domingo, 16 de março de 2014

O cardeal que queria ser pároco de aldeia

Foto retirada do blogue "Actualidade Religiosa"
De entre as qualidades de D. José Policarpo, é reconhecido por quase todos o seu fulgor intelectual e a atitude dialogante com o mundo, a cultura e as outras crenças. A sua inteligência brilhante terá sido determinante para ter sido escolhido para ir aprofundar os seus conhecimentos teológicos na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

A sua passagem por Roma, entre 1966 e 1970, acontece quando a Igreja vivia a efervescência provocada pelo “aggiornamento” do Concílio Vaticano II, encerrado menos de um ano antes, a oito de Dezembro de 1965. Não é de estranhar que, neste contexto de abertura da Igreja ao mundo contemporâneo, tenha escolhido para tema da sua tese de doutoramento em Teologia Dogmática um conceito chave do Concílio: “Os sinais dos tempos”. Ao longo desse trabalho científico procurou provar que a “Igreja deve estar atenta à história dos homens e captar nela sinais positivos do Reino de Deus, porque uma sociedade justa não está apenas presente na realidade explícita do Cristianismo, mas acontece também na vida dos homens”.

Desde então desempenhou importantíssimas tarefas, tanto na diocese de Lisboa, como na Igreja portuguesa e universal. O seu vigor intelectual e o percurso académico fizeram dele um intelectual destacado e, segundo D. Anacleto, bispo de Viana do Castelo, uma “figura incontornável”, não só da igreja portuguesa, mas também da cultura lusófona, reconhecido dentro e fora do país. Era uma voz ouvida e muito considerada em vários organismos da Santa Sé, de que fez parte.

O seu percurso de vida acabou por afastá-lo daquela que era a sua aspiração quando entrou no seminário: ser pároco de aldeia. À época, e ainda hoje, os alunos mais brilhantes são escolhidos para desempenhar cargos no governo central das dioceses e raramente têm oportunidade de desempenhar essa missão, muitas vezes considerada pouco relevante e prestigiante.

Com a atenção que o Papa Francisco tem dedicado às periferias e às realidades menos conceituadas, espera-se que essa perspetiva se altere e comece a ser valorizado no curriculum dos futuros bispos essa experiência pastoral. Essa já é, e pode ser cada vez mais, uma dimensão fundamental da vida das dioceses.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/03/2014)

domingo, 9 de março de 2014

A Ucrânia e a religião

Homenagem aos heróis de Maidan (Foto retirada daqui)
A crise política na Ucrânia tem merecido destaque noticioso e provocado as mais diversas análises e comentários. Trata-se de uma realidade política, social e económica multifacetada e, também, religiosamente complexa.

Em termos religiosos, a maioria dos ucranianos (cerca de 80%), declaram-se ortodoxos. Mas estão filiados em três patriarcados distintos. Cerca de metade vive a sua fé em união como o Patriarca de Kiev; um quarto está unida ao Patriarca Russo de Moscovo; e a restante forma o Patriarcado Ucraniano Autocéfalo.

Logo a seguir aos ortodoxos aparecem os católicos, que representam dez por cento da população. Destes, a maioria (8%) são greco-católicos do rito oriental; e os outros seguem o rito latino. Pertencem todos à Igreja Católica e estão unidos ao Papa, mas os primeiros mantêm uma espiritualidade e uma forma de celebrar mais próxima da Igreja Ortodoxa. Disciplinarmente também existem pequenas diferenças: no rito oriental, por exemplo, existem padres casados.

Para além de católicos e ortodoxos, cerca de dois por cento da população é protestante e menos de um por cento professa a fé judaica.

Neste contexto, não é fácil o diálogo ecuménico entre os diferentes credos cristãos. Durante a crise ucraniana, contudo, este mosaico religioso uniu-se na defesa da paz. Procurou, por um lado, influenciar os líderes políticos para que encontrassem formas de evitar o deflagrar da violência. E, por outro lado, todas as igrejas e tradições religiosas, estiveram presentes e acompanharam os manifestantes na Praça da Liberdade de Kiev. Os greco-católicos, pela sua presença e apoio aos manifestantes, foram mesmo ameaçados pelo poder, entretanto destituído, de virem a ser ilegalizados. Para Sviatoslav Shevchuk, arcebispo greco-católico, a Igreja, embora não participando “no processo político, não se pode retirar quando os seus fiéis lhe pedem ajuda espiritual. Estar com os fiéis é um dever do sacerdote”.

Nesta como noutras crises e problemáticas políticas, as igrejas, não se devendo imiscuir na política partidária, têm de defender de forma intransigente os direitos humanos. Esse é, aliás, o seu primeiro contributo para a promoção da paz social e da liberdade. 

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/03/2014)

domingo, 2 de março de 2014

Igreja recupera os divorciados

Cardeal Walter Kasper foto retirada de IHU
A agenda do Papa no final da semana passada e início desta foi dominada pela temática da família.

Segunda e terça-feira desta semana reuniram com o Papa o relator geral e o secretário do Sínodo dos Bispos, respetivamente, o cardeal Peter Erdo, arcebispo de Budapest, e D. Bruno Forte, arcebispo da diocese italiana de Chieti e Vasto. Analisaram as respostas ao inquérito papal sobre a família, vindas de todo o mundo, e elaboraram uma primeira síntese. Nela transparece a “voz da Igreja”, a qual manifesta a “urgência de anunciar o Evangelho da família com novo impulso e modalidade”, bem como “os desafios e dificuldades associados à vida familiar e as suas eventuais crises”, diz um comunicado da Santa Sé relativo à reunião.

Dias antes, os cardeais refletiram sobre o matrimónio, o problema dos divorciados e a anulação dos casamentos. No início do Consistório que decorreu até sábado, o cardeal Walter Kasper propôs uma reflexão teológica sobre o matrimónio católico. Apesar de o próprio ter afirmado numa entrevista que “a questão dos divorciados em segunda união não estará no centro das minhas conferências”, foi essa a questão que mereceu maior destaque nos média.

Não pondo em causa a doutrina oficial da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio, abordou essa problemática e defendeu que é preciso explorar novos caminhos. Terá mesmo proposto que as pessoas que se encontram nessa situação, depois de reconhecerem o seu fracasso e de cumprirem um percurso penitencial, possam ser readmitidos à confissão e à comunhão.

O Papa Francisco felicitou Kasper pela sua exposição e deu, assim, um sinal claro que está aberto a que se altere a práxis em relação aos divorciados a viverem uma nova união. É evidente que a Igreja não vai deixar de propor o ideal de uma família estável gerada a partir de um compromisso para toda a vida. Contudo, não pode continuar insensível ao drama daqueles a quem é vedado o acesso aos sacramentos, pelo facto de o seu matrimónio ter falhado e de terem reconstruido a vida com outra pessoa.

Não será uma tarefa fácil, mas, ao que parece, conta com o apoio do Papa que solicita uma “pastoral inteligente, corajosa e cheia de amor” para a família.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/02/2014)

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Escravos do Séc. XXI

Cartaz do filme retirado de IMDb
O filme “12 Anos Escravo” adapta ao cinema o livro em que o músico negro Solomon Northup narra o seu sequestro em 1841 e a sua venda como escravo. Ao fim de uma dúzia de anos, conseguiu, judicialmente, recuperar a liberdade. Foi considerado o melhor filme de 2013, pela British Academy of Film and Television Arts (BAFTA) no passado domingo.

No decorrer da ação são citadas passagens bíblicas que legitimariam a escravatura. De facto, a Bíblia não condena explicitamente essa prática. Mas, sobretudo no Novo Testamento, propõe os princípios que contribuirão para a sua abolição.

S. Paulo na carta aos Gálatas escreve: “Não há escravo nem livre; pois todos são um em Cristo Jesus” (3, 28). Para além disso, não hesita em acolher Onésimo, o escravo foragido de Filémon, apesar das leis de então punirem tanto o fugitivo como aquele que o acolhia. Devolve-o acompanhado por uma das suas cartas, a mais pequena de todas, que alguns apelidam de “postal”. Pede a Filémon que o receba, já não como escravo, mas “como irmão querido” (v.16), pois ele, entretanto, tinha-o batizado.

Tal como Paulo, a Igreja nunca discriminou os escravos e sempre os admitiu aos sacramentos. Apesar de em muitos contextos ter compactuado com a escravatura, o seu Magistério condena-a desde o século XV. Desde então, na generalidade dos países, esta tem vindo a ser abolida, tendo sido Portugal o primeiro a fazê-lo por decreto do Marquês de Pombal em 12 de Fevereiro de 1761. Contudo, ainda hoje permanecem múltiplas formas de tráfico e exploração de seres humanos.

A Igreja, como lhe compete, continua a preocupar-se com esta temática. Durante o primeiro fim de semana de novembro passado, reuniram-se em Roma sessenta observadores, religiosos e leigos, que refletiram a temática do tráfico humano e formularam uma proposta contra todas as formas de escravidão. Desse encontro saiu, também, a decisão de promover em 2015 um congresso de quatro dias para aprofundar o tema.

Espera-se que a Igreja não se fique pela reflexão e produção de textos condenatórios do tráfico de pessoas. Mas que, tal como S. Paulo, nos contextos concretos em que desenvolve a sua ação, encontre formas de pôr em prática a sua posição oficial.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 21/02/2014)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Graças a Bento XVI

Foto: Filippo Monteforte/AFP
Na noite de 11 de Fevereiro de 2013 uma câmara fotográfica registou a queda de um raio na cúpula de S. Pedro. É um fenómeno que acontecerá dezenas de vezes ao longo do ano, mas essa imagem apareceu em inúmeras publicações por coincidir com a renúncia de Bento XVI. Algo que não acontecia na Igreja há quase seiscentos anos. E, pela primeira vez, foi “uma decisão tomada de forma livre e espontânea, sem estar envolta em polémica nem resultar de pressões, como aconteceu nas anteriores”, escrevi na altura. Não faltaram, contudo, leituras com as mais elaboradas teorias, atribuindo a decisão de Ratzinger a forças vaticanas obscuras.

À distância de um ano, o P. Antonio Spadaro, diretor da revista “La civiltà cattolica”, pensa que é errado atribuir a renúncia do Papa somente “à debilidade física, provocada pela idade, pelo cansaço ou a motivações símiles”. Devem-se procurar as causas de tão inusitado gesto no discurso que dirigiu aos cardeais reunidos, naquele dia, para aprovar novos santos.

“No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”. Spadaro considera estas palavras “o coração da comunicação” de Bento XVI e conclui, a partir delas, que “o Papa renuncia ao ministério petrino não somente porque se sente débil mas porque percebe que estão em jogo desafios cruciais que pedem uma energia nova”.

Os cardeais souberam ler as palavras de Bento XVI e escolheram Jorge Mario Bergoglio. Este introduziu na Igreja o dinamismo a que o seu antecessor aludia. Está a conseguir dialogar com a pós-modernidade e a afrontar com vigor as questões que ela coloca à fé. “O motor primário na cadeia de eventos que levou ao Papa Francisco foi Bento XVI, o revolucionário improvável, que colocou as rodas em movimento um ano atrás”, conclui John Allen, num artigo no jornal “The Boston Globe”, sobre a resignação de Joseph Ratzinger.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/02/2014)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O declínio do Papa?

Foto retirada de ACI Digital
Há acontecimentos que merecem o destaque das primeiras páginas e a abertura dos noticiários e, depois, aos poucos, vão-se esvaziando até desaparecerem da agenda mediática.

A figuras públicas tem-lhes acontecido o mesmo. Em tempos de crise e de falta de lideranças políticas que se imponham, depressa se adere a quem aparece de novo, depositando nele todas as esperanças. O Papa Francisco foi uma dessas figuras no ano que passou. Ganhou a simpatia de crentes e não crentes. Conquistou os meios de comunicação social. Alguns, aliás, acharam que ele é um estratega e que sabe utilizar com mestria o púlpito dos média para passar uma mensagem atualizada e refrescada da doutrina cristã.

Muito do sucesso do Papa resulta da novidade que introduziu no discurso eclesiástico, acompanhando-a de gestos surpreendentes. Na verdade, os valores e os princípios que propõe e as iniciativas que toma estão em linha com o pensamento que já defendia enquanto cardeal de Buenos Aires. Um discurso que, na sua essência, tem mais de dois mil anos, mas que carece de ser atualizado a cada época e em cada contexto.

Na verdade, para um cristão, é difícil dizer algo de novo que o Evangelho não contenha: o desafio é atualizar a sua mensagem. Jesus preocupava-se com os marginalizados, os publicanos e os pecadores. Hoje o Papa fala dos refugiados e dos imigrantes ilegais, preocupando-se com os esquecidos a que chama “periferias existenciais e geográficas”.

Para alguns comentadores ser-lhe-á impossível manter esta novidade de discurso, pelo que acabará por não corresponder às esperanças que nele são depositadas, como aconteceu com Obama e outros líderes. Outros falam até de algum desgaste – e prevêem que durante o próximo ano não venha a merecer o mesmo destaque mediático.

O Papa, no entanto, não parece muito preocupado com a lógica mediática; parece, sim, querer mostrar-se mais coerente entre o que diz e o que faz. Pela minha parte, enquanto padre, acho muito importante que o pensamento do Papa seja traduzido na reforma e no governo da Igreja. Se não o for, será uma desilusão: não por perder a novidade, mas por não conseguir enxertar os valores do Evangelho no mundo contemporâneo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/02/2014)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A humanidade do Papa

Foto "L’Osservatore Romano" retirada daqui
As palavras e os gestos do Papa Francisco têm contribuído para a humanização do papado. Na visita a uma paróquia periférica de Roma, a do Sagrado Coração, apresentou-se há dias como um “homem comum” e abriu o seu coração a um grupo de refugiados confessando que na sua vida, como na deles, houve “muitas coisas boas e muitas más”.

Desde Pedro, o primeiro Papa, até aos nossos dias, fez-se um longo caminho na forma de compreender e exercer o ministério petrino. Uma história que chegou a fazer do sucessor de um humilde e arrependido pescador um Papa–Rei, esvaziando-o da sua humanidade e transformando-o num ser quase inacessível e infalível.

Felizmente, nos últimos dois séculos o caminho tem sido o inverso.

Em 1870 o Concílio Vaticano I definiu a infalibilidade papal. Fê-lo, curiosamente, nas vésperas de o papado perder os Estados Pontifícios para a Itália unificada. O Papa infalível viu-se portanto confinado ao minúsculo território da Cidade do Vaticano, no qual, para vincar o seu protesto, se enclausurou.

Pio XII rasgou os muros do Vaticano com a “Via della Conciliazione”, símbolo da reconciliação entre a Santa Sé e a Itália, mas não os transpôs. Será João XXIII, o primeiro Papa a ultrapassá-los – para visitar um hospital pediátrico e uma cadeia – e a sair de Roma – para visitar Assis e o Santuário do Loreto. Mas, mais importante do que a transposição dos muros do Vaticano, foi ter despoletado o dinamismo de uma Igreja que se voltou para o mundo com a convocação de um concílio, o Vaticano II.

Paulo VI deu continuidade à atividade conciliar do “Papa Bom”, concluindo-a. E saiu de Itália para visitar a Terra Santa, a que se seguiram outros pontos do globo, como Fátima.

João Paulo II, para além de intensificar as visitas apostólicas, no final do pontificado expôs ao mundo a sua decrepitude e doença. E Bento XVI deu uma machadada na concepção tradicional do papado, despojando-o do seu carácter vitalício.

Já Francisco, mais do que o Sumo Pontífice, preferiu desde a primeira hora ser o Bispo de Roma, um homem comum, que sofre como todos. Um pecador, como qualquer dos bispos, tal como ainda há dias fez questão de recordar: “Todos os bispos somos pecadores. Todos!”

(Texto publicado no Correio da Manhã de 31/01/2014)

domingo, 26 de janeiro de 2014

Divorciados a comungar, sim ou não?

Para o cardeal Maradiaga o arcebispo Müller “ é, 
acima de tudo, um professor alemão de teologia”
Foto retirada de Religión Digital
O cardeal Oscar Maradiaga deu uma entrevista ao jornal alemão “Koelner Stadt-Anzeiger” em que recomenda uma maior flexibilidade ao arcebispo Gehrard Müller, o qual tinha reproposto num artigo a doutrina que veda a comunhão aos divorciados que se tenham voltado a casar.

Tanto um como o outro desempenham tarefas relevantes no governo da Igreja. Maradiaga, arcebispo da capital das Honduras, é o coordenador do grupo de oito cardeais conselheiros do Papa. Müller é o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e está na lista dos futuros cardeais.
Não se deve estranhar que, entre os colaboradores mais próximos do Papa, haja divergência de perspetivas. O que não tem sido muito comum é elas serem tornadas públicas no registo que o cardeal hondurenho utilizou na entrevista. “Ele é, acima de tudo, um professor alemão de teologia; na sua mentalidade só existe o verdadeiro e o falso. Mas eu digo, meu irmão: o mundo não é assim; tu deves ser um pouco mais flexível”, disse.

Estas palavras de Maradiaga não terão agradado aos que defendem um discurso único para a Igreja e preferem que os seus mais altos dignatários falem a uma só. Mas essa não parece ser a perspetiva do Papa. Na “Evangelii Gaudium” apresenta a Igreja como a “discípula missionária” que precisa “de crescer na sua interpretação da Palavra revelada e na sua compreensão da verdade”. Por isso deve acolher os contributos de diferentes teólogos, exegetas e até peritos de outros saberes, como as ciências sociais. “A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspetos da riqueza inesgotável do Evangelho”, conclui o Papa.

Esta perspetiva “bergogliana” exigirá do Perfeito da Doutrina da Fé uma atuação menos inquisitorial e mais flexível. Que proponha com clareza as verdades que a fé coletiva foi consolidando ao longo do percurso multisecular da Tradição, mas que não coarte a reflexão teológica. Quanto aos teólogos, que desbravem caminhos novos –mas sem cederem à tentação de pretender impô-los rapidamente aos outros fiéis.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/01/2014)

domingo, 19 de janeiro de 2014

O anticiclone papal

Foto de Alessandra Tarantino, retirada do The Washington Times
A divulgação da lista dos escolhidos do Papa Francisco para receberem o título de cardeal, no próximo dia 22 de Fevereiro, provocou um verdadeiro anticiclone na Igreja. Teve o seu epicentro na Praça de S. Pedro, durante o Angelus do passado domingo, com ventos de renovação que varreram todo o mundo e abalaram os alicerces de vários edifícios fundados em lógicas carreirísticas. O sol brilhou e aqueceu o coração dos que vivem entre a Primavera e o Verão de uma Igreja que se rejuvenesce e desenvolve. Mas para os que veem cair as folhas de um passado considerado glorioso, e atravessam o Inverno do seu próprio anquilosamento, ainda que brilhe o sol, este novo vento traz frio, gripe e constipações.

Foi um anticiclone que deixou, apenas, quatro barretes cardinalícios na cabeça dos colaboradores mais próximos do Papa. Para além desses, só dois ficaram na Europa. Outros foram enviados para lugares mais ou menos recônditos e inesperados. Paragens que estavam habituados a recebê-los viram defraudadas as suas expetativas.

De entre as maiores surpresas destaca-se a nomeação do arcebispo de Perugia e a não inclusão dos titulares de dioceses como Veneza ou Turim, habituadas a serem distinguidas com essa dignidade. Transpondo para o contexto português o significado da escolha daquela diocese italiana, seria como se o Papa fizesse cardeal o arcebispo de Braga ou de Évora em detrimento do de Lisboa.

O Papa Francisco surpreendeu, também, ao incluir na lista dos cardeais o nome de D. Chibly Langlois, bispo da pequena cidade de Les Cayes, no Haiti. Para além de selecionar o bispo de um país periférico no contexto eclesial e mundial, que nunca teve um cardeal, vai buscá-lo à periferia da periferia haitiana. Seria como em Portugal escolher o bispo de Bragança ou dos Açores, as dioceses mais distantes da capital, conforme se considere o continente ou o todo nacional.

A lista dos purpurados de Bergoglio, sendo surpreendente, é todavia congruente com a sua atenção às periferias, a qual não se tem cansado de referir nas mais variadas circunstâncias. Verifica-se, uma vez mais, uma profunda coerência entre as palavras do atual Papa e a forma concreta como governa a Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 17/01/2014)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Estima judaico-católica

O Papa com o rabino argentino Abraham Skorka
Foto retirada do sítio Religión Digital
A perseguição aos judeus e aos fiéis de outras religiões são comportamentos que mancharam os vinte séculos de história da Igreja Católica. Felizmente, já estamos longe dos tempos em que na Sexta-feira Santa se rezava pelos pérfidos judeus. João XXIII suprimiu o adjetivo em 1959. Desde então o diálogo inter-religioso tem-se vindo a intensificar e teve o seu momento alto no encontro promovido pelo Papa João Paulo II em Assis, a 27 de Outubro de 1986.

O Concílio Vaticano II reconheceu os erros do passado e considerou deploráveis todas as perseguições e manifestações de anti-semitismo, mesmo as promovidas pela Igreja (Cf. Declaração “Nostra aetate”, nº 4). O Papa João Paulo II, no dia 12 de março de 2000, pediu perdão por todos os pecados cometidos em nome da Igreja, ao longo de dois mil anos, nomeadamente a perseguição aos judeus.

Emmanuel Levinas, conhecido filósofo judeu de origem lituana que se autointitulava “um judeu católico”, em várias obras refletiu sobre a necessidade de entendimento entre judeus e católicos. “Mas mantendo a diferença essencial entre ambas religiões”, referiu Julia Urabayen, uma estudiosa deste filósofo central da pós-modernidade, numa entrevista à agência Zenit.

O livro “Sobre o Céu e a Terra” – fruto da amizade e das conversas entre o cardeal Bergoglio e o rabino Skorka – demonstra como o judaísmo e o catolicismo podem dialogar, numa comunhão de ideais que não põe em causa as suas especificidades. Neste ambiente, e após um longo caminho de aproximação percorrido, são de louvar todas as iniciativas que ajudem ao diálogo inter-religioso e de estranhar todas as que o dificultam.

Entre as primeiras situa-se a do Pe. Jardim Moreira, que perante um achado arquitetónico testemunho da presença judaica no Porto, imediatamente pensou na criação de um Centro da Memória Judaica, em torno do qual se promovesse a aproximação judaico-católica. Os rabinos das sinagogas de Lisboa e Belmonte aderiram de bom grado. Mas os judeus portuenses acharam “ignominioso” o projeto, pelo facto de ser liderado por um padre católico!

Seria bom que repensassem a sua posição. E que se decidissem a apoiar uma iniciativa que pode contribuir para sarar velhas feridas em vez de as reabrir.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/01/2014)

domingo, 5 de janeiro de 2014

Um bom 2014

Foto retirada daqui
Mais um ano chegou ao fim e outro, chamado Novo, se lhe seguirá. Espera-se e fazem-se votos que este seja melhor que o anterior. Para muitos, o último foi bem pior que o anterior.

No nosso país o espartilho da austeridade ditou a perda de empregos e o agravamento das condições de vidas de muitos. Um Verão que se previa o mais frio dos últimos 200 anos, afinal foi bem mais quente, com grandes incêndios que, para além de lançarem a destruição em campos e povoações, ceifaram vidas humanas. O que já não acontecia há alguns anos.

No mundo, catástrofes naturais varreram a China e as Filipinas. A instabilidade política, a guerra e a violência marcaram a atualidade de países como a Síria, o Egipto ou, mais recentemente, a Ucrânia. O terrorismo fez mais de setenta mortos e centenas de pessoas ficaram feridas. Mereceram um maior destaque os ataques na maratona de Boston e ao centro comercial Westgate, em Nairobi, no Quénia. A imigração ilegal vitimou centenas de pessoas. Só no naufrágio ao largo de Lampedusa perderam a vida cerca de quatrocentas pessoas.

Em muitos aspetos, para muitas pessoas e em muitas latitudes, foi um ano para esquecer.

Já para a Igreja Católica, o 13º ano deste milénio não foi de azar, mas bem mais positivo que o anterior. No ano de 2012, documentos confidenciais acabaram nas páginas dos jornais, revelando ao mundo as fragilidades humanas e as intrigas eclesiásticas que grassam no seio da Santa Sé. Foi o escândalo “Vatican Leaks”, como veio a ser conhecido. O ano que se lhe seguiu ficará marcado pelo gesto extraordinário da resignação de Bento XVI e pela consequente eleição do Papa Francisco, a qual significou uma lufada de ar fresco a soprar a partir do Vaticano para toda a Igreja.

Espera-se que 2014 seja o ano em que frutifiquem as ideias que o cardeal Bergoglio carregou desde o “fim do mundo” e semeou durante o ano de 2013. José Manuel Vidal escreve no sítio espanhol “Religión Digital”, de que é diretor, que 2014 será o ano em que se consolidará “a revolução tranquila de Francisco”. O ano em que “a primavera da Igreja florescerá em todas as estruturas e níveis”. Não é ele o único a acalentar essas expectativas e a fazer votos para que assim seja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 03/01/2014)

domingo, 29 de dezembro de 2013

O acontecimento do ano

Foto: REUTERS/Stefano Rellandini (retirada daqui)
Ao chegar ao final do ano é normal eleger-se a figura e o acontecimento do ano. No âmbito eclesial e até mundial impôs-se a figura do Papa Francisco. Várias publicações o escolheram como personalidade que marcou o ano que agora termina.

Para além da Time, muitas outras publicações, como a The New Yorker, a Vanity Fair, ou a Foreign Policy o incluíram nas listas das individualidades que se destacaram em todo o mundo no último ano. Em Portugal, várias, como aconteceu com o Correio da Manhã e a revista Sábado, também o elegeram como figura do ano e não haverá nenhuma que não o tenha mencionado nas suas listas de personalidades e acontecimentos de 2013.

Todavia, este “efeito Francisco”, como já foi apelidado nos meios de comunicação social, só foi possível graças à resignação de Bento XVI. Esse acontecimento não tem sido devidamente realçado, mas terá sido o mais significativo para a Igreja e para o seu futuro. Não só por ter aberto caminho ao cardeal vindo do “fim do mundo”, mas, sobretudo, por ter contribuído para uma nova conceção do papado.

Paulo VI terá colocado a hipótese de resignar, quando se sentiu mais debilitado fisicamente, por fidelidade à doutrina conciliar. O Concílio impôs aos bispos que “vendo-se menos aptos para exercer o seu ministério por motivo de idade avançada ou por outra causa grave apresentem a renúncia do seu cargo” (Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos, nº 21). Paulo VI acabou por não resignar porque, entretanto, deu-se o rapto do primeiro-ministro italiano Aldo Moro e decidiu permanecer para ajudar a superar essa crise com a sua intervenção.

Caberá ao cardeal Ratzinger dar esse testemunho, ele que foi um dos teólogos mais influentes na reflexão conciliar. Ao renunciar, assume a sua fragilidade e, em sintonia com a perspetiva conciliar, como qualquer outro bispo, renuncia ao seu ministério, para que outro possa tomar o leme da Barca de Pedro e conduzi-la neste conturbado contexto da pós-modernidade. O Papa Francisco, que gosta de se apresentar como bispo de Roma, está a fazê-lo de forma admirável. A resignação de Bento XVI está na sua génese e, não só por isso, pode ser considerada o acontecimento eclesial mais relevante de 2013.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/12/2013)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Boas Festas

Partilho esta imagem do sítio informativo oficial do Vaticano (http://www.news.va/pt) com uma frase do Papa, proferida na audiência do passado dia 18 de Dezembro, em que desafiou os cristãos a serem humildes e pobres como os pobres.

Votos de um Santo Natal e Feliz Ano Novo

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Desinstalar a Igreja

Foto daqui
A frase mais citada do Papa, retirada da Evangelii Gaudium, é, seguramente, “A economia mata”. Mas não é a única. Uma que também é muito referida é: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”.
Não é original da Exortação, mas algo que o Cardeal Bergoglio já repetia em Buenos Aires. Nota-se que é uma frase decantada ao longo de anos vividos em íntima proximidade com o seu rebanho. Não é a formulação de um funcionário do sagrado, confinado à sacristia da sua igreja, mas de um pastor que vive no meio do rebanho e que contraiu o “cheiro das ovelhas”.
Ao longo de toda a Exortação é de tal forma evidente esse odor que este acaba por incomodar alguns narizes, mais habituados ao bafio dos corredores vaticanos. Numa entrevista o cardeal Burke chega a afirmar que, na sua opinião, a Evangelii Gaudium não “está destinada a fazer parte do magistério papal”.
Outros não vão tão longe, mas argumentam que o Papa não diz nada de novo. Que só a forma como o diz é que é original. Procuram, assim, amenizar um discurso que desinstala e põe todos em questão, até o próprio papado.
Há, também, quem sublinhe o estilo pastoral do Papa Francisco, não lhe reconhecendo, ainda, qualquer avanço doutrinal em relação aos seus antecessores. Poderá ser verdade: mas também é certo que se abriram perspetivas para relançar a reflexão no interior da Igreja. 
Na Exortação o Papa convoca exegetas e teólogos para ajudar a Igreja a “crescer na sua interpretação da Palavra revelada e na sua compreensão da verdade”. Abre essa reflexão ao contributo da filosofia e das ciências sociais. Consciente que “a quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspetos da riqueza inesgotável do Evangelho”.
Se todos souberem corresponder aos apelos do Papa, notar-se-ão em breve os avanços na forma de compreender e viver hoje a doutrina – imutável nos princípios, mas actualizável nas prioridades – da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 20/12/2013)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Um Papa global

O Papa Francisco está a tornar-se numa fenómeno verdadeiramente planetário. Não só por liderar uma instituição com presença em todo o mundo, mas porque a sua palavra se dirige de forma direta aos grandes problemas de toda a humanidade. Ergueu a sua voz, por diversas vezes – também na Evangelii Gaudium – para denunciar a “globalização da indiferença”. Apela ao empenhamento de todos, em particular dos católicos, para “eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos”. Os pobres e excluídos ganharam o lugar central no seu discurso e nos seus gestos.

Esta semana, foi apresentado como personalidade do ano, pela revista Time. Não é a primeira vez que um Papa recolhe esta classificação, conferida a quem durante o ano marcou a atualidade. Já aconteceu o mesmo com João XXIII, em 1962, e com João Paulo II, em 1994. Em ambos os casos, vários anos depois de terem assumido o papado. Ao atual Bispo de Roma bastaram apenas nove meses para se impor no espaço mediático. A diretora da Time justifica, precisamente, a escolha do Papa para capa da próxima semana, por “ser raro que um novo ator do cenário mundial suscite tão rapidamente a atenção tanto entre os jovens como entre os mais velhos e de igual modo entre os crentes e os céticos”.

Alguns acham que o sucesso mediático do Papa Bergoglio se deve às características do seu discurso, que todos compreendem, sem a linguagem hermética e complexa típica dos eclesiásticos.
Outros leem nas palavras e gestos do Papa uma estratégia refletida e exemplarmente implementada, para recuperar a base social de apoio, abordando temas e dando destaque a acontecimentos que marcam a atualidade.

Apesar de já ter dito que não se sente confortável nos palcos mediáticos, tem demonstrado uma facilidade de comunicação e um à vontade extraordinário. Contudo, essa eficácia não se deve tanto a uma estratégia delineada, nem é fruto de qualquer “media training” para a presença pública, a que se submetem tantos líderes mundiais: a sua eficácia comunicativa advém da sua autenticidade e coerência. Diz o que pensa e age em conformidade. Um grande exemplo, a ser seguido por outras lideranças eclesiásticas e até políticas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 13/12/2013)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As mulheres na Igreja


Foto do sítio reparatoris.com
O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, afirma categoricamente que “o sacerdócio reservado aos homens (…) é uma questão que não se põe em discussão”. Mas acrescenta que “é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja” e deixa esse desafio aos pastores e aos teólogos. Em poucas linhas, encerra a discussão em volta da ordenação de mulheres e abre o debate sobre o seu papel na vida da Igreja.

No enquadramento da questão do acesso feminino à ordenação, o Papa esclarece que o sacerdócio tem de ser entendido como uma função, um serviço, que não dá uma maior dignidade ou superioridade a quem a desempenha. Na Igreja a maior dignidade é conferida pelo Batismo, “que é acessível a todos”, sublinha o Papa.

A reflexão em torno desta questão inicia-se com o reconhecimento da “indispensável contribuição da mulher na sociedade, com uma sensibilidade, uma intuição e certas capacidades peculiares, que habitualmente são mais próprias das mulheres que dos homens”.

A Igreja não pode dar-se ao luxo de prescindir dessas características e deve garantir a presença feminina “nos vários lugares onde se tomam as decisões importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais”. É evidente que Papa está mais preocupado em garantir a participação da mulher nos espaços de decisão do que em discutir o acesso ao sacerdócio. É um “grande desafio” que ele confia aos pastores e teólogos, que podem “ajudar a reconhecer melhor o que isto implica no que se refere ao possível lugar das mulheres onde se tomam decisões importantes, nos diferentes âmbitos da Igreja”.

Hoje, alguns desses espaços são exclusivos dos clérigos. Os leigos não lhe têm acesso. Pensemos por exemplo no Colégio de Consultores, que todas as dioceses são obrigadas a ter e que o bispo é obrigado a consultar em determinadas decisões e, nas mais importantes, a obter o seu consentimento. Teremos no futuro nessa e noutras estruturas, agora clericais, a inclusão de leigos e o contributo da perspetiva feminina?

Corresponder ao desafio do Papa implicará necessariamente uma conversão profunda das mentalidades. E, sobretudo, uma mudança na forma atual de governar a Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/12/2013)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Uma Igreja para a rua

O Ano da Fé concluiu-se com a publicação da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), sobre o anúncio do Evangelho no Mundo atual. O título e o assunto evocam, imediatamente, a Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), o texto do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo atual. A leitura do documento papal revela que as coincidências não se ficam pela utilização das palavras. Constata-se que é a mesma perspetiva sobre o mundo e o mesmo dinamismo que se quer imprimir à Igreja.

A Gaudium et Spes é “o olhar amoroso da Igreja sobre o mundo, a cara carinhosa da Igreja sobre as realidades terrenas”, para Ramón Cazallas Serrano, missionário da Consolata, numa entrevista a António Marujo, publicada no livro “Quando a Igreja desceu à Terra”. O texto conciliar desafiou os cristãos a saírem da sacristia e a comprometerem-se com “as alegrias e esperanças” da humanidade. “O sonho e a ousadia de João XXIII lançaram a Igreja num diálogo aberto com a modernidade”, afirma aquele sacerdote.

O Papa Francisco lança o mesmo olhar sobre o mundo e sonha com uma Igreja “em saída” para a rua. Constituída por pessoas que testemunham a alegria do Evangelho com espírito missionário, que “tomam a iniciativa”, “que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam”.

A grande diferença entre os dois documentos advém do estilo próprio do cardeal Bergoglio. Utiliza uma linguagem bem mais acessível e um timbre maternal.

“A boa mãe sabe reconhecer tudo o que Deus semeou no seu filho, escuta as suas preocupações e aprende com ele. O espírito de amor que reina numa família guia tanto a mãe como o filho nos seus diálogos, nos quais se ensina e aprende, se corrige e valoriza o que é bom”.

Por vezes a mãe vê-se obrigada a repreender o seu filho. Não para o humilhar, mas para o ajudar a ser melhor. É assim que devem ser lidas as contundentes críticas que o Papa não se coíbe de fazer, tanto para dentro como para fora da Igreja.

Ainda que o Ano da Fé não tivesse tido outros frutos, pelo menos dotou a Igreja de um texto programático. Um guião para a sua ação no mundo atual, que deve ser lido e relido, debatido e meditado, em ordem à sua efetiva implementação.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 29/11/2013)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O CR7 da política

Após a vitória de Portugal contra a Suécia, milhões de portugueses, brasileiros e fãs de Cristiano Ronaldo em todo o mundo suspiraram de alívio. A seleção e o seu “comandante” asseguraram a presença no Mundial do Brasil.

Ao longo do desafio experimentaram-se as emoções mais díspares. A apreensão dos primeiros minutos e a irritação com as oportunidades perdidas. O descanso com o primeiro golo e depois o adormecimento. O susto com os dois tentos suecos, com o ressurgir dos pensamentos mais derrotistas. Finalmente, o alívio e a certeza da passagem à fase final do Mundial.

Nos minutos finais do jogo os comentadores sublinhavam o contributo decisivo de Ronaldo, que carregou a equipa às costas e a retirou do buraco em que se tinha metido. Todos os três golos deixaram bem evidente a genialidade do avançado português. Aproveitou três passes que o isolaram, cavalgou para a baliza e marcou.

No dia a seguir dificilmente algum português não sabia que Portugal tinha carimbado o passaporte para o Brasil. A esmagadora maioria sabia quem tinha marcado os três golos. Provavelmente, poucos se lembravam de quem tinha feito os passes de morte para o melhor jogador do mundo poder faturar. Não lhe retirando o valor, que é indiscutível, também é de realçar o papel de Moutinho e Hugo Almeida que lhe colocaram a bola em condições para ele poder brilhar.

Durante noventa minutos e mais algumas horas, Portugal esqueceu a crise, o défice e a troika. Porém, logo no dia seguinte, os que foram ressarcidos dos subsídios que não tinham recebido viram evaporar-se-lhes a alegria, ao constatarem as migalhas que recebiam. Os que não tinham emprego, nem isso receberam; provavelmente, continuam desempregados e sem motivos para se alegrarem. Aos que passam mal por causa da crise não foi a vitória de Portugal que lhes resolveu os problemas.

Todos aspiramos a um CR7 da política. Que retire o país do buraco em que se meteu. Que saiba encontrar as pessoas certas que lhe “passem” as estratégias adequadas para vencer a crise. Que não desperdice as oportunidades. E que dê a volta ao futuro de Portugal. Tal como a Igreja Católica parece já ter encontrado o seu para a liderar.

(Texto publicado no Correio da Manhã)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O Sínodo de Francisco

A atenção mediática concentrou-se no inquérito preparatório do próximo Sínodo dos Bispos, o que é compreensível pelas temáticas abordadas, tendo passado quase despercebida a renovação que o Papa quer introduzir nessa estrutura e a originalidade do documento que o contextualiza e prepara.

Na entrevista concedida a António Spadaro, publicada nas revistas dos jesuítas de todo o mundo, o Papa Francisco reconhecia: “Na minha experiência de superior na Companhia, para dizer a verdade, nem sempre me comportei assim, ou seja, fazendo as necessárias consultas. E isso não foi uma boa coisa”. Erro que agora não quer repetir no governo da Igreja.

Para o evitar, a primeira medida que tomou em ordem a tornar o papado mais colegial, foi a nomeação dos oito cardeais com a responsabilidade de analisar os dossiers mais complexos e de o ajudar a tomar as decisões mais acertadas. Na mesma linha, pretende fazer com que o Sínodo dos Bispos se transforme numa estrutura “quase permanente de consulta”, como revelou o arcebispo italiano Lorenzo Baldisseri, secretário do Sínodo, na apresentação da próxima reunião desse organismo.

O jornalista Sandro Magister, no sítio religioso da internet, ligado à revista italiana “L'Espresso”, sublinha, para além dessa renovação no funcionamento, a novidade da modalidade adotada na sua preparação. “Todos os Sínodos anteriores, no arco de meio século, haviam sido precedidos por documentos preparatórios prolixos, abstratos e chatos”, diz Sandro Magister. Neste, o texto que antecede as questões do tão divulgado inquérito é “um documento de trabalho conciso e concreto”.

Numa primeira parte faz-se a descrição das principais problemáticas, “até há poucos anos inéditas”, que afetam a família e “exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja”. Segue-se-lhe a exposição da conceção bíblica da família e dos ensinamentos do magistério da Igreja, desde o Concílio Vaticano II até à encíclica “Lumen Fidei”.

Apesar de breve, este documento, consegue dar uma radiografia bastante completa da temática da família e uma síntese extraordinária dos textos bíblicos e do pensamento da Igreja contemporânea sobre o assunto.

(Texto publicado no Correio da Manhã)

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O inquérito Papal

O Papa divulgou, na semana passada, o desejo de consultar toda a Igreja sobre a problemática da família. Esta iniciativa foi considerada por vários média como inédita e sem precedentes. Contudo, é um procedimento habitual na preparação de qualquer Sínodo dos Bispos.

O Sínodo dos Bispos, tal como se desenvolve na atualidade, é um organismo instituído pelo Papa Paulo VI a 15 de Setembro de 1965, quando ainda decorria o Concílio Vaticano II. Surge como resposta aos anseios dos padres conciliares de uma maior colegialidade episcopal, e de uma maior abertura da Igreja à participação de todos, que o atual Papa quer intensificar. Tem como principal missão ajudar o “Romano Pontífice” a aclarar e a consolidar as questões de fé, dos costumes e da disciplina, bem como a relação da Igreja com o mundo, como define o Código de Direito Canónico, no cân. 342.

Todos os Sínodos têm sido precedidos por uma consulta aos fiéis de todo o mundo. Todavia, nunca um documento preparatório teve tanta divulgação mediática como este último. Não foi só por ter sido anunciado pelo Papa, mas, sobretudo, pela temática que é colocada à reflexão de todos. São assuntos polémicos, dentro e fora da Igreja, dos quais os média têm destacado os seguintes: as uniões de facto, os divorciados recasados, as uniões homossexuais, a adoção de crianças por estes últimos.

Para realizar a auscultação das pessoas têm-se seguido diferentes metodologias. Nos Estados Unidos, os bispos confiaram aos párocos a responsabilidade de recolher as respostas dos seus paroquianos e elaborarem uma síntese de todas as opiniões manifestadas. No Reino Unido o inquérito foi disponibilizado na Internet e pode ser respondido de forma anónima, competindo à Conferência Episcopal retirar as conclusões a enviar para Roma. No nosso país, ainda não foi definida a forma como os fiéis vão ser ouvidos.

Como resultado desta auscultação e da reflexão dos bispos durante o Sínodo, será publicada uma Exortação Apostólica, assinada pelo Papa. Não se preveem mudanças na doutrina católica sobre o matrimónio e a família, mas é razoavelmente seguro que a forma da Igreja lidar com estas questões não será a mesma depois deste Sínodo.

(Texto publicado no Correio da Manhã)