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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Os cardeais de Francisco

Foto retirada daqui
O Papa Francisco anunciou este domingo a criação de 17 novos cardeais no consistório que se realizará a 19 de Novembro, na vigília do encerramento da Porta Santa do Ano da Misericórdia.

Quatro dos cardeais agora nomeados ultrapassaram os oitenta anos, pelo que já não poderão participar na eleição do Papa. Um deles é um sacerdote albanês, perseguido pelo regime comunista que proclamou a Albânia como “o primeiro estado ateu no mundo”. O P. Ernest Simoni, agora com 88 anos, foi sujeito a trabalhos forçados entre 1963 e 1990. O seu testemunho emocionou Francisco durante a visita à Albânia em Setembro de 2014, que agora decidiu conceder-lhe o título cardinalício.

Esta não é uma novidade de Francisco. Já no consistório de 26 de Novembro de 1994, João Paulo II fez cardeal Mikel Koliqi, ele um sacerdote albanês perseguido pelo comunismo.

Com mais esta nomeação de Francisco, continua a verificar-se a tendência de universalização do colégio cardinalício iniciada por Pio XII. Desde então, tem vindo a diminuir o número de cardeais italianos e europeus e a aumentar o dos oriundos de outras geografias. Dos 13 cardeais com menos de 80 anos, três são europeus, três da América Latina, três dos Estados Unidos, dois africanos, um da Ásia e outro da Oceânia. Isto traduz bem a preocupação de Francisco em nomear cardeais dos cinco continentes.

Para além dessa tendência, o Papa continua a não atribuir o barrete cardinalício em função das prerrogativas que determinadas dioceses adquiriram no passado, mas sim pelo perfil pastoral dos bispos escolhidos para receberem essa distinção. Os bispos de Turim e de Veneza, dioceses habituadas a ter um cardeal, voltaram a ser preteridos nas escolhas do Papa.

A lógica de Francisco não é a dos privilégios, por vezes adquiridos no passado a peso de ouro. A sua lógica é pastoral, determinada por uma especial atenção às “periferias”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 14/10/2016)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A humanidade do Papa

Foto "L’Osservatore Romano" retirada daqui
As palavras e os gestos do Papa Francisco têm contribuído para a humanização do papado. Na visita a uma paróquia periférica de Roma, a do Sagrado Coração, apresentou-se há dias como um “homem comum” e abriu o seu coração a um grupo de refugiados confessando que na sua vida, como na deles, houve “muitas coisas boas e muitas más”.

Desde Pedro, o primeiro Papa, até aos nossos dias, fez-se um longo caminho na forma de compreender e exercer o ministério petrino. Uma história que chegou a fazer do sucessor de um humilde e arrependido pescador um Papa–Rei, esvaziando-o da sua humanidade e transformando-o num ser quase inacessível e infalível.

Felizmente, nos últimos dois séculos o caminho tem sido o inverso.

Em 1870 o Concílio Vaticano I definiu a infalibilidade papal. Fê-lo, curiosamente, nas vésperas de o papado perder os Estados Pontifícios para a Itália unificada. O Papa infalível viu-se portanto confinado ao minúsculo território da Cidade do Vaticano, no qual, para vincar o seu protesto, se enclausurou.

Pio XII rasgou os muros do Vaticano com a “Via della Conciliazione”, símbolo da reconciliação entre a Santa Sé e a Itália, mas não os transpôs. Será João XXIII, o primeiro Papa a ultrapassá-los – para visitar um hospital pediátrico e uma cadeia – e a sair de Roma – para visitar Assis e o Santuário do Loreto. Mas, mais importante do que a transposição dos muros do Vaticano, foi ter despoletado o dinamismo de uma Igreja que se voltou para o mundo com a convocação de um concílio, o Vaticano II.

Paulo VI deu continuidade à atividade conciliar do “Papa Bom”, concluindo-a. E saiu de Itália para visitar a Terra Santa, a que se seguiram outros pontos do globo, como Fátima.

João Paulo II, para além de intensificar as visitas apostólicas, no final do pontificado expôs ao mundo a sua decrepitude e doença. E Bento XVI deu uma machadada na concepção tradicional do papado, despojando-o do seu carácter vitalício.

Já Francisco, mais do que o Sumo Pontífice, preferiu desde a primeira hora ser o Bispo de Roma, um homem comum, que sofre como todos. Um pecador, como qualquer dos bispos, tal como ainda há dias fez questão de recordar: “Todos os bispos somos pecadores. Todos!”

(Texto publicado no Correio da Manhã de 31/01/2014)