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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Pe. Telmo continua a voar nas alturas…


Pe. Telmo Batista Afonso (1929-2016)
Foto retirada daqui
O Papa Francisco, no famoso discurso à Cúria Romana nas vésperas do Natal de 2014, em que elencou as quinze doenças curiais, disse também: “Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam”.
Morreu um dos padres mais dedicados e, ao mesmo tempo, mais discretos da diocese de Bragança – Miranda: o Pe. Telmo Baptista Afonso, que voou bem alto durante toda a sua vida. Vivia e movia-se acima da lamentável e condenável coscuvilhice e maledicência eclesiástica, que demasiadas vezes se acantona e campeia nos corredores do poder, e a que, infelizmente, as dioceses não são imunes.
Nos últimos dias de vida confidenciou-me que nunca falou mal de um bispo. Quem com ele convivia pode testemunhar que ele preferia sempre realçar os aspetos positivos de uma pessoa, sacerdote ou não, do que os seus defeitos. Que habitualmente omitia.
Assumiu as mais destacadas missões na igreja brigantina. No início da sua vida sacerdotal foi professor e prefeito no seminário de Vinhais. Depois desempenhou as mesmas funções no seminário de Bragança. Foi diretor do Colégio de S. João de Brito, diretor espiritual dos Cursos de Cristandade, vigário geral e reitor do Seminário. Apesar do papel relevante que desempenhou na vida diocesana, desde os anos oitenta remeteu-se à função de humilde “cura de aldeia” na sua terra natal, o Zoio, e povoações serranas circunvizinhas.
A sua morte foi notícia no jornal diocesano. Mas a sua vida gasta ao serviço das pessoas, e na atenção às necessidades de todos, não mereceu qualquer destaque mediático. Foi um formador do Seminário dedicado aos seminaristas, de quem sabia o nome completo muitos anos depois de lhe terem passado pelas mãos.
Foi um capelão atento a todos soldados, particularmente aos mais necessitados. Nunca recebeu o salário a que tinha direito pela capelania do quartel de Bragança. Entregou-o, sempre na totalidade, para a Obra do Soldado. Visitava os presos. E, sempre que tinha algum paroquiano ou conhecido no hospital, imediatamente lhe prestava assistência. Antecipando-se mesmo ao capelão, não deixando nunca de lhe pedir autorização para o sacramentar, quando era caso disso. Comigo aconteceu por diversas vezes.
O Pe. Telmo continua agora a voar nas alturas adequadas à grandeza da sua alma. Recebe a retribuição, que tantas vezes rejeitou, pelo bem que fez ao longo dos seus 86 anos de vida…

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O pároco de Rio de Onor

Mons. Lucio Angel Vallejo Balda
Foto retirada daqui
Um monsenhor está detido no Vaticano, acusado de ter divulgado documentos confidenciais da Santa Sé. É Dom Angel, como era conhecido na pequena aldeia fronteiriça de Rihonor de Castilla onde foi pároco nos seus três primeiros anos de sacerdócio.

Aquela aldeia espanhola é contígua à portuguesa Rio de Onor, no distrito de Bragança. Nos finais dos anos oitenta os cristãos daquelas duas aldeias, que a fronteira nunca separou, iam um domingo à missa ao lado espanhol e, no domingo seguinte, à igreja portuguesa. Por isso, Dom Angel também foi, embora só quinzenalmente, pároco de Rio de Onor. Nessa época em que foi pároco naquela zona raiana chegou mesmo a ser diretor espiritual do seminário de Bragança. Por pouco tempo, é certo, porque o bispo de Astorga logo o colocou na administração dos bens da diocese. Tornou-se então o mais jovem sacerdote a desempenhar tais funções em Espanha.

Devido ao bom trabalho desenvolvido na sua diocese e à colaboração na organização da Jornada Mundial da Juventude de 2011, presidida em Madrid por Bento XVI, acabou por nesse mesmo ano ir para Roma para ser Secretário da Prefeitura para Assuntos Económicos. O Papa Francisco escolheu-o para integrar a Cosea, a comissão que orienta a organização das estruturas económico-administrativas da Santa Sé. Foi aí que teve acesso a documentos confidenciais e que terá gravado conversas que agora são reportadas em dois livros apresentados ontem em Roma, o que levou o Papa a ordenar a sua prisão.

É possível que Angel Balda esteja convencido de ter feito o melhor para a Igreja, se de facto passou informações confidenciais aos jornalistas. Há, por vezes, a tentação de divulgar os vícios e a podridão que grassa no interior das instituições para, com a ajuda da exposição mediática, obrigar os seus responsáveis a corrigi-los.

Só que esse não é, por regra, o procedimento correto. Neste caso nem se pode alegar uma eventual passividade de quem dirige, uma vez que o Papa criou a Cosea precisamente para atacar a corrupção e os desperdícios no interior do Vaticano que o monsenhor Angel terá passado à imprensa. Estas fugas de informação, afirmou a Santa Sé, “não ajudam de modo algum a estabelecer clareza e verdade, mas apenas geram confusão e interpretações parciais e tendenciosas”.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/11/2015)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A procissão e o andor


Foto retirada daqui
Iniciou-se Agosto. Este mês empresta alguma vitalidade às nossas aldeias. Traz os emigrantes e os familiares espalhados pelo país. Este é, por isso, o mês em que se concentram a maioria das festas das nossas comunidades. Em muitas delas a procissão é o momento religioso com maior afluência, mas como acontece com tantos outros, as pessoas limitam-se a assistir em vez de participar: “Ver passar a procissão…”. Comentam e criticam em vez de viver o seu sentido mais profundo.

Não se trata de um mero cortejo religioso, mas de uma experiência de peregrinação. Ainda que curta e mais ou menos solene implica sempre uma deslocação de um ponto a outro ou então o regresso à igreja de onde se saiu. Tudo na procissão nos deve falar da nossa peregrinação de fé, sobretudo o andor. Nele transportamos a imagem central da festa, que pode ser uma imagem de Jesus Cristo, da Virgem Maria ou de um santo. As imagens dos santos não são ídolos, que adoramos, mas imagens que nos recordam essas pessoas que antes de nós trilharam o caminho da santidade e desafiam-nos a segui-los e imitá-los na peregrinação da nossa vida. Se para eles foi possível também nós o podemos e devemos percorrer.

O andor pode ser também uma bela parábola da comunidade que peregrina sobre a terra carregando aos ombros o Evangelho de Jesus Cristo, que a sua imagem nos recorda, ou o Evangelho vivo que tantos homens e mulheres atualizaram nas suas vidas.

Tal como na vida das comunidades, o andor não pode ser levado por uma só pessoa. E como seria ridículo alguém, sozinho, levá-lo de arrasto. Em alguns casos seria mesmo sobre-humano, dado o tamanho e o peso do andor. Exige, por isso, o envolvimento de vários e a coordenação de movimentos de todos. Que adianta colocar bem alto, como acontece em tantas das nossas festas, o santo padroeiro se depois para pegar ao andor se escolhem pessoas desequilibradas, descoordenadas e desvairadas? Se cada um puxar para seu lado; se um se quiser elevar em relação aos outros, então corre-se o risco de o santo inclinar e até cair ao chão. E quanto mais alto for o andor maior e mais estrondosa é a queda.

Também nas nossas comunidades, quando alguém procura absorver todas as responsabilidades e ser o centro de todas a atenções, não promove a participação dos demais e deixa de apontar para Deus, para tentar tornar-se no centro de todas as atenções. Quando cada um procura sobressair mais do que o outro não construímos uma comunidade harmoniosa e fraterna mas transformamos a igreja numa feira de vaidades. Não se fazem as coisas por amor à Igreja mas movidos pela ânsia de uma qualquer estéril promoção pessoal.

Aprendamos como Jesus Cristo o Bom Pastor, que após ter saciado a fome da multidão, em vez de ficar a deleitar-se com os aplausos da multidão e a espreitar a possibilidade de ser feito rei, retirou-se para um lugar solitário (Jo 6, 1-15).

Mais importante do que ver passar a procissão é incorporá-la. E, ainda mais importante que isso, seguir na vida o exemplo dado pelos santos e pela Virgem Maria. Como eles, não se procure o reconhecimento e os aplausos efémeros, mas servir com dedicação e zelo, sobretudo os que mais precisam. Não se invista na conquista dos lugares de maior destaque, mas na disponibilidade para as tarefas mais humildes, naquelas em que ninguém repara, mas que fazem toda a diferença. Os santos testemunham-nos que assim seremos muito mais felizes.

(Texto publicado no Mensageiro de Bragança de 06/08/2015)

sexta-feira, 6 de março de 2015

Um grande Bispo

Primeiro número do Mensageiro de Bragança
Foto retirada de diocesebm.pt
D. Abílio Vaz das Neves era bispo de Cochim, na Índia, quando foi escolhido para ser bispo de Bragança, a 8 de Dezembro de 1938. Amanhã cumprem-se trinta e cinco anos sobre a sua morte. Em tempos conturbados, entre a II Guerra Mundial e a Guerra Colonial, e numa diocese com parcos recursos, conseguiu deixar uma obra assinalável. Concluiu o edifício onde funciona o seminário, construiu colégios e um patronato para rapazes.

Fundou também uma congregação religiosa feminina. Criou o jornal “Mensageiro de Bragança”. Reorganizou a catequese, que era, à época, considerada modelar no país. Deu um grande impulso aos movimentos laicais. E investiu na formação dos futuros padres, reformando o seminário diocesano.

Apesar deste dinamismo, há cinquenta anos, D. Abílio terá sido o primeiro bispo a resignar antes de atingir os 75 anos, a idade prevista desde o Concílio Vaticano II. Até então os bispos não eram obrigados a resignar e permaneciam à frente da diocese até à morte. Justificou então o seu pedido por não se sentir com forças para implementar a reforma conciliar, uma desculpa que surpreendeu. E, logo na altura, se suspeitou da intervenção do poder político.

Segundo escreveu recentemente Henrique Ferreira, no “Mensageiro de Bragança”, a razão foi essa: “D. Abílio foi vítima da sua solidariedade para com o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, expulso do país entre 1959 e 1969 pelo regime político de Salazar. Na sua passagem por Bragança, foi acolhido no Paço Episcopal. Como castigo, Salazar retirou os apoios à construção da catedral (um projeto desse tempo) sob pressão dos líderes locais, e acabou por influenciar a substituição do Bispo” de Bragança.

D. Abílio não conseguiu, assim, concluir um dos muitos projetos em que se empenhou: construir a catedral. Uma aspiração adiada desde 1770 e que só viria a concretizar-se em 2001.

Um dos segredos do sucesso de D. Abílio era saber colocar a pessoa certa no lugar certo. E, apesar de ter um clero numeroso, quando, mesmo assim, este faltava, ia-o buscar fora. Como foi o caso do cónego Formigão, sacerdote de Lisboa, que veio para Bragança com a missão de refundar o seminário.

Por tudo isto, D. Abílio é hoje uma personalidade inspiradora para os momentos difíceis que atravessamos.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 06/03/2015)