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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Misericórdia para os recasados

Há questões que nos inquietam e desinstalam.
Uma senhora pergunta:
“Porque é que eu não posso comungar? O meu único erro foi ter falhado no meu casamento católico e ter refeito a minha vida com outra pessoa. Na nossa família esforço-me por ser boa esposa e boa mãe. Mas a Igreja não me permite ser uma boa cristã a que seja permitida a participação nos sacramentos da penitência e da eucaristia. Outros, no entanto, podem até não acolher a palavra do Papa, podem atacar o bispo e os padres e quando lhes convém, acomodarem-se à sombra da Igreja. Mas, como estão casados pela Igreja, é-lhes permitido ir todos os dias à missa e até comungar.

E que dizer de sacerdotes ordenados mesmo sem recolher a anuência das instâncias devidas? E os que não olham a meios para atingir os seus fins, aos quais o Papa chamou ‘trepadores’? E os padres que vivem em função da promoção ou da acumulação de riquezas, que procuram aparentar virtudes públicas e esconder vícios privados, mesmo quando estes são do conhecimento público?

Estes, apesar de tudo isso, podem continuar a presidir à eucaristia e a pregar piedosos sermões…para os outros. E podem, também, desempenhar os mais destacados cargos na estruturas eclesiásticas”.

A esta senhora – mesmo admitindo que, se é como diz, essas pessoas não reunirão as condições exigidas para receber a comunhão – pode sempre recordar-se a frase do Papa Francisco: “A Eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos” (Evangelii Gaudium, 47). Contudo, a todos é dada a possibilidade de arrepender-se, acolher a misericórdia divina e corrigir o seu proceder.

Aqui surge um problema para o qual a Igreja ainda não conseguiu encontrar resposta. Um divorciado recasado, mantendo-se a atual disciplina da Igreja, não consegue emendar o erro que cometeu sem refazer o casamento anterior, que não pode ser anulado. Contrariamente ao que se diz, só pode ser declarado nulo caso não tenha existido.

Espera-se que durante este Ano da Misericórdia, que se iniciou no passado dia 8 de Dezembro, o Papa Francisco encontre uma forma de estender o manto da misericórdia divina às pessoas que falharam no seu primeiro compromisso matrimonial, permitindo-lhes casar novamente perante a Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 11/12/2015)


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Nas mãos do Papa

Papa na missa de Encerramento do Sínodo dos Bispos
Foto ANSA retirada daqui
O Sínodo dos Bispos chegou ao fim. A forma como decorreram os trabalhos, e os problemas que estiveram em cima da mesa, têm permitido as mais diversas leituras. Muitas delas reduzem o Sínodo ao confronto entre duas posições antagónicas: conservadores e progressistas. Parece que a abordagem mais correta é a da existência de dois pequenos grupos mais “extremistas” e uma grande maioria ao centro, tentando esta aproximar esses dois extremos para evitar cismas e encontrar soluções o mais consensuais possíveis para a Igreja. Esta é a convicção de um padre sinodal, revelada pelo sítio espanhol “Religión Digital”, sem contudo referir a sua identificação.

Esse ambiente de um amplo consenso transparece no Relatório Final do Sínodo. Todos os parágrafos foram aprovados com uma maioria qualificada de dois terços. Apenas alguns mereceram uma oposição maior – e todos eles se encontram no capítulo que aborda o “acompanhamento pastoral da família”. Alguns foram rejeitados por vinte por cento dos padres sinodais. São os parágrafos dedicados às situações familiares mais complexas dos dias de hoje. É neles que se aborda, também, o problema do acolhimento à homossexualidade.

Para além desses, apenas três parágrafos estiveram muito próximos de não passarem. São os que referem a necessidade de discernir e de promover a integração dos divorciados recasados, apesar do acesso aos sacramentos nunca ter sido referido explicitamente.

Por mais que se tente dizer que neste Sínodo se abordaram muitas outras questões, foram estas, de facto, que o marcaram. E, perante elas, há pelo menos vinte por cento dos bispos que se opõem a uma mudança, como se viu. E muitos mais experimentam algum desconforto em relação ao acolhimento dos divorciados recasados e dos homossexuais.

Tal como se previa desde o início, o Sínodo não conseguiu encontrar “soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família”, como reconheceu o Papa Francisco no encerramento dos trabalhos. Mas, mesmo assim, permitiu que fossem abordadas “sem medo e sem esconder a cabeça na areia”. Ficou claro que não haverá substanciais mudanças doutrinais, mas a linguagem e a práxis pastoral terá de se adequar às circunstâncias particularmente difíceis das famílias de hoje.

Em resumo: está nas mãos do Papa promover essa mudança, eventualmente através de uma Exortação Apostólica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 30/10/2015)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O início do Sínodo

Primeiro "briefing" do Sínodo da família
Da esquerda para a direita:
Bruno Forte, Vingt-Trois, Péter Erdo e Federico Lombardi
Foto: LaPresse, retirada daqui
Os principais responsáveis pela condução dos trabalhos do Sínodo dos Bispos procuraram baixar as expectativas em relação aos resultados dessa reunião magna do episcopado mundial, que decorre no Vaticano desde o passado domingo até ao dia 25 deste mês.

No início dos trabalhos o cardeal Peter Erdö, relator geral do Sínodo, sublinhou o valor da “indissolubilidade do matrimónio proposta pelo próprio Jesus Cristo”, pelo que vê com dificuldade o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos. Contudo, essa não é a única questão que será debatida, mas muito outras, organizadas em três grandes áreas temáticas: a escuta dos desafios sobre a família; o discernimento da vocação familiar; a missão da família hoje. São estes os três capítulos do “Instrumentum Laboris” que resultou da reflexão do último Sínodo e que constituem o ponto de partida do que agora se iniciou.

“Se viestes a Roma com a ideia de uma mudança espetacular da doutrina, regressareis desiludidos”, disse aos jornalistas no final do primeiro dia o responsável pela condução dos trabalhos, cardeal Vingt-Trois. Contudo, “este Sínodo não se reúne para não dizer nada”, afirmou na mesma conferência de imprensa o secretário especial do Sínodo, o arcebispo Bruno Forte.

Na abertura dos trabalhos do Sínodo o Papa Francisco colocou as balizas para a reflexão, não deixando de desafiar os padres sinodais: “Recordo que o Sínodo não é um congresso, ou um ‘parlatório’, não é um parlamento ou um senado, onde se procura o consenso”. Para o Papa, este deve ser um espaço em que a Igreja procura “ler a realidade com os olhos da fé”. Em que se questiona “sobre a fidelidade ao depósito da fé”, o qual não é “um museu para olhar ou salvaguardar, mas é uma fonte viva em que a Igreja sacia a sede para saciar e iluminar o depósito da vida”. Ou seja, o Sínodo deve ser fonte de inspiração para dialogar com o mundo contemporâneo e responder às suas questões.

Mesmo quem não conhece em profundidade a Igreja Católica, não deve esperar que esta, de repente, reescreva a doutrina que foi consolidando no seu seio ao longo de dois milénios. O que se deve aspirar – e já será um grande salto – é que as formulações doutrinais se adequem aos tempos atuais e deem resposta aos seus problemas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 09/10/2015)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Igreja, Direita e Esquerda

Papa fala aos jornalistas no avião
Foto retirada daqui
A classificação dos líderes da Igreja como de direita ou de esquerda, conservadores ou progressistas, habitualmente não é ajustada. Não só por na política partidária serem cada vez mais difusas as diferenças entre a esquerda e a direita. Mas, sobretudo, porque os responsáveis eclesiásticos têm de, por um lado, ser fiéis à tradição da Igreja – e por isso conservadores –, e, por outro lado, de ser fiéis ao dinamismo do Evangelho, o que os obriga a atualizar a doutrina às circunstâncias concretas de cada tempo – e, por isso, a ser progressistas.

O Papa Francisco tem sido aplaudido à esquerda, quando critica o sistema capitalista, ou apela à ecologia, ou se preocupa com os divorciados recasados e os homossexuais. E é aplaudido à direita quando defende a família ou condena a legalização do aborto. Na sua última viagem ao continente americano acabou por, de certa forma, desiludir os ditos conservadores e progressistas, por não se deixar acantonar em nenhum dos polos. Para os primeiros não foi suficientemente contundente na condenação do aborto e dos casamentos homossexuais. Já para os segundos terá sido muito suave na abordagem do problema dos homossexuais católicos ou do papel da mulher na Igreja.

No voo entre Cuba e os Estados Unidos, foi mesmo questionado se era “esquerdista” e até católico. Ao que ele respondeu: “Não disse nada além do que está na Doutrina Social da Igreja.” Esclareceu depois que o matrimónio continua a ser indissolúvel. Não há divórcio católico, apesar de ter simplificado o processo de declaração de nulidade dos casamentos na Igreja. Nestas posições alguns leram um virar à direita.

Na verdade, ele não é de esquerda nem de direita, mas alguém que quer responder às questões que afetam e preocupam os homens e mulheres de hoje. Como são o acolhimento aos divorciados recasados e aos homossexuais, ou o papel da mulher na Igreja.

Para dar resposta a estes e outros problemas, o Papa quer que se reflita, se discuta e que, à luz do Evangelho e em conformidade com a tradição da Igreja, se encontrem as soluções adaptadas aos dias de hoje. Apesar de ter pedido isso à Igreja, nomeadamente na preparação do próximo Sínodo dos Bispos, ainda se nota pouco essa preocupação no interior das organizações católicas...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/10/2015)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O "simplex" papal

O Papa Francisco simplificou o processo para a declaração da nulidade de um matrimónio e pediu que passasse a ser gratuito.

Para o tornar mais célere, conferiu maiores responsabilidades aos bispos de cada diocese, podendo eles próprios julgar os pedidos mais evidentes. Mais importante ainda, aboliu a obrigatoriedade de uma dupla sentença positiva. Até agora, para um casamento ser declarado nulo, tinha de obter o aval do tribunal eclesiástico da diocese em que era introduzida a causa e do tribunal da diocese metropolita. Caso o primeiro dissesse que sim e o segundo que não, então transitava para Roma, que resolveria a questão. Com a legislação agora aprovada pelo Papa, se ninguém recorrer na primeira instância, o casamento é automaticamente declarado nulo.

No caso português, depois de um processo passar nas respetivas dioceses, tinha de ir para Braga, metropolita das dioceses do norte, Lisboa, do centro e ilhas, ou Évora, das do sul. Com o acumular de processos nessas dioceses, os esposos tinham de esperar vários anos, e de gastar muito dinheiro, para conseguirem a sua almejada pretensão. Em Espanha pode mesmo demorar entre quatro e cinco anos a ser despachada uma anulação – e custa cerca de cinco mil euros, segundo o sítio "Religión Digital". No nosso país pode demorar mais tempo e ficar ainda mais dispendioso.

Preocupado com a situação das pessoas que vivem afastadas dos sacramentos  devido à morosidade da justiça eclesiástica, ou por não terem dinheiro para introduzir a causa de nulidade, o Papa decidiu legislar para que esta possa ser declarada num mês e de forma gratuita. Não se trata de promover ou facilitar o divórcio, nem de anular os casamentos católicos, mas de declarar nulo com maior rapidez e de forma gratuita o que nunca existiu e que, por isso, não pode continuar a atormentar a vida das pessoas. Trata-se de colocar a lei ao serviço das pessoas.

Com esta legislação, a um mês do Sínodo dos Bispos, o Papa dá um sinal claro aos padres sinodais para se concentrarem nos casos em que o casamento não foi nulo, mas que, por diversos motivos, falhou. Para esses espera-se que o Sínodo encontre uma resposta que não continue a manter os crentes afastados dos sacramentos, mas os reintegre plenamente na vida da Igreja.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 11/09/2015)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Bispos contra o Papa?!

Manchete da última edição do “Sol”
Imagem recortada daqui
Publicamente, todos os bispos portugueses têm aplaudido o Papa. Ainda nenhum, que me tenha apercebido, criticou alguma das posições e das perspetivas que ele tem proposto para a Igreja. Admito que em privado façam eco de algum desconforto para com certas teses “bergoglianas”. Contudo, como noticiou o semanário "Sol", na sua última edição, chegar ao ponto de não respeitar o desafio que o Papa fez à Igreja de todo mundo para refletir o problema dos divorciados recasados, e enviar um documento votado por todos os bispos, incluindo os eméritos, em que, simplesmente, se lhes recusa o acesso à comunhão, parece-me inconcebível!

Situar o debate só em torno da questão de os católicos recasados poderem, ou não, comungar, é muito redutor. Assim posta a questão, é natural que se criem divisões entre os que defendem, e os que negam, essa possibilidade.

Ora, o objetivo do Papa não terá sido esse ao levantar essa questão (e outras). O que ele pediu à Igreja foi que reflita sobre a forma de conciliar a indissolubilidade do matrimónio com o acesso dos recasados à comunhão. Ou seja: como continuar a valorizar e a propor o matrimónio católico para toda a vida; e ter uma solução para aqueles que falharam nesse projeto e, por isso, se veem arredados dos sacramentos só por terem contraído uma nova união.

Assim sendo, a preocupação dos bispos deverá ser ler as sensibilidades e propostas da Igreja em Portugal. E, depois, enviar para o Sínodo sugestões, linhas de reflexão, pistas para que os bispos de todo mundo possam encontrar uma saída para este problema que, à primeira vista, parece irreconciliável.

Em muitos contextos, e por diferentes personalidades da Igreja, já foram sugeridas diversas soluções. Espera-se que os bispos portugueses, tendo ouvido as diferentes sensibilidades nacionais, consigam retirar das diferentes posições, por vezes diametralmente opostas, um contributo válido para o Sínodo. É crucial para a Igreja, no mundo de hoje, encontrar a solução para este e outros problemas que afetam a vida de pessoas concretas.

Por isso, limitarem-se a dizer ao Papa que se é a favor ou contra a comunhão dos recasados, é, manifestamente, muito pouco. Ele, seguramente, espera muito mais da reflexão dos católicos espalhados por todo o mundo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 07/08/2015)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Os riscos do Sínodo

Foto retirada daqui
Está a mudar a forma como a Igreja debate as questões que preocupam as pessoas e a maneira como dialoga com o mundo.

O Papa Francisco quer uma “Igreja em saída” e com as portas abertas. Que vá ao encontro das “periferias geográficas e existenciais”. Que acolha as suas preocupações e inquietações e as reflita sem ter medo de enfrentar as questões mais polémicas.

Na abertura do último Sínodo dos Bispos o Papa pediu que se falasse claro. No discurso inaugural afirmou: “É necessário dizer tudo aquilo que, no Senhor, sentimos que devemos dizer: sem hesitações, sem medo. E, ao mesmo tempo, é preciso ouvir com humildade e aceitar de coração aberto aquilo que os irmãos dizem. A sinodalidade exerce-se com estas duas atitudes”.

Fruto dos trabalhos sinodais, foram identificadas as questões em torno da problemática da família a aprofundar no próximo Sínodo, o qual se reunirá no Vaticano de 4 a 25 de outubro deste ano. Algumas delas não obtiveram a maioria de dois terços, como é o caso do acesso dos divorciados recasados aos sacramentos e o acolhimento aos homossexuais. Todavia o Papa impôs que elas fizessem parte do Relatório Final e que sejam refletidas na próxima assembleia de bispos.

Esta semana foi apresentado o documento onde constam os assuntos que serão refletidos e aprofundados pelos padres sinodais. Foi sublinhado o desejo do Papa de que todos falassem com coragem e abertamente. Contudo a maior novidade foi a de deixar à “discrição e responsabilidade” dos participantes a liberdade de comunicar aos média os assuntos que estão a ser debatidos no Sínodo.

Esta é uma opção arriscada de transpor para os meios de comunicação social a discussão que decorre na Aula Sinodal, com o perigo de ser deturpado e corrompido pela lógica mediática, mas confere uma maior transparência e visibilidade ao debate eclesiástico. Está também de acordo com o que dizia o cardeal Bergoglio em Buenos Aires e que reafirmou, como Papa, na Evangelii Gaudium: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (nº49).

Em Outubro poderemos verificar se foram maiores os danos ou os benefícios desta decisão do Sínodo.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 26/06/2015)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O ano do Papa

Papa Francisco e o cardeal Oscar Maradiaga
foto retirada daqui
A “revolução da ternura” introduzida pelo cardeal Bergoglio consolidou-se ao longo do ano que agora terminou.

Na mensagem para o dia 1 de Janeiro, denunciou, mais uma vez, “a globalização da indiferença” para com as situações de exploração e de tráfico de seres humanos. Apelou ao empenhamento de todos na “globalização da solidariedade e da fraternidade” para vencer o “flagelo da escravidão contemporânea”. A avaliar pela primeira mensagem do ano, os mais pobres e os explorados continuarão a ser a principal preocupação do Papa.

O grande acontecimento eclesial de 2014 foi o Sínodo dos Bispos. No final o Papa impôs que fossem incluídas no texto final os parágrafos sobre os divorciados recasados e o acolhimento aos casais homossexuais, apesar de não terem obtido a aprovação de dois terços da assembleia. Desta forma, a temática da família, bem como, as situações irregulares marcarão a agenda da Igreja em 2015, cujo ponto alto será o Sínodo Ordinário dos Bispos, em Outubro.

Durante o próximo ano será também implementada a Reforma da Cúria Romana. No início de Fevereiro reúnem-se de novo os nove cardeais (C9) que estão a assessorar o Papa nessa tarefa. Apresentarão o ponto da situação e as propostas concretas para a reformulação do governo central da Santa Sé. Prevê-se que haja a fusão de diversos organismos em dois novos Dicastérios, um dedicado ao laicado e família e outro às questões sociais. Será uma espécie de ministério da solidariedade, para o qual será nomeado o cardeal Oscar Maradiaga. Este é o coordenador dos C9 e um dos cardeais em que Francisco deposita maior confiança. Deixará a diocese de Tegucigalpa, nas Honduras, para estar ao seu lado em Roma.

Espera-se que ao longo do ano de 2015, a dinâmica que o cardeal Bergoglio desencadeou na Igreja se traduza em legislação. Mantendo-se contudo o primado da misericórdia sobre o legalismo; uma atitude de acolhimento para com os que estão longe da Igreja e de exigência para os que têm maior responsabilidade no seu interior.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/01/2015)

domingo, 26 de outubro de 2014

Um Papa determinado

Foto retirada daqui
Os média foram acusados de dar mais destaque às situações irregulares do que à reflexão dos padres sinodais sobre a família. Estes, no entanto, discutiram-nas sem pôr em questão “as verdades fundamentais do sacramento do Matrimónio: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a procriação, ou seja, a abertura à vida”, referiu o Papa no discurso de encerramento do Sínodo.

D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, considerou mesmo que a excessiva mediatização das questões mais polémicas “provocou um certo recuo” na assembleia sinodal, influenciando os trabalhos dos grupos linguísticos. As votações do relatório final do Sínodo revelam esse “recuo” dos bispos em relação às uniões de facto ou civis, ao acesso dos divorciados recasados aos sacramentos e, também, ao acolhimento dos homossexuais.

O parágrafo em que se pede uma “nova sensibilidade da pastoral hodierna, que consiste em colher os elementos positivos presentes nos matrimónios civis e, tendo em conta as devidas diferenças, nas uniões de facto”, passou com apenas três votos acima dos dois terços exigidos para a aprovação.

Já os parágrafos que abordavam as questões dos divorciados recasados e dos homossexuais, não tiveram essa maioria qualificada. Por essa razão, não deveriam constar do documento final do Sínodo, apesar de terem a aprovação de mais de metade dos votantes. Por imposição do Papa, foram incluídos.

Para que ficasse claro que estes temas não obtiveram a aprovação formal do Sínodo, Francisco fez publicar a votação discriminada por parágrafo. Algo que nunca tinha acontecido em nenhum relatório anterior. Para além disso, por sua iniciativa pessoal, fez do “Relatio Synodi” o “Lineamenta” do próximo. Ou seja, transformou este relatório em documento preparatório da próxima reunião sinodal – outra novidade.

Estas duas inovações demonstram a determinação do Papa em não deixar cair essas questões. Apesar de não as ter visto aprovadas pelo Sínodo, ao incluí-las no “Lineamenta” obriga os bispos e os fiéis a refleti-las durante o próximo ano.

O que se desenhava como a primeira derrota do Papa, acabou por se converter numa manifestação da sua firmeza na liderança da Igreja. Aguardemos os próximos capítulos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/10/2014)

domingo, 19 de outubro de 2014

O “terramoto” sinodal


Foto Osservatore Romano/AFP retirada daqui
Nos primeiros dias do Sínodo Extraordinário sobre a família, muitos dos participantes reconheceram que a forma como as pessoas são rotuladas no discurso eclesiástico não as ajuda a aproximarem-se da Igreja. Num dos primeiros “briefings”, foi referido que certas expressões muito utilizadas na linguagem eclesiástica deviam ser abandonadas. Entre essas, destacavam: “Viver em pecado”, uma referência habitual às pessoas que coabitam antes do casamento; “intrinsecamente desordenados”, uma classificação típica dos homossexuais; e ainda, “mentalidade contracetiva” uma categorização frequente de uma sociedade que não respeita a vida.

O relatório apresentado pelo cardeal Péter Erdő na segunda-feira que resume a primeira semana de debate traduz bem essa preocupação dos padres sinodais. Na abordagem da convivência pré-matrimonial é mesmo sublinhada a necessidade de acolher e acompanhar as pessoas nessa situação, pelos mais diversos motivos, com “delicadeza e paciência”.

Em relação à homossexualidade, a expressão referida não é utilizada. O que se afirma é que “os homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã”. E questiona-se: “Somos capazes de acolher essas pessoas, garantindo-lhes um espaço fraterno em nossas comunidades”?

Quanto ao controlo da natalidade, sem deixar de sublinhar “a abertura à vida” como “exigência intrínseca do amor conjugal”, reconhece-se a “necessidade de respeitar a dignidade da pessoa, na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade”. Ou seja, sustenta-se o respeito pela “consciência pessoal do indivíduo”, conclui o padre jesuíta James Martin num artigo da revista “América”.

A forma como o Sínodo está a abordar a temática da família tem abanado os pilares em que se edificou a conceção católica do matrimónio. O relatório é mais um abanão. Para o vaticanista John Travis é um “grande terramoto”, antecedido por “meses de pequenos tremores de terra”.

Espera-se que esta abordagem não reduza a escombros a doutrina tradicional sobre a família, como temem alguns. Mas cresce a expectativa quanto à flexibilidade que será dada aos seus fundamentos para acolher “os valores presentes nas famílias feridas e nas situações irregulares”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 17/10/2014)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Sínodo da família

Sínodo dos Bispos sobre a Família
Foto retirada daqui
O Papa abriu o Sínodo dos Bispos pedindo aos participantes que falem claro e escutem com humildade. É neste clima de abertura que os padres sinodais vão abordar temas como o divórcio, a contraceção, o aborto, as uniões de facto, os casais homossexuais, as crianças no interior de uniões homossexuais, a poligamia, o papel eclesial e social da família, a eventualidade de conceder a comunhão aos recasados.

De entre todos, o que tem merecido maior atenção mediática é o do acesso aos sacramentos por parte de quem rompeu uma anterior união e se voltou a casar. Para quem permanece só esse problema não se põe, isto porque, apesar de estar separado, continua fiel à primeira união, não lhe podendo ser negada a comunhão, ou ser padrinho ou madrinha.

Tudo isso está vedado aos recasados. É essa situação que inúmeros casais vivem com sofrimento e pedem à Igreja que encontre uma saída para a sua situação. O Papa já manifestou que é sensível a essas inquietações e pede ao Sínodo que dê uma resposta a estas pessoas.

Quanto a ela, os mais intransigentes defendem que não se pode pôr em causa o princípio da insolubilidade e da unicidade. Não admitem, por isso, nem mesmo um aligeirar do processo canónico de declaração de nulidade do anterior matrimónio, como alguns propõe. Fundamentam a sua posição na tradição da Igreja e nas palavras de Jesus: “Não separe o homem o que Deus uniu” (Mc. 10, 9).

Jean-Paul Vesco, bispo de Oran, na Argélia, numa entrevista à revista “La Vie”, diz acreditar que “é teologicamente possível afirmar, ao mesmo tempo, a indissolubilidade de qualquer verdadeiro amor conjugal, a unicidade do matrimônio sacramental e a possibilidade de um perdão em caso de fracasso do que constitui uma das mais belas, mas também das mais perigosas aventuras humanas, o casamento para toda a vida”.

Na Igreja primitiva era comum “uma prática de tolerância pastoral, clemência e paciência após um período de penitência”, dos divorciados, recorda também o cardeal Kasper, no livro “Evangelho da família”.

Compete agora ao Sínodo essa árdua tarefa de procurar conciliar o que aparentemente é irreconciliável: indissolubilidade e misericórdia. Eventualmente, recuperando procedimentos do passado.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 10/10/2014)

sábado, 20 de setembro de 2014

Papa “casa” divorciado

Foto de Alberto Pizzoli/AFP          
O Papa presidiu à celebração do casamento de vinte casais. De facto, não foi ele que os casou, foram eles que se casaram. É o único sacramento da Igreja em que os próprios que o recebem são eles os ministros do sacramento.

Quando se é batizado, é o diácono ou o sacerdote que batiza o catecúmeno. Quando se é crismado, é o bispo que crisma o crismando. Quando alguém é ordenado, é o bispo que ordena. Ninguém se ordena a si próprio. No caso dos bispos, é mesmo exigida a presença de três bispos, em comunhão plena com a Igreja.

Contudo, na linguagem corrente continua a dizer-se que “foi o padre tal que nos casou”. E até os próprios padres, por vezes, dizem impropriamente: “Fui eu que os casei”. Da mesma forma saíram diversos títulos referindo que o Papa casou…

Este tipo de cerimónias não é muito comum. João Paulo II só o fez por duas vezes. Bento XVI, enquanto Papa, que se saiba, nunca presidiu a um matrimónio. O Papa Francisco fê-lo pela primeira vez este domingo. Para esta celebração escolheu esposos nas mais variadas circunstâncias, entre os quais desempregados, alguns a viverem em união de facto e até um divorciado que casou com uma mãe solteira.

Foi este caso que mereceu maior destaque nos meios de comunicação social e gerou a ideia de que o Papa tinha feito algo de extraordinário. Só que o noivo, apesar de ser divorciado, conseguiu que o seu casamento religioso fosse declarado nulo. Pelo que, canonicamente, ele era solteiro e qualquer clérigo poderia ter abençoado o novo matrimónio.

O problema teria sido repetir o casamento católico sem que o anterior tivesse sido declarado nulo. Para esses é que a Igreja ainda não tem resposta. A maior parte dos divorciados não só não podem casar, novamente perante a Igreja, como também não podem aceder a outros sacramentos se estiverem a viver numa nova união, civil ou de facto.

Espera-se que o Sínodo dos Bispos reflita sobre essa e outras situações irregulares e que encontre uma solução para que as pessoas possam ser admitidas à confissão e comungar. Para já o Papa limitou-se a acolher diferentes percursos para o matrimónio e a cumprir integralmente a práxis da Igreja, sem deixar de sublinhar o carácter heterossexual do matrimónio.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/09/2014)

domingo, 6 de julho de 2014

Recasados sem resposta

Foto retirada daqui
O Vaticano divulgou o “Instrumentum Laboris”, que acolhe as respostas de diversos organismos eclesiais ao inquérito sobre a problemática da família e propõe linhas de reflexão aos participantes no Sínodo dos Bispos Extraordinário.

Para além de propor uma análise bastante aprofundada da “situação familiar contemporânea, dos seus desafios e das reflexões que suscita”, transparece no documento um esforço da Igreja em olhar de frente para o que define como “situações matrimoniais difíceis”. Estas são os casos das uniões de facto, dos divorciados e recasados, ou das uniões de pessoas do mesmo sexo. As pessoas nessas situações vivem “histórias de grande sofrimento, assim como testemunhos de amor sincero”. São pessoas que sofrem quando lhes é negado o acesso aos sacramentos ou o batismo dos filhos. São situações que exigem da Igreja uma resposta, resposta essa que permita que estas “pessoas curem as feridas, sarem e retomem o caminho juntamente com toda a comunidade eclesial”.

O “Instrumentum Laboris” propõe alguns caminhos e resolve algumas questões, mas deixa outras em aberto para a reflexão dos bispos. Por exemplo: diz claramente que os sacramentos não podem ser negados às pessoas que vivem separadas. Também não pode ser negado o batismo ao filho de uma mãe solteira ou de uma pessoa que vive numa união com outra do mesmo sexo. Neste último caso, diz explicitamente: “deve ser acolhido com as mesmas atenção, ternura e solicitude que recebem os outros filhos”.

Em relação aos divorciados a viverem uma nova união, dá-se conta do pedido vindo sobretudo da Europa e da América para que possam “receber os sacramentos”. Ou, então, que à semelhança do que acontece em determinadas Igrejas ortodoxas, se abra “o caminho para um segundo ou terceiro matrimónio, com carácter penitencial”. Também se refere que alguns pedem que se esclareça se “a questão é de índole doutrinal ou apenas disciplinar”.

Terá de se aguardar pela realização do Sínodo dos Bispos, em Outubro, para, eventualmente, se ficar com uma resposta clara para a situação dos divorciados recasados. A Igreja precisa de ter para essa e para outras questões uma forma de atuação adequada que possa ser compreendida por todos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 04/07/2014)

domingo, 2 de março de 2014

Igreja recupera os divorciados

Cardeal Walter Kasper foto retirada de IHU
A agenda do Papa no final da semana passada e início desta foi dominada pela temática da família.

Segunda e terça-feira desta semana reuniram com o Papa o relator geral e o secretário do Sínodo dos Bispos, respetivamente, o cardeal Peter Erdo, arcebispo de Budapest, e D. Bruno Forte, arcebispo da diocese italiana de Chieti e Vasto. Analisaram as respostas ao inquérito papal sobre a família, vindas de todo o mundo, e elaboraram uma primeira síntese. Nela transparece a “voz da Igreja”, a qual manifesta a “urgência de anunciar o Evangelho da família com novo impulso e modalidade”, bem como “os desafios e dificuldades associados à vida familiar e as suas eventuais crises”, diz um comunicado da Santa Sé relativo à reunião.

Dias antes, os cardeais refletiram sobre o matrimónio, o problema dos divorciados e a anulação dos casamentos. No início do Consistório que decorreu até sábado, o cardeal Walter Kasper propôs uma reflexão teológica sobre o matrimónio católico. Apesar de o próprio ter afirmado numa entrevista que “a questão dos divorciados em segunda união não estará no centro das minhas conferências”, foi essa a questão que mereceu maior destaque nos média.

Não pondo em causa a doutrina oficial da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio, abordou essa problemática e defendeu que é preciso explorar novos caminhos. Terá mesmo proposto que as pessoas que se encontram nessa situação, depois de reconhecerem o seu fracasso e de cumprirem um percurso penitencial, possam ser readmitidos à confissão e à comunhão.

O Papa Francisco felicitou Kasper pela sua exposição e deu, assim, um sinal claro que está aberto a que se altere a práxis em relação aos divorciados a viverem uma nova união. É evidente que a Igreja não vai deixar de propor o ideal de uma família estável gerada a partir de um compromisso para toda a vida. Contudo, não pode continuar insensível ao drama daqueles a quem é vedado o acesso aos sacramentos, pelo facto de o seu matrimónio ter falhado e de terem reconstruido a vida com outra pessoa.

Não será uma tarefa fácil, mas, ao que parece, conta com o apoio do Papa que solicita uma “pastoral inteligente, corajosa e cheia de amor” para a família.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 28/02/2014)