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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Chantagem e difamação

Padre Roberto
Foto retirada daqui
“Experto crede roberto” é uma expressão latina cuja origem é desconhecida. Pensa-se que terá a sua origem num provérbio latino, que é citado na “Eneida” de Virgílio: “Experto credite” (lib. XI, versi 283-285). Que significa: “Acreditai no experiente”, a que a Idade Média terá acrescentado o Roberto, talvez para rimar.

No caso de Canelas, V. N. de Gaia, se a experiência é muito discutível, a credibilidade do padre Roberto Carlos foi posta em causa ao não se comprovarem as acusações que lançou contra o Padre Abel Maia.

E é estranho que, mesmo assim, Miguel Rangel, o líder do movimento que apoia a permanência do anterior pároco, continue a defender e a tentar tapar o sol com a peneira. Chega mesmo a afirmar que ele nem sequer fez chantagem! Aqui, sim, aplica-se outro provérbio em bom português: “Pior que ser cego é não querer ver”. Ou, como diria Nelson Rodrigues, o brasileiro do óbvio ululante: “O pior cego é o míope”.

No dicionário da Porto Editora pode ler-se que chantagem é “obter uma situação vantajosa sob a ameaça de revelações comprometedoras, reais ou fictícias”. Não foi isso que o Roberto fez em relação ao bispo do Porto? Não ameaçou ele revelar um comportamento grave de um sacerdote caso fosse removido de Canelas?

Teve azar, porque o bispo do Porto não se deixou chantagear. Em vez de aceder às suas pretensões e tentar abafar o caso, mandou a denúncia para o Ministério Público, que não comprovou as acusações e arquivou o processo.

O Padre Abel Maia pondera agora avançar com um processo contra Roberto Carlos por difamação. Tem todo o direito a fazê-lo, embora haja danos que nunca poderão ser ressarcidos, nomeadamente a perturbação provocada à comunidade de Fafe, que se viu privada do seu legítimo pastor, que, segundo consta, muito estimava e deverá continuar a estimar.

Não sei se juridicamente isso é possível, mas tanto a arquidiocese de Braga como a paróquia de Fafe deveriam poder exigir perante a justiça uma indemnização pelos danos causados na vida da comunidade, fruto das afirmações que vieram a ser declaradas infundadas.

Seria bom que os apoiantes de Roberto Carlos repensassem o seu apoio incondicional e cego a quem parece não o merecer. E, já agora, que não deixassem que as paixões lhes turvem as vistas.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 31/07/2015)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O padre de Canelas

Foto: José Coelho/Lusa retirada daqui
Nós, os padres, podemos fazer muito mal à Igreja e por vezes não resistimos à tentação de o fazer. É isso que acontece quando perdemos o sentido da nossa missão e nos deixamos levar pelas nossas conveniências. Nessas alturas instrumentalizamos o ministério, e até as pessoas, para conseguir os nossos objetivos.

A Igreja está organizada, territorialmente, em dioceses, as quais por sua vez se organizam em paróquias. A cada diocese é dado um bispo que confia as paróquias a um sacerdote, o pároco. Este não é dono da paróquia, nem a paróquia se pode apoderar do sacerdote que é colocado à sua frente. O próprio pode pedir ao bispo para sair quando achar que está esgotada a sua missão naquele espaço. E o bispo pode mudá-lo quando entender que é o melhor para o próprio e para a Igreja. Não o deve fazer de forma despótica e arbitrária, mas deve dialogar com o sacerdote que pretende mudar.

Parece que não foi o que aconteceu na remoção do pároco de Canelas (V. N. Gaia). Antes pelo contrário, parece que D. António dos Santos, o bispo do Porto, dialogou repetidamente com o pároco, acolheu as suas propostas, foi condescendente com os seus avanços e recuos. Contudo, quando teve de decidir, nomeou o padre Albino. Nem mesmo as ameaças de revelar comportamentos prevaricadores de um outro sacerdote o demoveram. O padre Roberto utilizou essa arma de arremesso talvez por ainda não ter percebido que o comportamento da hierarquia mudou radicalmente. Se antes a tentação era esconder esses comportamentos, hoje a práxis começa a ser de denunciá-los às autoridades competentes. Como fez, e bem, o bispo do Porto.

Foram vários os padres que os bispos mudaram no início deste ano pastoral. Houve, seguramente, muitas comunidades que ficaram descontentes com a mudança. Algumas delas fizeram chegar ao seu bispo a sua discordância e até equacionaram a possibilidade de se manifestarem publicamente contra a decisão. Mas não o fizeram, quase sempre porque o pároco cessante não lhes deu força, não quis ficar seu refém e os ajudou a perceber que são chamados a acreditar em Cristo e não no padre que têm à sua frente. É por isso que a sua fé é cristã e não robertina, albinina ou antonina, como lhes diria S. Paulo (cf. 1 Cor. 3, 1-5).

(Texto publicado no Correio da Manhã de 21/11/2014)