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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Igreja, Direita e Esquerda

Papa fala aos jornalistas no avião
Foto retirada daqui
A classificação dos líderes da Igreja como de direita ou de esquerda, conservadores ou progressistas, habitualmente não é ajustada. Não só por na política partidária serem cada vez mais difusas as diferenças entre a esquerda e a direita. Mas, sobretudo, porque os responsáveis eclesiásticos têm de, por um lado, ser fiéis à tradição da Igreja – e por isso conservadores –, e, por outro lado, de ser fiéis ao dinamismo do Evangelho, o que os obriga a atualizar a doutrina às circunstâncias concretas de cada tempo – e, por isso, a ser progressistas.

O Papa Francisco tem sido aplaudido à esquerda, quando critica o sistema capitalista, ou apela à ecologia, ou se preocupa com os divorciados recasados e os homossexuais. E é aplaudido à direita quando defende a família ou condena a legalização do aborto. Na sua última viagem ao continente americano acabou por, de certa forma, desiludir os ditos conservadores e progressistas, por não se deixar acantonar em nenhum dos polos. Para os primeiros não foi suficientemente contundente na condenação do aborto e dos casamentos homossexuais. Já para os segundos terá sido muito suave na abordagem do problema dos homossexuais católicos ou do papel da mulher na Igreja.

No voo entre Cuba e os Estados Unidos, foi mesmo questionado se era “esquerdista” e até católico. Ao que ele respondeu: “Não disse nada além do que está na Doutrina Social da Igreja.” Esclareceu depois que o matrimónio continua a ser indissolúvel. Não há divórcio católico, apesar de ter simplificado o processo de declaração de nulidade dos casamentos na Igreja. Nestas posições alguns leram um virar à direita.

Na verdade, ele não é de esquerda nem de direita, mas alguém que quer responder às questões que afetam e preocupam os homens e mulheres de hoje. Como são o acolhimento aos divorciados recasados e aos homossexuais, ou o papel da mulher na Igreja.

Para dar resposta a estes e outros problemas, o Papa quer que se reflita, se discuta e que, à luz do Evangelho e em conformidade com a tradição da Igreja, se encontrem as soluções adaptadas aos dias de hoje. Apesar de ter pedido isso à Igreja, nomeadamente na preparação do próximo Sínodo dos Bispos, ainda se nota pouco essa preocupação no interior das organizações católicas...

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/10/2015)

sábado, 20 de setembro de 2014

Papa “casa” divorciado

Foto de Alberto Pizzoli/AFP          
O Papa presidiu à celebração do casamento de vinte casais. De facto, não foi ele que os casou, foram eles que se casaram. É o único sacramento da Igreja em que os próprios que o recebem são eles os ministros do sacramento.

Quando se é batizado, é o diácono ou o sacerdote que batiza o catecúmeno. Quando se é crismado, é o bispo que crisma o crismando. Quando alguém é ordenado, é o bispo que ordena. Ninguém se ordena a si próprio. No caso dos bispos, é mesmo exigida a presença de três bispos, em comunhão plena com a Igreja.

Contudo, na linguagem corrente continua a dizer-se que “foi o padre tal que nos casou”. E até os próprios padres, por vezes, dizem impropriamente: “Fui eu que os casei”. Da mesma forma saíram diversos títulos referindo que o Papa casou…

Este tipo de cerimónias não é muito comum. João Paulo II só o fez por duas vezes. Bento XVI, enquanto Papa, que se saiba, nunca presidiu a um matrimónio. O Papa Francisco fê-lo pela primeira vez este domingo. Para esta celebração escolheu esposos nas mais variadas circunstâncias, entre os quais desempregados, alguns a viverem em união de facto e até um divorciado que casou com uma mãe solteira.

Foi este caso que mereceu maior destaque nos meios de comunicação social e gerou a ideia de que o Papa tinha feito algo de extraordinário. Só que o noivo, apesar de ser divorciado, conseguiu que o seu casamento religioso fosse declarado nulo. Pelo que, canonicamente, ele era solteiro e qualquer clérigo poderia ter abençoado o novo matrimónio.

O problema teria sido repetir o casamento católico sem que o anterior tivesse sido declarado nulo. Para esses é que a Igreja ainda não tem resposta. A maior parte dos divorciados não só não podem casar, novamente perante a Igreja, como também não podem aceder a outros sacramentos se estiverem a viver numa nova união, civil ou de facto.

Espera-se que o Sínodo dos Bispos reflita sobre essa e outras situações irregulares e que encontre uma solução para que as pessoas possam ser admitidas à confissão e comungar. Para já o Papa limitou-se a acolher diferentes percursos para o matrimónio e a cumprir integralmente a práxis da Igreja, sem deixar de sublinhar o carácter heterossexual do matrimónio.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 19/09/2014)