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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O bispo polémico

El Salvador vive um ano jubilar – que se iniciou no dia 15 de Agosto, dia em que o seu bispo mártir, Óscar Romero, completaria 99 anos de idade – que se encerrará no mesmo dia do próximo ano, no centenário do seu nascimento.

O então arcebispo de San Salvador foi assassinado durante a celebração da Eucaristia, a 24 de Março de 1980, por um esquadrão da morte, com ligações ao poder político de direita que, então, governava aquele país. Dadas as circunstâncias da sua morte, foi transformado num símbolo dos ideais das esquerdas latino-americanas.

Na verdade, Óscar Romero não se enquadra nas classificações políticas de esquerda ou de direita, de conservador ou progressista, como demonstra Roberto Morozzo della Rocca na biografia elaborada a partir de uma séria investigação histórica, publicada o ano passado.

Pela sua fidelidade à tradição da Igreja, pode erroneamente ser classificado como conservador. Devido ao seu entusiasmo com a renovação promovida pelo Concílio Vaticano II, e à denúncia de situações de pobreza e exploração, poderá ser  considerado como progressista. De facto, no exercício da sua missão episcopal, tanto agradou como desagradou a uns e outros. E ele sabia-o bem.

Poucos dias antes da sua morte, a 30 de Janeiro, confidenciou a um cardeal amigo, em Roma: “Vou ser morto, não sei se pela esquerda, se pela direita”. Este episódio é referido por Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, no prefácio à refeirida bibliografia. Este, em vez de o tentar classificar, prefere realçar: “Romero foi um bispo e um amigo dos pobres. Na realidade, os pobres eram o centro das suas preocupações, pois reconhecia neles a misteriosa presença do Senhor. A vizinhança dos pobres foi a bússola da sua vida”. 

Esta bússola levou-o a afirmar numa homilia que a missão da Igreja é identificar-se com os pobres. “Assim a Igreja encontra a sua salvação", disse.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/08/2016)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O silêncio da esquerda

Cardeal Óscar Rodriguez Maradiaga
(Foto: Manuel Meira, retirada do sítio Religionline)
Os cardeais mais próximos do Papa estão em sintonia na crítica ao sistema económico que rege o mundo. Na semana passada, em Roma, o cardeal Pietro Parolin, Secretario de Estado da Santa Sé, denunciava um sistema que está a dificultar o acesso ao crédito dos mais pobres. Esta semana, em Fafe, o cardeal Óscar Maradiaga, coordenador do grupo de nove purpurados que aconselham o Papa, afirmou que “temos um sistema que desenvolveu o liberalismo económico mas não traz igualdade, antes acrescenta desigualdade”. Criticou também a austeridade que, mesmo sendo uma “virtude cristã”, não ajudou os países intervencionados como se pretendia, mas gerou ainda mais pobreza.

Muitas dos políticos de esquerda reveem-se nestas e noutras críticas. Por diversas vezes já manifestaram o seu apoio às posições do Papa em matéria económica. Mas têm-no deixado a falar sozinho quando pede à “comunidade internacional que não fique muda” perante a matança de cristãos, como tem acontecido recentemente.

Lucia Annunziata, há dias, num blog italiano, censurava o silêncio da esquerda, que se tem mobilizado em tantas causas, mas não manifestou “a pena e o horror pela morte de tantos homens e mulheres por causa da sua fé”. (…) Fé que, aliás, é a da maioria do nosso país, e é também a matriz (querendo ou não) da história e da cultura do continente em que vivemos”.

Quem assim fala até pode suscitar a ideia de que é uma pessoa de direita e crente. Mas percebe-se, pelo teor do artigo, que não se situa nessa área política. Já quanto à crença, faz questão de dizer: “Não sou católica, nem sequer neo-convertida. Sou ateia e pretendo continuar a sê-lo (…) Sou, contudo, uma jornalista e creio que ainda consigo compreender o que é uma notícia. E a notícia destes dias é a solidão a que foi votado precisamente este popularíssimo Papa, que há meses é a única voz a denunciar os massacres de fiéis e atualmente é o único chefe de estado a apontar o dedo contra o imobilismo das Nações Ocidentais perante estas carnificinas. Na verdade, exatamente o contrário do que aconteceu em relação ao Charlie Hebdo”.

Também, entre nós, se nota algum pudor em condenar categoricamente o massacre dos cristãos. E dificilmente se vê um ateu a admitir e a valorizar a nossa matriz cultural cristã.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/04/2015)