de integrar as experiências dos dois milénios anteriores e de fazer com que aqueles padres que vivem histórias de amor clandestinas (que serão bem mais de 26...) possam ter a possibilidade de sair à luz do sol, continuando a servir as comunidades eclesiais às quais eles vincularam as suas vidas”. O exercício do ministério presbiteral sairá a ganhar com isso e, afirma Mancuso, “muitos milhares de padres que deixaram o ministério por amor a uma mulher poderiam voltar a dedicar a vida à missão presbiteral”.

Resta-nos aguardar a resposta do Papa a essas 26 mulheres. As suas palavras deverão indicar a abordagem que se fará, neste pontificado, à questão do celibato.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 23/05/2014)

domingo, 18 de maio de 2014

Padres “trepadores”

Imagem retirada do site News.va
“Não há vida como a de padre” é uma expressão que dá conta de uma conceção popular do pároco, sobretudo em ambiente rural: acomodado, sem as preocupações habituais das pessoas comuns, tais como o emprego, a educação dos filhos ou a subsistência da família. “Telha de igreja sempre goteja”, é um outro dito popular que traduz a dada como adquirida tranquilidade clerical, de quem terá sempre o seu “rendimento mínimo garantido”.

Não é essa a perspetiva do Papa Francisco. Ele que não quer sacerdotes instalados. De tal forma que, ainda no domingo passado, apelou aos cristãos para que “importunem” os seus pastores. “Não os deixeis em paz! Constringi-os a estarem vigilantes, a não se fecharem nas suas ocupações, porventura burocráticas, (…) a serem vossos guias doutrinais e da graça”, disse.

Não é fácil ser pastor das comunidades católicas na “Era Francisco”! Mas é seguramente muito mais gratificante sentir que se tem uma influência positiva na vida das pessoas, como seu guia espiritual, do que viver absorvido em vãs tarefas administrativas ou obcecado pelas preocupações que o Papa classifica como os principais pecados clericais: a vaidade, o apego ao dinheiro e a sede de poder.

A vaidade e a vanidade dos que se acham superiores ao seu povo, que se entendem como uma casta sacerdotal, e o “amor ao dinheiro”, são dois pecados que “o povo não perdoa ao seu pastor”, disse recentemente num encontro com seminaristas romanos.

O carreirismo clerical tem sido frequentemente criticado pelo Papa, em linha com Bento XVI, que também o condenou por diversas vezes. Numa das suas últimas homilias na Casa de Santa Marta chegou mesmo a reconhecer que “na Igreja há trepadores”! Recomendou-lhes que façam alpinismo, já que gostam tanto de escalar, mas não venham para “a Igreja trepar”! E advertiu que “Jesus repreendeu estes trepadores que procuram o poder.”

Seria bom que as montanhas ganhassem novos alpinistas e que a Igreja se libertasse desses “trepadores” que procuram o poder pelo poder. E seria bom, também, que os fiéis deixassem de olhar para os sacerdotes como meros funcionários do sagrado, a quem se recorre para determinados serviços, e encontrassem neles os guias espirituais de que necessitam.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 16/05/2014)

domingo, 11 de maio de 2014

Jesuítas ao leme

Lombardi e Spadaro, os jesuítas que controlarão a comunicação do Papa
Foto retirada daqui
Aos poucos o Papa vai introduzindo as suas reformas na pesadíssima máquina do governo da Santa Sé. Esta semana deu mais um passo na credibilização do Instituto das Obras Religiosas (IOR), o banco do Vaticano, com a elaboração da “lista negra” de pessoas e instituições a quem foram congelados os bens por suspeitas de ligações à criminalidade internacional ou ao terrorismo.

Também a estratégia da comunicação tem vindo a mudar com o Papa Francisco e está para sofrer uma profunda reestruturação.

Antes, toda a comunicação do Papa era acompanhada de perto pela Secretaria de Estado – uma espécie de Ministério dos Negócios Estrangeiros – que geria a sua agenda e procurava controlar tudo o que ele dizia. O Papa Francisco passou a ter duas agendas. De manhã segue a que a Secretaria de Estado continua a determinar e, à tarde, recebe em Santa Marta as pessoas que entende, por vezes fora do controlo dos diplomatas do Vaticano.

Com Bento XVI o Pe. Lombardi, porta-voz da Santa Sé, coordenava as suas declarações com a Secretaria de Estado. O Papa Francisco confirmou nessas funções o mesmo sacerdote, mas passou a combinar tudo diretamente com ele. Não é de estranhar que assim seja, uma vez que ambos são jesuítas e já se conheciam bem antes de o cardeal Bergoglio assumir a cadeira de Pedro. Entretanto, na sequência do estudo elaborado pela consultora McKinsey para a reforma da Cúria, o Papa vai encarregar o Pe. Lombardi de coordenar todos os órgãos de comunicação do Vaticano. António Spadaro, um outro padre jesuíta, a quem deu a primeira entrevista, vai substitui-lo como porta-voz e diretor da Sala de Imprensa.

Toda a política comunicativa da Santa Sé passa, assim, a ser controlada por dois jesuítas, uma opção que não é consensual no interior da Cúria e que tem sido muito criticada, segundo o diário italiano “Il Fatto Quotidiano”, sobretudo por aqueles que antes a controlavam.

Independentemente das pessoas ou da congregação a que pertencem, é importante que todos desempenhem bem as missões que lhes são confiadas. E é crucial que ajudem outros setores da Igreja a desenhar estratégias de comunicação melhor coordenadas, mais ajustadas à lógica mediática e, por isso mesmo, mais eficazes.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 09/05/2014)

domingo, 4 de maio de 2014

Papas ausentes

Papas desde João XXIII até ao atual
Arranjo gráfico de Lorenzo Rumori retirado daqui
Cerca de um milhão de pessoas acorreram à Praça de S. Pedro para participar na canonização de dois novos santos: João XXIII e João Paulo II. Dado que a memória do papa polaco está mais viva na mente e no coração dos fiéis, não é de estranhar que a maioria dos presentes sejam seus devotos. João XXIII foi um papa muito popular, no seu tempo, e querido pelos fiéis, que rapidamente o começaram a apelidar de "Papa Bom", apesar de então não haver os meios de difusão das notícias, que, hoje, possibilitam o acompanhamento próximo do dia-a-dia do Papa.

João XXIII iniciou o caminho de humanização do papado que se intensificou com os seus sucessores – em particular com João Paulo II que, após anos de exposição mediática nas inúmeras viagens que realizou, não quis esconder a doença e a decrepitude do Papa. Também Bento XVI deu um assinalável contributo ao reclamar para o bispo e de Roma o direito a "reformar-se".

Numa mesma celebração reuniram-se quatro dos Papas que resgataram a Igreja do encerramento nos muros vaticanos para o diálogo com o mundo e a contemporaneidade. Faltaram somente o Papa Paulo VI e João Paulo I, a quem ainda não foi reconhecida oficialmente a santidade mas que, também, contribuíram para essa caminhada.

Paulo VI foi o timoneiro que assumiu o leme do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu antecessor, e o soube levar a bom porto. Ficou, assim, ligado à maior reforma da Igreja desde o concílio de Trento, quinhentos anos antes.

João Paulo I, para além de ter homenageado os seus dois antecessores no nome escolhido, no seu curtíssimo pontificado deixou antever uma personalidade muito semelhante à do atual Papa. Era um bom comunicador. Criou uma relação empática com as pessoas, que o cognominaram de "Papa do Sorriso". Tal como Francisco, nas audiências gerais interagia com os assistentes, "entrevistava" crianças e jovens.

São dois papas a que a história ainda não fez justiça. Muitos acreditam que também eles trilharam o caminho da Santidade e desejam que rapidamente sejam reconhecidos como pertencentes a essa galeria de homens e de mulheres que, nas mais diversas circunstâncias, viveram a sua fidelidade a Jesus Cristo e aos valores do  Evangelho.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/05/2014)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Abril Católico

A Igreja Católica em Portugal, sobretudo a hierarquia, deixou-se conotar com o “Estado Novo”, apesar de alguns bispos, padres e muitos leigos terem tomado posições contundentes contra o regime. De entre os primeiros destacaram-se D. Sebastião Resende, bispo da Beira, D. Manuel Vieira Pinto, bispo de Nampula, ambos em Moçambique, ou D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto.

O Padre Abel Varzim é um exemplo entre muitos outros sacerdotes que a ditadura não conseguiu vergar. Também entre os leigos há “histórias do catolicismo militante” que violaram “o silêncio cúmplice com o regime do Estado Novo”. Foram presos devido à sua ousadia, mas contribuíram para o despertar da consciência crítica antes da revolução – e fizeram com que a “libertação de Abril” também tivesse “o ‘dedo’ católico”.

São estas histórias que o jornalista António Marujo tem publicado no blog “Religionline”, há um mês. Num dos textos aborda o papel da teologia como “fator de dissensão e despertador de consciências” em que fala de diversas iniciativas, muitas delas com a sua génese no dinamismo suscitado pelo Concílio Vaticano II. Na verdade, o 25 de Abril aconteceu no interior da Igreja, uma década antes da revolução. Resgatou o laicado da passividade e apelou a uma maior participação na vida eclesial, que João Paulo II designará como a corresponsabilidade laical.

Uma dessas iniciativas eram os cursos de Verão dos dominicanos em que as discussões teológicas adormeciam o agente da PIDE, sempre presente, mas despertavam os cristãos que “descobriram, através de livros, cursos, encontros ou publicações clandestinas uma forma de agir militante na oposição ao regime”. No período que antecedeu o 25 de Abril, e já desde os anos 50, para António Marujo “muitos cristãos começaram a ler e aprender teologia, passando da simples leitura ao debate sobre a relação entre fé e política e à ação militante contra a guerra de África”.

Quarenta anos depois, o país e a Igreja continuam a precisar que os leigos aprofundem os seus conhecimentos teológicos. Que debatam os problemas que afetam a humanidade à luz dos valores do Evangelho. E que se empenhem na “ação militante” contra a “ditadura dos mercados” e a “economia que mata”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 25/04/2014)

domingo, 20 de abril de 2014

Pobres no Lava-Pés

Papa lava os pés num centro de deficientes
(Foto retirada daqui)
O Papa está a fazer uma revolução coperniciana ao fazer das periferias o centro do seu discurso. Aproveita todas as oportunidades, até as mais improváveis, para chamar a atenção para os pobres e os excluídos da sociedade. Nem mesmo as romanas cerimónias da Semana Santa, alérgicas à mudança, resistiram ao efeito renovador de Francisco, que introduziu práticas carregadas desde o “fim do mundo”.

Era normal para o cardeal Bergoglio, em Buenos Aires, fazer a celebração da missa da tarde de Quinta-feira Santa – em que se recorda a Última Ceia de Jesus, na qual este lavou os pés aos Apóstolos e instituiu a Eucaristia – numa prisão, num hospital ou num hospício. Assim, chamava a atenção para os que muitas vezes a sociedade quer esquecer logo no início dos três dias mais importantes para Igreja, aqueles em que se celebra a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

À semelhança do que fazia na sua diocese, no ano passado foi celebrar essa missa a uma prisão, chegando mesmo a lavar os pés a raparigas e, até, a uma muçulmana. Este ano, embora numa igreja, realizou essa cerimónia rodeado por pessoas portadoras de deficiência. Foram escolhidas doze de entre elas, que professam diferentes credos, de diversas etnias e de idades variadas, a quem o Papa lavou os pés.

São gestos simbólicos, que ajudam a despertar consciências, mas que nenhum efeito terão se não levarem os cristãos a empenharem-se na denúncia e no combate àquelas que são as causas da pobreza e marginalização. Essas “não são fruto do acaso nem uma inevitabilidade”, denunciou um manifesto divulgado recentemente, mas “decorrem do modo como a sociedade e a economia estão organizadas”. Esse texto é o resultado de uma reflexão promovida pela Rede Europeia Anti Pobreza, com a participação de várias personalidades e instituições nacionais ligadas a esta problemática. Para os seus signatários, a pobreza configura uma violação dos Direitos Humanos e é urgente a adoção de medidas políticas e económicas de acordo com uma “Estratégia de Erradicação da Pobreza e a Exclusão Social”.

Estas e outras iniciativas são uma oportunidade para os cristãos porem em prática o que, simbolicamente, o Papa faz no Lava-pés e noutros gestos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 18/04/2014)

domingo, 13 de abril de 2014

Bispos “vermelhos”

D. António Ferreira Gomes
Foto da Fundação Spes
Um bispo que no seu discurso inclua a defesa dos mais pobres e oprimidos, rapidamente é catalogado como de esquerda, comunista ou “vermelho”. Aconteceu assim entre nós, antes e depois do 25 de Abril. E já há quem considere assim o atual Bispo de Roma.

No próximo domingo completam-se 25 anos sobre a morte de D. António Ferreira Gomes, um exemplo emblemático da defesa da verdade e da oposição à ditadura no interior da Igreja Portuguesa. Foi também ele um dos primeiros a denunciar os erros e exageros pós-revolucionários.

Um outro bispo que viria a receber os mesmos epítetos foi D. Manuel Martins, uma voz incómoda ao denunciar situações de exploração e miséria humana como as que encontrou em 1975, o ano em que tomou posse da recém-criada diocese de Setúbal, de que foi o seu primeiro bispo.

Há dias, numa curiosa entrevista a cinco jovens belgas, o Papa referiu que devido ao seu discurso em defesa dos pobres e à preferência que lhes dedica, alguém o classificou como comunista. “Não. Essa é uma bandeira do Evangelho, não do comunismo: do Evangelho! Mas a pobreza sem ideologia, a pobreza... E por isso creio que os pobres estão no centro do anúncio de Jesus. Basta ler o Evangelho”, reagiu.

Por isso, não é de estranhar. Nem ninguém se deve escandalizar quando os bispos, de uma forma mais ou menos contundente, anunciam os valores do Evangelho e denunciam as injustiças. Espera-se que eles sejam a voz dos que não têm voz e os catalisadores do empenhamento de todos na luta contra a pobreza. D. António Francisco dos Santos aproveitou a tomada de posse da diocese do Porto para lançar o desafio: “Sejamos ousados, criativos e decididos sempre, mas sobretudo quando e onde estiverem em causa os frágeis, os pobres e os que sofrem. Esses devem ser os primeiros, porque os pobres não podem esperar!”.

De estranhar é quando eles são esquecidos nas palavras e nas atitudes dos líderes religiosos. Motivos de escândalo são todos os cristãos que suspendem os valores em que acreditam e que compactuam com situações de exploração e de opressão. Preocupante é quando nos tornamos insensíveis ao sofrimento humano e embarcamos na “globalização da indiferença” que o Papa denunciou na ilha de Lampedusa.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 11/04/2014)

domingo, 6 de abril de 2014

As igrejas pós-concílio

Igreja de N. Sra. dos Navegantes
Foto retirada do sítio da Paróquia do Parque das Nações 
Os cristãos não têm templos, locais aos quais Deus esteja confinado: Ele está em toda a parte. Nos inícios do cristianismo os fiéis reuniam-se ao Domingo, o dia em que Jesus ressuscitou. Habitualmente à noite, porque era um dia de trabalho normal, e à volta da mesa, porque de uma refeição se tratava e na qual se recordava a Última Ceia de Jesus com os Apóstolos.

Estes espaços privados começaram a ser designados como “Domus Ecclesiae” expressão latina que significa casa da assembleia. Da palavra “Ecclesia” derivará a nossa palavra igreja, que passou a designar a casa onde se reúnem os cristãos. O continente acabou por receber o nome do conteúdo.

Ao longo dos séculos, numa lenta evolução, a mesa da refeição acabou encostada à parede, com todos os fiéis – mesmo o sacerdote que celebrava de costas para o povo – voltados para o altar-mor, onde pontificava o sacrário, o local onde se guarda o Corpo de Cristo, o Santíssimo Sacramento. Havia, assim, um ponto de referência, em função do qual se organizava todo o espaço, e orientava a conceção arquitetónica que se foi consolidando ao longo dos tempos.

O Concílio Vaticano II veio complicar tudo, ao pretender recuperar o ambiente de refeição para a celebração. A liturgia passou a organizar-se, não em função do Santíssimo, mas em função da mesa da refeição, o altar, que voltou a ser desencostado da parede.

Nestes 50 anos de pós-concílio, não tem sido fácil adaptar igrejas construídos em conformidade com outro ideário celebrativo, às novas exigências litúrgicas. E mesmo as construídas de raiz têm, muitas vezes, dificuldade em traduzir as ideias pós-conciliares.

Contudo, há bons exemplos espalhados pelo mundo e no nosso país foi inaugurada, esta semana, mais uma igreja que traduz bem a renovação litúrgica introduzida pelo Concílio Vaticano II. Trata-se da Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, inaugurada no Parque das Nações, em Lisboa. É um edifício “de uma beleza não espalhafatosa mas essencial”, como a classificou D. Manuel Clemente, segundo o semanário “A Voz da Verdade”, em que facilmente se pode ler o Concílio e – em sintonia com o ambiente marítimo que o envolve – o complexo urbanístico resultante da Expo 98.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 04/04/2014)

domingo, 30 de março de 2014

A Igreja e a pedofilia

Foto retirada de Portal Um
O Papa Francisco deu mais um passo significativo na forma como a Igreja lida com o problema da pedofilia no seu seio. No passado sábado nomeou oito elementos para a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores que tinha anunciado no dia 5 de Dezembro de 2013.

O escândalo da pedofilia abriu feridas profundas e insanáveis nas vítimas. Manchou o rosto da Igreja na passagem do II para o III milénio. Pôs a nu comportamentos inadequados das autoridades eclesiásticas, como reconheceu Bento XVI em 2010, numa Carta Pastoral aos bispos irlandeses. Até ao final do século XX o procedimento habitual da hierarquia católica era tudo fazer para abafar o escândalo e, quando muito, transferia o sacerdote acusado de paróquia ou de encargo pastoral.

Em 2001 começou a mudar a sua atuação. Por determinação de João Paulo II, o abuso sexual de um menor perpetrado por um clérigo passou a fazer parte da lista dos delitos graves reservado à Congregação para a Doutrina da Fé, obrigando os bispos a comunicar os casos detetados nas suas dioceses desde que existissem provas desses delitos.

Bento XVI pediu às Conferências Episcopais, em 2010, que definissem diretrizes claras a aplicar logo que surgissem suspeitas de comportamentos pedófilos. Estas deveriam ter em conta o apoio às vítimas, a proteção dos menores, a formação dos futuros sacerdotes e religiosos, o acompanhamento dos clérigos e, ainda (o aspeto mais surpreendente), a colaboração com as autoridades civis.

A Conferência Episcopal Portuguesa aprovou essas diretrizes em Abril de 2012. Nelas são tidas em consideração todas as recomendações papais. Agora, ao nomear os primeiros elementos para a Pontifícia Comissão, o Papa Francisco, para além de dar continuidade ao caminho percorrido pelos seus antecessores no combate à pedofilia, centra a atenção da Igreja nas vítimas.

Com estas nomeações, de quatro homens e quatro mulheres, o Papa revela argúcia política – escreve John Allen, num texto no jornal “The Boston Globe” – e responde às duas principais críticas que tem recebido. A primeira é a de nada ter feito no combate à pedofilia. A segunda é a de, embora defendendo a importância da mulher na Igreja, continuar a rejeitar a sua ordenação.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/03/2014)

domingo, 23 de março de 2014

Resistências ao Papa

Papa Francisco na varanda de S. Pedro após a eleição
Foto: REUTERS/Osservatore Romano tirada de Euronews
Há um ano achava-se que a “lua-de-mel” do Papa não duraria tanto tempo. Mas doze meses após o início do seu ministério como Bispo de Roma, continua em alta a sua popularidade mediática.

Em Junho de 2012 a Santa Sé escolheu Greg Burke, um jornalista norte-americano que era correspondente da televisão “Fox News”, para assessorar a Secretaria de Estado do Vaticano na área da comunicação social. Tendo iniciado essa função com Bento XVI, continua a desempenhá-la com o atual Papa. Contudo, não será só ao seu trabalho que se deve o sucesso mediático do Papa Francisco: o próprio Burke reconheceu numa entrevista ao jornal italiano “Corriere della Sera” que ele é “politicamente incorreto”, mas tem revelado uma grande capacidade para comunicar as suas ideias aos fiéis. E ironiza: “As imagens do Papa deviam ter um aviso como os maços de cigarros – 'Perigo! Este homem pode mudar a sua vida'”.

São inúmeros os testemunhos em todo o mundo de pessoas que se deixaram contagiar, ao longo deste ano, pelo já denominado “efeito Francisco” – e voltaram à Igreja e à prática religiosa.

Ao fim de um ano “a dita lua-de-mel com as pessoas continua, sinal de que não era uma simpatia efémera” gerada pelo novo Papa e pelos seus gestos surpreendentes, escreveu Andrea Riccardi, um estudioso da História da Igreja Moderna e Contemporânea, num texto de opinião na revista italiana “Famiglia Cristiana”. No entanto “verificam-se resistências nos episcopados e no clero” ao discurso e gestos do Papa Francisco, adverte no mesmo texto. E numa entrevista ao “Vatican Insider” esclareceu que essas resistências provêm, sobretudo, daqueles setores que “não suportam uma menor insistência da pregação papal nos temas éticos”. E provêm também dos que têm responsabilidades no governo da Igreja, que se sentem postos em causa pela maneira como Jorge Bergoglio tem exercido o seu ministério. São aqueles a quem as pessoas questionam: “Porque não faz como o Papa?”

Ao longo destes doze meses, quem de nós, a quem foi confiada uma missão na vida da Igreja, não se questionou sobre os seus procedimentos, hábitos e rotinas, ao constatar o que o Papa diz e faz? Só se não prestámos a devida atenção às suas atitudes e palavras...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 21/03/2014)

domingo, 16 de março de 2014

O cardeal que queria ser pároco de aldeia

Foto retirada do blogue "Actualidade Religiosa"
De entre as qualidades de D. José Policarpo, é reconhecido por quase todos o seu fulgor intelectual e a atitude dialogante com o mundo, a cultura e as outras crenças. A sua inteligência brilhante terá sido determinante para ter sido escolhido para ir aprofundar os seus conhecimentos teológicos na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

A sua passagem por Roma, entre 1966 e 1970, acontece quando a Igreja vivia a efervescência provocada pelo “aggiornamento” do Concílio Vaticano II, encerrado menos de um ano antes, a oito de Dezembro de 1965. Não é de estranhar que, neste contexto de abertura da Igreja ao mundo contemporâneo, tenha escolhido para tema da sua tese de doutoramento em Teologia Dogmática um conceito chave do Concílio: “Os sinais dos tempos”. Ao longo desse trabalho científico procurou provar que a “Igreja deve estar atenta à história dos homens e captar nela sinais positivos do Reino de Deus, porque uma sociedade justa não está apenas presente na realidade explícita do Cristianismo, mas acontece também na vida dos homens”.

Desde então desempenhou importantíssimas tarefas, tanto na diocese de Lisboa, como na Igreja portuguesa e universal. O seu vigor intelectual e o percurso académico fizeram dele um intelectual destacado e, segundo D. Anacleto, bispo de Viana do Castelo, uma “figura incontornável”, não só da igreja portuguesa, mas também da cultura lusófona, reconhecido dentro e fora do país. Era uma voz ouvida e muito considerada em vários organismos da Santa Sé, de que fez parte.

O seu percurso de vida acabou por afastá-lo daquela que era a sua aspiração quando entrou no seminário: ser pároco de aldeia. À época, e ainda hoje, os alunos mais brilhantes são escolhidos para desempenhar cargos no governo central das dioceses e raramente têm oportunidade de desempenhar essa missão, muitas vezes considerada pouco relevante e prestigiante.

Com a atenção que o Papa Francisco tem dedicado às periferias e às realidades menos conceituadas, espera-se que essa perspetiva se altere e comece a ser valorizado no curriculum dos futuros bispos essa experiência pastoral. Essa já é, e pode ser cada vez mais, uma dimensão fundamental da vida das dioceses.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/03/2014)

domingo, 9 de março de 2014

A Ucrânia e a religião

Homenagem aos heróis de Maidan (Foto retirada daqui)
A crise política na Ucrânia tem merecido destaque noticioso e provocado as mais diversas análises e comentários. Trata-se de uma realidade política, social e económica multifacetada e, também, religiosamente complexa.

Em termos religiosos, a maioria dos ucranianos (cerca de 80%), declaram-se ortodoxos. Mas estão filiados em três patriarcados distintos. Cerca de metade vive a sua fé em união como o Patriarca de Kiev; um quarto está unida ao Patriarca Russo de Moscovo; e a restante forma o Patriarcado Ucraniano Autocéfalo.

Logo a seguir aos ortodoxos aparecem os católicos, que representam dez por cento da população. Destes, a maioria (8%) são greco-católicos do rito oriental; e os outros seguem o rito latino. Pertencem todos à Igreja Católica e estão unidos ao Papa, mas os primeiros mantêm uma espiritualidade e uma forma de celebrar mais próxima da Igreja Ortodoxa. Disciplinarmente também existem pequenas diferenças: no rito oriental, por exemplo, existem padres casados.

Para além de católicos e ortodoxos, cerca de dois por cento da população é protestante e menos de um por cento professa a fé judaica.

Neste contexto, não é fácil o diálogo ecuménico entre os diferentes credos cristãos. Durante a crise ucraniana, contudo, este mosaico religioso uniu-se na defesa da paz. Procurou, por um lado, influenciar os líderes políticos para que encontrassem formas de evitar o deflagrar da violência. E, por outro lado, todas as igrejas e tradições religiosas, estiveram presentes e acompanharam os manifestantes na Praça da Liberdade de Kiev. Os greco-católicos, pela sua presença e apoio aos manifestantes, foram mesmo ameaçados pelo poder, entretanto destituído, de virem a ser ilegalizados. Para Sviatoslav Shevchuk, arcebispo greco-católico, a Igreja, embora não participando “no processo político, não se pode retirar quando os seus fiéis lhe pedem ajuda espiritual. Estar com os fiéis é um dever do sacerdote”.

Nesta como noutras crises e problemáticas políticas, as igrejas, não se devendo imiscuir na política partidária, têm de defender de forma intransigente os direitos humanos. Esse é, aliás, o seu primeiro contributo para a promoção da paz social e da liberdade. 

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/03/2014)

domingo, 2 de março de 2014

Igreja recupera os divorciados

Cardeal Walter Kasper foto retirada de IHU
A agenda do Papa no final da semana passada e início desta foi dominada pela temática da família.

Segunda e terça-feira desta semana reuniram com o Papa o relator geral e o secretário do Sínodo dos Bispos, respetivamente, o cardeal Peter Erdo, arcebispo de Budapest, e D. Bruno Forte, arcebispo da diocese italiana de Chieti e Vasto. Analisaram as respostas ao inquérito papal sobre a família, vindas de todo o mundo, e elaboraram uma primeira síntese. Nela transparece a “voz da Igreja”, a qual manifesta a “urgência de anunciar o Evangelho da família com novo impulso e modalidade”, bem como “os desafios e dificuldades associados à vida familiar e as suas eventuais crises”, diz um comunicado da Santa Sé relativo à reunião.

Dias antes, os cardeais refletiram sobre o matrimónio, o problema dos divorciados e a anulação dos casamentos. No início do Consistório que decorreu até sábado, o cardeal Walter Kasper propôs uma reflexão teológica sobre o matrimónio católico. Apesar de o próprio ter afirmado numa entrevista que “a questão dos divorciados em segunda união não estará no centro das minhas conferências”, foi essa a questão que mereceu maior destaque nos média.

Não pondo em causa a doutrina oficial da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio, abordou essa problemática e defendeu que é preciso explorar novos caminhos. Terá mesmo proposto que as pessoas que se encontram nessa situação, depois de reconhecerem o seu fracasso e de cumprirem um percurso penitencial, possam ser readmitidos à confissão e à comunhão.

O Papa Francisco felicitou Kasper pela sua exposição e deu, assim, um sinal claro que está aberto a que se altere a práxis em relação aos divorciados a viverem uma nova união. É evidente que a Igreja não vai deixar de propor o ideal de uma família estável gerada a partir de um compromisso para toda a vida. Contudo, não pode continuar insensível ao drama daqueles a quem é vedado o acesso aos sacramentos, pelo facto de o seu matrimónio ter falhado e de terem reconstruido a vida com outra pessoa.

Não será uma tarefa fácil, mas, ao que parece, conta com o apoio do Papa que solicita uma “pastoral inteligente, corajosa e cheia de amor” para a família.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/02/2014)