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domingo, 9 de fevereiro de 2014

O declínio do Papa?

Foto retirada de ACI Digital
Há acontecimentos que merecem o destaque das primeiras páginas e a abertura dos noticiários e, depois, aos poucos, vão-se esvaziando até desaparecerem da agenda mediática.

A figuras públicas tem-lhes acontecido o mesmo. Em tempos de crise e de falta de lideranças políticas que se imponham, depressa se adere a quem aparece de novo, depositando nele todas as esperanças. O Papa Francisco foi uma dessas figuras no ano que passou. Ganhou a simpatia de crentes e não crentes. Conquistou os meios de comunicação social. Alguns, aliás, acharam que ele é um estratega e que sabe utilizar com mestria o púlpito dos média para passar uma mensagem atualizada e refrescada da doutrina cristã.

Muito do sucesso do Papa resulta da novidade que introduziu no discurso eclesiástico, acompanhando-a de gestos surpreendentes. Na verdade, os valores e os princípios que propõe e as iniciativas que toma estão em linha com o pensamento que já defendia enquanto cardeal de Buenos Aires. Um discurso que, na sua essência, tem mais de dois mil anos, mas que carece de ser atualizado a cada época e em cada contexto.

Na verdade, para um cristão, é difícil dizer algo de novo que o Evangelho não contenha: o desafio é atualizar a sua mensagem. Jesus preocupava-se com os marginalizados, os publicanos e os pecadores. Hoje o Papa fala dos refugiados e dos imigrantes ilegais, preocupando-se com os esquecidos a que chama “periferias existenciais e geográficas”.

Para alguns comentadores ser-lhe-á impossível manter esta novidade de discurso, pelo que acabará por não corresponder às esperanças que nele são depositadas, como aconteceu com Obama e outros líderes. Outros falam até de algum desgaste – e prevêem que durante o próximo ano não venha a merecer o mesmo destaque mediático.

O Papa, no entanto, não parece muito preocupado com a lógica mediática; parece, sim, querer mostrar-se mais coerente entre o que diz e o que faz. Pela minha parte, enquanto padre, acho muito importante que o pensamento do Papa seja traduzido na reforma e no governo da Igreja. Se não o for, será uma desilusão: não por perder a novidade, mas por não conseguir enxertar os valores do Evangelho no mundo contemporâneo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/02/2014)

domingo, 29 de dezembro de 2013

O acontecimento do ano

Foto: REUTERS/Stefano Rellandini (retirada daqui)
Ao chegar ao final do ano é normal eleger-se a figura e o acontecimento do ano. No âmbito eclesial e até mundial impôs-se a figura do Papa Francisco. Várias publicações o escolheram como personalidade que marcou o ano que agora termina.

Para além da Time, muitas outras publicações, como a The New Yorker, a Vanity Fair, ou a Foreign Policy o incluíram nas listas das individualidades que se destacaram em todo o mundo no último ano. Em Portugal, várias, como aconteceu com o Correio da Manhã e a revista Sábado, também o elegeram como figura do ano e não haverá nenhuma que não o tenha mencionado nas suas listas de personalidades e acontecimentos de 2013.

Todavia, este “efeito Francisco”, como já foi apelidado nos meios de comunicação social, só foi possível graças à resignação de Bento XVI. Esse acontecimento não tem sido devidamente realçado, mas terá sido o mais significativo para a Igreja e para o seu futuro. Não só por ter aberto caminho ao cardeal vindo do “fim do mundo”, mas, sobretudo, por ter contribuído para uma nova conceção do papado.

Paulo VI terá colocado a hipótese de resignar, quando se sentiu mais debilitado fisicamente, por fidelidade à doutrina conciliar. O Concílio impôs aos bispos que “vendo-se menos aptos para exercer o seu ministério por motivo de idade avançada ou por outra causa grave apresentem a renúncia do seu cargo” (Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos, nº 21). Paulo VI acabou por não resignar porque, entretanto, deu-se o rapto do primeiro-ministro italiano Aldo Moro e decidiu permanecer para ajudar a superar essa crise com a sua intervenção.

Caberá ao cardeal Ratzinger dar esse testemunho, ele que foi um dos teólogos mais influentes na reflexão conciliar. Ao renunciar, assume a sua fragilidade e, em sintonia com a perspetiva conciliar, como qualquer outro bispo, renuncia ao seu ministério, para que outro possa tomar o leme da Barca de Pedro e conduzi-la neste conturbado contexto da pós-modernidade. O Papa Francisco, que gosta de se apresentar como bispo de Roma, está a fazê-lo de forma admirável. A resignação de Bento XVI está na sua génese e, não só por isso, pode ser considerada o acontecimento eclesial mais relevante de 2013.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 27/12/2013)