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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A Igreja e o preservativo

Papa Francisco conversa com os jornalista no regresso a Roma
Foto retirada daqui
Quando Bento XVI visitou os Camarões e Angola, em Março de 2009, a questão do preservativo acabou por captar a atenção mediática e relegar para segundo plano questões tão importantes como, por exemplo, a condenação veemente da corrupção.

A bordo do avião o Papa defendeu que “não se pode superar este problema da SIDA só com a distribuição de preservativos”, mas que tal exigia “a conjugação de dois factores: o primeiro, uma humanização da sexualidade” e “o segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem”. Assim, Bento XVI tentou alargar o âmbito da discussão em torno do uso do preservativo, mas o que ficou foi que a Igreja continuava a ser contra o seu uso. Este Papa viria depois a corrigir a sua posição afirmando claramente que o seu uso é justificado em determinados casos.

Já o Papa Francisco, no regresso da visita ao Uganda, Quénia e República Centro Africana, quando confrontado com a questão, também a bordo do avião, furtou-se a dar uma resposta se “sim” ou “não” se deve usar. Insistiu nas grandes questões que abordou em África e voltou a chamar a atenção para “a desnutrição, a exploração das pessoas, o trabalho escravo, a falta de água potável: estes são os problemas”, disse. E considerou que a “grande ferida” do continente africano “é a injustiça social, a injustiça ao meio ambiente”. Desta forma o Papa voltou aos principais assuntos da viagem por África, apelando ao diálogo e à reconciliação entre as pessoas de diferentes religiões, etnias e condições sociais.

É desta forma que a Igreja pode dar o seu maior contributo ao mundo. Não “descer a reflexões de casuística”, nas palavras do Papa Francisco, mas elevar a reflexão ao nível dos princípios e dos valores.

Mais importante do que ditar o uso ou não uso do preservativo, a Igreja deve preocupar-se em propor valores, como sejam o altruísmo e a abertura à vida, ou a humanização da sexualidade, como defendeu Bento XVI. No fundo, é fazer o mesmo caminho que percorreu em relação à organização política das sociedades: em vez de propor um modelo a partir da sua Doutrina Social, fornecer os valores a respeitar no exercício do poder. E denunciar todos os comportamentos que não os respeitam, sem canonizar um qualquer sistema político.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 04/12/2015)