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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Redenção na prisão

Os três reclusos que fazem hóstias na cadeia de Milão, Itália.
Giuseppe (perpétua), Cristiano (condenado a 23 anos) e Ciro (perpétua)
Foto retirada daqui
Não falta quem pense que tudo o que se faz com os reclusos é tempo perdido. Todavia, continua a haver quem acredite que o tempo de reclusão pode transformar-se numa oportunidade de conversão.

Foi com esta convicção que a Fundação “Casa dello Spirito e delle Arti” pôs três reclusos, que cumprem penas pesadas por homicídio, na cadeia de alta segurança de Milão, em Itália, a produzir hóstias. Ciro, Giuseppe e Cristiano, em Abril, levaram pessoalmente ao Papa Francisco doze mil hóstias. “Entregámos ao Santo Padre o fruto do nosso trabalho e da nossa redenção. Jesus, presente com o seu corpo na Eucaristia, mudou o nosso coração e hoje podemos testemunhar a todos que a Misericórdia de Deus é possível para todos, até para quem – como nós – tenha cometido crimes horrendos”, disseram então ao sítio “Vatican Insider”.

Durante o mês de Agosto, as mesmas mãos que antes tiraram a vida, produziram agora dezasseis mil partículas que serão consagradas no Congresso Eucarístico que decorre, desde ontem até domingo, na cidade italiana de Génova.

Hoje, na cadeia de Bragança, conclui-se uma sessão da Novahumanitas, denominada “Descobre-te a ti mesmo…” Esta formação pretende ajudar cada participante “a iniciar um processo de autoconhecimento e de crescimento pessoal que o conduza a uma maior liberdade e plenitude de vida”. É a primeira vez que é ministrada em contexto prisional. Ao longo de quatro dias, guiados por Maria dos Anjos, com os seus “78 anos de juventude acumulada”, homens amargurados e angustiados fizeram a experiência de, talvez pela primeira vez, entrar em si mesmos. Descobriram que, para além dos seus defeitos e falhas, também são habitados por valores e potencialidades. Sentiram o desejo de mudar as suas vidas.

Oxalá o consigam, para que também eles se convertam em testemunhas de que, apesar de tudo o que se possa ter feito, é sempre possível mudar de vida.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 16/09/2016)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O Papa e os presos

Papa Francisco na prisão de Ciudad Juarez, México
Foto retirada daqui
Há uma tendência para esconder as realidades que incomodam, como é o caso do envelhecimento ou da delinquência. Os idosos são “despejados” nos lares de terceira idade, os presos são amontoados em estabelecimentos prisionais – e por lá são esquecidos.

O Papa Francisco, contudo, não os esquece. E expressou o seu desejo de “incentivar todos a trabalhar, não somente pela abolição da pena de morte, mas também pelo melhoramento das condições de detenção, para que respeitem plenamente a dignidade humana das pessoas privadas de liberdade”. Disse-o numa vídeo-mensagem dirigida aos participantes num congresso mundial contra a pena de morte que terminou ontem em Oslo, na Noruega.

Em Portugal, por exemplo, as condições dos reclusos têm vindo a melhorar. No Estabelecimento Prisional de Bragança, onde sou assistente espiritual, o balde foi substituído por casas de banho nas celas e houve outras notórias melhorias. Mas muito há ainda a fazer.

Um dos principais problemas é a sobrelotação das cadeias. A 15 de Junho deste ano, segundo os dados da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, a taxa de ocupação situava-se nos 112,4%. Enquanto entre nós se verifica a necessidade de ampliar ou construir novas instalações prisionais, noutros países estas estão a ser encerradas, como acontece na Suécia e na Noruega. Aí encontraram-se outras formas de aplicar a justiça e apostou-se no acompanhamento dos que saem em liberdade.

Em Portugal, porém, há reclusos que rejeitam a saída em liberdade porque não têm para onde ir. Durante a sua reclusão nada os prepara para a vida cá fora e, muitas vezes, acabam por regressar ao mundo do crime e, mais tarde, à prisão.

É por isso imperativo apostar na prevenção. É crucial aplicar penas alternativas à prisão. E é obrigatório acompanhar, séria e empenhadamente, os que saem em liberdade. Só é justo quem tenta ajudar o seu semelhante a melhorar.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 24/06/2016)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os Papas e a cadeia

João XXIII visita a cadeia de“Regina Coeli”
 Foto retirada daqui
Os cristãos não esquecem que o primeiro Papa esteve preso várias vezes em Jerusalém. E que S. Pedro, no final da vida, passou pela cadeia de Roma e foi condenado à morte, acabando por ser sepultado onde agora se ergue a Basílica com o seu nome.

Com a criação do Estado italiano e a perda dos territórios pontifícios, o Papa Pio IX declarou-se prisioneiro no Vaticano do estado italiano. João XXIII poria fim a essa “autorreclusão papal” e, poucos meses após a sua eleição, no dia 25 de Dezembro de 1958, dirigiu-se a um hospital pediátrico fora dos muros vaticanos. A cadeia “Regina Coeli” foi, no dia seguinte, a sua segunda visita. Dessa passagem ficou a frase do Papa Bom: “Sou José [seu nome próprio], um vosso irmão”!

Paulo VI visitará depois a mesma cadeia e dirá “que se pode ser bom no coração, mesmo quando pesa sobre os ombros uma condenação dos tribunais dos homens”. Na linha do seu antecessor, a 18 de Dezembro de 2011, Bento XVI, disse aos presos da prisão romana de Rebibbia: “É preciso pensar que todos podem cair, mas Deus quer que todos se aproximem dele. Reconheçam a própria fragilidade, avancem com dignidade e encontrem a alegria na vida”.

Para a Igreja um recluso nunca é um caso perdido – e a detenção é uma oportunidade para arrepender-se dos seus crimes, converter-se e recomeçar uma vida nova. Os ordenamentos jurídicos que rejeitam a pena de morte ou a prisão perpétua, por se acreditar na possibilidade da recuperação do criminoso, estão em sintonia com a maneira cristã de encarar a reclusão. Já os que se afastam dela sublinham o carácter punitivo da pena de prisão e negligenciam a reinserção social dos detidos.

O Ano da Misericórdia – que se iniciará a 8 de Dezembro e se concluirá no dia 20 de Novembro de 2016 – irá promover várias iniciativas que traduzam a “proximidade e atenção aos pobres, aos que sofrem, aos marginalizados e a todos aqueles que precisam de um sinal de ternura”. Estas foram as palavras do arcebispo Rino Fisichella na apresentação do calendário do Ano Santo, o qual prevê o “Jubileu dos Presos” a 6 de novembro de 2016.

O Papa Francisco quer que, se for possível, alguns reclusos venham à Praça de São Pedro. Não fará sentido celebrar a Misericórdia e esquecer um dos ambientes em que ela pode ser mais benéfica.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 08/05/2015)