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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Graças a Bento XVI

Foto: Filippo Monteforte/AFP
Na noite de 11 de Fevereiro de 2013 uma câmara fotográfica registou a queda de um raio na cúpula de S. Pedro. É um fenómeno que acontecerá dezenas de vezes ao longo do ano, mas essa imagem apareceu em inúmeras publicações por coincidir com a renúncia de Bento XVI. Algo que não acontecia na Igreja há quase seiscentos anos. E, pela primeira vez, foi “uma decisão tomada de forma livre e espontânea, sem estar envolta em polémica nem resultar de pressões, como aconteceu nas anteriores”, escrevi na altura. Não faltaram, contudo, leituras com as mais elaboradas teorias, atribuindo a decisão de Ratzinger a forças vaticanas obscuras.

À distância de um ano, o P. Antonio Spadaro, diretor da revista “La civiltà cattolica”, pensa que é errado atribuir a renúncia do Papa somente “à debilidade física, provocada pela idade, pelo cansaço ou a motivações símiles”. Devem-se procurar as causas de tão inusitado gesto no discurso que dirigiu aos cardeais reunidos, naquele dia, para aprovar novos santos.

“No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”. Spadaro considera estas palavras “o coração da comunicação” de Bento XVI e conclui, a partir delas, que “o Papa renuncia ao ministério petrino não somente porque se sente débil mas porque percebe que estão em jogo desafios cruciais que pedem uma energia nova”.

Os cardeais souberam ler as palavras de Bento XVI e escolheram Jorge Mario Bergoglio. Este introduziu na Igreja o dinamismo a que o seu antecessor aludia. Está a conseguir dialogar com a pós-modernidade e a afrontar com vigor as questões que ela coloca à fé. “O motor primário na cadeia de eventos que levou ao Papa Francisco foi Bento XVI, o revolucionário improvável, que colocou as rodas em movimento um ano atrás”, conclui John Allen, num artigo no jornal “The Boston Globe”, sobre a resignação de Joseph Ratzinger.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/02/2014)

domingo, 29 de dezembro de 2013

O acontecimento do ano

Foto: REUTERS/Stefano Rellandini (retirada daqui)
Ao chegar ao final do ano é normal eleger-se a figura e o acontecimento do ano. No âmbito eclesial e até mundial impôs-se a figura do Papa Francisco. Várias publicações o escolheram como personalidade que marcou o ano que agora termina.

Para além da Time, muitas outras publicações, como a The New Yorker, a Vanity Fair, ou a Foreign Policy o incluíram nas listas das individualidades que se destacaram em todo o mundo no último ano. Em Portugal, várias, como aconteceu com o Correio da Manhã e a revista Sábado, também o elegeram como figura do ano e não haverá nenhuma que não o tenha mencionado nas suas listas de personalidades e acontecimentos de 2013.

Todavia, este “efeito Francisco”, como já foi apelidado nos meios de comunicação social, só foi possível graças à resignação de Bento XVI. Esse acontecimento não tem sido devidamente realçado, mas terá sido o mais significativo para a Igreja e para o seu futuro. Não só por ter aberto caminho ao cardeal vindo do “fim do mundo”, mas, sobretudo, por ter contribuído para uma nova conceção do papado.

Paulo VI terá colocado a hipótese de resignar, quando se sentiu mais debilitado fisicamente, por fidelidade à doutrina conciliar. O Concílio impôs aos bispos que “vendo-se menos aptos para exercer o seu ministério por motivo de idade avançada ou por outra causa grave apresentem a renúncia do seu cargo” (Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos, nº 21). Paulo VI acabou por não resignar porque, entretanto, deu-se o rapto do primeiro-ministro italiano Aldo Moro e decidiu permanecer para ajudar a superar essa crise com a sua intervenção.

Caberá ao cardeal Ratzinger dar esse testemunho, ele que foi um dos teólogos mais influentes na reflexão conciliar. Ao renunciar, assume a sua fragilidade e, em sintonia com a perspetiva conciliar, como qualquer outro bispo, renuncia ao seu ministério, para que outro possa tomar o leme da Barca de Pedro e conduzi-la neste conturbado contexto da pós-modernidade. O Papa Francisco, que gosta de se apresentar como bispo de Roma, está a fazê-lo de forma admirável. A resignação de Bento XVI está na sua génese e, não só por isso, pode ser considerada o acontecimento eclesial mais relevante de 2013.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/12/2013)