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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os Papas e o sexo

Foto retirada daqui
O discurso da Igreja é, em diversas circunstâncias, demasiado crítico em relação ao mundo em que se insere. “Muitas vezes agimos na defensiva e gastámos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” escreve o Papa Francisco no nº 38 da última exortação apostólica, Amoris Lætitia (A Alegria do Amor).

A alegria aparece logo no título, o que indicia uma valorização positiva do amor humano e da sua vivência em contexto familiar. Ao longo do texto percebemos melhor essa preocupação do Papa. Este não exclui a sexualidade nem o prazer, como tantas vezes acontece no discurso eclesiástico em que a sexualidade só é admitida em ordem à geração da vida. A virtude, por seu lado, costuma ser associada à renúncia e ao sofrimento, nunca ao prazer.

O Concílio Vaticano II, todavia, afirmou perentoriamente que “o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação”, como lembra o Papa no nº 178 da exortação. Na verdade, a Igreja (por exemplo Paulo VI na Humanae Vitae) sempre “destacou o vínculo intrínseco entre amor conjugal e procriação”. Mas isso não significa que seja esse o fim único e primordial. O Papa Francisco refere que “São João Paulo II rejeitou a ideia de que a doutrina da Igreja leve a ‘uma negação do valor do sexo humano’ ou que o tolere simplesmente ‘pela necessidade da procriação’” (nº 150).

Nesta exortação reconhece-se ainda que, aos olhos do mundo, a Igreja aparece muitas vezes como “inimiga da felicidade humana” (nº147). E recuperam-se os ensinamentos de Bento XVI que reconciliou o magistério com o prazer na encíclica Deus caritas est.

Os últimos Papas já tinham referido a sexualidade e o prazer nos seus ensinamentos. Francisco, contudo, tem conseguido ser mais ouvido por utilizar um discurso mais claro e menos embrulhado em considerações filosófica ou teológicas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 15/04/2016)

domingo, 16 de março de 2014

O cardeal que queria ser pároco de aldeia

Foto retirada do blogue "Actualidade Religiosa"
De entre as qualidades de D. José Policarpo, é reconhecido por quase todos o seu fulgor intelectual e a atitude dialogante com o mundo, a cultura e as outras crenças. A sua inteligência brilhante terá sido determinante para ter sido escolhido para ir aprofundar os seus conhecimentos teológicos na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

A sua passagem por Roma, entre 1966 e 1970, acontece quando a Igreja vivia a efervescência provocada pelo “aggiornamento” do Concílio Vaticano II, encerrado menos de um ano antes, a oito de Dezembro de 1965. Não é de estranhar que, neste contexto de abertura da Igreja ao mundo contemporâneo, tenha escolhido para tema da sua tese de doutoramento em Teologia Dogmática um conceito chave do Concílio: “Os sinais dos tempos”. Ao longo desse trabalho científico procurou provar que a “Igreja deve estar atenta à história dos homens e captar nela sinais positivos do Reino de Deus, porque uma sociedade justa não está apenas presente na realidade explícita do Cristianismo, mas acontece também na vida dos homens”.

Desde então desempenhou importantíssimas tarefas, tanto na diocese de Lisboa, como na Igreja portuguesa e universal. O seu vigor intelectual e o percurso académico fizeram dele um intelectual destacado e, segundo D. Anacleto, bispo de Viana do Castelo, uma “figura incontornável”, não só da igreja portuguesa, mas também da cultura lusófona, reconhecido dentro e fora do país. Era uma voz ouvida e muito considerada em vários organismos da Santa Sé, de que fez parte.

O seu percurso de vida acabou por afastá-lo daquela que era a sua aspiração quando entrou no seminário: ser pároco de aldeia. À época, e ainda hoje, os alunos mais brilhantes são escolhidos para desempenhar cargos no governo central das dioceses e raramente têm oportunidade de desempenhar essa missão, muitas vezes considerada pouco relevante e prestigiante.

Com a atenção que o Papa Francisco tem dedicado às periferias e às realidades menos conceituadas, espera-se que essa perspetiva se altere e comece a ser valorizado no curriculum dos futuros bispos essa experiência pastoral. Essa já é, e pode ser cada vez mais, uma dimensão fundamental da vida das dioceses.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/03/2014)